quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 11


Francisquinho engoliu a comida. Nem quis sobremesa. Deixou o troco com o garçom. Mascou dois chicletes e foi atrás do conhecido.

Que, por acaso, perambulava por ali. Fazendo a digestão. Como quem não quer nada. Sem camiseta sob o sol escaldante do sábado. Surpreendeu-se em rever Francisquinho em intervalo tão curto.

Ah, desígnios misteriosos os de Dionisos! Fazer nascer, do dia para a noite, de dentro da casca do pacato, comportado, fiel e apaixonado Francisquinho um predador implacável... Só podia ser pândega...

Donald, muito prazer. Nunca se tinham visto antes. Mudara-se há pouco.

Francisquinho propôs ao vizinho apresentar o melhor café. O melhor sorvete. Quem sabe o melhor chopinho do bairro. Donald topou. Também sem nada para fazer no feriadão. A mudança ainda não tinha chegado.

Conversaram toda a tarde. Como se se conhecessem há séculos.

Francisquinho olhou o relógio: caracas! nem vi o tempo passar... Tenho que passear com o Bob. Donald não se fez de rogado. Amava bichos. Principalmente cães: se quiser, te acompanho.

Na portaria do prédio, Francisquinho pensou em convidar Donald para subir. Mas havia os filmes cult pagos adiantado. A louça suja da noite anterior enchendo a pia. O retrato dele e Chiquinho emoldurado. A dignidade, a fidelidade, a sensação de errado. Trocaram os números de celular. Um aperto de mão. Donald abraçou forte o novo amigo. Combinaram uma corrida no parque para o dia seguinte.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 10


Francisquinho dormiu até a 1 da tarde do sábado. Acordou estranhamente bem disposto. Um novo homem.

Faminto como um leão. Necessitado de carboidratos, proteínas e líquidos, como um beduíno. Fraco como uma cadela velha no cio. O único resquício da depressão da noite anterior era um sentimentozinho de culpa, quase imperceptível, por menoscabar o vetusto Apolo (representado pela pilha dos filmes cult intocados) e libar em excesso a Dionisos, os filmes pornôs.

Brigou com Bob. Que tinha se aliviado no tapete, coitadinho, não aguentou. Tomou um banho gelado. Com preguiça de comer macarrão de novo, colocou os óculos escuros, a bermuda branca, os fones de ouvido, o boné. Para almoçar no self-service do outro quarteirão.

O mais incrível: até aquela hora nem tinha se lembrado ou pensado em Chiquinho.

O restaurante estava vazio. Sentou-se de frente para a rua. Para ver o movimento. Quase nenhum. Bairro sossegado. Nem notou a entrada do outro freguês. Que sentou-se, sozinho, na mesa ao lado. Em ângulo de visão perfeito para observar e ser notado por Francisquinho.

Francisquinho retribuiu o sorriso. Era péssimo para fisionomias. Conhecia? Provavelmente das caminhadas com Bob. Do Parque. Da academia. Da praia. Do elevador do prédio. Do clube.

Na falta de Chiquinho, Francisquinho não desperdiçaria, sozinho, a dose de felicidade extra proporcionada por Dionisos. Após alguns instantes de hesitação o novo Francisquinho iria ousar. Oferecer-se, pasme!, para sentar-se à mesa do freguês: Posso? É tão ruim comer sozinho. Lindo dia! A gente se conhece de onde? Muito prazer.

Bem na hora de se levantar para a ousadia suprema o freguês simpático e bonitão pediu a o café e a conta. E deu um tchauzinho...

Chiquinho e Francisquinho - 9


Francisquinho não se deixaria levar pela minidepressão instalada. Chiquinho estava longe e pronto. Só 4 dias. Ligou para Lalá, Lelé e Lili. Em Búzios. Vem pra cá, está óoootimo!, Lalá chamou. A gente tá fazendo bobó, Lelé falou. Tá cheio de gente linda, disse Lili. Mas Francisquinho morria de preguiça de pegar estrada àquela hora.

