A morte, a gente comemora.
No meu peito, cai a Roma,
que, caída embora,
nenhum bárbaro doma.
As romas que assim tivermos
e os esplendores da pessoa,
a impropriedade dos termos,
a quem doer, doa.
(de: la vie en close, 1994)
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sábado, 17 de março de 2012
22
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| Pieter Brueghel, O triunfo da Morte, 1562 (detalhe) |
ó morte, tu vens de todas as partes
nos assediar: teu estandarte
tremula sobre o universo inteiro,
ninguém jamais te faz frente
pela força ou pela astúcia, porque
tu sabes muito bem nos aterrorizar.
estejas perto ou longe
com a funda ou com a roqueira,
tu destróis todos os nossos anteparos;
os cargos, tu os calcas aos pés:
tu preparas o caixão antes, lá
onde é esperado muito mais tarde.
(dos Versos da Morte, de Hélinand de Froidmont, escritos no séc. XII, traduzidos por Heitor Megale)
sexta-feira, 16 de março de 2012
33
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| Hans Baldung, A Morte e a donzela, 1517 |
a morte acalma os furiosos
e arrefece os excitados;
os combates, a morte termina
e põe em cruz os falsos cruzados;
a morte resolve todos os processos
e faz encalhar os acordos,
e distingue rosas de espinhos,
palha de grão, farelo de farinha
e vinhos puros de vinhos aguados.
seu olhar atravessa as cortinas,
só a morte sabe e adivinha
exatamente nossas qualidades.
(dos Versos da Morte, de Hélinand de Froidmont, escritos no séc. XII, traduzidos por Heitor Megale)
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
nota explicativa sobre os círculos do inferno (para o diário gerúndio)
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| http://www.rossovenexiano.com/ |
O primeiro círculo do inferno, chamado Limbo, é habitado por aqueles que não foram batizados e os que nasceram antes de Cristo. Do segundo ao quinto círculo habitam aqueles que cometeram pecados sem culpa. No segundo círculo, os luxuriosos. No terceiro, Cérbero espanca os gulosos jogados na lama sob uma chuva incandescente. No quarto, os avaros e os pródigos empurram pesos enormes como castigo. O quinto círculo é banhado pelo rio Estige, de sangue fervente. Dentro do rio são castigados os irados.
No sexto círculo está a cidade de Dite, onde são queimados os hereges, em tumbas desprovidas de tampas. O três vales do sétimo círculo são habitados pelos culpados por violência. No primeiro estão os homicidas; no segundo os suicidas; e no terceiro os violentos contra Deus.
No oitavo círculo ou Malebolge, estão os fraudulentos. É dividido em dez fossos, ligados por meio de pontes. Em cada fosso habitam os diversos tipos de fraudulentos: sedutores, aduladores, simoníacos, adivinhos, corruptos, hipócritas, ladrões do sagrado, maus conselheiros, semeadores da discórdia e alquimistas.
No nono círculo são punidos os traidores. Este círculo é dividido em quatro esferas: a Caína, Antenora, Ptoloméia e Judeca. Na última está Lúcifer, aprisionado da cintura para baixo, com grandiosas asas e três cabeças, cada boca mastigando os traidores Judas, Brutus e Cássio.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Seu Teodoro
Que toquem os tambores, insuflem as penas, as fitas, que brilhem os vidrilhos, que dancem Chico, Catirina, os vaqueiros, os caboclinhos e as crioulas, que abra o cortejo Cazumbá para acompanhar mestre Teodoro.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
o terremoto de lisboa (1755)
(...)
"[Escutei] uma espécie de barulho estranho e assustador por baixo da terra, parecido com o ribombar oco e distante do trovão".
(...)
