Libar é um verbo estranho. Relacionado ao sentido do sagrado. Eu libo, tu libas, ele liba, nós libamos, vós libais, eles libam.
Eu libo à insônia e à sonolência. À macarronada, ao churrasco e ao vegetarianismo. À orgia e ao celibato. Ao sábado de sol e chuva. Ao domingo de tédio. À segunda-feira de desesepero.
Ao doido Lear que me habita. Libo aos bobos vitoriosos e bobos derrotados. Aos momentos felizes e à insatisfação em cada hora, cada minuto, cada instante do dia. Ao lírico e ao ridículo. À pompa e à circunstância. Ao compromisso e ao desleixo. Ao sério e ao excesso. Ao desespero de ser. À integridade inata e ao politicamente correto.
Também libo aos mortos em geral. Aos mortos que povoam o sono e a vigília. Aos mortos que viverão na memória. Aos mortos que, mais cedo do que tarde, serão esquecidos. Aos mortos que insistem em permanecer vivos. Aos mortos que dançam sob a chuva do entadecer. Aos mortos insepultos. Aos que morrem dormindo. Aos mortos ressuscitados que padeceram e voltarão no terceiro dia.
Eu libo às aberrações e aos amores fugazes. Às emoções, os sentimentos e sensações. Aos plantonistas e aos coveiros. Ao haver e ao dever dos contadores. Ao fluxo menstrual das vendedoras de cremes rejuvenescedores. Às floristas. A todos aqueles que convivem com a Inevitável.
Eu libo aos sufocamentos e às transcendências. À superação do ser e à submissão do espírito. Ao funâmbulo que despenca da corda bamba estendida entre os décimos-segundos andares de dois edifícios do Centro.
Eu libo às danças: ao tango e à doença de São Guido. Aos atores e aos impostores. Eu libo às divas e aos canastrões acometidos do mal de alzhaimer. Às prostitutas blenorrágicas e aos poetas clássicos. Aos romances vividos ou escritos. Aos contos de terror inacabados. Às personagens secundárias e aos protagonistas mal-amados.
Voltando ao início, eu libo a Dionisos. Ao sol, à chuva. À vida em geral. À escuridão da noite. Ao cinzento da madrugada. Sucedida, sempre, da claridade dos dias.
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domingo, 18 de novembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
a filha
Eu não sei mais o que fazer com papai. Tenho notado, há algum tempo. Algo muito esquisito no comportamento dele. Nunca dei bola, sei lá, coisas da idade, afinal, mesmo com toda a saúde e lucidez, aos 90 um deslize ou outro é natural.
Mas ontem ele extrapolou. Inventou de sair. A pé, ainda por cima. Papai, onde o senhor vai com essa chuva? Ofendeu-se. Não devia satisfações a ninguém. Deixei ir. Não iria longe, teria medo, os vizinhos o conhecem, voltaria com os primeiros pingos de chuva.
Quem disse? 9, 10, 11, meia-noite e nada dele voltar. As manas? Não estão nem aí. Muito pelo contrário. Só digo pra você: elas mal se aguentam de esperar papai bater as botas para meter a mão no que sobrou da herança.
Deixa pra lá. A chuva caiu daquele jeito que você viu. Nada dele voltar. Liguei para as manas. Só caía na caixa postal de uma e da outra. Liguei para a polícia. Mandaram ligar para o Samu. De manhã trouxeram ele. Enxarcado. Tremendo de frio.
Totalmente fora de si. Doido mesmo. Eu nunca tinha visto papai daquele jeito. Eu fui abarçar, limpar a lama do cabelo dele, enrolar um cobertor. Ele me empurrou. Me xingou, na frente dos bombeiros. Me chamou de falsa, interesseira, solteirona mal-amada. Disse para eu ajuntar os meus trapos e sair da casa dele. Me expulsou!
Eu não aguentei! Será que ele não reconhece que eu sou a única que me preocupo? Que as manas paparicam ele pelo telefone, ou quando aparecem, de quinze em quinze dias, quarenta minutos no máximo? Que por mais de 5 anos eu vivo 24 horas da minha vida exclusivamente para ele? Sopinha, remedinho, roupinha lavada, fisioterapia, geriatra, nutricionista, psicólogo, caminhada, resultado de exame, tudo eu providenciando, tudo eu agendando, tudo eu anotando, lembrando, cuidando, a tempo e a hora?
Só digo isso pra você, deus me livre, mas tem hora que eu penso em jogar tudo pra cima, dar uma de doida, largar de mão, assinar a tal declaração, viver a minha vida, deixar um pouco do peso e da responsabilidade por conta das manas.
Mas eu tenho certeza, aquelas duas, com os canalhas e dos cunhados, na mesma hora internariam papai no asilo. Papai vai ser mais bem cuidado lá. Médico e enfermeiros de plantão, tevê em cada quarto. A primeira coisa que fariam era vender a casa e os terrenos. Com o dinheiro da aposentadoria, não tem como elas meterem a mão, alugariam uma kit. Largariam papai lá sozinho, com uma empregada sem a mínima condição de cuidar dele.
Monstruoso? pois eu já ouvi da própria boca delas. A gente vem todo dia pra fiscalizar, fazer mercado, dar uma assistência, disseram. Claro que "a gente" será a solteirona, a mal-amada, a feiosa aqui. Mas sabe de uma coisa? Eu prefiro. Acho que eu sou daquelas que ainda vai sofrer muito antes de encontrar a felicidade.
Mais 4, 5, 10 anos? Não, eu não quero que papai morra. Mas não se pode fingir que a realidade existe. Só espero que seja de repente, sem dor, sem sofrimento, sem dar trabalho. Mas você sabe, eu vou cuidar dele até o fim. Mesmo ele me magoando. Mesmo ele me olhando daquele jeito esquisito. É, talvez demore, mas eu vou sair desse sufoco.
E você, tudo bem?
Mas ontem ele extrapolou. Inventou de sair. A pé, ainda por cima. Papai, onde o senhor vai com essa chuva? Ofendeu-se. Não devia satisfações a ninguém. Deixei ir. Não iria longe, teria medo, os vizinhos o conhecem, voltaria com os primeiros pingos de chuva.
