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sábado, 17 de março de 2012

22

Pieter Brueghel, O triunfo da Morte, 1562 (detalhe)
















ó morte, tu vens de todas as partes
nos assediar: teu estandarte
tremula sobre o universo inteiro,
ninguém jamais te faz frente
pela força ou pela astúcia, porque
tu sabes muito bem nos aterrorizar.
estejas perto ou longe
com a funda ou com a roqueira,
tu destróis todos os nossos anteparos;
os cargos, tu os calcas aos pés:
tu preparas o caixão antes, lá
onde é esperado muito mais tarde.

(dos Versos da Morte, de Hélinand de Froidmont, escritos no séc. XII, traduzidos por Heitor Megale)

sexta-feira, 16 de março de 2012

33

Hans Baldung, A Morte e a donzela, 1517



















a morte acalma os furiosos
e arrefece os excitados;
os combates, a morte termina
e põe em cruz os falsos cruzados;
a morte resolve todos os processos
e faz encalhar os acordos,
e distingue rosas de espinhos,
palha de grão, farelo de farinha
e vinhos puros de vinhos aguados.
seu olhar atravessa as cortinas,
só a morte sabe e adivinha
exatamente nossas qualidades.

(dos Versos da Morte, de Hélinand de Froidmont, escritos no séc. XII, traduzidos por Heitor Megale)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

alberto caeiro (1925)

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

de que são feitos


De que são feitos os meninos?
De que são feitos os meninos?
Rãs, caracóis, rabinhos pequeninos.
Disso são feitos os meninos.
De que são feitas as meninas?
De que são feitas as meninas?
Doces, perfumes e outras coisinhas finas.
Disso são feitas as meninas.

de: O Mundo da Criança. Adap. M. L. Figueiredo. 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

roberto piva

Girassol

o intervalo separa você
do redondo do horizonte
vento de seda
sol se transformando
em pássaro
aviões cabeludos arrastam
o céu na direção
do universo
a seiva do sonho
viaja com seus estandartes

sábado, 28 de maio de 2011

(do Livro dos Cacos)


(para ler o texto integral clique aqui)

ode assimétrica
(impressões de tarde clara em são luís)

“cavamos a palavra. sob o seu lustro, a cal; e cavamos a cal”

(ferreira gullar)

a ilha navega
acima do que os olhos podem ver

acima do vômito dos mendigos bêbados nas soleiras
entre as folhas das bíblias debaixo do braço dos evangélicos
no meio do lixo & dos camelôs interrompendo o fluxo dos pedestres no calçamento
no sono dos garis debaixo das jaqueiras
misturada ao cheiro de comida vindo das venezianas dos casarões depredados
invadidos pela horda de flagelados
impregnada no suor dos marinheiros fodendo travestis menores de idade nos vãos escuros
nas sacolas de compras dos turistas dinamarqueses holandeses franceses japoneses alemães americanos
admirando & fotografando & filmando tudo
nas roupas dependuradas nas janelas
cobrindo de cores berrantes os azulejos descascados
no mato dos quintais
nos muros pichados

a ilha navega
às duas horas e meia da tarde
em meias palavras
o poema serve para descrever

as mulatinhas magras saídas da escola que nos olham e riem
o amarelo amargo dos vitrais da catedral lavando em fel os santos os fiéis fantasmagóricos
a passagem das horas no quarto do hotel com frigobar e ar condicionado
a rua grande
esteira estreita onde se anda e anda e anda sem chegar a lugar algum
os canhões apontados para a baía sem defender nada
os peixes mortos entre os barcos do cais da praia grande
o catamarã para alcântara
as moscas pousadas no verdume da carne ao sol
os olhos esgazeados o grunhido do porco preto no mercado
o riso os peitos os olhos a bunda grande da preta do beiju de tapioca
as bilhas de água morna
os amores mornos
o calor cozinhando a tarde em banho-maria
o cavalo fugido desenhando frases vermelhas no asfalto

a ilha navega
enquanto aguardamos
as horas
no mormaço da tarde

sobrescrevendo postais
sobre o mangue
a temporada teatral
as falcatruas dos políticos
sobre a mudança da lua
a tabela das marés
o calor da paisagem
sobre as preocupações das mães distantes
o romantismo & o contemporâneo
os olhos azuis-verdes de holanda
sobre as omoplatas as coxas as nádegas do garoto de programa

papagaios grasnam nos beirais
oculto em um casarão antigo
hoje biblioteca
um busto de schiller espreita