O segundo abalo do terremoto foi ainda mais alto e feroz do que o primeiro. "A casa em que eu estava foi sacudida com tamanha violência, que os andares de cima desabaram imediatamente; (...) as paredes continuavam a balançar de um lado para outro da maneira mais assustadora, rachando-se em diversos pontos; pedras grandes caíam das rachaduras por todos os lados e, no fim, a maioria dos caibros começou a despencar do teto. (...) O céu, de um minuto para outro, ficou tão tenebroso que eu já não conseguia distinguir nenhum objeto; foi realmente uma Escuridão Egípcia".
(...)
O terceiro abalo veio uns quinze minutos depois do primeiro. (...) Todos os sinos das igrejas tocaram sozinhos, badalando o toque da devastação, até seus campanários fenderem e os sinos caírem na rua, com enorme estépito. "Viu-se toda a faixa de terra em torno de Lisboa arquear-se como a subida das vagas numa tempestade (...) ora de leste para oeste, ora de norte para sul; as paredes que ainda não tinham sido derrubadas oscilavam para frente e para trás, com pulsações alternadas, e com a continuação dos trovões embaixo da terra, a cidade parecia estar não apenas sendo sacudida mas violentamente arrancada de suas fundações mais profundas".
(...)
A elevação da superfície da terra e o desmoronamento das grandes construções marcaram apenas o início da catástrofe. Quase que imediatamente ao assentar a poeira do primeiro abalo, irromperam incêndios em meia dúzia de pontos diferentes.(...) Um vento nordeste atiçou as chamas. As labaredas espalharam-se da igreja de São Domingos em direção ao rio Tejo, depois pelas encostas ocidental e meridional da Colina do Castelo e, em seguida, por todo o centro da cidade.
E arderam furiosamente por cinco dias.
(...)
Tudo ficou reduzido a cinzas. (...) Muitas coisas poderiam ter sido salvas depois dos abalos do terremoto, mas o fogo se espalhou por toda a parte. Relíquias sagradas, bibliotecas de valor inestimável, tapeçarias, móveis, forros de altares, tudo terminou nas labaredas. Só no palácio real, 70.000 livros foram destruídos; no palácio dos duques de Bragança, todos os arquivos da família real desapareceram; no palácio do marquês de Louriçal, o fogo devastou duzentos quadros, inclusive obras de Tiziano, Coreggio e Rubens, além de 18.000 livros e 1.000 manuscritos, entre eles um livro de história redigido de próprio punho pelo imperador Carlos V.
(...)
Em meio ao colapso e à conflagração, cerca de uma hora depois do primeiro tremor, houve mais uma catástrofe, talvez a mais pavorosa de todas. Enquanto os cidadãos abalados olhavam para o porto do Tejo, as águas subitamente pareceram começar a vazar para o mar. (...) De repente, o poderoso Tejo elevou-se a uma altura assustadora, impossível, cerca de nove metros acima de seu nível normal, tudo no espaço de alguns minutos. (...) A vaga do maremoto subiu três vezes em cinco minutos. (...) Os barcos próximos da costa (...) "num ou dois minutos ficaram a seco, depois tornaram a flutuar, e foram atirados uns contra os outros, e a vaga ia com tal rapidez para leste e para oeste, que os navios, girando velozmente, colidiam uns com os outros. (...) A água subiu a uma altura tal que transbordou e inundou a parte baixa da cidade (...) o que aterrorizou a tal ponto os pobres e já desolados habitantes, que corriam de um lado para o outro com gritos pavorosos (...) que os fez achar que a dissolução do mundo havia chegado, todos caindo de joelhos e implorando pela ajuda do Todo-Poderoso".
(...)
"De repente, ouvi uma gritaria geral, 'O mar está vindo, estamos todos perdidos!' Nisso, voltando os olhos para o rio, que tem mais de seis quilômetros de largura nesse ponto, pude percebê-lo subindo e se inflando da maneira mais inexplicável, já que não soprava vento algum; num instante, a uma pequena distância, surgiu uma grande massa d'água, subindo como uma montanha, que entrou espumando e rugindo, e correu com tal ímpeto em direção à costa, que todos saímos correndo na mesma hora, o mais depressa possível, para salvar nossas vidas; muitos foram realmente arrastados, e outros ficaram com água pela cintura a uma boa distância da margem".
