Melancólica. Desde pequena. Manga comprida para disfarçar as cicatrizes nos pulsos. Até jeitosa: cabelo cor de milho. Olhinhos apagadinhos. Contudo verdes. Peitinhos de pêssego. Virgem. De signo e opção. Não que fosse tímida. Bastava-se. Os estudos. A faculdade. Ah, e chope na praça de alimentação do shopping. Com as colegas. Às sextas-feiras. Por causa de um diagnóstico equivocado na adolescência, as psicólogas. Tinha perdido a conta. Biodança; gestalt; jung; freudiana; terapia grupal; florais; vidas passadas; reich; bioenergética; fora a biblioteca de autoajuda. Agora, psicanálise. Da lista dos credenciados do convênio. De 15 em 15 dias. Em um prédio velho. Perto do trabalho. Das divisórias de eucatex ouvia narrativas alheias. Interessantes. Porém, quase sempre indesejáveis. Divã? Uma longchaise fedida a cachorro molhado. Doutora, não. Só Márcia. Jeito de lésbica. Cada uma na sua. O assunto nunca engatava. Muito silêncio durante os 40 minutos da sessão. Não era de todo ruim. Compromisso no horário do almoço. Às quartas. Para fugir da rotina. Molesquine para anotar os sonhos. Mas não sonhava. Mentiu para não parecer uma anormal. Não se lembrava dos sonhos ao acordar. Márcia sugeriu listas. O que mais gostava de fazer. O mais importante da vida. O que não desejava nem para o pior inimigo. Possibilidades futuras. Desejos. Desejos? Travou. Bloqueou. Como assim? Duas semanas de páginas brancas. Márcia insistiu. Ato falho. Confilto. Ego, id, superego. Facilitou: 10 bobagens que a tirassem do sério. Escrevesse quantas quisesse. Mas riscasse, eliminasse, selecionasse. Até sobrarem 10. Nem mais nem menos. Quinta. Sexta. Sábado. O domingo todo inquieta. Abrindo e fechando o molesquine. Tampando e destampando a caneta. Caminhada no parque. Almoço, sorvete, Faustão, Fantástico, nada. Na madrugada, folha novinha. Com letra caprichada. 1: Gente que faz aspas com os dedos. 2: Gente que atende o celular no cinema. 3: Gente com sotaque de carioca; 4: Gente que fura fila. 5: Gente que não presta atenção. 6: Gente boazinha demais. 7: Gente mentirosa. 8: Gente que deixa cabelo grudado no sabonete. 9: Gente que conversa tirando um cisco do seu casaco, ajeitando a gola, abotoando o último botão da sua blusa; 10. gente que conversa sem olhar nos olhos. Nada demais. Nada horrível. Nada que não pudesse ser contornado. Nada que não circulasse na net, Clarice, Fernando Pessoa, Saramago, Veríssimo, o diabo. Completada a lista, às 5 da manhã, dormiu. Apagou. Literalmente. Sonhou? Nem acordou com o despertador. Às 11 ligou para Márcia. Podia? À 1 da tarde avisou o chefe. Atestado. 3 dias. Diarreia. Não, a médica não tinha anotado o CID. Depois pediu sushi no delivery. Para comemorar. Não, ela não era uma anormal.
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sexta-feira, 3 de junho de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
Telo
Essa é digna do Tuco. Tenho certeza que você vai morrer de rir. O Tuco era meu irmão gêmeo. Morreu ano passado. De acidente de moto. Tem gente que diz que se a gente fica lamentando, a alma da pessoa morta fica vagando, perdida, perto dos parentes, sem saber que morreu. Por isso eu só conto as coisas engraçadas. O Tuco? Deve ter ido direto pro paraíso. Reivindicar as mil virgens. Não, o Tuco não era muçulmano. Era uma piada nossa. Sei. São 2 minutos. Um dia, antes do acidente, na época que ele estudava em Buenos Aires. No shopping. Eu estava distraído. Sabe quando a gente tá pensando em nada? Em muita coisa ao mesmo tempo? Pensando na morte da bezerra? Quando olhei, vi sabe quem vindo na minha direção? Ele mesmo. O Tuco. Me olhando nos olhos. Sorrindo pra mim. Tomei um baita susto. Não podia ser. O Tuco? Com uma roupa igual à minha? Foi rápido. Não podia ser o Tuco de jeito nenhum. O Tuco estava em Santiago. Não, Buenos Aires. Eu só me toquei quando eu abri a boca pra chamar, ei Tuco, o que você tá fazendo aqui? Não era Tuco coisa nenhuma. Sabe quem era? Era eu mesmo. Refletido no espelho da vitrine. Uma vitrine de esquina. O espelho me enganou direitinho. Não achou engraçado? Se o Tuco tivesse contado você ia morrer de rir. Tá, isso foi antes do acidente. O Tuco estava longe. Mas ainda vivia. Depois que ele morreu aconteceu de novo. Ó, eu tou todo arrepiado. Eu ia para a faculdade. Bem cedo. De repente. Na garagem do prédio. Eu vi o fantasma do Tuco. É, podia ser alguém parecido. Mas não tinha ninguém. Na verdade eu não vi o rosto. Só a silhueta contra a luz. Parado na minha frente. Eu tenho certeza que era ele. Me deu um troço estranho. Tentei falar. Bem tranquilo: Tuco, você tá precisando de alguma coisa? Você já tentou falar debaixo da água? Era igualzinho. Não, eu não sou espírita. Mas boto fé. Tia Marta é. Ela psicografa. Mensagens dos espíritos. Pois eu continuei: Tudo bem, Tuco? O Tuco não respondeu. Sumiu. Totalmente. Como alguém aparece e desaparece na sua frente na mesma hora? Caramba, já acabou? Aconteceu de novo. 3 vezes. Da última vez ele segurou a minha mão.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Túlio
