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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Wilza Carla

Que descanse em paz, iluminada por um céu de estrelinhas de estrasse e purpurina, deitada em uma nuvem de marshmellow, sentada na banca de jurados do apocalipse e rodeada de uma legião de anjos-drag-queens...

domingo, 8 de maio de 2011

Dia a dia das mães

mamãe querida / mãe coragem / a mãe / virgem mãe / mamma áfrica / mãe de santo / mãe biológica / eu vi mamãe oxum na cachoeira / mãe cambinda / mãe loura do funk / nave-mãe / mater dolorosa / mãe terra / sierra madre / mãe solteira / mãe coruja / mãe de primeira viagem / eu matei minha mãe / mamãe eu quero mamar / mamãe passou açúcar em mim / coração da pobre mãezinha aos pés do altar / churrasquinho de mãe / mamãe faz cem anos / mãe só tem uma / filho da mãe / mãe de deus / mãe tiana / mãe do padre / mãe padece no paraíso / mãe d’água / mãe bipolar / mãe castradora / mamãe ursa / mãe celestial / mãe chata / mãe controladora / mãe coloca o filho contra o pai / mãe do noivo / mãe de cachorro também é mãe / mãe entrevada / madrasta / mãe devoradora / mãe é mãe só muda o endereço / mãe diante do trono / mãe durona / mãe eis teu filho / mãe entrega filho à polícia / mãe me desculpa / mãe fálica / mãe morta atrás da porta / mãe fake / mãe faz falta? / mãe galinha / pátria mãe gentil / mãe monstro / mãe guarde esse revólver pra mim / mãe hoje eu descobri que cresci / mãe joga bebê no rio / mãe judia / mãe leoa / mãe lua / mãe Ci / mãe me dá teu colo / mãe perdoa / mãe se arrepende de ter colocado o estrupício no mundo / mãe moderna / mãe natureza / mãe na zona / mãe nervosa / mãe nutriz / mãe preta / de mãe pra filha / língua mater / mãe perfeita / mãe pequena / mãe postiça / mãe posso usar sutiã? / mamãe sou gay / mãe quantas noites você perdeu / rainha mãe / mãe distante / mãe ruim / mãe seu filho vai voltar / mãe superprotetora / mãe tanta coisa aconteceu / mamãe tá dodói / mãe tirei 10 / mamãe acho eu estou ligeiramente grávida / mãe tu és a mais formosa / mãe universal / mãe vaca / mãe me dá um dinheiro aí / mãe virtual / mamãe botou um ovo / mamãe como eu nasci? / mamãe disse o álcool é o pior inimigo / mamãe gansa / mamãe mamãe não chore / mãe que trabalha fora / mamãe me plantou mamãe me regou / mamãe metralha / mamãe me faz um cafuné / mamãe os meus sapatinhos estão velhinhos de tanto dançar / mamãe quer que eu case / mamãe sabe tudo / mamãe traiu papai e fugiu / mãe esquizofrênica / mamãe você é a rainha e eu vou providenciar o castelo / mamãe virei um peixe / mamãe se liga / mamãe posso ir?

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Brasília 7

foto: Geraldo Vieira em www.henriquevieira@wordpress.com
Do vidro do carro ele olha. Espera, anseia enxergar o corpo, a pele branca do gigante-cidade deitado. O gigante-cidade que dorme à beira da água. Demora. Mas ele vê.

Dor, prazer, sentimentos que ele ainda não sabe exprimir. Pássaro grande demais, magro, desajeitado, estende as asas, o pescoço, o bico comprido no restrito da caixa torácica. Então ele canta.  O pássaro, o menino. Brado. Orgulho. Fibra. Arrojo. Palavras pomposas do hino sem sentido. O pássaro rompe. E adentra a cidade estendida por todos os ângulos da visão do menino.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Brasília 6

No meio do cerrado, o lago. Prata, cinza, sob o arco avançando, garça, asa refletida, ponte. Mãos se estendem, crescem, se revezam para alcançar a outra margem, metro a metro, bloco a bloco, concreto, madeira, aço, carne, olho projetado no além. No sempre.

Dentro. O sonho. O sono de ontem. De anteontem. Dos dias ininterruptos. Das noites a fio. O fio da serra. Lâmina. Dedos mutilados pela máquina. Sangue riscando vermelho nos veios do madeirame. Borrando o amarelo da lâmpada de 100 watts que ilumina o canteiro da obra. Tingindo a prata da água, escondida pelo escuro, abaixo. O concreto em torno. A casca de mármore branco. O outro.

Brasília 5 (CL)

Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. /.../ Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. - Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon ... /.../ Aqui o ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se. /.../ Em Brasília estão as crateras da Lua. - A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis. 
(CL, A Descoberta do Mundo)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Brasília 4


Luar sobre o branco dos mármores. Refletido nos espelhos de água. Nos vidros dos edifícios. Nas pupilas dilatadas dela. No ar. Que envolvia as coisas. As construções. Que transformava o próprio escuro da noite em escuro brilhante de sonho. E ela no meio do nada.

Sozinha. Punhal. Tirso. Taça. Salto. Sexo. Branco sobre os tecidos. Sobre a pele brilhante dela. Que estanca antes de desembestar. Graça. Ninfa. Parca. Pombagira.

Ela rodopia. Gargalha. Grita. Na calçada. No encontro de todas as direções. Dos pontos cardeais. De onde, de dia, os rumos saem. Para onde, de dia, tudo retorna. Não à noite. A madrugada era dela. A madrugada era ela.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Brasília 3

No meio do cerrado. Água turva, cinzenta, profunda. Artificial. Aliás, como todo o resto. Engolindo as margens. Cobrindo as árvores. Alargando as distâncias. Alastrando-se. Clepsidra marcando o subir lento do tempo.

Ele se deitou. Exausto. E ergueu, no sonho, paralelepípedos absurdos de granito, vidro e nuvens. Que flutuavam quase sem tocar o chão.

Então veio. Qualquer rumo que ele apontasse era a possibilidade. Qualquer gesto, a hipótese. Ele se apoderou dos vértices da rosa. Dois, quatro, mil braços e olhares traçando os quadrantes. Esquadrias de aço surgidas do respirar. Estirões de asfalto projetados das pontas dos dedos. Colares de lâmpadas brancas brilhantes estendidas do chão preto contra o ouro, o vermelho, o roxo, os verdes, os azuis do entardecer.

domingo, 17 de abril de 2011

Brasília 2

(a partir de foto de Marcel Gautherot)
Ela já o tinha visto. E escolhido. Quando ele segurou-lhe a mão, com força, na hora dos fogos, ela sentiu no toque a casca áspera dos troncos das árvores que entremeavam as construções. Dos frutos travosos que lhe brotariam das entranhas. Que povoariam aquele lugar de sonho.

Então ele apontou o céu. Onde os fogos explodiam. Esferas, rosáceas, frutos de mil cores brilhantes se dissolvendo em chuva de luz antes de tocar o chão, os prédios de curvas e retas brancas, a poeira vermelha escurecida pela noite. Ele e ela pulsavam, únicos, multiplicados no instante, na luz, no espaço infinito que se descortinava.

sábado, 16 de abril de 2011

Brasília 1


Ele desceu do caminhão e o que viu era muito além da sua compreensão. Ele soube. Tinha encontrado. Nada existia para ele a não ser as estruturas de ferro e de concreto contornadas por árvores retorcidas, erguidas sobre a poeira vermelha, riscando formas quase oníricas contra o céu vermelho. Sim, o sonho dele era ali.

Das mãos dele tudo se ergueria, tudo seria moldado. Das mãos dele e das mãos dos milhares de josés que desciam dos milhares de caminhões e se deixavam ficar ali, parados, os olhos bem abertos, os corações pulsando, adormecidos no sonho dentro do sonho dentro do sonho.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Releitura para purgação dos excessos carnavalescos

"Como São Marcos e Marcelino que (...) foram presos e atados a um tronco e tiveram os pés atravessados com pregos agudos; (...) os algozes lhes picaram as ilhargas com lanças; (...) Santo Etério, que foi degolado depois de aturar fogo e outros suplícios. E a paixão de São Félix, condenado à morte depois da tortura do cavalete (...) E os santos mártires Hipácio e André, que foram degolados mas antes tiveram suas barbas untadas com pez e queimadas, e seu couro cabeludo arrancado. E São Ponciano, da Sardenha, morto a cacetadas (...) E o bem-aventurado Calepódio, que foi degolado e teve seu corpo arrastado pela cidade (...) Os santos Nereu e Aquiles, que sofreram duríssimos açoites, passaram pelo suplício do cavalete e da fogueira (...) finalmente degolados. E mais Santa Corona que (...) foi dilacerada entre duas árvores (...) e por distensão dos membros. E São Simplício, traspassado por uma lança (...). E o bem-aventurado Isidoro que foi atirado dentro de um poço (...) Santa Dímpina, virgem e mártir, que foi degolada por ordem do próprio pai (...) E também Santa Restituta, colocada num barquinho cheio de pez e estopa, ao qual atearam fogo (...) São Dióscuro, a quem mandaram retirar as unhas e queimar as ilhargas com tochas acesas e que foi afinal queimado com lâminas candentes, antes de morrer. Ou o suplício de Santa Alexandra, afundada num charco, com uma pedra no pescoço. Ou Santa Ciríaca, atrozmente zurzida por açoites e lançada numa fogueira (...) E Santa Basila (...) trespassada por uma espada. E Santo Áquila, rasgado com pentes de ferro (...) São Basilisco, a quem lançaram botins de ferro cravejados de pontas candentes e por fim decapitaram e jogaram num rio. E Santa Cointa (...) arrastada com cordas pela cidade, até que seu corpo ficou todo em pedaços. (...) São Tarcísio que, ainda criança, (...) agredido com paus e pedras até morrer. (...) São Sebastião (...) amarrado e flechado por seus próprios soldados e afinal espancado até morrer. (...) E tantos Santos Mártires anônimos, como aqueles da Capadócia, que sucumbiram com as pernas quebradas (...) e outros da Mesopotâmia, suspensos com os pés para cima e a cabeça para baixo, asfixiados com fumaça e queimados em fogo lento." João Silvério Trevisan, Em Nome do Desejo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Órfã


Era uma vez uma órfã. Coitada. Quase meia-noite. Da noite de natal. A órfã vendia fósforos no semáforo. Chovia, trovoava, relampejava, ventava, nevava e a órfã lá, oferecendo fósforos para janelas de vidro espelhado fechadas. A órfã vestia um short velho e uma camiseta rasgada. Até àquela hora a órfã ainda não tinha vendido nem uma caixa sequer. Nem uma moeda de esmola. A órfã tinha tremia de frio e de fome. Tinha saído cedo do abrigo. Sem nada pra forrar o estômago. A não ser o pedaço de coxinha que a mulher do Pajero jogou pela janela antes do semáforo abrir.
A órfã achava lindas as luzes, tos enfeites de natal da cidade. Pensava que o trenó cheio de presentes de Papai Noel ia se despregar da fachada do shopping, dar um loop no céu, parar no sinal vermelho e Papai Noel comprar logo um pacote de caixas de fósforos, o estoque todo escondido no bueiro. Ou então mandar a órfã subir no trenó, abrir a cesta de piquenique e oferecer um pedaço de panetone, um copo de fanta-uva e sobremesa de pêssego em calda.

Mas não. Naquela hora só tinha na rua os carros com os vidros fechados e os meninos de rua. Dormindo debaixo de caixas de papelão.
A órfã não perdia as esperanças. Papai Noel não tinha vindo porque estava ocupado demais distribuindo os presentes das criancinhas. Podia voltar então a fada madrinha, a mulher da coxinha da Pajero. Podia voltar e abrir um pouquinho mais o vidro, só pra órfã ver melhor o rosto dela, os cabelos louros presos pela tiara de diamantes, a vara de condão largada no banco do passageiro, o vestido de fofo de tule atrapalhando passar a marcha, as fitas desamarradas da sandalhinha embaraçada no pedal da embreagem, a nuvem de perfume de desodorante dos bancos de couro, ouvir a música de sininhos, harpas e vozes de anjos do rádio.

O movimento dos carros tinha diminuído. A órfã sentou-se no meio-fio, sobre a neve, molhada de chuva, assustada com os trovões, os cabelos pingando, os olhinhos brilhando com o reflexo dos raios. Riscou um fósforo para aquecer as mãozinhas enregeladas. O fósforo apagou-se com o vento, com a chuva. Outro. Mais outro. Até acabar a caixa. O pacote que Papai Noel não quis comprar. O resto do estoque do atravessador, escondido no bueiro.

A órfã ficou triste. Chorou. Logo que saíam as lágrimas viravam gelo dos olhos. Sentia saudade da mãe, dos dez irmãozinhos espalhados pelos orfanatos do mundo. Junto com a lágrima, um brilho de luz azul surgiu na frente dela e começou a aumentar, aumentar, e envolveu a órfã. Era uma luz quentinha, amolecia o corpo, dava sono, preguiça, vontade de deitar na neve de algodão, fofinho, quente, ninho, colo, pele do casaco do papai Noel. A luz dos farois de uma Pajero.

Noite feliz

Enquanto papai não chegava com o frango Huguinho contava histórias pra enganar a fome de Zezinho e Luizinho.

Missa do galo

O melhor aluno do catecismo. Conhecia os patriarcas, Sara, o reis Davi e Salomão, a Arca de Noé. Deus era um triângulo enfiado no meio da nuvem exalando raios desenhados com lápis-de-cor. Além disso, voz de sabiá.

O sonho era cantar. Na igreja.

Não prestou atenção ao recado da professora. Coral na missa das crianças, às 10. Do dia 25.

Camisolão cor-de-rosa, auréola de arame polvilhada de purpurina, asa de pena de pato. Às vésperas, na missa do galo, na porta da igreja, procurando.

A professora? o resto das crianças? Ninguém. Huguinho anjo solitário, anjo deslocado, anjo frustrado, anjo derrubado.
 

Olhos inchados de sono e choro, no colo do pai, ouvindo as 12 badaladas da meia-noite.

Reis magos


6 meses desempregado. Sem dinheiro nem para o frango, a mirinda da ceia. Imagina para a bike do Júnior? Culpado, fracassado, frouxo. Colocar filho no mundo pra quê? Barrado pelo segurança. Bêbado na porta do shopping. Bicicleta velha amarrada no poste, cadeado de segredo fácil, vapt-vupt, não faria falta ao dono. Só não viu o segurança, o polícia, de butuca ligada. Pego no flagra. Com a boca na botija. Com o cadeado mole na mão. Choveu porrada, ladrão, safado, vagabundo. Emborcado no canto escuro, a boca sangrando, todo quebrado, enxergava um pedaço do rabo da estrela-guia piscando verde, vermelho, azul, na direção da estrada de Belém.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ceia

O que Huguinho mais gostava no natal?
Juntar limo com mãinha pra enfeitar a lapinha.
O que menos gostava?
De saber que painho tinha bebido com o dinheiro do frango assado e da mirinda.

Primogênito

Painho, desculpa, pode parar de bater no Zezinho. Fui eu quem tirou o dinheiro da sua carteira pra comprar o vestidinho da Barbie.

Primeiro natal sem mamãe

O câncer corroeu ela todinha por dentro. Coitada, morreu seca como um pardalzinho. Justo na noite de natal. Por isso papai começou a beber.

Neve e vinil

- Mãe, põe o disquinho de novo?
Deitado de olhos fechados Huguinho imaginava a neve acumulada nas torres do castelo e o baile no salão iluminado e a orquestra e o príncipe vestido de branco e galões dourados se aproximava e o convidava para a próxima dança.