segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sessão Coruja Especial



Filminhos vistos, revistos e redescobertos na Sessão Coruja: Cape of Fear, de Scorcese; De Niro (acima) em trajes menores. Ligações Perigosas, de Stephen Frears: Malcovitch, Michelle Pfeifer e Glenn Close arrasando junto com os pós-púberes Uma Thrumman e Keanu Reeves. Um pedaço do Shrek 2. E Cold Blood (1967), de Richard Brooks, que transpõe quase literalmente a tensão, as imagens, etc do texto de Capote.

Entre uma refeição e outra, entre o filme cult e a soneca da tarde, entre a conversa esotérica e a caminhada na praia não faltou literatura: Sidarta achado na edícula, rememorando a adolescência. Grandes Símios, de Will Self, comprado na liquidação do supermercado (R$ 9.90) bem legal (exceto o começo chato e o fim abrupto); O livro-objeto Os Anões, de Veronica Stigger; Ladrões de Beleza, de Pascal Bruckner esquecido pela metade no corre-corre de arrumar as malas. E uma coletânea de contos de Jamil Snege, demais! Enquanto isso Camila devorando A Ilusão da Alma.

Fim do recesso


Acabou-se o que era doce, cá estou de novo, friorento, úmido e, graças ao zelo de Camila, pelo menos uns 30 kg mais gordo...

Enquanto não sai do forno la increible y triste historia de Chiquinho e Francisquinho, algumas fotos das mini-férias

Mandala-recorte, no estrito rigor antroposófico

Sagrado, profano e boliviano
Só sol saudável - antes das 10 ou depois das 16
Para me situar
Camila no bosque nipo-atlântico do quintal...

... sob os auspícios de K O

Assistindo Cape of Fear antes de dormir

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Riccky e o Sedutor

Riccky. Assim mesmo. Com “c” duplo. Foto felina no site. Sunga branca. À beira da piscina. 30 anos.

Conversa comportada no chat. Repleta de carinhas amarelas, smiles, piscadelas e linguinhas de fora.

Ameaçou desconectar quando o assunto descambou para preferências sexuais. O Sedutor obrigado a gastar lábia para contornar a gafe. E manter Riccky conectado. Ao fim da noite dobrou-se-lhe a pudicícia.

Valeu o esforço. Riccky era mais bonito ao vivo. Moreno jambo. Dragão e ideograma chinês nas costas. Corpo, pernas, braços, bunda de modelo de anúncio de perfume.

Sentaram-se no tapete. Cenário armado com todo cuidado pelo Sedutor. Media luz, cool jazz, vinho na despensa, uísque, energético. Riccky preferiu cerveja.
Mas não engrenava. Os vôos erótico-filosóficos out do Sedutor abortados pelo papo in de academia, balada, marca de roupa, aditivos químicos, academia. E cervejas.

Era já ou nunca. Abandonando a filosofia, o Sedutor segurou firme o joelho do prestes-a-ser-seduzido. Que fechou os olhos. Cândido. Virginal. Biquinho esperando o beijo. Caliente, ardente, ofegante, molhado, demorado, descontrolado. Aparando qualquer diversidade cultural.

Depois, sem assunto, assistiram TV. Riccky ia embora. Batente cedo no dia seguinte. 5 minutos após deixar o seduzido à porta do prédio, o Sedutor enviou torpedo. Pedido de namoro.

Por descaso ou inexplicável força oculta do além Riccky respondeu a mensagem 2 dias depois. Com um emoticom enrubescido e encontro agendado para o sábado.

O sábado amanheceu repleto de esperanças. Riccky aceitaria? Passeariam de mãos dadas pelo bar gay? Agarrariam-se na pista de dança da boate? Viajariam de férias para Jeri? Cochilariam recostados um no ombro do outro no avião? Etc.

Riccky nem tocou no assunto da mensagem. Trouxe necessaire, camiseta sobressalente e um beck.

Beberam todo o álcool da casa. Riccky fumou o beck. A certa altura e por força da situação aconteceu o sexo. Sofrível. Um bêbado. O outro doidão. O Sedutor impressionou-se com a eficiência de Riccky. Capaz de beijar e assistir TV ao mesmo tempo. Dormiram abraçados. De conchinha.

Ou, melhor, o Sedutor aconchegou-se a Riccky.

Se fosse a história da Bela Adormecida a noite teria durado cem anos. Ao acordar o Sedutor esfregaria os olhos e se espantaria de como tudo estava diferente à sua volta.

Mas não era. Apesar de pairar algo esquisito no ar.

O Sedutor acordou cedo. Sentou-se na poltrona em frente à cama. Só para olhar Riccky dormir. Cena digna de qual pintura de Hockney? Qual foto de Mapplethorpe? Qual desenho de Wesley Duke Lee?

Finalmente Riccky acordou. De cara feia. Nem uma beijoca. Um bom dia. Um sorriso. Um olhar. Nada. Vestiu a cueca. Mijou de porta aberta. Ligou o computador sem pedir. Entrou no site (o mesmo onde eles se conheceram). Conversou por muito tempo no espaço virtual. Como se o Sedutor, real, não existisse.

Depois Riccky pediu uma toalha. O pedido-fagulha-de-esperança reacendeu a chama-da-esperança do Sedutor. Claro, era só ressaca. Riccky só precisava de banho para recuperar-se. O Sedutor buscou a toalha mais king size, mais felpuda, mais macia, mais cheirosa.

Enquanto Riccky banhava-se, o Sedutor caprichou no café da manhã. Louça nova, talheres, guardanapo. Brunch de primeiro-ministro. De Lady Di.