Sim, eu recebi o chamado. Com antecedência. Vocês sempre se comunicam. A comunicação de vocês é muito sutil. Vem em ondas quase imperceptíveis. Como um chiado de rádio. Poucos compreendem. Posso perguntar? Por acaso ultimamente vocês tem mandado e-mails? Porque eu tenho recebido alguns. Bem estranhos. Aliás, eu tenho certeza que o último, o de ontem, era de vocês. Muito confuso. Como o rádio mal sintonizado captando 2 estações ao mesmo tempo. Ou uma tradução mal feita, sabe, os verbos conjugados em tempos diversos, concordâncias erradas, palavras incongruentes. Por exemplo: relógios Citzen descontroladamente adiantados ao se aproximarem da sarça ardente na garagem da casa de Susan. Ou: ciclope mantido tão longe, dividido entre em sonhar com os próprios olhos ou abocanhar a concubina do pato mandarim. Eu não tive tempo para interpretar. Aliás, não me sinto capaz. Mas eu tenho certeza que veio daqui. Eu tenho certeza que era o aviso. Tanto é que me preparei. Estou aqui. Consciente. Sim. Tem gente que ouve vozes. Tem gente que sonha e não se lembra do sonho quando acorda. Tem gente que só pressente. 99,9 % não dá importância. Por não saber do que se trata. Eu fiz o teste. Perguntei na sala de espera. Se alguém se lembrava da razão de ter vindo. Alguns não deram atenção. Outros riram. Por causa da entrevista, ora bolas. Entrevista? A moça continuou a procurar o celular na bolsa. O rapaz a folhear a revista. O outro anotando em um caderninho. Uns cochilando. Eu disse bem alto: nós estamos mortos. Me mandaram falar baixo. Calar a boca. Eu os estava desconcertando. Para levar vantagem na entrevista. Doido, eu? Ainda bem que me chamaram primeiro. Posso perguntar uma coisa? Quem redigiu a mensagem?
terça-feira, 24 de maio de 2011
Meire
Eu precisava voltar para falar com ela. Pedir desculpas. Falar para ela não se magoar. Impedir um malentendido destruir nossa amizade. Amizade sólida. Construída pedacinho por pedacinho. Eu vinha pensando, eu não devia ter saído sem antes dizer para ela não se preocupar. Eu nunca mais iria procurar o Maurício. Eu não queria mais voltar para ele. Dizer que o apoio dado por ela, os conselhos na época da separação eram dez, cem, mil vezes mais importantes que qualquer tentativa do Maurício me reconquistar. Ele que ficasse com o dinheiro, a casa, os móveis, os gatos, os pássaros, os cavalos, o elefante. Eu falei elefante? E com a prostitutinha platinada. De vinte e poucos. Por isso eu ia pegar o celular. Para falar com ela: Que eu não cairia na armadilha dele. Eu nem estava correndo. 80, 90. Eu ando com o celular dentro da bolsa, e a bolsa sempre no banco do passageiro. Eu não achava o celular, você sabe, bolsa de mulher tem de tudo. Eu sei, é proibido dirigir e falar no celular. Quando eu vi, eu estava em cima. Nem deu para frear. Crash! As pessoas nunca pensam que aquilo pode acontecer com elas. Eu estava com o cinto. Felizmente. O celular foi parar em algum lugar no banco de trás. Depois do barulho da batida, fez um silêncio mortal. Nem parecia que se estava no meio do trânsito. Depois eu abri os olhos. Enxerguei tudo embaçado. As luzes vermelhas do carro do bombeiro, da polícia. Não, eu não senti nada. Nem desmaio, nem vontade de vomitar, dizem que as pessoas sentem vontade de vomitar depois do acidente. A única coisa esquisita era não ouvir as sirenes. Silêncio. Será que a pancada tinha atingido o meu ouvido? Eu me lembro de ter visto primeiro... Claro! O motorista do carro da frente. Não, eu não estava surda, porque ouvi o celular. Era o toque dele. Do Maurício. Depois? Eu devo ter desmaiado. Os bombeiros devem ter me tirado. Eu não me lembro como cheguei aqui. Será que os bombeiros trouxeram o celular? Eu preciso tanto falar com a minha amiga. Para avisar que está tudo bem. Para jurar para ela que eu vou deletar o nome do Maurício dos contatos. Como assim? Aqui não pega celular?