(Otto Friedrich, O Fim do Mundo)
"[Escutei] uma espécie de barulho estranho e assustador por baixo da terra, parecido com o ribombar oco e distante do trovão".
(...)
O segundo abalo do terremoto foi ainda mais alto e feroz do que o primeiro. "A casa em que eu estava foi sacudida com tamanha violência, que os andares de cima desabaram imediatamente; (...) as paredes continuavam a balançar de um lado para outro da maneira mais assustadora, rachando-se em diversos pontos; pedras grandes caíam das rachaduras por todos os lados e, no fim, a maioria dos caibros começou a despencar do teto. (...) O céu, de um minuto para outro, ficou tão tenebroso que eu já não conseguia distinguir nenhum objeto; foi realmente uma Escuridão Egípcia".
(...)
O terceiro abalo veio uns quinze minutos depois do primeiro. (...) Todos os sinos das igrejas tocaram sozinhos, badalando o toque da devastação, até seus campanários fenderem e os sinos caírem na rua, com enorme estépito. "Viu-se toda a faixa de terra em torno de Lisboa arquear-se como a subida das vagas numa tempestade (...) ora de leste para oeste, ora de norte para sul; as paredes que ainda não tinham sido derrubadas oscilavam para frente e para trás, com pulsações alternadas, e com a continuação dos trovões embaixo da terra, a cidade parecia estar não apenas sendo sacudida mas violentamente arrancada de suas fundações mais profundas".
(...)
A elevação da superfície da terra e o desmoronamento das grandes construções marcaram apenas o início da catástrofe. Quase que imediatamente ao assentar a poeira do primeiro abalo, irromperam incêndios em meia dúzia de pontos diferentes.(...) Um vento nordeste atiçou as chamas. As labaredas espalharam-se da igreja de São Domingos em direção ao rio Tejo, depois pelas encostas ocidental e meridional da Colina do Castelo e, em seguida, por todo o centro da cidade.
E arderam furiosamente por cinco dias.
(...)
Tudo ficou reduzido a cinzas. (...) Muitas coisas poderiam ter sido salvas depois dos abalos do terremoto, mas o fogo se espalhou por toda a parte. Relíquias sagradas, bibliotecas de valor inestimável, tapeçarias, móveis, forros de altares, tudo terminou nas labaredas. Só no palácio real, 70.000 livros foram destruídos; no palácio dos duques de Bragança, todos os arquivos da família real desapareceram; no palácio do marquês de Louriçal, o fogo devastou duzentos quadros, inclusive obras de Tiziano, Coreggio e Rubens, além de 18.000 livros e 1.000 manuscritos, entre eles um livro de história redigido de próprio punho pelo imperador Carlos V.
(...)
Em meio ao colapso e à conflagração, cerca de uma hora depois do primeiro tremor, houve mais uma catástrofe, talvez a mais pavorosa de todas. Enquanto os cidadãos abalados olhavam para o porto do Tejo, as águas subitamente pareceram começar a vazar para o mar. (...) De repente, o poderoso Tejo elevou-se a uma altura assustadora, impossível, cerca de nove metros acima de seu nível normal, tudo no espaço de alguns minutos. (...) A vaga do maremoto subiu três vezes em cinco minutos. (...) Os barcos próximos da costa (...) "num ou dois minutos ficaram a seco, depois tornaram a flutuar, e foram atirados uns contra os outros, e a vaga ia com tal rapidez para leste e para oeste, que os navios, girando velozmente, colidiam uns com os outros. (...) A água subiu a uma altura tal que transbordou e inundou a parte baixa da cidade (...) o que aterrorizou a tal ponto os pobres e já desolados habitantes, que corriam de um lado para o outro com gritos pavorosos (...) que os fez achar que a dissolução do mundo havia chegado, todos caindo de joelhos e implorando pela ajuda do Todo-Poderoso".