Durante o banho desistiu de dançar. Sem Chiquinho. A Dreepsy devia estar deserta. Todo mundo viajando. Vestiu o pijama. Estourou pipoca. Trouxe coca-cola no balde de gelo. O resto do chocolate na caixa. Os filmes.

Começou pelo Kurossawa. A comédia romântica. Por fim o 1º pornô do fundo da sacola. Às 22h.

Terminou de assistir ao 4º filme às 3 da madrugada. Reviu as melhores cenas do 1º. Do 2º. Assim por diante. Só parou quando, totalmente exaurido pelo esforço físico e mental repetitivo, reparou, às 5h30min, a 1ª claridade do alvorecer através da cortina de voal.

Contabilizou na mesinha de cabeceira:

6 pacotes de pipoca;
1 ½ garrafa de coca-cola;
¾ do resto do vinho do almoço;
1 caixa de lenços de papel.

Colocou ração e água para Bob. Para não ter que se levantar mais tarde. Ainda zapeou. Apagou. Com o controle remoto na mão.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Intervalo: The Jolly Boys - Rehab

Chiquinho e Francisquinho - 8


Francisquinho guardou os cogumelos, os tomates e o refrigerante na geladeira. O sorvete e as pizzas no congelador. O macarrão e o molho no armário. As tangerinas na fruteira. Coçou a barriga de Bob estatelado no tapete da sala. Levou os filmes e a caixa de chocolates para o quarto. Tomar uma ducha, assistir um filme e depois preparar o almoço.

Começou por Priscila. Parou na metade. Cochilou nos primeiros 10 minutos do Kurossawa indicado pelo chefe. Trocou por uma das comédias. Evitando os pornôs, reservados para a insônia na madrugada. Para quando a saudade de Chiquinho apertasse. Quem disse que prestava atenção? Tudo chato. Demorado. Lento. O drama, o rosto de Ingrid, as rugas de Catherine, as roupas e as piadas sem graça de Bernadette, Mitzi e Felicia. Ah, como a vida sem Chiquinho era vazia.


Quase 3 da tarde. O estômago roncava. Preparou peine ao funghi e ervas. Maravilhoso. Do jeito que Chiquinho gostava. Colocou os dois pratos na mesa, talheres, dois copos, dois guardanapos. Serviu-se, se muito, três garfadas e quase meio litro de coca-cola. Tão triste. A ponto de chorar.

Assim passou a tarde. O início da noite. Entre o quarto e a geladeira. O banheiro e a varanda. O chocolate, as batatas pringles e a coca-cola. Entre um trecho de filme e o zapping na TV a cabo. Entre o passeio vespertino de Bob e o prato de macarrão aquecido no microondas. Entre o primeiro cálice de vinho, outro e outro e a segunda garrafa de vinho aberta.

Vontade de ligar para Chiquinho, mandar uma mensagem, volta, tô com saudade. Não, aquilo não podia continuar.

Chiquinho e Francisquinho - 7

Francisquinho voltou para a cama. Para sentir o restinho do calor de Chiquinho debaixo do cobertor. Do cheiro de Chiquinho no travesseiro. Do gosto de Chiquinho ainda na boca. Rolou na cama muito tempo, tentando pegar no sono de novo.

Levantou-se por volta das 9. Com Bob arranhando a porta do quarto. Desceu com o cão. Deu uma volta no quarteirão deserto. Subiu, serviu ração e água, tomou banho, preparou o café. Entrando no clima do retiro espiritual forçado.

Bateu uma preguiça enorme de sair, o parque, a piscina, o shopping. Sem Chiquinho tudo perdia a graça. Porque não recolher-se? Enfrentar a solidão forçada? Metódico, anotou as opções na caderneta de recados:

1.     locar filmes;
2.     separar na estante os livros ainda não lidos;
3.     arrumar o quartinho das tralhas;
4.     separar as fotos;
5.     comprar comida;
6.     ligar para Lalá, Lelé e Lili;
7.     dançar?