sábado, 21 de maio de 2011
Wellington
Não, eu nunca tive esperanças. Entusiasta? É, a senhora pode chamar de coleção. Melhor seria compilação. Para quê? Para nada. Para não me deixar iludir. Para não deixar de pensar. O ser humano é uma raça execrável. Criar? Pelo contrário. A nossa vocação é destruir. Sempre. Dizem que a capacidade de criar aproxima o ser humano do divino. A senhora acredita? O que realmente nos aproxima do divino é a destruição. Forças opostas que se anulam. O ser humano é a guerra. A senhora lembra daquele filme que o cara colocou um puta som no avião, pra tocar Wagner enquanto despejava bombas de napalm nos guerrilheiros do Vietnã? Quer imagem mais perfeita de criação e destruição conjugadas? O cara era deus. Você consegue imaginar o que o napalm faz? Claro que sabe. Tem aquela foto famosa, dos anos 60. A da garota nua. A senhora se lembra da expressão dela? A senhora imagina gente com os cabelos queimados, desfigurada com as queimaduras, pedaços de pele pendurados nos dedos, agonizando de dor? É. Isso é o ser humano. Outros exemplos? A gente pode passar grande parte da eternidade aqui, relacionando. Os livros são bons exemplos. Um que todo mundo conhece. A Ilíada. A senhora já leu? Toda, não? Claro. Mas a a senhora sabe do que se trata. Versos sucedendo versos, cantos sucedendo cantos descrevendo batalhas sangrentas, ou campos de batalha cobertos de cadáveres. Já leu Céline? Aos vinte e poucos anos Tolstoi acreditava que a guerra era o único meio para defender seus ideais, os ideais do seu povo, da sua nação. Foi para a guerra, passou 2 anos. Voltou desiludido. E escreveu aquele calhamaço. O Imagina o que eles presenciaram? a rajada de metralhadora rasgou o peito do sargento. Instintivamente ele juntou as mãos sobre o ventre e caiu de bruços. Não se mexeu mais. Sabe, é como se a gente estivesse lá, se fosse com a gente. Os horrores da guerra: ... à medida que cavava, o chão ia juntando água, de modo que dormi as poucas horas dentro d'água, enrolado na manta. A senhora enxerga algum sentido nisso? Um cara falava em ver as estrelas de dentro da trincheira. A solidão da guerra congela a alma. O mesmo cara disse em outra parte: era bom quando dois caras podiam ficar juntos em um desses buracos – significava companhia. É, acabou.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Katrina
Lembra quando eu levei a Larissa lá em casa? Caramba, a gente só tinha 14. Lembra o que você disse pra gente na mesa? que preferia morrer a ter a filha drogada, puta ou lésbica? A troco de nada. Você foi muito escrota. Eu já tava acostumada, você vivia dizendo isso, eu achava que era brincadeira. Mas ali, na frente de estranhos era a primeira vez. Logo com a Larissa. Eu morri de vergonha. A amizade da gente ficou abalada. Quase acabou. Por sua causa. Eu demorei um tempão processando. Fingindo que não tinha te entendido. Fingindo que não tinha importância. Vou te dizer uma coisa: eu demorei um tempão tentando enfiar pelo ralo a admiração que antes eu sentia por você. Você estragou tudo. Você passou a ser tudo o que eu não queria para mim. Você era vulgar. Preconceituosa. Pode ser. Fui covarde em não te enfrentar. Devia ter cuspido na tua cara, te dado um tapa, virado a mesa, saído de casa, sei lá. Talvez as coisas não tivessem sido tão amargas para nós duas. Talvez eu não tivesse virado lésbica. Tá espantada? Quem me disse isso foi aquele psicólogo viadinho, o seu amigo. E você gastando dinheiro com aquela babaquice. Lógico que não tem nada a ver. Pois é. Você pagando pro cara te detonar. Dizer que eu tinha virado lésbica por causa da ausência da figura paterna. Pois senta pra não cair. A lésbica aqui transou com ele. No consultório. Sabe o que ele disse enquanto me comia? Que você era mais safada que eu. Foi nojento, sim. Tive vontade de vomitar na almofada. Mas era por você. Pela raiva que eu sentia de você. Lembra aquela vez em Guarapari? Eu nem conhecia a garota. Engraçado, até hoje eu ouço a entonação, cada sílaba, aquele jeito pedante que você estendia as vogais: leés-bi-ca. Você acha que eu perdi a oportunidade? Reconciliação? Você tá brincando? Sabe qual foi a minha maior frustração? Ter chegado a essa situação antes de você. Não seja ridícula. Não me venha com essa conversa de resgate do karma. Você acha possível? Porque não? Afinal, você vai ter a eternidade para tentar.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Jônatas
Se fosse vivo, hoje ele completaria 80 anos. Eu não teria lembrado se não fosse você. Bem, eu sinto saudade dele, sim. Mesmo com todos os problemas que a gente teve. Quando ele era vivo. Quando eu era mais novo. É, eu até escrevi um texto. Para homenagear os 80 anos, para relembrar, para marcar a data. Nossa, eu desenterrei umas coisas do tempo do onça naquele texto. Que tipo de coisas? Deixa pra lá. Passou. É, sempre eu digo: as nossas diferenças se acabaram com a morte dele. Como assim? Mentira? É, eu já disse mil vezes. Eu me arrependo. Hoje eu sinto falta dele. Se fosse hoje eu não teria me comportado daquela maneira com ele. Tá bom, ele mereceu. É, ele não precisava ter dito aquilo. Pô, eu só tinha 17, 18 anos. Mas quem, em um momento de raiva, não solta os cachorros? É, eu sei. Depois que a pessoa morre tudo fica mais fácil. A tendência é suavizar os defeitos. Depois que morre, os podres da pessoa desaparecem. Por encanto. Ah, como ele era legal, ah, como ele era bonzinho. De certa forma ele era sim. Ele se esforçou sim. Na medida do possível. É. Nos limites dele. Entenda bem. Eu me arrependo, sim. Eu me arrependo de não ter dito algumas coisas pra ele. Coisas que poderiam ter mudado completamente a nossa relação. Eu achei que tinha superado a mágoa. Que nada. O texto de hoje, o texto para homenagear os 80 anos dele, por exemplo. Não, eu não quis publicar. O texto estava cheio de mágoa. Sabe aquelas mágoas que não adianta, que por mais que você tente, por mais que se esforce, floral, terapia, sexo, porre, volta e meia aquilo volta? pois é. Muita mágoa. É, eu sei, eu também não fiquei atrás. Eu sei que eu magoei muito ele também. Mas porque você tá perguntando? Pô, tem pelo menos uns 20 anos que ele morreu. É, 80 anos hoje. Sabe o que eu mais me arrependo de não ter perguntado a ele? Como assim? Você tá brincando? Tá dizendo o que? Ele? Nem adianta, eu não acredito.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Miro