(...)
"De repente, ouvi uma gritaria geral, 'O mar está vindo, estamos todos perdidos!' Nisso, voltando os olhos para o rio, que tem mais de seis quilômetros de largura nesse ponto, pude percebê-lo subindo e se inflando da maneira mais inexplicável, já que não soprava vento algum; num instante, a uma pequena distância, surgiu uma grande massa d'água, subindo como uma montanha, que entrou espumando e rugindo, e correu com tal ímpeto em direção à costa, que todos saímos correndo na mesma hora, o mais depressa possível, para salvar nossas vidas; muitos foram realmente arrastados, e outros ficaram com água pela cintura a uma boa distância da margem".
(Otto Friedrich, O Fim do Mundo)
alberto caeiro (1925)
É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
reencontro com leitura da adolescência
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| imagem de www.dream-exchange.blogspot.com |
(Ray Bradbury, do prólogo de "O Homem Ilustrado", em Recordações do Futuro )
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
de que são feitos
De que são feitos os meninos?
De que são feitos os meninos?
Rãs, caracóis, rabinhos pequeninos.
Disso são feitos os meninos.
De que são feitas as meninas?
De que são feitas as meninas?
Doces, perfumes e outras coisinhas finas.
Disso são feitas as meninas.
de: O Mundo da Criança. Adap. M. L. Figueiredo.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
o livro das trevas & outras hipóteses escatológicas
Comentários sobre o controverso romance autobiográfico “O Livro das Trevas & outras Hipóteses Escatológicas” da estreante Amaryllis Penafuertes (à moda de Paulinho Assunção)
“Livros como esse deveriam ser proibidos”.
...
“Há que se contabilizar os danos irreparáveis provocados pelo simples manuseio dessa aberração literária por nossos jovens”.
...
“O Mal caminha por sendas tortuosas e aproveita-se de qualquer descuido. Como, por exemplo, a publicação dessa história execrável”.
...
“Eu vomitei quando li”.
...
“Pura perversão! Lixo impresso! Detrito!”
...
“Difícil compreender uma moça inteligente, esclarecida, culta e de princípios deixar-se degradar, a ponto de passar fome, dormir literalmente na sarjeta, adoecer, humilhar-se, roubar e até mesmo prostituir-se pela simples necessidade de inocular no organismo substâncias cuja única função é destruir o corpo e o espírito”.
...
“Angustiante. Instigante! Único! Original!”
...
“Ombreada a Dante ou os grandes Malditos, a autora mergulha nos assustadores círculos de seu inferno pessoal e emerge, trazendo à luz obra muito além do seu tempo!”
...
“Li, gostei e recomendo”.
...
“A estreante e já outsider Amaryllis Penafuertes consegue transformar Os 120 dias de Sodoma em historinha pra boi dormir”.
...
“Morri de rir...”
...
“A autora não saiu da fase anal. Talvez por isso o prazer sádico de utilizar-se das palavras para modelar seus próprios excrementos verbais”.
...
“Após superar o horror das primeiras linhas o leitor é fisgado pela narrativa concisa e crua e se deixa perder pelos labirintos inusitados que a autora percorre a cada parágrafo”.
...
“A literatura tem desses mistérios... Esperar tanto tempo para nos deleitar com uma obra que certamente terá o seu lugar entre os grandes romances da literatura universal”.
...
“Unpleasant! Unbelievable. Great! Purely fabulous!”
...
“Uma lição de perseverança e força de vontade para superar as piores adversidades”.
...
“Ainda têm coragem de denominar isso de literatura...”
“Livros como esse deveriam ser proibidos”.
...
“Há que se contabilizar os danos irreparáveis provocados pelo simples manuseio dessa aberração literária por nossos jovens”.