Quem disse? 9, 10, 11, meia-noite e nada dele voltar. As manas? Não estão nem aí. Muito pelo contrário. Só digo pra você: elas mal se aguentam de esperar papai bater as botas para meter a mão no que sobrou da herança.
Deixa pra lá. A chuva caiu daquele jeito que você viu. Nada dele voltar. Liguei para as manas. Só caía na caixa postal de uma e da outra. Liguei para a polícia. Mandaram ligar para o Samu. De manhã trouxeram ele. Enxarcado. Tremendo de frio.
Totalmente fora de si. Doido mesmo. Eu nunca tinha visto papai daquele jeito. Eu fui abarçar, limpar a lama do cabelo dele, enrolar um cobertor. Ele me empurrou. Me xingou, na frente dos bombeiros. Me chamou de falsa, interesseira, solteirona mal-amada. Disse para eu ajuntar os meus trapos e sair da casa dele. Me expulsou!
Eu não aguentei! Será que ele não reconhece que eu sou a única que me preocupo? Que as manas paparicam ele pelo telefone, ou quando aparecem, de quinze em quinze dias, quarenta minutos no máximo? Que por mais de 5 anos eu vivo 24 horas da minha vida exclusivamente para ele? Sopinha, remedinho, roupinha lavada, fisioterapia, geriatra, nutricionista, psicólogo, caminhada, resultado de exame, tudo eu providenciando, tudo eu agendando, tudo eu anotando, lembrando, cuidando, a tempo e a hora?
Só digo isso pra você, deus me livre, mas tem hora que eu penso em jogar tudo pra cima, dar uma de doida, largar de mão, assinar a tal declaração, viver a minha vida, deixar um pouco do peso e da responsabilidade por conta das manas.
Mas eu tenho certeza, aquelas duas, com os canalhas e dos cunhados, na mesma hora internariam papai no asilo. Papai vai ser mais bem cuidado lá. Médico e enfermeiros de plantão, tevê em cada quarto. A primeira coisa que fariam era vender a casa e os terrenos. Com o dinheiro da aposentadoria, não tem como elas meterem a mão, alugariam uma kit. Largariam papai lá sozinho, com uma empregada sem a mínima condição de cuidar dele.
Monstruoso? pois eu já ouvi da própria boca delas. A gente vem todo dia pra fiscalizar, fazer mercado, dar uma assistência, disseram. Claro que "a gente" será a solteirona, a mal-amada, a feiosa aqui. Mas sabe de uma coisa? Eu prefiro. Acho que eu sou daquelas que ainda vai sofrer muito antes de encontrar a felicidade.
Mais 4, 5, 10 anos? Não, eu não quero que papai morra. Mas não se pode fingir que a realidade existe. Só espero que seja de repente, sem dor, sem sofrimento, sem dar trabalho. Mas você sabe, eu vou cuidar dele até o fim. Mesmo ele me magoando. Mesmo ele me olhando daquele jeito esquisito. É, talvez demore, mas eu vou sair desse sufoco.
E você, tudo bem?
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
a idade e o herói
Saio de casa cada vez menos. Para o almoço no self-service, quando acabam-se os provimentos da despensa; para visitar o amigo doente, tão velho quanto eu; para comprar pilhas da lanterna e ração para os gatos que de vez em quando surgem e se instalam no vão entre o forro e as telhas.
Por recomendação médica, tomo o primeiro sol da manhã. Aboletado na janela que dá para o pátio. Sempre me esqueço das vitaminas e do horário dos remédios que, no máximo, prolongarão por meia década, se calhar uma inteira, esse meu vegetar.
Não que o pejorativo me incomode, vegetar. Pois eu invejo o existir lentíssimo das árvores. Quase como se crescessem para dentro. Quase que imóveis, imobilizadas, não fossem os ciclos, os tantos verões e outonos. Ou as brisas e as ventanias do dia-a-dia.
Pois que eu ando dado a lirismos. Isso, agora, tão inusitado, inadequado. Na contra-mão da nostálgica força, clareza e objetividade de uma época acabada e que não volta mais. São, sem dúvida, os efeitos colaterais da idade.
Tenho alguns pavores meio secretos: ao telefone e ao barulho dos carros. Aos bêbados. Às ratazanas. Às lembranças de família. Aos padres, pastores e guias espirituais em geral. Aos cumprimentos, aos bons-dias e boas-noites de gente desconhecida.
Gosto de caminhar de madrugada. De preferência depois da chuva. Para ouvir os silêncios intercalados aos latidos dos cães. Para sentir o cheiro de limo do escuro. Para sentir o frio, a umidade subir em ondas, pelo solado da botina, como uma seiva, e se misturar com o calor e o suor do esforço.
Depois eu volto para casa. Engulo com um copo d'água os comprimidos da noite e durmo em seguida. Não, eu não me lembro mais da noite em que deixei de sonhar.
Por recomendação médica, tomo o primeiro sol da manhã. Aboletado na janela que dá para o pátio. Sempre me esqueço das vitaminas e do horário dos remédios que, no máximo, prolongarão por meia década, se calhar uma inteira, esse meu vegetar.
Não que o pejorativo me incomode, vegetar. Pois eu invejo o existir lentíssimo das árvores. Quase como se crescessem para dentro. Quase que imóveis, imobilizadas, não fossem os ciclos, os tantos verões e outonos. Ou as brisas e as ventanias do dia-a-dia.
Pois que eu ando dado a lirismos. Isso, agora, tão inusitado, inadequado. Na contra-mão da nostálgica força, clareza e objetividade de uma época acabada e que não volta mais. São, sem dúvida, os efeitos colaterais da idade.
Tenho alguns pavores meio secretos: ao telefone e ao barulho dos carros. Aos bêbados. Às ratazanas. Às lembranças de família. Aos padres, pastores e guias espirituais em geral. Aos cumprimentos, aos bons-dias e boas-noites de gente desconhecida.
Gosto de caminhar de madrugada. De preferência depois da chuva. Para ouvir os silêncios intercalados aos latidos dos cães. Para sentir o cheiro de limo do escuro. Para sentir o frio, a umidade subir em ondas, pelo solado da botina, como uma seiva, e se misturar com o calor e o suor do esforço.
Depois eu volto para casa. Engulo com um copo d'água os comprimidos da noite e durmo em seguida. Não, eu não me lembro mais da noite em que deixei de sonhar.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
planos para o futuro do herói
Hoje encomendei creme rejuvenescedor e tênis de corrida pela internet. Durante o almoço (risoto, salada crua e iscas de fígado grelhadas) tratei de investir uns caraminguás para garantir as incertezas do futuro. Desisti da sobremesa por causa das taxas de colesterol. Nesse aspecto não sou modesto: aprendi a cuidar da saúde e levo jeito para administrar rendimentos.
Calculei, por alto, os riscos da aplicação. Gastei o resto da tarde em planear o futuro para além do corriqueiro: as mudas exóticas que verei crescer no jardim; a ampliação dos horizontes físicos e mentais por meio da ioga, alimentação equilibrada e caminhadas; as características físicas, morais, psicológicas e a idade da mulher que escolhi para avó dos meus netos; que não morrerei de ataque cardíaco fulminante como meus parentes nem dessas doenças degenerativas anuladoras do ego e das vontades do indivíduo.
Por falar em cultura, estou dividido: adquirir, num sebo, os 15 volumes encadernados da Obra Completa de Machado (edição de luxo, encadernação em couro, folhas amareladas pelo tempo) pelo metade do preço de uma tevê de alta resolução que vi em promoção no shopping. Os livros, duvido lê-los todos antes do fim da próxima década. A tevê, ao contrário, encherá a sala de vida em volume alto até o fim da garantia estendida. Serei um intelectual medíocre ou um espírito aberto às variadas e nem sempre elevadas manifestações humanas?
Calculei, por alto, os riscos da aplicação. Gastei o resto da tarde em planear o futuro para além do corriqueiro: as mudas exóticas que verei crescer no jardim; a ampliação dos horizontes físicos e mentais por meio da ioga, alimentação equilibrada e caminhadas; as características físicas, morais, psicológicas e a idade da mulher que escolhi para avó dos meus netos; que não morrerei de ataque cardíaco fulminante como meus parentes nem dessas doenças degenerativas anuladoras do ego e das vontades do indivíduo.
Por falar em cultura, estou dividido: adquirir, num sebo, os 15 volumes encadernados da Obra Completa de Machado (edição de luxo, encadernação em couro, folhas amareladas pelo tempo) pelo metade do preço de uma tevê de alta resolução que vi em promoção no shopping. Os livros, duvido lê-los todos antes do fim da próxima década. A tevê, ao contrário, encherá a sala de vida em volume alto até o fim da garantia estendida. Serei um intelectual medíocre ou um espírito aberto às variadas e nem sempre elevadas manifestações humanas?
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
bucólica
Acordo com a claridade atravessando o vidro da janela. Com o barulho dos pássaros. Com o canto do galo desregulado do vizinho. Com a chuva fina pingando nas calhas, nas folhas, na grama. Esfrego os olhos para tirar a poeira e a umidade dos sonhos.
O cão ainda ressona. A gata sobe na cama enquanto afofo os travesseiros e dobro o cobertor. A lâmpada acesa durante a noite na varanda (para afugentar ladrões) só serve para atrair milhares de besouros, pequenos, feios, cinzentos, desnecessários, desemborcados, espalhados pelo chão.
Para além do vidro, tomateiros a disputar terreno nos vasos de espadas-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode. Ramas de hortelã nas frestas da calçada. O pomar: jabuticabas coladas ao tronco, como olhinhos sem piscar. Acerolas que já sobram, pontilhando o chão de vermelho. O pé de tangerina, só flores brancas. A bananeira que cresceu pelo menos um palmo desde a última chuva. Ramos raquíticos de hera subindo pelo reboco. Depois do muro, a mancha verde-escura do mato e das árvores do parque. Mais longe ainda, nos intervalos do mato, a água que começa a pratear.
Ligo o rádio, nas notícias. Varro os besouros da varanda. Coloco comida e troco a água do cão e da gata. O cheiro de café, de pão quente e manteiga derretida exala pela casa. Seguro a caneca com as duas mãos e penso, cada vez mais distante, cada vez mais fraco, cada vez menos dolorido: um dia houve angústia, insatisfação e ânsia com o desejo da tua presença.
O cão ainda ressona. A gata sobe na cama enquanto afofo os travesseiros e dobro o cobertor. A lâmpada acesa durante a noite na varanda (para afugentar ladrões) só serve para atrair milhares de besouros, pequenos, feios, cinzentos, desnecessários, desemborcados, espalhados pelo chão.
Para além do vidro, tomateiros a disputar terreno nos vasos de espadas-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode. Ramas de hortelã nas frestas da calçada. O pomar: jabuticabas coladas ao tronco, como olhinhos sem piscar. Acerolas que já sobram, pontilhando o chão de vermelho. O pé de tangerina, só flores brancas. A bananeira que cresceu pelo menos um palmo desde a última chuva. Ramos raquíticos de hera subindo pelo reboco. Depois do muro, a mancha verde-escura do mato e das árvores do parque. Mais longe ainda, nos intervalos do mato, a água que começa a pratear.
