sábado, 22 de janeiro de 2011

Rei Lear, Ato III

Cena I
(...)
Kent: Eu te conheço. Onde está o Rei?
Cavaleiro: Lutando com o furor dos elementos; ordena aos ventos que atirem a terra dentro do mar ou cubram o continente com ondas gigantescas para que as coisas mudem ou deixem de existir. Arranca os cabelos brancos que as rajadas violentas, numa raiva cega, apanham em sua fúria e reduzem a nada. Do seu desprezível mundo de homem ele se agiganta, escarnecendo das voltas e revoltas do combate entre a chuva e o vento. Numa noite assim, quando a ursa esfaimada, que amamenta os filhotes, prefere não sair da toca, e o leão e o lobo, com o estômago roído pela fome, preferem consevar o pêlo seco, ele corre com a cabeça descoberta, invocando o fim do mundo.


Cena II
(...)
Lear: Sopra, vento, até arrebentar tuas bochechas! Ruge, sopra! Cataratas e trombas do céu, jorrem torrentes até fazer submergir os campanários e afogar os galos de suas torres. Relâmpagos de enxofre, mais rápidos que o pensamento, precursores dos raios que estraçalham o carvalho, queimem minha cabeça branca. E tu, trovão que abala o universo, achata para sempre a grossa redondez do mundo! Quebra os moldes da natureza e destroi de uma vez por todas as sementes que geram a humanidade ingrata!

Tigrinho


Pêlo rajado de preto e amarelo. Pequinês em corpinho viralatas.

Dieta de pão molhado no leite de manhã e antes de dormir. No tapete ao pé da cama. Água só do filtro. Xampu, escova, perfume e laço duas vezes por semana. Xixi e cocô com hora marcada. Só na grama. Vida de mandarim. Alento das tristezas da mãe. Único defeito: fornicar nas pernas das visitas.

Pidinho, por pândega, deu pinga. Misturada ao lombrigueiro. Atacou os miolos. Ficou meio lelé. E surdo por causa do traque amarrado no rabo. A mãe nunca soube. Senão moía o capeta no chinelo.

Até a mãe internar. 2 meses largado. Na mão de empregada. Carrapicho. Fome. Verme. Vômito. Sarna. Desespero da saudade. Das penas na mão do diabo.

Um dia fugiu. Nem passou da esquina. Virgem dos perigos da rua. Não ouviu a musiquinha, a buzina, o guincho do freio da kombi do gás.

Agonizou a tarde toda. Morto de sede, de dor. As perninhas, uma pasta tigrada no asfalto. Por fim descansou. 2 dias depois só a carcaça revirada na caçamba do caminhão de lixo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

S&Z

Z ia encontrar S. Caminhando distraído na calçada mal iluminada. Entre o estacionamento e o bar. Pensava nas possibilidades que se descortinavam.
Eis que surge, de surpresa, do nada, atravessado no caminho, insólito, rígido, um galho. De árvore mal plantada, mal localizada, mal podada, mal amada. Exatamente à altura da testa de Z. 

Fatal a lei de atração dos corpos. O galho atraiu a testa. A testa dispersa foi atraída pelo galho. A testa e o galho chocaram-se. Com força. Força proporcional à pressa. À pontualidade de Z.

Doeu horrores. Z engoliu o palavrão. Levou a mão ao galo. Sangrava. Pouco, mas sangrava. Logo Z, que queria demonstrar a S ser uma pessoa desenvolta, centrada, equilibrada, bem sucedida. Como explicar o galo logo no primeiro encontro?

Ainda pensou em voltar para casa, fazer curativo. Não daria tempo. Relaxasse. Podia ser até o mote para quebrar o gelo inicial.

Às 20h em ponto Z sentou-se na mesa mais visível do bar. Pediu refrigerante. Guardanapos para estancar o sangue. 1 hora após o combinado e 3 garrafas de refrigerante bebidas, S ligou.

Não poderia ir ao encontro. Precisava pagar umas contas.

Àquela hora da noite? Pelo menos inventasse desculpa mais plausível. Mais criativa.S ainda teve a cara de pau de sugerir outro encontro. Z foi educado. Concordou. Porém deixou em aberto. Qualquer dia desses. Cujo sentido subentendido era: no dia de São Nunca. Deletou o contato no celular.

Z pediu uma super cafta extra para compensar a frustração. Feita com muita carne vermelha moída. Grelhada com muita manteiga. Coberta com muita batata e uma camada de 2 centímetros de espessura de mozarela derretida.