...
“O Mal caminha por sendas tortuosas e aproveita-se de qualquer descuido. Como, por exemplo, a publicação dessa história execrável”.
...
“Eu vomitei quando li”.
...
“Pura perversão! Lixo impresso! Detrito!”
...
“Difícil compreender uma moça inteligente, esclarecida, culta e de princípios deixar-se degradar, a ponto de passar fome, dormir literalmente na sarjeta, adoecer, humilhar-se, roubar e até mesmo prostituir-se pela simples necessidade de inocular no organismo substâncias cuja única função é destruir o corpo e o espírito”.
...
“Angustiante. Instigante! Único! Original!”
...
“Ombreada a Dante ou os grandes Malditos, a autora mergulha nos assustadores círculos de seu inferno pessoal e emerge, trazendo à luz obra muito além do seu tempo!”
...
“Li, gostei e recomendo”.
...
“A estreante e já outsider Amaryllis Penafuertes consegue transformar Os 120 dias de Sodoma em historinha pra boi dormir”.
...
“Morri de rir...”
...
“A autora não saiu da fase anal. Talvez por isso o prazer sádico de utilizar-se das palavras para modelar seus próprios excrementos verbais”.
...
“Após superar o horror das primeiras linhas o leitor é fisgado pela narrativa concisa e crua e se deixa perder pelos labirintos inusitados que a autora percorre a cada parágrafo”.
...
“A literatura tem desses mistérios... Esperar tanto tempo para nos deleitar com uma obra que certamente terá o seu lugar entre os grandes romances da literatura universal”.
...
“Unpleasant! Unbelievable. Great! Purely fabulous!”
...
“Uma lição de perseverança e força de vontade para superar as piores adversidades”.
...
“Ainda têm coragem de denominar isso de literatura...”
terça-feira, 4 de outubro de 2011
roberto piva
Girassol
o intervalo separa você
do redondo do horizonte
vento de seda
sol se transformando
em pássaro
aviões cabeludos arrastam
o céu na direção
do universo
a seiva do sonho
viaja com seus estandartes
o intervalo separa você
do redondo do horizonte
vento de seda
sol se transformando
em pássaro
aviões cabeludos arrastam
o céu na direção
do universo
a seiva do sonho
viaja com seus estandartes
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
das leituras atuais
Tenho lido pouco. Falta de tempo, de concentração, cansaço ao fim do dia, turbulências afetivas, luz fraca, livros encaixotados, etc. Me arrastava na biografia de Fernando Pessoa (José Paulo Cavalcanti Filho) e no Junta-Cadáveres (Juan Carlos Onetti). Quando encontrei, na prateleira das liquidações, o Fim do Mundo (Otto Friederich). E, dos poucos livros que deixei fora das caixas, uma coletânea de contos de Caio Fernando Abreu, selecionados por Luciano Alabarse.
1. A biografia de Fernando Pessoa é minuciosa. O biógrafo vasculhou a vida do poeta ao avesso. Até subiu até na janela de um dos apartamentos (?) onde FP provavelmente morou, em Lisboa, só para ouvir um certo badalar de sinos, mencionado em um verso de Alberto Caeiro. Emperrei na descrição da infinidade dos heterônimos (pra lá de 120). Matemática estranha. O autor relaciona tudo: nomes escritos em notas de pé de página de manuscritos, em papéis de embrulho, em cartas para parentes, até espíritos que teriam encarnado em FP. É chato. Leitor cartesiano, não consegui pular essa parte. Aos trancos e barrancos cheguei à letra "M". Contando as páginas para chegar ao próximo capítulo, onde se descreve a relação do poeta com o Brasil.