2, 3 e 4 podiam ser feitos a qualquer hora de qualquer dia do feriadão.
7 seguido de interrogação dependia do estado de espírito, do desenrolar dos acontecimentos.
6, quem sabe?
1, 2 e 5 era o mais urgente. As lojas do bairro fechavam ao meio dia. Nem precisava tirar o carro da garagem.

Primeiro o mercadinho. Depois a locadora. 15 filmes. Para devolver só na segunda-feira. Clássicos em preto-e-branco. Comédias românticas. Priscila a Rainha do Deserto para rever pela enésima vez. E escondidos no fundo do pacote, após alguma hesitação, 4 pornôs.

As lentes dos óculos de Francisquinho eram tão escuras que ele nem percebeu, enquanto caminhava cheio de sacolas plásticas de volta para a caverna, em como o dia estava lindo.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 6


Francisquinho reprogramou-se. Com o apoio de Chiquinho. Além de cuidar de Bob, poderia ocupar-se no feriado. No clube. No parque. No telefone. Na feira de orquídeas. Assistir TV a cabo. DVDs. Tirar o atraso do sono. Almoçar no shopping. Cineminha. Lanchar na creperia. Pizza com Lalá, Lelé e Lili, as colegas do trabalho. Quem sabe a matinê da Yellow. O bate-estaca da Dreepsy.

Chiquinho jurou de novo fidelidade e amor eternos. Tinha até pensado em desistir do passeio – ato falho!, do ensaio – mas não podia, a apresentação marcada para os próximos dias. Disse que sentiria saudades. Advertiu Francisquinho para comportar-se. Para não dar mole a ninguém na boate. Para esperar por ele.

A noite foi de chamego e carinhos. Francisquinho fingiu não ter visto a mancha roxa no ombro de Chiquinho. No pescoço. Coitado, a pele sensível, deve ter batido em algum lugar. Até o interfone tocar, de madrugada, antes das 8. Francisquinho não resistiu. Olhou pela janela Chiquinho entrando no carro. Provavelmente o carrão do professor orientador.

Chiquinho e Francisquinho - 5


Aconteceu na quarta-feira, às vésperas do feriadão. No carro. Na volta do trabalho. Francisquinho dirigindo, Chiquinho no banco do passageiro. Chiquinho falou que passaria o feriado fora. Ensaio. Tipo concentração. Na chácara do professor orientador. Na serra. Onde o celular não pegava. Sairiam cedo no dia seguinte. Voltariam na segunda-feira depois do almoço. Ou talvez na terça.

Francisquinho sentiu uma pontada. Engoliu em seco. Chácara? Professor? Suportaria passar a eternidade do feriado sem Chiquinho? Era dependência? carência? ciúme? Desconfiança? Era tudo junto.

Chiquinho aumentou o volume do rádio. Mesmo sendo hora da Voz do Brasil. Não trocaram palavra até entrar em casa. Francisquinho ligou a TV. Chiquinho abriu uma lata de cerveja. Não ofereceu a Francisquinho. Arrumou a mochila.

Chiquinho, impiedoso, jogara Francisquinho na jaula das feras da solidão.

Autocontrole era essencial. Cena de ciúmes àquela altura só pioraria as coisas. Francisquinho tentava compreender. Aceitar. Era a hora de provar ser um exímio piloto para o aviãozinho do amor não embicar de vez e explodir no solo matando o tripulante, o comissário de bordo e o passageiro canino. Francisquinho Respirou fundo. Desligou a TV. Afinal de contas, era o trabalho de formatura de Chiquinho. A chave de ouro que abriria as portas da carreira do namorado.

Só traiu-se ao deixar escapar, cara e voz desamparadas: eu vou cuidar do Bob sozinho? Pergunta desnecessária. Óbvio que sim.

Chiquinho tomou o controle. A tempo. Um rasante minutos antes do aviãozinho esborrachar-se e, ufa!, entrar de novo nas nuvens rosadas. Abraçou Francisquinho. Deu um beijo estralado na bochecha. Não fica assim, meu neguinho, são só 5 dias!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 4

Chiquinho cursava o último semestre. Teatro. Estava empolgadíssimo com o TCC. Cujo tema Francisquinho achou o máximo: a diversidade estética e de gênero nas artes performáticas contemporâneas. Trabalho de grupo. A parte teórica estava quase pronta. A prática seria, é óbvio, uma performance. Em espaço cultural alternativo. Com registro fotográfico, filmagem, projeções, trilha sonora e transmissão pela internet.

Francisquinho dava a maior força. Pesquisava. Imprimia imagens. Sugeria detalhes de figurino. Morto de vontade de colaborar. Como se o TCC fosse dele também.

Chiquinho agradeceu. Mas foi categórico: nada a ver. Francisquinho compreendeu. Só queria ajudar.

Os ensaios começaram. No espaço cultural alternativo. Em um bairro afastado. Quase periferia. Chiquinho recusou a oferta de Francisquinho levá-lo. Não precisava. Ia de carona com o grupo. De ônibus. De metrô.

Ensaio de teatro sempre atrasa. Demora para acabar. Ensaio de performance então nem se fala. Nos primeiros ensaios Francisquinho esperava Chiquinho chegar. Preocupado com os assaltos, os traficantes, as balas perdidas. Nem prestava atenção ao filme, à notícia do jornal da noite, ao entrevistado do talk-show. Só se deitava porque precisava acordar cedo no dia seguinte. Mas não dormia. Ansioso esperando ouvir o barulho da chave na porta. 3h. 3h:30min.

Os dois eram adultos. Cada um conhecia suas responsabilidades. Longe de Francisquinho ser chato. Controlador. Podar o impulso criativo de Chiquinho. Por isso, fingia dormir quando Chiquinho entrava debaixo do lençol. Com cheiro de suor, bebida e cigarro amargando a madrugada.

Chiquinho e Francisquinho - 3

Mas a crise engendrava-se. Os sinais cada vez mais evidentes. Contrariedades bobas no começo: café fervendo na cafeteira; torrada passada do ponto; tênis jogados na sala; cocô de Bob que alguém esqueceu de limpar; etc.

Chiquinho achava normal. Coisas cotidianas. Problemas de casal. Francisquinho procurava cabelo em ovo. Francisquinho sentia-se culpado. Na obrigação de mudar atitudes. Mudar demandava esforço hercúleo.

Mesmo com a certeza do poder do amor que um sentia pelo outro. Mesmo com fé e perseverança supera-se qualquer obstáculo, frase transcrita por Francisquinho do horóscopo da internet diretamente para o cartão do presente de quinto aniversário do casamento: o cão. O filhote de São Bernardo. Tentativa desesperada. A última antes de apertar o botão para ejetar o banco do aviãozinho. E puxar a cordinha do paraquedas.

Assim, Chiquinho, Francisquinho e Bob viveram felizes. Para sempre. Ou quase. Por mais 3 meses. Até algumas semanas antes do final do período letivo.

Sim, havia Bob. Que ocupava cada vez mais espaço. Na relação entre Chiquinho e Francisquinho. Na varanda do apartamento de frente para o mar. Bob exigia tempo, disposição, atenção. Exigia descer 3 vezes por dia. Exigia veterinário, vacina, reclamação de vizinho. Bob ameaçava as férias no Caribe.

Onde deixar o pobre cãozinho? Os amigos desculpavam-se. Bob era muito grande. Hotel para bicho Chiquinho nem cogitava. Além disso, havia o TCC - trabalho de conclusão de curso.