Riccky sentou-se diante do banquete nem aí. Penteando o cabelo. Despejou o café na xícara. Na toalha branca da vovó. Vasculhou a mesa.

- Tem ovo frito?

Dava até samba, o Sedutor pensou. Enquanto vestia o avental para fritar o ovo de Riccky.

Samba coisa nenhuma. No máximo letra sertaneja.

Inventou uma desculpa. Tipo a mãe morreu agora mesmo em acidente aéreo em Uberlândia. Precisava sair rápido. Colocou Riccky no carro. Junto com a escova de dentes, a bagana. E a promessa de se verem de novo qualquer dia desses.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Órfã


Era uma vez uma órfã. Coitada. Quase meia-noite. Da noite de natal. A órfã vendia fósforos no semáforo. Chovia, trovoava, relampejava, ventava, nevava e a órfã lá, oferecendo fósforos para janelas de vidro espelhado fechadas. A órfã vestia um short velho e uma camiseta rasgada. Até àquela hora a órfã ainda não tinha vendido nem uma caixa sequer. Nem uma moeda de esmola. A órfã tinha tremia de frio e de fome. Tinha saído cedo do abrigo. Sem nada pra forrar o estômago. A não ser o pedaço de coxinha que a mulher do Pajero jogou pela janela antes do semáforo abrir.
A órfã achava lindas as luzes, tos enfeites de natal da cidade. Pensava que o trenó cheio de presentes de Papai Noel ia se despregar da fachada do shopping, dar um loop no céu, parar no sinal vermelho e Papai Noel comprar logo um pacote de caixas de fósforos, o estoque todo escondido no bueiro. Ou então mandar a órfã subir no trenó, abrir a cesta de piquenique e oferecer um pedaço de panetone, um copo de fanta-uva e sobremesa de pêssego em calda.

Mas não. Naquela hora só tinha na rua os carros com os vidros fechados e os meninos de rua. Dormindo debaixo de caixas de papelão.
A órfã não perdia as esperanças. Papai Noel não tinha vindo porque estava ocupado demais distribuindo os presentes das criancinhas. Podia voltar então a fada madrinha, a mulher da coxinha da Pajero. Podia voltar e abrir um pouquinho mais o vidro, só pra órfã ver melhor o rosto dela, os cabelos louros presos pela tiara de diamantes, a vara de condão largada no banco do passageiro, o vestido de fofo de tule atrapalhando passar a marcha, as fitas desamarradas da sandalhinha embaraçada no pedal da embreagem, a nuvem de perfume de desodorante dos bancos de couro, ouvir a música de sininhos, harpas e vozes de anjos do rádio.

O movimento dos carros tinha diminuído. A órfã sentou-se no meio-fio, sobre a neve, molhada de chuva, assustada com os trovões, os cabelos pingando, os olhinhos brilhando com o reflexo dos raios. Riscou um fósforo para aquecer as mãozinhas enregeladas. O fósforo apagou-se com o vento, com a chuva. Outro. Mais outro. Até acabar a caixa. O pacote que Papai Noel não quis comprar. O resto do estoque do atravessador, escondido no bueiro.

A órfã ficou triste. Chorou. Logo que saíam as lágrimas viravam gelo dos olhos. Sentia saudade da mãe, dos dez irmãozinhos espalhados pelos orfanatos do mundo. Junto com a lágrima, um brilho de luz azul surgiu na frente dela e começou a aumentar, aumentar, e envolveu a órfã. Era uma luz quentinha, amolecia o corpo, dava sono, preguiça, vontade de deitar na neve de algodão, fofinho, quente, ninho, colo, pele do casaco do papai Noel. A luz dos farois de uma Pajero.

Noite feliz

Enquanto papai não chegava com o frango Huguinho contava histórias pra enganar a fome de Zezinho e Luizinho.

Missa do galo

O melhor aluno do catecismo. Conhecia os patriarcas, Sara, o reis Davi e Salomão, a Arca de Noé. Deus era um triângulo enfiado no meio da nuvem exalando raios desenhados com lápis-de-cor. Além disso, voz de sabiá.

O sonho era cantar. Na igreja.

Não prestou atenção ao recado da professora. Coral na missa das crianças, às 10. Do dia 25.

Camisolão cor-de-rosa, auréola de arame polvilhada de purpurina, asa de pena de pato. Às vésperas, na missa do galo, na porta da igreja, procurando.

A professora? o resto das crianças? Ninguém. Huguinho anjo solitário, anjo deslocado, anjo frustrado, anjo derrubado.
 

Olhos inchados de sono e choro, no colo do pai, ouvindo as 12 badaladas da meia-noite.

Reis magos


6 meses desempregado. Sem dinheiro nem para o frango, a mirinda da ceia. Imagina para a bike do Júnior? Culpado, fracassado, frouxo. Colocar filho no mundo pra quê? Barrado pelo segurança. Bêbado na porta do shopping. Bicicleta velha amarrada no poste, cadeado de segredo fácil, vapt-vupt, não faria falta ao dono. Só não viu o segurança, o polícia, de butuca ligada. Pego no flagra. Com a boca na botija. Com o cadeado mole na mão. Choveu porrada, ladrão, safado, vagabundo. Emborcado no canto escuro, a boca sangrando, todo quebrado, enxergava um pedaço do rabo da estrela-guia piscando verde, vermelho, azul, na direção da estrada de Belém.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ceia

O que Huguinho mais gostava no natal?
Juntar limo com mãinha pra enfeitar a lapinha.
O que menos gostava?
De saber que painho tinha bebido com o dinheiro do frango assado e da mirinda.

Primogênito

Painho, desculpa, pode parar de bater no Zezinho. Fui eu quem tirou o dinheiro da sua carteira pra comprar o vestidinho da Barbie.