2. O Junta-Cadáveres apareceu por acaso. Alguém tinha me sugerido a leitura. Comprei. Apesar de, logo no primeiro parágrafo do prefácio, ser dito que Onetti "não se agrupou em torno de uma certa voga salpicada de localismo ideológico, temático, geográfico, ou seja lá de que procedência fosse", até onde consegui ler, é um típico romance latinoamericano. Com personagens reincidentes: putas velhas e desgrenhadas, gigolô desiludido, machistas, político, médico e advogado de província, etc. Apesar disso, Onetti permite-se descambar para o puro lirismo, como a citação do post de outro dia. É linda a imagem da chuva caindo incessante durante todo o romance.
3. Caio Fernando Abreu é daqueles que não canso de ler. Gosto do tom aparentemente esculachado que ele escreve. Houve uma época (adolescência pretensiosa!) que eu não entendia a razão de Morangos Mofados (Limite Branco, Ovo Apunhalado) terem feito tanto sucesso. Achava os textos mal escritos, melosos, mal-inspirados em Clarice. A paixão veio com a maturidade. Mais especificamente com o Triângulo das Águas. E os que vieram pós Aids. Paguei a língua. Confesso, batendo no peito: a) os meus contos melosos, mal-inspirados em CFA; b) até hoje ele me excita.
4. As imagens da capa e contracapa de O Fim do Mundo - uma bomba atômica explodindo; crianças africanas famintas; judeus em campo de concentração; soldados marchando - por si só justificariam o título. Logo no prólogo uma descrição maravilhosa de uma erupção vulcânica que destruiu a ilha de Santorino, no ano de 304 dC. Para o autor, o fim do mundo aconteceu em vários momentos históricos, menos ou mais intensos. Na verdade, o fim do mundo é o fim (trágico, catastrófico, destruidor) de uma etapa e as consequentes transformações (inclusive literárias) que dão início a uma nova etapa da História. O autor escolhe os mais pop: a invasão do Império Romano pelos bárbaros; a Inquisição e a peste na Idade Média; a Contrarreforma; o terremoto de Lisboa; a Revolução Russa; Auschwitz. O livro é de 2000. De lá pra cá muita água rolou. Muito fim do mundo aconteceu. Ainda estou na Contrarreforma. Leio avidamente. Tentando adivinhar o próximo.
1. A biografia de Fernando Pessoa é minuciosa. O biógrafo vasculhou a vida do poeta ao avesso. Até subiu até na janela de um dos apartamentos (?) onde FP provavelmente morou, em Lisboa, só para ouvir um certo badalar de sinos, mencionado em um verso de Alberto Caeiro. Emperrei na descrição da infinidade dos heterônimos (pra lá de 120). Matemática estranha. O autor relaciona tudo: nomes escritos em notas de pé de página de manuscritos, em papéis de embrulho, em cartas para parentes, até espíritos que teriam encarnado em FP. É chato. Leitor cartesiano, não consegui pular essa parte. Aos trancos e barrancos cheguei à letra "M". Contando as páginas para chegar ao próximo capítulo, onde se descreve a relação do poeta com o Brasil.
2. O Junta-Cadáveres apareceu por acaso. Alguém tinha me sugerido a leitura. Comprei. Apesar de, logo no primeiro parágrafo do prefácio, ser dito que Onetti "não se agrupou em torno de uma certa voga salpicada de localismo ideológico, temático, geográfico, ou seja lá de que procedência fosse", até onde consegui ler, é um típico romance latinoamericano. Com personagens reincidentes: putas velhas e desgrenhadas, gigolô desiludido, machistas, político, médico e advogado de província, etc. Apesar disso, Onetti permite-se descambar para o puro lirismo, como a citação do post de outro dia. É linda a imagem da chuva caindo incessante durante todo o romance.