7 irmãos. Quando a fome aperta, quando nem fava tem, a gente raspa o cal do adobe. Come igual farinha. Conhece favas? É um tipo de feijão, grande, amargo. A única coisa que ainda dá por aqui. Quando tem, a mãe cozinha um punhado. Mal cabe na mão fechada. Com muita água. Divide os grãos pra cada um. Já comeu cobra? Bugio? Teiú? Não conhece? É uma espécie de lagarto. Só se come a cauda. O resto é venenoso. Mas a gente come tudo. Não dá pra desperdiçar. Veneno mesmo é viver. Preá? A mãe lambendo o focinho da cachorra, pra aproveitar o sangue. Como é? Já leu isso em livro? Sim, a cabra. Apareceu tem uns dias. Deve ter fugido de longe. Está que é só osso. Leite? Tá brincando. Viu o tamanho da bicheira roendo os peitos dela? Esperar o dono procurar? Bobagem. Qual doido nessa miséria toda deixou ela fugir? Só pode ser milagre. Sabe como é. Tem que matar logo. Antes da bicha adoecer. Pancada na cabeça. Com o cabo da enxada. Depois salga. É carne para o ano. Põe na trava do telhado. Senão os meninos pegam. Uma vez por semana uma lasca. No feijão. Só o cheiro. Na fava não. Estraga o gosto. Na necessidade a mãe cozinha até o couro. A gente toma o caldo. Já experimentou? Não esquece nunca mais o gosto. O pai quer vender a terra. Diz que vão desapropriar. Mudar pra onde? Divisa. A gente tem uma tia lá. Escola para os meninos. Eu? Não tenho mais idade. Vou trabalhar de ajudante. Com o pai. O marido da tia é pedreiro. Querer mesmo eu não queria. Mas precisa. A gente tem que evoluir. Não, eu não tenho medo. Medo? Já viu alguém morrer de fome?
sábado, 7 de maio de 2011
Divino
Inacreditável! Vou até jogar na mega. Eu encontrei o Juliano! Meu primo. Ele tá trabalhando aqui. Pode? Eu nunca mais tinha visto ele. Desde os 10, 11 anos. Minto. Eu encontrei o Juliano uma vez. Na boate. Vi aquele gato dançando, pensei, eu conheço esse cara, e era ele, o primo Juliano. Fui falar com ele, lembrar do tempo de infância, aquele papo típico de bêbado. Ele não deve ter gostado muito, disse que ia buscar bebida pra gente e sumiu, me deixou falando sozinho. Coincidência encontrar ele de novo, logo aqui. Como se não bastasse, sabe o que tava tocando na sala de espera? A Valsa-da-meia-noite. Antenógenes Silva. É, An-te-nó-ge-nes. Nome esquisito, né? Jesus amado, não é demais? Voltei à infância na hora que ouvi. Tá bom, eu vou começar. A gente morava na melhor casa da rua. A melhor, não, a segunda melhor. A melhor de todas era a casa da Elaine. A casa da Elaine era linda. Telhado tipo chinês, janelas em arco, tinha até um laguinho com peixes na frente. A nossa era mais simples mas era maior. Tinha sala de estar, sala de jantar, escritório. Na sala de jantar tinha um lustre de 6 lâmpadas sobre a mesa, arandelas de bronze bem bacanas no resto dos cômodos. As paredes da sala eram pintadas de rosa e verde bem clarinho. Tinha varanda e garagem para 2 carros. Na varanda tinha um sistema de autofalantes ligado direto na radiola da sala. Domingo a gente era obrigado a sentar nas espreguiçadeiras pra ouvir Dolores Duran, Nelson Gonçalves, Antenógenes Silva. É, o da Valsa-da-meia-noite. O jardim da casa tinha 1 pé de brinco de princesa junto da torneira. Tinha 4 quartos. O nosso quarto era pintado de azul. No nosso quarto tinha 3 camas. 3 camas não. 2 camas e 1 berço. O berço era do Binho. O mais legal era o armário. O armeiro era tão grande que a gente abria as portas e brincava de teatrinho nele. Era hilário. A gente se enrolava nos lençóis, nos cobertores, vestia as roupas da mãe pra fazer de figurino. Eu pendurava duas brinco-de-princesa na orelha, travesseiro nos peitos. É, desde pequeno eu levava jeito. Eu era princesa, rainha ou esposa do faraó no teatrinho. O primo Juliano era sempre o meu par. Príncipe, rei, faraó. Não. Ninguém nunca censurou. Coisa de criança, né? Acabou? Já tou terminando. Não pode? Tá bom, vocês vão perder a melhor parte.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Riba
Todo mundo me conhece por Riba. Eu bebia. Demais. Bebida quente: Dreher, rum, Montilla. Só bebida destilada. Quando eu bebia eu ficava doido. Batia na Diana. Nos meninos. Deus me perdoe. Já levantei a mão até pra mãe. Brigava na rua. Virava e mexia, final de semana, caía no mundo. Saía de manhã, só chegava no outro dia, dois dias depois, se chegasse. Beber em casa? nada a ver. Meu negócio era a rua. Bar, sinuca, farra. Só bagaceira. Só má companhia. Se passasse um mês no mesmo serviço era muito. Eu era muito ignorante. Alguém punha a mão nos meus olhos. Para eu não enxergar o rumo certo. O santo tirou isso de mim. Antes de vir prá cá eu já era do santo. Mais ou menos. A gente tinha uma vizinha. A dona Cleusa. Dona Cleusa era vidente. Ela vivia dizendo pra minha mãe que eu era do santo. Que o santo tava me pedindo. Que eu precisava desenvolver. Que se eu não desenvolvesse eu ia dar muito trabalho. Dona Cleusa virava com Exu. Bebia muito. Fumava charuto. Diz-que até usava droga. Por isso minha mãe não quis. Depois eu não me interessei. Mas o santo cobrava. Um dia eu tinha sido mandado embora do serviço. Tinha bebido a grana da feira. Fazia 3 dias que não ia em casa. O santo me bateu. Me emporcalhou na lama. Me fez beber água de poça d’água. Bater a cabeça no meio-fio até desmaiar. O santo me jogou na sarjeta. Não lembro por quanto tempo. Daí o caboclo veio. Falou comigo. Conversou demais. Aconselhou. Disse que eu tinha um trancarrua colado em mim. Me obcecando. Era trabalho da dona Cleusa. Eu tinha que mudar de vida. O caboclo mandou eu procurar na feira a garrafada tal. Que bebesse de manhã e de noite. Que eu procurasse o terreiro tal. Eu fui. Eu fiquei admirado. O terreiro era igualzinho como o caboclo tinha falado. O pai-de-santo jogou búzio. Para ver qual era o santo. Me recolheu. Raspou. Rodante não. As mesmas coisas que o rodante tem eu também tive. Não, eu não viro no santo. Agora é a cabeça dele antes da minha. Agora eu vou caminhar. Meu pai? Não, eu não posso revelar. Só se ele autorizar.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Fabinho
Contar um segredo? Tá bom. Quando eu crescer eu quero ser médico. Para curar mamãe da artrite. Receitar remédio de pressão alta. Para ouvir o coração da Rosa naquele aparelho, como é mesmo o nome? Papai queria que eu fosse jogador de futebol. Se eu fosse bom, mas muito bom, eu tirava eles da lama. Eu não gosto de futebol. Eu gosto de jogar queimada. É. Meu primo diz que queimada é jogo de mariquinha. Eu não sou mariquinha não. Eu vou me casar e ter 4 filhos. Se eu for jogador eu quero ser goleiro. Sabia que goleiro é o único jogador do time que usa camisa de manga comprida? Eu queria ganhar uma luva de goleiro. Roupa de médico também é bonita. Branquinha. O sapato, a meia, o cinto, o jaleco. Jaleco é aquela roupa tipo um casaco que o médico usa por cima da roupa. Será que a cueca do médico também é branca? Se eu for médico a Rosa vai ter um trabalhão pra lavar minha roupa todo dia. Lavar roupa branca dá trabalho. Tem que deixar de molho. Hem? Ah, tá bom, eu vou contar o segredo sim. Uma coisa que eu nunca contei para ninguém. Eu queria ser artista. Artista famoso. É. De novela. Eu gosto de novela. Eu só não vejo a novela das 9. Porque papai não deixa. Papai gosta de assistir jogo de futebol. Eu acho chato. Artista tem que ter boa memória. Para decorar o papel. Minha memória não é boa. Ah, eu sei uma poesia. É assim: Não vai dar tempo? Tá, outra hora. Acho que eu não vou ser artista por que eu não consigo me lembrar direito. Artista tem que beijar na boca. Eu sei que é de mentirinha, a Rosa que me disse, mas eu acho que eu vou ter vergonha. Eu não sei beijar ainda. Mas eu aprendo. Meu primo disse que já beijou na boca. Ele tem 8. Ele disse que beijou a Rosa. Eu duvido. Porque a Rosa é grande. É adulta. A Rosa um dia me contou que queria ser modelo. Meu primo? Quer ser jogador. Ele adora futebol. Eu não gosto. Acho que eu já falei. Um dia eu tava jogando bola com meu primo. Eu era o goleiro e ele era o Ronaldinho Gaúcho. Ele chutou a bola tão forte que eu não consegui agarrar. Acertou na minha cabeça. Eu desmaiei. Fui internado no hospital. Depois eu não me lembro. Nadinha. Acho que depois do hospital eu vim direto pra cá.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Costa
Como? Se eu prefiro praia ou montanha? Ah, só pode ser uma pegadinha! A pessoa passa a vida inteira se preparando, estudando, lendo arte, filosofia, literatura, psicologia, religião e cai uma pergunta dessa? Bem que me avisaram. A essa altura do campeonato... Pode me dar 30 segundos? Para eu reorganizar as ideias. Não? Realmente, por essa eu não esperava. Bem, para uma pergunta imbecil, uma resposta idiota. Vamos lá. Bem, há poucos dias, antes da convocação, eu recebi um e-mail. Sabe aquele amigo que te manda e-mail todo dia? sobre câncer provocado por adoçante. Sobre as 100 vantagens de se beber água. Aquele filminho que demora horas para abrir e quando abre trava seu computador. Aqueles e-mails que a gente deleta sem nem ler. Bem, por sorte esse eu não deletei. Vai me servir agora. Realmente o e-mail é perfeito para a ocasião. Bem, vou resumir porque se não não dá tempo. É sobre um cara aposentado. O cara morava na serra. É, na montanha. Estava empolgado para morar na praia. Por que na serra – na montanha – chovia, tinha nebilina, deslizamento e coisa-e-tal. A senhora conhece algum aposentado que não queira morar na praia? Bem, começa com o cara vendendo a casa da serra. Certo, da montanha. Bem, o cara procura apartamento na praia. Fecha negócio, apartamento com sacada, de frente pro mar. O cara se muda. Pleno verão, sol, calor, mulherada na areia, agenda diária de aposentado, caminhada, sesta, cervejinha, buraco, barco inflável. Com o passar dos dias o cara se enturma com a vizinhança, a maioria também de aposentados. Terminando o verão, os problemas do cara começam. Primeiro manda envidraçar a varanda por causa da ventania. O cara não consegue pôr o barco na água, por causa do mau-tempo. Por falta do que fazer, o cara passa a frequentar o bingo. O inverno piora, o cara para de caminhar. Ou seja, mais tempo no boteco. A barriga só crescendo. A mulher do cara doida para voltar, com medo de tsunami. Bem, lá pra novembro o cara já virou alcoólatra. Quase se divorcia. Vende o apartamento para outro aposentado, e voltando para a serra - para a montanha -, de onde nunca deveria ter saído. Eu, quando me aposentar? A senhora está brincando comigo?