(para ler o texto integral clique aqui)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Geometria euclidiana


Pura poesia:

I - Ponto é o que não tem partes. Ou o que não tem grandeza alguma.
II - Linha é o que tem comprimento sem largura.
III - As extremidades da linha são pontos.
IV - Linha reta é aquela que está posta igualmente entre as suas extremidades.
V - Superfície é o que tem comprimento e largura.
VI - As extremidades da superfície são linhas.
VII - Superfície plana é aquela sobre a qual assenta toda uma linha reta entre dois pontos quaisquer, que estiverem na mesma superfície.
XIII - Termo se diz aquilo que é extremidade de alguma coisa.
XIV - Figura é um espaço fechado por um ou mais termos.

domingo, 17 de abril de 2011

últimos poeminhas petulantes (do Livro dos Cacos)

VIII

dedos ágeis
aracne trama
a malha dos dias
em sangue
e amarelo


VII

a aurora
rompe o tecido da noite
vermelha

na torre mais alta
ressona
princesa nua
que o cavaleiro vela

a princesa não sabe
os rumos que o destino costura
nem o cavaleiro
a morte nos lábios dela


IX

a aranha tece
a lua olha
a tecedura emaranhada da aranha
entre rabiscos de galho
branca brilha longe
lâmpada fluorescente
anoitece

sábado, 16 de abril de 2011

a c cesar

(...) Ai que estranheza e que lusitano torpor me atira de braços abertos sobre as ripas do cais ou do palco ou do quartinho. Quisera dividir o corpo em heterônimos - medito aqui no chão, imóvel tóxico do tempo.
(Final de uma ode, Ana Cristina César)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

poeminha petulante 3 (do Livro dos Cacos)

I

minha boca
na tua
sol cravando dentes vadios
na pele invisível do dia

poeminhas petulantes 2 (do Livro dos Cacos)


V

sobrou o fogo de tuas vozes
o fio de teus sorrisos
o espinho de teus olhares
o pus de minhas feridas


II

o olhar fortuito que te deito
é sombra de miragem
fogo de martírio
espuma de miasma
poeira de arquivo


VI

a linha fina que te traça
risca fundo
a carne das entranhas

tua pele imaginada
aderida à minha
quadril e coxas
ânsia solitária
jorros impudentes

quinta-feira, 14 de abril de 2011

poeminhas petulantes (do Livro dos Cacos)

III

a deusa pousou em mim
olhar de pedra
porém fiei-me em tua imagem
e degelou-se o pétreo
do olhar da deusa

 
IV

fantasmas de beleza inventados
lembranças das antigas eras
desengano dos novos tempos
oásis de plantas carnívoras e água envenenada
visto silêncio em meus clamores

domingo, 10 de abril de 2011

(do Livro dos Cacos)

O roxo pesa-me nos ombros.

...

Da imagem que te vejo eu extraio cada átomo do que pode ser você. Eu te procuro em cada detalhe da cena. Atrás das máscaras. Nas flores dos arranjos. Nos parapeitos dos suicidas. Sem saber que você também é a máscara. O vaso. O vazio. Eu te construo em meu olho.

...

A noite se fecha em torno. Chove gotas de sangue na janela.

sábado, 9 de abril de 2011

Howl (Ginsberg)

Pierre et Gilles

who let themselves be fucked in the ass by saintly motorcyclists, and screamed with joy, who blew and were blown by those human seraphim, the sailors, caresses of Atlantic and Caribbean love, who balled in the morning in the evenings in rose gardens and the grass of public parks and cemeteries scattering their semen freely to whomever come who may

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Dia a dia com Hesíodo (Os trabalhos e os dias)