3. Caio Fernando Abreu é daqueles que não canso de ler. Gosto do tom aparentemente esculachado que ele escreve. Houve uma época (adolescência pretensiosa!) que eu não entendia a razão de Morangos Mofados (Limite Branco, Ovo Apunhalado) terem feito tanto sucesso. Achava os textos mal escritos, melosos, mal-inspirados em Clarice. A paixão veio com a maturidade. Mais especificamente com o Triângulo das Águas. E os que vieram pós Aids. Paguei a língua. Confesso, batendo no peito: a) os meus contos melosos, mal-inspirados em CFA; b) até hoje ele me excita.
4. As imagens da capa e contracapa de O Fim do Mundo - uma bomba atômica explodindo; crianças africanas famintas; judeus em campo de concentração; soldados marchando - por si só justificariam o título. Logo no prólogo uma descrição maravilhosa de uma erupção vulcânica que destruiu a ilha de Santorino, no ano de 304 dC. Para o autor, o fim do mundo aconteceu em vários momentos históricos, menos ou mais intensos. Na verdade, o fim do mundo é o fim (trágico, catastrófico, destruidor) de uma etapa e as consequentes transformações (inclusive literárias) que dão início a uma nova etapa da História. O autor escolhe os mais pop: a invasão do Império Romano pelos bárbaros; a Inquisição e a peste na Idade Média; a Contrarreforma; o terremoto de Lisboa; a Revolução Russa; Auschwitz. O livro é de 2000. De lá pra cá muita água rolou. Muito fim do mundo aconteceu. Ainda estou na Contrarreforma. Leio avidamente. Tentando adivinhar o próximo.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
leituras do dia 4 - caio fernando abreu
"Então dançaram, um de cada vez. O negro apoiou a mão pesada na cintura dela e, puxando-a para si, encaixou o ventre dos dois, quase como se a penetrasse assim, ao som de um Roberto Carlos daqueles de motel, o côncavo, o convexo, tão apertado e rijo que ela temeu que molhasse a calça. Mas de volta à mesa, ao acariciar disfarçada o volume, tranquilizou-se antes de sair puxada pela mão dourada do tenista-dourado. Que a fez encostar a cabeça entre os dois peitos dele, cheiro de colônia, desodorante, suor limpo de homem embaixo da camisa pólo amarelinha, lambeu a orelha dela, mordiscou a curva do pescoço ao som duma dessas trilhas românticas em inglês de telenovela, até que ela gemesse, toda molhada, implorando que parasse. O mais baixo não quis dançar. Quero foder você, rosnou: pra que essa frescura toda?"
(Os Sapatinhos Vermelhos)
(Os Sapatinhos Vermelhos)
leituras do dia 3 - otto friederich
"Antes de publicar seu ensaio [O Teatro e a Peste] Artaud fez uma palestra sobre ele na Sorbonnne e, de repente, começou a tentar encenar os efeitos da peste nele mesmo. 'Seu rosto contorcia-se de angústia, podia-se ver a transpiração empapando seus cabelos', nas palavras de Anaïs Nin, que assistia da plateia. ' Seus olhos se dilataram (...). Ele estava agonizante. Gritava. Delirava. Encenava sua própria morte, sua própria crucificação.' Os espectadores de Artaud ficaram com a respiração em suspenso diante dessa exibição, e depois caíram na gargalhada e começaram a se retirar ruidosamente, batendo as portas na saída. Artaud pareceu não se importar. 'Quero despertá-los', disse mais tarde a Anaïs Nin, num café. 'Eles não percebem que estão mortos'. O pobre Artaud já estava meio louco na ocasião e sua deterioração parecia inexorável. Foi para a Irlanda, levando consigo o que insistia ser a bengala de São Patrício e buscando os segredos ocultos do universo. Convenceu-se de que o mundo acabaria em 1940, o que, em certo sentido, aconteceu. Quando os exércitos de Hitler entraram em Paris, Artaud estava confinado numa instituição psiquiátrica, uniformizado e de cabeça raspada, e ali permaneceria durante toda a guerra".
(O Fim do Mundo)
(O Fim do Mundo)
leituras do dia 2 - fernando pessoa
"Metade de mim é nobre e grandiosa, e metade de mim é pequena e vil. Ambas sou eu. Quando a parte de mim que é grandiosa triunfa, sofro porque a outra metade - que também é verdadeiramente eu próprio, que não consegui alienar de mim - dói por isso. Quando a parte inferior de mim triunfa, a parte nobre sofre e chora. Lágrimas ignóbeis ou lágrimas nobres - tudo são lágrimas".
(Friar Maurice, heterônimo citado em Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho)
(Friar Maurice, heterônimo citado em Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho)
leituras do dia 1 - onetti
"Às vezes estão dentro de mim todas aquelas coisas nas quais não quero pensar porque é impossível pensá-las; mas geralmente estão atrás, às minhas costas, como uma sombra que posso esquecer e que não me é permitido pisar.
(...)
Nada do que é importante pode ser pensado, tudo o que é importante deve ser arrastado inconscientemente pela pessoa, como uma sombra.
(...)
Talvez tenha decidido aqui mesmo, passo a passo sobre o pedregulho revolto, dedicar sua vida a um só propósito ou, dá no mesmo, renunciar a todos os propositos. Para mim é igualmente fácil compartilhar sua fé e a risada um pouco assombrada, um pouco medrosa, com que acolherá ou acolheu sua renúncia".
(Juan Carlos Onetti, Junta Cadáveres)
(...)
Nada do que é importante pode ser pensado, tudo o que é importante deve ser arrastado inconscientemente pela pessoa, como uma sombra.
(...)
Talvez tenha decidido aqui mesmo, passo a passo sobre o pedregulho revolto, dedicar sua vida a um só propósito ou, dá no mesmo, renunciar a todos os propositos. Para mim é igualmente fácil compartilhar sua fé e a risada um pouco assombrada, um pouco medrosa, com que acolherá ou acolheu sua renúncia".
(Juan Carlos Onetti, Junta Cadáveres)
terça-feira, 14 de junho de 2011
Dalton Trevisan
68.
Pronto me calo, a minha mão ponho na boca. Todas as noites do velho são dores, eis que vem o fim. No tempo das aflições minha alma é uma lesma aos uivos que retorce o chifre e se derrete no sal grosso. Devo catar as migalhas debaixo da mesa? Morder a pelanca do meu braço? Comi a gordura, engoli as delicadezas, cuspi os ossinhos da sambiquira. E fui deixado só com o buraco do meu umbigo. Agora me deito e sem falta morrerei.
(101 Ais)
Pronto me calo, a minha mão ponho na boca. Todas as noites do velho são dores, eis que vem o fim. No tempo das aflições minha alma é uma lesma aos uivos que retorce o chifre e se derrete no sal grosso. Devo catar as migalhas debaixo da mesa? Morder a pelanca do meu braço? Comi a gordura, engoli as delicadezas, cuspi os ossinhos da sambiquira. E fui deixado só com o buraco do meu umbigo. Agora me deito e sem falta morrerei.
(101 Ais)
domingo, 12 de junho de 2011
George Orwell
O Abate de um Elefante: Ouçam o áudio - gravação da crônica de George Orwell - em chicoecarvalho.blogspot.com
Intervalo com elefantes 2
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| vietnamswans.com |
Este mesmo elefante era ainda notável por outra habilidade original. O guarda, quando o montava, instalava-se numa grande colcha que lhe cobria o lombo. Quando descia dava-lhe ordem para retirar a colcha, o que o animal fazia não com a tromba, porém contraindo e distendendo alternativamente os músculos das costas. O movimento da pele pouco tensa fazia deslizar a colcha pelo flanco, até cair no chão. O elefante estendia-se então com cuidado e inteiramente sobre a relva, dobrando-a como se faz com um guardanapo; finalmente enrolava-a com a tromba e atirava o volume para as costas, onde ele ficava tão seguro como se fosse colocado por mãos humanas. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963)
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