sábado, 12 de março de 2011
Carminha
sexta-feira, 4 de março de 2011
O Álex
Pra mim só cai pergunta difícil. Inteligência ou bom senso? Veja bem. Cada qual tem seu momento. Ok. Vamos por partes. Primeiro: você já deve ter percebido. Eu a-do-ro falar. Segundo: aconteceu de verdade. Terceiro: eu de-tes-to deixar as coisas inacabadas. Quarto: eu me esforçarei ao máximo para resumir sem cortar. Senão perde a graça, né? Quinto: só nesse preâmbulo já se passou 1 minuto. Bom. Conheci o Álex na internet. Superlegal. Cada foto mais linda que a outra. 20 e poucos. Pouco mais novo que eu. Versátil. Solteiro. A fim de conhecer pessoas legais para amizade ou quem sabe algo mais. A única coisa que pegava era a corrente de prata. E a separação recente. Marcamos no café. Só faltou puxar a cadeira para eu me sentar. E o principal: resolvido financeiramente. Porque me dá nos nervos essa história de ligação a cobrar. De faltar crédito para responder mensagem. De pagar a conta sozinho. Etcétera. O Álex era cara metade. O par do vaso. O cravo para minha rosa. O genro que mamãe pediu a deus. Inteligência e bom senso nessa hora? Passaram longe. Você há de convir. Amor à primeira vista hoje? Nem em telenovela. Pois eu me apaixonei pelo Álex. Não da primeira vez. Foi lá pelo segundo. No terceiro encontro. Bem. Qualquer biba, por mais imbecil que seja, tem discernimento pra saber que um cara separado há só 2 meses e com perfil em site de relacionamento está a fim de aprontar. Eu crente que o Álex também tinha se apaixonado por mim! Até reza para ficar com o Álex eu decorei. Tem aquele ditado. Deus escreve torto por linhas retas. Pois é. Mesmo com a reza forte o Álex não era para ser meu. A Rosa, que deus a tenha em bom lugar, tinha razão. Bicha burra nasce morta. Rosa? depois eu digo. Pois o idiota aqui ligava. Mandava mensagem melosa. Toda hora. Do trabalho. Da rua. Do engarrafamento. Me sentindo tipo adolescente. O Álex dava corda. Respondia a todas. Educadérrimo. Foi a partir daquela que eu dizia, vê se pode! - que eu queria ele para sempre. O Álex tirou o corpo fora. Na certa pensou: Que biba ansiosa! Primeiro foi no fim-de-semana. A gente tinha ficado junto na sexta. Bebido todas. Deixei o Álex em casa às 6 da manhã. A gente combinou de se ver mais tarde. Claro que ele não ligou. Você há de convir que, por mais cega e embotada que a biba esteja, o sexto sentido dela não desliga. Percebi. Tarde, mas pecebi. Tinha algo errado. O Álex não ligou no sábado. A biba aqui então usou a cabeça. Inteligência? Talvez. Melhor bom senso. Ou senso de ridículo. Liguei só no domingo à tarde. E aí, Álex, ainda de ressaca? porque eu já disse, a gente tinha bebido demais. O Álex justificou o sumiço: a mãe tinha chegado de Goiânia. O quê? Já passou 1 minuto além do tempo? Dá para imaginar o resto, né? Se eu for selecionado eu conto o resto. Pode?
quarta-feira, 2 de março de 2011
Amadeu
... infelizmente ... a memória só os pedaços ... pior que o corpo ... o corpo não é nada minha filha ... um homem na minha idade precisa de desafios ... senão é só invólucro ... palavras cruzadas ... ler? ... vou te confessar uma coisa minha filha ... enxergar? eu leio até bula de remédio ... o problema é a concentração ... nenhuma ... idade para ser duas vezes seu avô ... a vida é sobreviver ao momento ... superar a adversidade ... existe adversidade maior que a velhice? ... a morte ... a depauperação dos sentidos ... o desaparecimento ... bem que eu queria ... mas não consigo acreditar ... finitude minha filha ... finitude ... não vê? ... descobriram até o fim do universo! ... na minha idade ... sim ... há pouco tempo eu entendi ... você acredita? ... viver quase um século para compreender uma frase boba? ... um homem é o que ele é por dentro ... não com essas palavras minha filha ... filósofo era papai ... 9 filhos vivos ... hoje em dia é diferente ... imagina um homem criar sozinho 9 filhos? ... criar e formar ... até freira ... e eu? ... papai morreu feliz ... filhos ... netos ... com 95! ... a casa cheia ... Dadinha ... Ção ... Memé ... Madrinha ... e Graça ... eu era o caçula minha filha ... Madrinha porque foi ela quem me criou ... papai deu duro ... Memé ... coitadinha ... tão avoada ... papai sofreu com Memé ... porque eu estou aqui? ... vou te dizer uma coisa minha filha ... eu já fiz de tudo um pouco ... filhos? ... nenhum ... não ... eu nunca quis me casar ... a vida ... por incrível que pareça ... pelo menos hoje ... é ... na minha idade ... não devo satisfações a ninguém ... solidão? ... a do homem minha filha ... a do ser humano ... eu não te falei do desafio? ... eu conheço o meu lugar minha filha ... o mundo é dos jovens ... força de vontade não me falta ... isso aqui? ... ninharia ... não entenda mal ... ninharia em comparação com o que eu já vivi ... sou um homem vivido minha filha ... e não um saco de batatas ... papai ... você não vê? ... acabou meu tempo? ... e eu não falei nenhuma palavra sobre a integridade? ... ê cabeça ... posso tirar outra ficha?
