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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O reflexo (do Livro dos Cacos)

Aos poucos eu me adentro. Quando, saturado o olho, a imagem desfoca-se, apago a luz. Por uma fração mínima de tempo permaneço no vidro, mesmo após a claridade esvanecer. Antes das pupilas se adaptarem ao escuro acendo novamente o interruptor. Meu rosto salta do vidro até quase emergir na tridimensionalidade. Impedido apenas pela película cristalina que me duplica.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

(do Livro dos Cacos)

A lâmina enferrujada do olhar dele me atravessou enquanto eu me repartia em cenas.

(...)

Caio Fernando Abreu:
“Ou de novo como se seus olhos, os olhos escuros de Santiago, um pouco pesados nos cantos, cílios densos, fossem câmaras cinematográficas com lentes capazes de aproximar ou afastar as imagens, tornando às vezes mais definido o primeiro plano, agora a brasa que tornava a subir, para empastar em cores foscas, misturadas, indefinidas, as formas do fundo, cortadas por alguma súbita cintilação, lâmina externa, ou liquefazer então os dedos, esmaecendo o formato, a brasa que descia, mão suspensa encontrando mão pousada, vagos, obscuros, ressaltando vibrante, dinâmicos, mastigava adjetivos como quindins, algum reflexo do semáforo no meiofio da sarjeta transbordante da água suja dos bueiros, esgotos. Tossiu, menos por vontade que por confusão, para afastar um pouco aquela, era feito uma vertigem? Era feito uma tontura, teria sido o vinho, as lentes meio embaçadas dos óculos, a fome, a chuva no parabrisa, o piano lentíssimo, nota por nota, cada dedo do pianista depositado em infinito cuidado sobre cada uma das teclas, a brasa despencava devagar na altura da outra mão, porque era sábado, tinham programado sair, ou todas essas coisas juntas, afinal, porque ele também estava bastante cansado de semanas e histórias e trabalhos e pessoas e.”

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A queda (do Livro dos Cacos)

“Meus cabelos são Noun; Meu rosto é Rá; Meus olhos são Hathor; Meus lábios são Anúbis; Meus molares são Ísis; Meu pescoço é Neith; Meu sexo é Osíris; Meu ventre e minha espinha dorsal são Sekhemet; Minhas nádegas são os olhos de Hórus; Minhas coxas e a barriga de minhas pernas são Nut; Minhas pernas são Ptah.”

(...)

“Eis-me junto ao Lago sagrado de Hórus, onde amarrei meus cães”.

(...)

Íbis sagradas me seguiram. Ofereço a Hátor areia, cinzas, ossos e miragens.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A descida (do Livro dos Cacos)


Nós estávamos puros. Do chão, paredes, teto negros brevíssimas rajadas de luz nos ultrapassavam. Nós nos misturando, separando-nos, enjoados pelo super-excitante, pelo centrífugo, pela velocidade.  Como corujas cruzando o ar em vôos cegos os sons perpassavam os nossos ouvidos e se espatifavam nas paredes internas dos nossos crânios. Que saudade ancestral nos manteve dentro, e vivos?
...
Nós somos sós... e os sóis são tantos...
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O ritmo da noite tinha sido de rito. Uma tribo secreta reunida. Dança, transe, orgia, sacrifício, sabá, selvageria, morbidez e morte.
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Cheirando a cinza e carne adormecida amanheceu um dia no futuro.