Ligo o rádio, nas notícias. Varro os besouros da varanda. Coloco comida e troco a água do cão e da gata. O cheiro de café, de pão quente e manteiga derretida exala pela casa. Seguro a caneca com as duas mãos e penso, cada vez mais distante, cada vez mais fraco, cada vez menos dolorido: um dia houve angústia, insatisfação e ânsia com o desejo da tua presença.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
desabafo
você sabe tudo, você tem opinião sobre tudo, você conhece tudo, onde comprar barato cerveja importada, onde encontrar endívias, como cozinhar arroz arbóreo, qual a melhor época para viajar de carro pelo sul da França, como escolher um bom restaurante em São Paulo, quais as praias mais bonitas do Nordeste, os nomes dos vinhos a se comprar em Portugal,
tudo tem defeito pra você, de tudo você reclama, encontra problema, o engarrafamento pela má engenharia de trânsito, o débito automático da conta da operadora de telefonia, o tempero da comida do restaurante self-service, o atraso da faxineira, a fedentina do banheiro masculino, a greve da polícia federal, a irresponsabilidade do teu chefe,
eu queria tapar os ouvidos para não escutar a tua dicção quase perfeita, a tua articulação mastigada das frases, a tua pronúncia como se esfarelasse as vibrantes, eu queria não enxergar as tuas expressões faciais, tua sobrancelha arqueada ao perguntar sem interesse, sem ouvir a resposta, a tua insistência em olhar nos olhos, os teus gestos de mãos, a tua mania de girar a aliança no dedo,
eu daria tudo pra não ouvir a humildade falsa dos teus auto-elogios, a tua empáfia dissimulada, em ressaltar que tudo teu - os teus pensamentos, as tuas convicções, a tua moral, a tua formação, a tua família, as tuas ironias politicamente corretas, o teu bairro, o teu carro, o teu modo de vida - são os melhores, os mais corretos, os mais honestos, limpos, intensos e profundos,
eu não quero mais ouvir o teu tom condescendente para, como quem não quer nada, apontar nos outros qualidades que você não enxerga em mim, a minha inabilidade para organizar a casa, a estreiteza dos meus pontos de vista, os meus objetivos tímidos de professora, a minha insegurança na criação dos meninos, a minha origem, a minha paixão ridícula pelas plantas, o meu comodismo, a minha indisposição para o novo, o incerto, a aventura, o desconhecido,
eu queria poder colar com esparadrapo a tua boca, furar a carne do teu braço, até o osso, com a agulha desse catéter, lábios ressecados de sede, te deixar mijado e cagado e assado, esfregar gaze até tua virilha ficar em carne viva,
eu queria poder rir dos teus balbucios, do teu olhar perdido que graças a deus não intimida mais o meu, te fazer saber que a cama automática é importada, que estamos hospedados no melhor quarto do hospital, que o médico que te acompanha é o mais conceituado, que o teu plano de saúde é o mais caro e que apesar da minha incompetência, o nosso casamento ainda está valendo, eu estarei aqui, ao teu lado, sempre, até no último fiapo da tua lembrança, no último resquício do teu raciocínio, no último espasmo, eu estarei aqui, ao teu lado, até que ela venha e finalmente nos separe.
tudo tem defeito pra você, de tudo você reclama, encontra problema, o engarrafamento pela má engenharia de trânsito, o débito automático da conta da operadora de telefonia, o tempero da comida do restaurante self-service, o atraso da faxineira, a fedentina do banheiro masculino, a greve da polícia federal, a irresponsabilidade do teu chefe,
eu queria tapar os ouvidos para não escutar a tua dicção quase perfeita, a tua articulação mastigada das frases, a tua pronúncia como se esfarelasse as vibrantes, eu queria não enxergar as tuas expressões faciais, tua sobrancelha arqueada ao perguntar sem interesse, sem ouvir a resposta, a tua insistência em olhar nos olhos, os teus gestos de mãos, a tua mania de girar a aliança no dedo,
eu daria tudo pra não ouvir a humildade falsa dos teus auto-elogios, a tua empáfia dissimulada, em ressaltar que tudo teu - os teus pensamentos, as tuas convicções, a tua moral, a tua formação, a tua família, as tuas ironias politicamente corretas, o teu bairro, o teu carro, o teu modo de vida - são os melhores, os mais corretos, os mais honestos, limpos, intensos e profundos,
eu não quero mais ouvir o teu tom condescendente para, como quem não quer nada, apontar nos outros qualidades que você não enxerga em mim, a minha inabilidade para organizar a casa, a estreiteza dos meus pontos de vista, os meus objetivos tímidos de professora, a minha insegurança na criação dos meninos, a minha origem, a minha paixão ridícula pelas plantas, o meu comodismo, a minha indisposição para o novo, o incerto, a aventura, o desconhecido,
eu queria poder colar com esparadrapo a tua boca, furar a carne do teu braço, até o osso, com a agulha desse catéter, lábios ressecados de sede, te deixar mijado e cagado e assado, esfregar gaze até tua virilha ficar em carne viva,
eu queria poder rir dos teus balbucios, do teu olhar perdido que graças a deus não intimida mais o meu, te fazer saber que a cama automática é importada, que estamos hospedados no melhor quarto do hospital, que o médico que te acompanha é o mais conceituado, que o teu plano de saúde é o mais caro e que apesar da minha incompetência, o nosso casamento ainda está valendo, eu estarei aqui, ao teu lado, sempre, até no último fiapo da tua lembrança, no último resquício do teu raciocínio, no último espasmo, eu estarei aqui, ao teu lado, até que ela venha e finalmente nos separe.
estratégias, promessas & sonoridades explosivas
Estratégias para sobreviver aos dias chuvosos da existência: Elaborar listas para intitular o inominável. Enxergar invisibilidades. Sincronizar os mundos interior & exterior. Hierarquizar a intensidade das reações. Compatibilizar os impulsos vitais com os universos paralelos. Ler leituras imprescindíveis & descobrir revelações ao acaso. Ouvir música. Para não sucumbir à inércia. Para não se perder entre o excesso ou a ausência de nortes que a rosa-dos-ventos aponta.
...
Para ler em voz alta em momentos de pânico: Ilha. Marmelo. Sansão. Mingau. Catatau. Teobaldo. York. Peba. Tembé. Tupã. Valdick. Jerimum. Oberon. Barney. Guarani. Machado. Argólida. Chuvisco. Perfume. Retaliação. Trombose. Flatulência. Odisseu. Banana. Bomba. Cabrum!
...