Voltou pelo mesmo caminho. Estufado como um baiacu. Ébrio de refrigerante. Doido para urinar. Já tinha até se esquecido do bolo, do galo. Lembrou de Pollyanna: as coisas poderiam ser piores do que eram.

Sentiu pena de S, coitado, tão ocupado, só a 5a feira à noite para pagar contas. Pensou até em ligar para S. Quem sabe combinar o encontro? Quem sabe acertariam os ponteiros? Quem sabe não estaria desperdiçando o romance da década por orgulho bobo? Um mero bolo?

Z já tirava o celular do bolso pra tentar recuperar o nome de S dos contatos quando veio o castigo. Implacável. Para deixar de ser besta. Bateu a testa no mesmo galho do início da história. Com a mesma força. A mesma violência. Só que, óbvio, do outro lado. Duas cicatrizes simétricas em menos de duas horas.

Em casa, borrifou água boricada nos machucados. Conectou-se ao site. S estava on-line. Já devia ter pago as contas. Z ignorou. Solenemente. Controlou a carência. De companhia. De carinho. De sexo fast-food. Desconectou. Ligou a TV. Desligou.

Nem meia-noite. 5ª feira. Sem sono. Sem vontade de ficar em casa.

Ligou para Pollyanna. Que também estava solteira. Sem sono. A fim de sair. Contou o mico, hilário, a primeira, a segunda pancada. Se estivesse bêbado tu desmaiava, e dormia por lá mesmo.
Foram para a farra. Voltaram para casa pouco antes da 6a feira nascer. Pollyanna ao volante. Z, os galos e o enfermeiro Júnior abraçadinhos no banco de trás.

Júnior? Presente concedido pelos deuses a Z, em plena balada. Para cuidar dos galos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 22 - fim


Até Chiquinho telefonar. À meia-noite. À cobrar. Nem deu tempo para Francisquinho perguntar nada. Muita chuva na serra. Estavam ilhados. Só voltariam, se estiasse, na terça-feira.

Francisquinho acreditou.


Chiquinho ligou de novo. Só na terça-feira. Dizendo que tinha acontecido muita coisa naqueles dias. Que tinha pensado muito. Que precisavam conversar. Que não voltaria para casa. Ainda. Que Francisquinho entendesse.

Francisquinho entendeu. 

Segurou o portarretratos dourado. A foto dos dois em Guarapari. O cartão com a frase sobre superação de crise ainda sobre o aparador. O boné de Chiquinho largado no sofá. Pensou em consolar-se com Donald. Desistiu de ligar. Abriu a geladeira. Fechou. Abriu de novo. Foi até a janela. Voltou. Ao quarto. A cama. A escova de dentes de Chiquinho na bancada do banheiro. Uma bola de estopa entalada na garganta. As lágrimas, o choro que não vinham.

Nem se deu conta de Bob, abanando o rabo, seguindo-o como sombra, por todos os cômodos do apartamento.

Era mesmo o fim.

Chiquinho e Francisquinho - 21


Não precisou. O filho de Sêmele estava bem humorado. Primeiro não deu bola para a promessa, que ele sabia, mortal nenhum seria capaz de cumprir. Bonachão, o deus-brother foi intempestivo. Como se se materializasse do outro lado da parede. Na sala onde a galera conversava alto. Colocou, literalmente, palavras. Justo na boca de Chiquinho: Caramba, que calor. Que tal terminar o trabalho no boteco da praia?

Ufa!

Foram. Donald inventou um imbróglio para Francisquinho vestir-se enquanto que o pessoal saía.

Francisquinho perdeu a noção do tempo. Vagou a esmo uma eternidade pelo bairro retomando o fôlego, recobrando as forças, processando os fatos. Chegou em casa à noite.

Como não havia no armário os doze bois prometidos a Apolo, Francisquinho assistiu o fim do Bergman no DVD. Os Kurossawa. O Win Wenders. Os Fassbinder. Os iranianos. Prestou atenção a cada sílaba pronunciada, mesmo sem entender sueco, alemão, japonês, iídiche, árabe. Cada entrelinha das legendas. Até o último crédito em letras ilegíveis.

Intervalo: Cazuza

Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nestas noites quentes de verão
E nem me importa que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão

Chiquinho e Francisquinho - 19


Foi quando Francisquinho se deu conta. Segurava o celular. Ligado. Gelou-se-lhe o sangue pela segunda vez. Era como se portasse uma granada com o pino puxado. Tremeu. Temeu. Se algum infeliz, ou o próprio Chiquinho, sentisse saudades e ligasse, justo naquela hora, e o danado do celular tocasse?