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Márcia
Eu posso cantar? Não? Ué, disseram que servia qualquer coisa criativa. Tudo bem. Então eu vou só explicar. Eu adoro música. Desde pequena. Com 4 anos eu sabia de cor tudo quanto era música. Eu ia cantar uma música da Elis. É-pau-é-pedra-é-o-fim-do-caminho. Quando eu era criança eu já cantei na tevê. No programa do Titio Darlan. Você não deve se lembrar. Nem devia ter nascido. Ué, o tempo passa. Mais pra uns do que pra outros, mas sempre passa. Precisa dizer? Mais de 30. Não-confie-em-ninguém-com-mais-de-30. Outra coisa que eu amo de paixão é dançar. Meu sonho era ser bailarina. Do Fantástico. Tinha uma que virava luz. Outra saltava um abismo em grand-jetê Outra saía da água em port-de-bras na quarta posição. Todo mundo ou cantava ou dançava no Fantástico. Eu gostava do Ney Matogrosso. O pai não. O pai dizia que criança não podia ver aquele tipo de coisa. Que coisa? Ele não explicava. Com 7 anos eu ia lá saber? Só depois de velha eu fui entender. Ué, nenhum homem canta com aquela voz e dança requebrando daquele jeito. Não, não, nenhum preconceito. Tem gay em todo lugar. Eu até tenho uma amiga que o chefe dela é gay. Hoje é normal. Mas naquela época... Tinha também a Clara Nunes. Uma grande perda. Que morte estúpida! Eu tinha um certo medo porque ela cantava muita música de macumba. O pai também não gostava. Eu gostava das musicas dela. Mas ela dançando era fraquinha. Tinha uma música que em cada estrofe ela vestia uma roupa de orixá diferente. Cada uma mais linda que a outra. O Chico Buarque? Não. Ele nunca cantou no Fantástico. Ele tinha birra com o canal. O Chico era da esquerda radical e a Globo representava o sistema capitalista. O pai também não gostava do Chico. Comunista, ele dizia. Ah, felizmente as coisas mudaram. Quem te viu quem te vê. Ué, o comunismo acabou e a gente nem percebeu. O Chico nunca aparecia no Fantástico mas sempre tinha gente cantando música dele. Lembra do Lauro Corona e da Gloria Pires? Agora-eu-era-o-herói-e-o-meu-cavalo-só-falava-inglês. Guilherme Arantes? Amanhã-será-um-lindo-dia. Raul Seixas. Tinha uma que eu adorava: Eu-nasci-há-dez-mil-anos-atrás. Ué, posso? Me passa por favor o violão.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Edu
A senhora com suas joias, o rapaz antes de mim com seus piercings e tatuagens, o guarda da portaria com seu mau-hálito, o supervisor com seus relatórios, a cantora que a garota falou agora pouco, todo mundo tem uma função, uma obrigação na existência, e a minha é essa. Achou engraçado? Eu acreditar na possibilidade de melhorar o mundo? Se quiser eu repito, e nem precisa de microfone. Eu creio no poder de canalizar a minha força, minha inteligência, minha capacidade, minha energia para o bem-estar coletivo. A senhora, por favor, anote aí na ficha. O candidato acredita que mudará o mundo. De louco, poeta e revolucionário todo mundo tem um pouco. Eu vou defender minhas ideias, seja à frente de uma sala de aula, sobre um palco ou diante de um pelotão de fuzilamento. A senhora deve ser daquelas pessoas que acredita que a arte, a cultura, a educação podem mudar o rumo da história. Eu lhe pergunto: de que adianta o bom gosto estético para quem não tem onde cair morto? De que adianta saber desenhar o nome em um pedaço de papel quando não se sabe o que encontrar no lixão para a única refeição do dia? A arte pode alimentar mais que um PF? O teatro pode aquecer mais que um cobertor? a literatura pode confortar mais que um teto de papelão? Deixa eu fazer só mais uma pergunta. Uma não, duas. Três: a senhora já sentiu fome? Fome mesmo, fome de saber que não achou nada pra comer no lixão? E frio? A senhora já levou porrada da polícia de madrugada para desocupar o viaduto? Então como a senhora pode dizer que nós somos iguais? A senhora deve se sentir aliviada quando joga moedinhas pela janela do carro acreditando que vai salvar a vida da criança que vende chiclete na sinaleira. Nós não somos iguais, não. Desculpe interromper, eu conheço essa: o beija-flor que tentava apagar o incêndio na floresta com aguinha no bico. Moral da história: cada um deve fazer a sua parte. É só pensar um pouquinho. Por mais bem-intencionado, o beija-flor agia individualmente. Como a senhora, com seu neoliberalismo. Então, fui bem? Deu um branco, tive que improvisar...