Promessas 1: Evitarei a companhia de heróis estúpidos & musculosos. Repudiarei a ira & a volubilidade dos deuses. Resistirei ao leito de semideuses inseguros & convencidos. Impedirei o assédio das ninfas obstinadas & obcecadas. Esquivar-me-ei dos malabarismos & das safadezas do destino. Medirei com mais rigor o comprimento & espessura & qualidade do material cardado pelas moiras.
...
Promessas 2: A partir de hoje evitarei adjetivos aos pares. Mesclarei terceiras pessoas do singular ao discurso indireto livre. Narrarei histórias com personagens críveis & começo-meio-fim. Evitarei neologismos & estereótipos & provérbios populares & construções pernósticas & sonoridades fáceis. Cuidarei das figuras de linguagem & de estilo como se fossem sangue de meu sangue. Renegarei elogios & crescerei com críticas & julgamentos.
...
Para ler em voz alta em momentos de pânico: Ilha. Marmelo. Sansão. Mingau. Catatau. Teobaldo. York. Peba. Tembé. Tupã. Valdick. Jerimum. Oberon. Barney. Guarani. Machado. Argólida. Chuvisco. Perfume. Retaliação. Trombose. Flatulência. Odisseu. Banana. Bomba. Cabrum!
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Promessas 1: Evitarei a companhia de heróis estúpidos & musculosos. Repudiarei a ira & a volubilidade dos deuses. Resistirei ao leito de semideuses inseguros & convencidos. Impedirei o assédio das ninfas obstinadas & obcecadas. Esquivar-me-ei dos malabarismos & das safadezas do destino. Medirei com mais rigor o comprimento & espessura & qualidade do material cardado pelas moiras.
...
Promessas 2: A partir de hoje evitarei adjetivos aos pares. Mesclarei terceiras pessoas do singular ao discurso indireto livre. Narrarei histórias com personagens críveis & começo-meio-fim. Evitarei neologismos & estereótipos & provérbios populares & construções pernósticas & sonoridades fáceis. Cuidarei das figuras de linguagem & de estilo como se fossem sangue de meu sangue. Renegarei elogios & crescerei com críticas & julgamentos.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
novela
Nos primeiros capítulos, entre eles tudo era amores: jantares, presentes, olhares, flores, resorts, suítes de motel, luar e até um ciumento dia dos namorados.
Lá pela metade, os capítulos se espicharam e a paixão arrefeceu. Vieram os primeiros deslizes, as mentirinhas, as omissões e os mil vezes malditos telefonemas e mensagens sem retorno.
Na reta final, forjou-se a separação. Com expectativa de reconciliação. Para recuperar os índices de audiência.
No entanto, a última semana foi um fracasso. Apesar dos segredos bombásticos revelados (as maldades da malvada, a filha bastarda, a morte do bom moço, a operação para mudar de sexo, o golpe do baú, a bancarrota, o julgamento do inocente, etcétera) - apesar de tudo, a reconciliação prometida não aconteceu.
O fim chocho foi cada um para o seu lado. Sem festa, sem buquê, sem apoteose. Na última cena, em seu apartamento penumbroso, um ligava para o outro. O outro, à beira da piscina, só risos, música alta e gente bonita em volta. Olhava o mostrador do aparelho. Sorria um sorriso de escárnio. Deixava tocar até a bateria acabar.
O que tinha ligado olhava para a câmera. Como se dos pulsos cortados fosse esguichar no telespectador a falta de sentido de toda a dor, todo o sofrimento imputados e acumulados, capítulo a capítulo, até as cenas da próxima novela.
Lá pela metade, os capítulos se espicharam e a paixão arrefeceu. Vieram os primeiros deslizes, as mentirinhas, as omissões e os mil vezes malditos telefonemas e mensagens sem retorno.
Na reta final, forjou-se a separação. Com expectativa de reconciliação. Para recuperar os índices de audiência.
No entanto, a última semana foi um fracasso. Apesar dos segredos bombásticos revelados (as maldades da malvada, a filha bastarda, a morte do bom moço, a operação para mudar de sexo, o golpe do baú, a bancarrota, o julgamento do inocente, etcétera) - apesar de tudo, a reconciliação prometida não aconteceu.
O fim chocho foi cada um para o seu lado. Sem festa, sem buquê, sem apoteose. Na última cena, em seu apartamento penumbroso, um ligava para o outro. O outro, à beira da piscina, só risos, música alta e gente bonita em volta. Olhava o mostrador do aparelho. Sorria um sorriso de escárnio. Deixava tocar até a bateria acabar.
O que tinha ligado olhava para a câmera. Como se dos pulsos cortados fosse esguichar no telespectador a falta de sentido de toda a dor, todo o sofrimento imputados e acumulados, capítulo a capítulo, até as cenas da próxima novela.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
diário
Chego bem cedo no trabalho. Para não ser obrigado a responder os bons dias e nem ouvir os comentários sobre a programação televisiva do final de semana.
Coloco os fones de ouvido e me isolo na tela do computador. Só ouvindo Etta
James para consertar o dia que mal começa.
Perdi o sono: dor-de-cabeça e câimbras noturnas que nunca
tive (sinais da idade). Estresse e pensamentos repetitivos. Lembrança, na
madrugada, de compromissos bobos. Sonhos com situações não resolvidas.
Marcas irreversíveis das eras: rugas nos cantos dos olhos;
pele-de-galinha nas mãos e pescoço; vísceras inchando por dentro; desejo e libido anulados. Nem glúteos bem proporcionados,
peitorais lisos na piscina, cortes de cabelo redesenhando pescoços – nada me
tira do sério.
Bloqueio criativo. Escrevo lasso. Leio: teoria literária, vaidades, Onetti. Resgatei, da adolescência, as maravlihosas Metamorfoses, de Ovídio.
Na internet eu me especializo em aberrações. Desde comentários preconceitosos de leitores de jornais on-line sobre crimes
e
assassinatos até banalidades da vida das celebridades. Recolho amostras dos absurdos que o ser humano é
capaz de fazer, pensar e se expressar.
Além disso, pesco exotismos. Ontem, li
sobre um santuário de gorilas, no coração da África. Trechos do diário de Sontag. Epigramas do velho Cioran. Hoje vi paisagens que simulam pinturas. E uma baleia a imitar a voz humana. Depois ouvi Jeff Buckley.
Preciso estudar inglês. Consertar o telhado da casa. Levar o cão ao veterinário. Cuidar das costas. Fazer acupuntura. Me inscrever no curso de gastronomia. Preparar o almoço da mamãe que faz 100 anos. Satisfazer instintos sublimados. Remodelar a construção das frases. Riscar pleonasmos. Maneirar nos clichês e nos vícios de linguagem. Preciso pedir ao doutor dose extra do elixir para suportar os dias que se acumulam.
Preciso estudar inglês. Consertar o telhado da casa. Levar o cão ao veterinário. Cuidar das costas. Fazer acupuntura. Me inscrever no curso de gastronomia. Preparar o almoço da mamãe que faz 100 anos. Satisfazer instintos sublimados. Remodelar a construção das frases. Riscar pleonasmos. Maneirar nos clichês e nos vícios de linguagem. Preciso pedir ao doutor dose extra do elixir para suportar os dias que se acumulam.
(trecho de carta-e-mail a uma amiga)
terça-feira, 23 de outubro de 2012
mitológicas
Hoje eu atravessei as horas como se carregasse às costas um saco de pedregulhos colina acima.
...
De tão entorpecido, servi iscas do meu fígado acebolado aos abutres, e nem doeu.
...
Te perdi para sempre ao me virar (para ter certeza que era mesmo você que me seguia), antes que cruzássemos a saída de serviço da mansão dos mortos.
...
De tão entorpecido, servi iscas do meu fígado acebolado aos abutres, e nem doeu.
...
Te perdi para sempre ao me virar (para ter certeza que era mesmo você que me seguia), antes que cruzássemos a saída de serviço da mansão dos mortos.
mitológicas
Hoje eu atravessei as horas como se carregasse às costas um saco de pedregulhos colina acima.
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De tão entorpecido, servi iscas do meu fígado acebolado aos abutres, e nem doeu.
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Te perdi para sempre ao me virar para ter certeza que era mesmo você, antes que cruzássemos a saída de serviço da mansão dos mortos.
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De tão entorpecido, servi iscas do meu fígado acebolado aos abutres, e nem doeu.
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Te perdi para sempre ao me virar para ter certeza que era mesmo você, antes que cruzássemos a saída de serviço da mansão dos mortos.
sábado, 20 de outubro de 2012
mitológicas
A trilha estreita divide: de um lado o paredão de pedra. Do outro, o abismo.
No rochedo há górgonas pousadas nas cavidades. Ansiosas para serem encaradas. Mas não será meu o coração que elas transformarão em pedra.
Do outro lado o vazio, a queda, o vento, o mergulho, o fundo, o mais fundo. E no fim o escuro e o barulho da arrebentação nos arrecifes. Por sorte tatuei um par de asas nas minhas omoplatas.
Fecho os olhos. Sigo em frente. Passos de sonâmbulo. Sentidos amortecidos pela impossibilidade. Pernas e os braços envenenados pelo medo. Guiado pelos fogos-fátuos até o cão de três cabeças que vigia as minhas incertezas.
No rochedo há górgonas pousadas nas cavidades. Ansiosas para serem encaradas. Mas não será meu o coração que elas transformarão em pedra.
Do outro lado o vazio, a queda, o vento, o mergulho, o fundo, o mais fundo. E no fim o escuro e o barulho da arrebentação nos arrecifes. Por sorte tatuei um par de asas nas minhas omoplatas.
Fecho os olhos. Sigo em frente. Passos de sonâmbulo. Sentidos amortecidos pela impossibilidade. Pernas e os braços envenenados pelo medo. Guiado pelos fogos-fátuos até o cão de três cabeças que vigia as minhas incertezas.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
ela (continuação)
Na maioria das vezes ela vinha depois que se apagavam as luzes: luminescência, quase impressão, sonho, somente, não fosse a coceira, a ardência, as erupções cutâneas dela consequentes, como já foi dito.
Mas também cabia de ela vir pelo cheiro. Era o aroma enjoativo dos jasmins e das damas-da-noite, obviamente noturnos, depois das luzes apagadas.
Em ocasiões raíssimas ela se manifestava durante o dia, no aroma que uma lufada repentina de vento fazia exalar da fileira de camélias plantadas na calçada até o refeitório, ao meio-dia. Também era ela quando os lençóis recém-trocados nas manhãs dos sábados, lavados com sabão ordinário, sem mais nem menos rescendiam a lavanda, quando, depois do almoço, nos recolhíamos para a sesta, e os amarotávamos com os pesos dos nossos corpos, ou os maculávamos com os cheiros do nosso suor, das salivas das nossas babas nas fronhas, dos nossos gozos, solitários ou clandestinamente compartilhados.
Ou ainda era ela no breu, no sândalo e na mirra que, sem mais nem menos, mesmo sendo a missa só às manhãs dos domingos, invadia o dormitório, e antecipava o pecado, ou a culpa decorrente dele, da transgressão, a condenação, o padecer e a absolvição - a mão gosmenta batendo no peito, minha culpa, nossa culpa, nossa tão grande culpa admitida - e era nada mais que a presença incontestável dela, o perfume dela, o gosto dela, ainda indistinto, porém indelélvel e inconfundível, nos nossos corpos.
Mas também cabia de ela vir pelo cheiro. Era o aroma enjoativo dos jasmins e das damas-da-noite, obviamente noturnos, depois das luzes apagadas.
Em ocasiões raíssimas ela se manifestava durante o dia, no aroma que uma lufada repentina de vento fazia exalar da fileira de camélias plantadas na calçada até o refeitório, ao meio-dia. Também era ela quando os lençóis recém-trocados nas manhãs dos sábados, lavados com sabão ordinário, sem mais nem menos rescendiam a lavanda, quando, depois do almoço, nos recolhíamos para a sesta, e os amarotávamos com os pesos dos nossos corpos, ou os maculávamos com os cheiros do nosso suor, das salivas das nossas babas nas fronhas, dos nossos gozos, solitários ou clandestinamente compartilhados.