Francisquinho tremia tanto que tinha medo até de, ao desligar o aparelho fazer qualquer movimento brusco e denunciar o esconderijo. Derrubar sem querer, por exemplo, a caixa de sabão em pó. Imaginava o flagrante, O Peninha, o Mickey e a Minnie, A Maga e a Min – e Chiquinho! – afastando os lençóis e dando de cara com ele ali, pelado como um pinto molhado, tremendo mais que vara verde.

Respirou fundo várias vezes. Até se acalmar. Com muito cuidado desligou o aparelho.

Crente que dessa ele tinha escapado. 

Ledo engano. As desventuras de Francisquinho estavam longe de terminar.

Chiquinho e Francisquinho - 20


Apolo tinha mesmo tomado conta da situação. Castigava Francisquinho por ter libado tanto a Dionisos, a Afrodite, a Eros e se esquecido dele, representado pela pilha de filmes cult não vistos durante o feriadão.

De repente Francisquinho ouviu a voz de Min, na sala, elogiando: Que apartamento legal! Em seguida, Donald, empolgado enumerando as vantagens: área comercial, sobreloja, aluguel barato, boa vizinhança, apartamento espaçoso, ponto central, perto de tudo. O assunto rendeu: Dois quartos? Sala grande! Tem cozinha?

Donald respondeu: Tem até área de serviço!

Francisquinho gelou pela terceira vez. A vista escureceu. O coração parou de bater. O peito, uma bola de chumbo. O estômago quis sair pela garganta. Quase desmaiou Pasmo. Pálido. Pronto para subir os degraus do cadafalso. Já sentindo o frio da lâmina da guilhotina decepando-lhe o pescoço. O áspero da corda apertando. O punhal afiado da pitonisa arrancando-lhe as vísceras. A espada fulgurante do anjo expulsando-o do paraíso. O dedo acusador de Chiquinho.

Donald, o mesmo que há instantes compartilhava os fluidos amorosos, esquecera? O local objeto do assunto era justo o esconderijo do amante, do traidor. E se Donald resolvesse mostrar o apartamento aos colegas?

Francisquinho orou com todo fervor ao patrono daqueles dias turbulentos. Prometeu a Dionisos que seria a primeira e a última traição de toda a existência. Ofereceu vinho, uvas verdes, comilança, vela em cachoeira, despacho em encruzilhada, tudo o que o semideus quisesse. Até a alma.

A Apolo prometeu sacrificar 12 bois. Nos moldes de filme trágico com o velho Sir Lawrence Olivier. Assistiria aos 12 filmes.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Chiquinho e Francisquinho - 18


A galera subiu como uma avalanche invertida. Entrou no apartamento na maior balbúrdia. Os olhos de Donald tinham sido obnubilados pela vingança do irascível Apolo? Era a única explicação para o fato dele não só não ter dispensado as visitas mas de convidar todo mundo para sentar.

Donald entrou na onda eufórica deles. Abandonou Francisquinho à própria sorte. Pelado, encostado no tanque, coração disparado, prendendo a respiração, debaixo dos lençóis estendidos, com cheiro de amaciante.

Francisquinho ouvia perfeitamente o que diziam. Com dor lancinante escutava os risos, a voz de Chiquinho sobressaindo-se às vozes dos outros. Uma lágrima furtiva escorreu. Por causa do ridículo daquela situação toda. Criada tão somente pela falta de diálogo. Pelo desgaste da relação. Os jogos de poder. A manipulação. O sufocamento mútuo. A codependência. Etc. Etc. Etc.

Chiquinho e Francisquinho - 17


Donald insistiu. Que Chiquinho se vestisse e fosse embora. Que tinha adorado o final de semana. Que queria ver Francisquinho de novo. Que combinassem a caminhada no parque para qualquer hora. Que andasse depressa.

Antes de Francisquinho esboçar qualquer gesto, o celular de Donald tocou. Era Margarida. Colega do TCC. Para dizer que o grupo estava indo para a casa do Donald. Aliás, já estavam chegando. Ou, melhor, estavam debaixo do prédio. O Peninha, o Gastão, a Minnie, a Maga e a Min. Para Donald descer, abrir a portaria, o interfone estragado.

O pior: Chiquinho estava entre eles.

A pândega de Dionsisos passava dos limites. E Apolo era mesmo cruel.

- Como assim? Francisquinho ainda perguntou. Chiquinho não estava na serra?

Donald não teve tempo de explicar.

- Junta tuas coisas e te esconde na área de serviço. Vou dispensar o pessoal.

Depois de tanto amor, sexo, surpresas e culpa Francisquinho nem discutiu. