"Algumas pessoas preferem tratar suas paixões mais como uma exibição do que como uma aventura. Em vez de se apaixonar ou de fazer amigos, dão a impressão de escolher homens, mulheres, crianças e cães para o elenco de um drama envolvente que se comprometeram a produzir no instante de seu nascimento. Isso se faz notar especialmente em quem trabalha com um elenco limitado por um baixo orçamento emocional. As atuações grosseiras chamam a nossa atenção para a peça. O papel de menina ingênua foi dado a uma mulher velha demais. O mesmo vale para a protagonista. O cão é da raça errada, os móveis não combinam entre si, o figurino é surrado e, quando o café é servido, não sai nada do bule. Mas o drama se desenrola com o mesmo terror e piedade que se espera das produções mais magníficas". John Cheever, do conto "A Cômoda", traduzido por Daniel Galera.
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sexta-feira, 4 de março de 2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
(do Livro dos Cacos)
A lâmina enferrujada do olhar dele me atravessou enquanto eu me repartia em cenas.
(...)
Caio Fernando Abreu:
“Ou de novo como se seus olhos, os olhos escuros de Santiago, um pouco pesados nos cantos, cílios densos, fossem câmaras cinematográficas com lentes capazes de aproximar ou afastar as imagens, tornando às vezes mais definido o primeiro plano, agora a brasa que tornava a subir, para empastar em cores foscas, misturadas, indefinidas, as formas do fundo, cortadas por alguma súbita cintilação, lâmina externa, ou liquefazer então os dedos, esmaecendo o formato, a brasa que descia, mão suspensa encontrando mão pousada, vagos, obscuros, ressaltando vibrante, dinâmicos, mastigava adjetivos como quindins, algum reflexo do semáforo no meiofio da sarjeta transbordante da água suja dos bueiros, esgotos. Tossiu, menos por vontade que por confusão, para afastar um pouco aquela, era feito uma vertigem? Era feito uma tontura, teria sido o vinho, as lentes meio embaçadas dos óculos, a fome, a chuva no parabrisa, o piano lentíssimo, nota por nota, cada dedo do pianista depositado em infinito cuidado sobre cada uma das teclas, a brasa despencava devagar na altura da outra mão, porque era sábado, tinham programado sair, ou todas essas coisas juntas, afinal, porque ele também estava bastante cansado de semanas e histórias e trabalhos e pessoas e.”
“Ou de novo como se seus olhos, os olhos escuros de Santiago, um pouco pesados nos cantos, cílios densos, fossem câmaras cinematográficas com lentes capazes de aproximar ou afastar as imagens, tornando às vezes mais definido o primeiro plano, agora a brasa que tornava a subir, para empastar em cores foscas, misturadas, indefinidas, as formas do fundo, cortadas por alguma súbita cintilação, lâmina externa, ou liquefazer então os dedos, esmaecendo o formato, a brasa que descia, mão suspensa encontrando mão pousada, vagos, obscuros, ressaltando vibrante, dinâmicos, mastigava adjetivos como quindins, algum reflexo do semáforo no meiofio da sarjeta transbordante da água suja dos bueiros, esgotos. Tossiu, menos por vontade que por confusão, para afastar um pouco aquela, era feito uma vertigem? Era feito uma tontura, teria sido o vinho, as lentes meio embaçadas dos óculos, a fome, a chuva no parabrisa, o piano lentíssimo, nota por nota, cada dedo do pianista depositado em infinito cuidado sobre cada uma das teclas, a brasa despencava devagar na altura da outra mão, porque era sábado, tinham programado sair, ou todas essas coisas juntas, afinal, porque ele também estava bastante cansado de semanas e histórias e trabalhos e pessoas e.”
sábado, 22 de janeiro de 2011
Rei Lear, Ato III
Cena I
(...)
Kent: Eu te conheço. Onde está o Rei?
Cavaleiro: Lutando com o furor dos elementos; ordena aos ventos que atirem a terra dentro do mar ou cubram o continente com ondas gigantescas para que as coisas mudem ou deixem de existir. Arranca os cabelos brancos que as rajadas violentas, numa raiva cega, apanham em sua fúria e reduzem a nada. Do seu desprezível mundo de homem ele se agiganta, escarnecendo das voltas e revoltas do combate entre a chuva e o vento. Numa noite assim, quando a ursa esfaimada, que amamenta os filhotes, prefere não sair da toca, e o leão e o lobo, com o estômago roído pela fome, preferem consevar o pêlo seco, ele corre com a cabeça descoberta, invocando o fim do mundo.
Cena II
(...)
Lear: Sopra, vento, até arrebentar tuas bochechas! Ruge, sopra! Cataratas e trombas do céu, jorrem torrentes até fazer submergir os campanários e afogar os galos de suas torres. Relâmpagos de enxofre, mais rápidos que o pensamento, precursores dos raios que estraçalham o carvalho, queimem minha cabeça branca. E tu, trovão que abala o universo, achata para sempre a grossa redondez do mundo! Quebra os moldes da natureza e destroi de uma vez por todas as sementes que geram a humanidade ingrata!
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Intervalo: Cazuza
Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
sábado, 14 de agosto de 2010
Parágrafos do dia
"Eu costumava achar fácil e mesmo engraçado mentir com tanta elaboração. Não acho mais. E imagino agora se não desenvolvi esse hábito pernicioso muito jovem, porque meus pais eram tão embaraçosos, e especialmente minha mãe, que era tão gorda que podia ser uma atração de circo. Eu descrevia meus pais bem mais bonitos do que eram de verdade, de modo que as pessoas que nada sabiam sobre eles não tivessem má impressão de mim.
E durante meu último ano no Vietnã, quando estava no setor de Informação Pública, achei tão natural quanto respirar dizer para a imprensa e para as novas tropas que desciam dos aviões e dos barcos que estávamos sem dúvida ganhando, e que o pessoal em casa devia estar feliz e orgulhoso por tudo de bom que fazíamos ali.
Aprendi a mentir assim no colégio".
Kurt Vonnegut, de Hócus-Pócus
E durante meu último ano no Vietnã, quando estava no setor de Informação Pública, achei tão natural quanto respirar dizer para a imprensa e para as novas tropas que desciam dos aviões e dos barcos que estávamos sem dúvida ganhando, e que o pessoal em casa devia estar feliz e orgulhoso por tudo de bom que fazíamos ali.
Aprendi a mentir assim no colégio".
Kurt Vonnegut, de Hócus-Pócus
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