Ou ainda era ela no breu, no sândalo e na mirra que, sem mais nem menos, mesmo sendo a missa só às manhãs dos domingos, invadia o dormitório, e antecipava o pecado, ou a culpa decorrente dele, da transgressão, a condenação, o padecer e a absolvição - a mão gosmenta batendo no peito, minha culpa, nossa culpa, nossa tão grande culpa admitida - e era nada mais que a presença incontestável dela, o perfume dela, o gosto dela, ainda indistinto, porém indelélvel e inconfundível, nos nossos corpos.
sábado, 29 de setembro de 2012
ela
Era depois que apagavam-se as luzes. O que víamos, ou o que pensávamos ter visto, ou ainda o que poderíamos apenas ter sonhado era pouco mais que uma variância de tom menos escura do escuro que nos envolvia.
Antes mesmo de vê-la, se é que a víamos, o que confirmava a passagem dela por nossas camas era o arrepio, mesmo que não fizesse frio, permanecido na pele, nos braços de uns, entre o ombro e o pescoço de outros, nas costas da mão, como se a visão dela fosse o roçar peludo de bicho peçonhento que só se despregava quando, em outra noite, vinha de novo fosforescer em outras partes dos nossos medos.
Antes mesmo de vê-la, se é que a víamos, o que confirmava a passagem dela por nossas camas era o arrepio, mesmo que não fizesse frio, permanecido na pele, nos braços de uns, entre o ombro e o pescoço de outros, nas costas da mão, como se a visão dela fosse o roçar peludo de bicho peçonhento que só se despregava quando, em outra noite, vinha de novo fosforescer em outras partes dos nossos medos.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
sem título
hoje de manhã eu preenchi duas páginas da agenda com os afazeres. uns imediatos, como por exemplo, engraxar os sapatos e escolher meias novas para qualquer eventualidade. outros diáfanos e abstratos e tão longínquos como elevar o espírito e sublimar os desejos da carne.
...
dirijo aos trancos, desatento. sonolento por causa da noite em claro vendo filmes de terror. eu me perco nos retornos, nas entradas, abaixo da velocidade média da pista. no momento seguinte, eufórico, acelero além do limite permitido e canto alto com o rádio do carro, descabelado, os vidros abertos.
...
durante o dia eu me ocupo de banalidades. procuro documentos no meio da papelada. jogo cartas comigo mesmo e perco sempre. folheio o velho romance para moças. para não pensar na ausência, no esvaziamento de qualquer sentido da morte que à noite ronda.
...
tramito na fronteira. em constante estado gerúndio. como um zumbido contínuo em baixa frequência.
...
desinfecto as mãos com álcool gel. toco-lhe de leve a mão inchada. falo com ela superficialidades: do telefonema às 2 da manhã. da discussão com o síndico. do prêmio que ainda não ganharemos. do jantar com os figurões da política. depois pergunto ao médico, o clichê: é grave, doutor?
...
chove. hoje li um conto, quase sonho, sobre mãe, irmãos, rio e pai distante. eu tenho sonhado sonhos intensos. ontem mesmo eram cômodos que eu não imaginava existirem na casa. acordei com os olhos pesados. como se levasse um óbolo em cada pálpebra.
...
dirijo aos trancos, desatento. sonolento por causa da noite em claro vendo filmes de terror. eu me perco nos retornos, nas entradas, abaixo da velocidade média da pista. no momento seguinte, eufórico, acelero além do limite permitido e canto alto com o rádio do carro, descabelado, os vidros abertos.
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durante o dia eu me ocupo de banalidades. procuro documentos no meio da papelada. jogo cartas comigo mesmo e perco sempre. folheio o velho romance para moças. para não pensar na ausência, no esvaziamento de qualquer sentido da morte que à noite ronda.
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tramito na fronteira. em constante estado gerúndio. como um zumbido contínuo em baixa frequência.
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desinfecto as mãos com álcool gel. toco-lhe de leve a mão inchada. falo com ela superficialidades: do telefonema às 2 da manhã. da discussão com o síndico. do prêmio que ainda não ganharemos. do jantar com os figurões da política. depois pergunto ao médico, o clichê: é grave, doutor?
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chove. hoje li um conto, quase sonho, sobre mãe, irmãos, rio e pai distante. eu tenho sonhado sonhos intensos. ontem mesmo eram cômodos que eu não imaginava existirem na casa. acordei com os olhos pesados. como se levasse um óbolo em cada pálpebra.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
a tua vinda
Eu me encharquei de lirismo barato quando você disse que viria. Meu deserto
cobriu-se de nuvens. O vento escancarou as portas e as janelas e encheu a casa
de folhas. Relâmpagos riscaram o escuro. Trovões ribombaram na planura. O que
era seco, estéril e cor-de-palha pejou-se de chuva, verdes e fertilidade.
De imediato florezinhas amarelas espalharam-se pelas sebes ressecadas. Borboletas também amarelas, e algumas brancas, de asas do tamanho de papel picado revoaram, rasteiras e desajeitadas. Subiu da terra, junto com as gotas da primeira chuva, colostro, o cheiro molhado do teu corpo.
Espalhei os baldes e as panelas debaixo das goteiras. Deixei à mão a vela e os fósforos para o caso de acabar a luz, por causa dos relâmpagos. Acendi incenso no canto do quarto, para espantar os insetos. Abri uma garrafa de vinho, aconcheguei o gato no colo e me sentei na poltrona, de frente para a porta. Adormeci antes de ouvir e de te ver e de te sentir chegar.
Quando acordei, estava escuro e frio. O gato ressonava. A chuva tinha cessado. Só clarões dos relâmpagos de vez em quando e o troar dos trovões cada vez mais longe. Os únicos sinais de tua vinda eram a taça de vinho vazia, a manta a me envolver as pernas e um gosto amargo, amargo, amargo na boca, que nem todo todo o creme dental da casa conseguia disfarçar.