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Elzinha
Minha mãe que escolheu. Era fã dela. Quis homenagear. Estranho, né? Nasci ouvindo ela. Sei a história dela de cabo a rabo. Tipo: perguntaram pra ela qual a idade, sabe o que ela respondeu? 24 horas, meu bem. My name is now! Caracas!, que maravilhosa! Quando era criança eu achava ela esquisita, sem noção. Mas depois comecei a entender. Ela se transformou em uma criatura de outro planeta. Tem uma história bem legal. Acho que ela contou no show. Vi na internet. Ela se inscreveu num programa de calouros, no rádio, com 12 anos. Naquela época acho que ainda não existia TV. Era o programa de um cara famoso, tipo Raul Gil. Pois é. Daí o cara esnobou ela na frente da plateia. A plateia ria daquela neguinha mal arrumada, de chinelo, tipo pobreza geral. Se fosse hoje era tipo funkeira. Acho que ela exagerou nessa parte, porque por mais fodida que fosse ela arranjava uma roupinha descolada pra se apresentar. Mesmo que fosse no rádio. Tudo bem. Aí o cara perguntou pra ela de qual planeta ela vinha. Ela respondeu: Venho do mesmo planeta que o senhor. O cara, todo engraçadinho, pra zoar com ela perguntou: E qual é o meu planeta, minha querida? O Planeta Fome. Dá pra acreditar? Com 12 anos? Calou a boca de todo mundo. Eu, com 19 nem em outra encarnação teria essa resposta na ponta da língua. Pois é. A mulher é fera. Passou o pão que o diabo amassou. Ah, lembrei de outra. A senhora conhece a gíria “dar a Elza”? Ela foi casada de um jogador famoso. O cara tinha ganhado uma grana legal jogando futebol mas perdeu tudo na cachaça. O povo na época era muito moralista, muito racista, muito preconceituoso, muito maldoso. Acusava ela de ter acabado com a vida do jogador. Acusavam ela de ter roubado o dinheiro dele. Que ela tinha dado o golpe do baú no jogador. Dado a Elza. Entendeu? A senhora sabia que o namorado dela nem tem 30 anos? Pô, deve ser esquisito transar com uma mulher de 80 anos.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Sonja
Você tem que me cortar, porque quando me dão corda eu vou longe. Por favor, me avise quando faltarem 2 minutos. É, é, para eu ter tempo de concluir. Não pode? Posso deixar o cronômetro do celular ligado? Não? Certo, certo. Faz parte do processo, ok, ok. Posso? Assistir tevê me faz dar risadas. Humorista? Não, não, eu detesto programa humorístico. Detesto piada. Detesto graça da desgraça alheia. Detesto sátira, charge, caricatura, gag, pegadinha. Detesto gente que transforma a própria mediocridade em mediocridade universal. Não, não, pelo contrário, eu me considero uma pessoa super-hiper-bem-humorada. A tevê é engraçada porque é o espelho da condição humana. La televisione è lo specchio dove si riflette la sconfitta di tutto il nostro sistema culturale. Não, não é Umberto Eco. Eu vou além. Eu diria que a televisão espelha não só a derrota do sistema cultural, mas o próprio fracasso da nossa condição humana. Compreendeu? O que me faz morrer de rir na televisão é exatamente isso. A televisão faz refletir sobre o nosso ridículo existencial. Por falar nisso, eu me lembrei de Maugham. Sabe Maugham? A velha história do rapaz cheio de boas intenções que vê os ideais escoarem ralo abaixo por causa de um sentimento inferior? Por causa de uma paixão? É, é, novelinha, a nossa vidinha medíocre resumida em capítulos diários. Eu digo aos meus alunos logo no começo do semestre: a televisão é uma espécie de sumidouro onde a gente vê, passivo, escoarem-se as nossas boas intenções. Como o retrato de Dorian Gray. Claro que você entende. Dorian sublima toda a lama que o sufoca através do retrato, que envelhece no lugar dele. É, a nossa lama cotidiana, o telejornal, o talkshow, a minissérie, etcétera, a televisão é a transubstanciação da lama humana. Ai, já! Já mesmo? Nem deu tempo de falar da escola francesa.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Márcia
Pow, que legal, meu, ingresso grátis? valeu! muito gata ela, a Ivete, pow, canta demais, sinceridade, eu não saco nada de música, tá ligado? pow, não dá tempo, de segunda a sábado pau dentro, costurando carro nessa loucura de trânsito, sexta-feira só rola a cervejada com a galera, rola um pagode, mas eu sou ruim, saca, ruim demais, nem campainha eu toco, saca? se eu te disser que nunca pisei num teatro tu acredita? A Márcia é que vai curtir, ela se amarra nessas coisas, vive me enchendo o saco, pow, tu precisa saber q rola outras paradas fora ralação e cerveja, tá ligado? a Márcia tá certa, meu, a Márcia nem vai acreditar nessa parada, tá ligado? precisa fazer o quê? só trocar na bilheteria? pow, precisa confirmar? beleza, a Márcia faz isso, ela curte, a Márcia saca dessas paradas de cultura, saca, pow, conhece tudo quanto é artista de novela, de bigbrother, de cinema então nem se fala, a Márcia fica até tarde assistindo tevê, saca, a Márcia conhece tudo quanto é música, eu não sei se ela curte muito a Ivete, pow, mas de graça, meu, acaba curtindo, a Márcia fica me buzinando pra gente assinar tevê a cabo, saca, pow, mas não dá nas contas, a mulher é cabeça mesmo, maluca, tá ligado? de repente, se tivesse estudado, se tivesse oportunidade tava aí, na mídia, meu, cantando na noite, se apresentando em restaurante, show, já pensou, meu? tu me dando ingresso de graça pro show da Márcia?
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