Adquirir a miséria, mesmo que seja em abundância / é fácil; plana é a rota e perto ela reside. / Mas diante da excelência, suor puseram os deuses / Imortais, longa e íngreme é a via até ela, / áspera de início, mas depois que atinges o topo / fácil desde então é, embora difícil seja. / Homem excelente é quem por si mesmo tudo pensa, / refletindo o que então e até o fim seja melhor; / e é bom também quem ao bom conselheiro obedece; / mas quem não pensa por si nem ouve o outro / é atingido no ânimo; este, pois, é homem inútil. / Mas tu, lembrando sempre do nosso conselho, / trabalha, ó Perses, divina progênie, para que a fome / te deteste e te queira bem a coroada e veneranda / Deméter, enchendo-te de alimentos o celeiro; / pois a fome é sempre do ocioso companheira; / deuses e homens se irritam com quem ocioso / vive; na índole se parece aos zangões sem dardo, / que o esforço das abelhas, ociosamente destroem, / comendo-o; que te seja caro prudentes obras ordenar, / para que teus celeiros se encham de sustento sazonal. / Por trabalhos os homens são ricos em rebanhos e recursos / e, trabalhando, muito mais caros serão aos imortais. / O trabalho, desonra nenhuma, o ócio desonra é! / Se trabalhares para ti, logo te invejará o invejoso / porque prosperas; à riqueza glória e mérito acompanham. / Por condição és de tal forma que trabalhar é melhor, / dos bens de outrem desvia teu ânimo leviano e, / com trabalho, cuidando do teu sustento, como te exorto. / Vergonha não boa ao homem indigente acompanha. / (Vergonha que ou muito prejudica ou favorece aos homens.) / Vergonha é com penúria e audácia é com riqueza. / Bens não se furtam: dons divinos são muito melhores. / Pois, se por força, alguém toma nas mãos grande bem / Ou se com a língua pode consegui-lo, como não é raro / Acontecer, quando o proveito ilude a inteligência / Dos homens, ao respeito o desrespeito persegue. / Facilmente os deuses obscurecem a casa / do homem e por pouco tempo a prosperidade o acompanha.

domingo, 3 de abril de 2011

(anônimo grego)

Eu não devo me alegrar e nem mesmo beber vinho
Tenho de ficar sozinho numa montanha de mármore
Deitar de cara pro chão e chorar lágrimas negras
Tornar-me um lago de vidro, uma fonte de água fria

Meredith Monk


I still have my hands
I still have my mind
I still have my money
I still have my telephone
I still have my memories
I still have my alergies
I still have my philosophie
I still have my beautiful gold ring

sábado, 28 de agosto de 2010

imagem publicada na revista eletrônica Nós Fora dos Eixos


"Eu sou uma metralhadora em
estado de Graça
Eu sou a pomba-gira do Absoluto"

(...)
Eu aprendi com Rimbaud
& Nietszche os meus
toques de Inferno
(Anjos de Freud,
sustentai-me!)
& afirmando isto
através dos quartos sem tetos
& amores azuis
eu corro até a colher de espuma fervente
driblando-me no cemitério
faminto da última FOME
com tumbas & amantes cheios de pétalas
porque o céu foi nossa última chance
esta noite". 

(Roberto Piva, Piazzas, anos 80)


Sessão necrológio

Tenho dificuldade com poesia. Acho abstrato demais, vago demais, e, pasmem!, quase sempre chato. Entre meia e uma dúzia de gostos poéticos, bastante heterogêneos, bastante comuns, bastante escolares: Fernando Pessoa, Eugenio de Andrade, o tenebroso Augusto dos Anjos, por aí. E Roberto Piva. Totalmente anos 70. Pop, político, alucinado. O texto arrebatador. Da turma estético-anárquico-dionisíaca de José Agrippino de Paula, Glauco Mattoso, Zé Celso Martinez, etc. Detestava ser chamado de maldito, pois até isso era ser rotulado pela ordem estabelecida. Anti-poeta de gabinete. Pouco reconhecido: Obras Reunidas em 3 volumes, pela Editora Globo. Morreu em julho de 2007. Achei coisas interessantes:


Artigo de João Silvério Trevisan publicado na revista Agulha, # 38 – em abril de 2004

Entrevista a Fabio Weintraub, em 2000, publicada em 2010 na revista Cult nº 34

Entrevista a Floriano Martins, de 1986, publicada na revista Agulha n 53, de 2006

Esqueci de dizer de alguns textos novos-velhos que talvez saiam em breve têm muito a ver com Roberto Piva.