De imediato florezinhas amarelas espalharam-se pelas sebes ressecadas. Borboletas também amarelas, e algumas brancas, de asas do tamanho de papel picado revoaram, rasteiras e desajeitadas. Subiu da terra, junto com as gotas da primeira chuva, colostro, o cheiro molhado do teu corpo.
Espalhei os baldes e as panelas debaixo das goteiras. Deixei à mão a vela e os fósforos para o caso de acabar a luz, por causa dos relâmpagos. Acendi incenso no canto do quarto, para espantar os insetos. Abri uma garrafa de vinho, aconcheguei o gato no colo e me sentei na poltrona, de frente para a porta. Adormeci antes de ouvir e de te ver e de te sentir chegar.
Quando acordei, estava escuro e frio. O gato ressonava. A chuva tinha cessado. Só clarões dos relâmpagos de vez em quando e o troar dos trovões cada vez mais longe. Os únicos sinais de tua vinda eram a taça de vinho vazia, a manta a me envolver as pernas e um gosto amargo, amargo, amargo na boca, que nem todo todo o creme dental da casa conseguia disfarçar.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
relação aberta (le beau de jour)
Eu admito, a frase “quebrei, por puro ciúme, o vaso de rosas vermelhas sobre a mesa-de-centro”, do último texto, é desnecessária, pernóstica e desprovida de conteúdo, além de pequeno-burguesa, como diria o blogueiro socialista da velha-guarda que você citou. Mas o que você escreveria depois de descobrir que o cara que te acorda todo dia com um “eu te amo”, seguido do beijo mais apaixonado – é o mesmo que à tarde frequenta saunas sexuais, sessões duplas de cinema pornô, banheiros públicos, acompanhantes-massagistas, bancos de passageiro de carros ocasionais e camas de hotel de quinta-categoria?
sábado, 15 de setembro de 2012
(parêntesis)
Antes de qualquer conclusão precipitada, o que te escrevo é ficção. Diários eu deixo para anotar à mão, nos caderninhos, nos blocos, nos pretensiosos molesquines que nunca serão lidos, ou nos e-mails que apago antes de te enviar. Nesses posts hiperbólicos, exacerbados e desiludidos eu não exponho as vísceras, minhas e tuas. É pura narrativa, exercício, especulação. Desse personagem-eu (conto? poema? novela? romance?) surgirá o texto a descrever o verdadeiro tormento - paixão, desespero perda e resignação - conclusivo.
Escrever o que me resta de você me estabiliza, para me desestabilizar em seguida. Meu equilíbrio sem o teu contrapeso é tão instantâneo e momentâneo que qualquer palavra que eu te diga/escreva dará sempre a sensação de oco, frágil, insustentável, ilusão.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
poema-prosa da incapacidade
eu te tenho escrito tão melado, tão excessivo, tão encharcado, tão sentimental - o excesso de imagens, metáforas de gosto questionável, adjetivos e
advérbios,
frases intermináveis intercaladas, separadas por vírgulas, elipses e
anacolutos
como fibroses na pele do texto
eu tenho te escrito como se soluçasse, como se tartamudeasse ditongos e hiatos, como se não
soubesse o que dizer e dissesse assim mesmo, como se repetisse, apenas
invertendo a ordem, sequências monocórdias de signos, de palavras
esquisitas do dicionário, como se encobrisse o cheiro azedo da angústia com óleo de pétalas de
rosas ou raspasse o ouro que reveste os retábulos das lamúrias e das
indecências
eu te tenho escrito como se enfiasse a mão no fundo lodoso para trazer à superfície objetos
caídos ali há muito tempo: um porta-joias em forma de bailarina com o fecho enferrujado, uma lata de costura chacoalhando botões que não se usam mais, uma caixa de tampa marchetada de guardar rapé ou cocaína
o que tenho te escrito (horror e pesadelo) são pedaços podres daquilo que eu não consigo expressar: a mão de mulher cortada à altura do punho, ainda com a aliança no dedo
anular em decomposição; um braço roído de vermes; a cabeleira de uma cabeça decepada que, depois de lavada, reconheço como
tua
eu te queria escrever grandiloquente, profundo, evoluído - sobre a essência dos seres e das coisas - por exemplo, sobre a alma, os temores que afligem a humanidade, as
estrelas, os holocaustos, a fome, as migrações dos grandes mamíferos, a
vida dos santos, dos criminosos ou dos revolucionários
eu não suporto mais te escrever como se o vazio e a perda e o abandono provocados pela tua falta fossem a única força que mantêm o universo em movimento
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
diário
Acordei com Etta James cantando Stormy Weather morno, baixinho, suave, no meu ouvido. Dobrei os
cobertores, bati os travesseiros e abri a janela do quarto para tirar o cheiro
de saudade, de sono velho, de ressonar do gato e de mofo das gavetas e dos
armários. Alimentei os bichos, molhei os vasos de flores, recolhi as titicas
dos pombos, as folhas secas e os tufos de cabelo que a vizinha do apartamento de
cima faz questão de jogar na varanda. Depois do banho, preparei iogurte com cereais
e passei um café bem forte, para aguentar o batente. Caprichei no gel do
cabelo, no perfume amadeirado, combinei a gravata vermelha com aquele terno
fashion, de cintura estreita e ombros largos e os óculos escuros que me deixam
com cara de Keanu Reeves. Saí para a rua preparado para enfrentar a fome dos
mortos-vivos, de olho no meu cérebro-com-sabor-de-tofu; o assédio dos extraterrestres
desejando mamar minha energia vital; arquitetando antídotos contra o vírus letal
(enxertado em minha corrente sanguínea durante o sono), tentando apagar as
minhas lembranças.
Mas o que me aniquilou foi imaginar o que você ainda teria a me dizer, ao ver teu nome encabeçando a lista de e-mails não lidos, piscando na tela do computador do escritório.
Mas o que me aniquilou foi imaginar o que você ainda teria a me dizer, ao ver teu nome encabeçando a lista de e-mails não lidos, piscando na tela do computador do escritório.
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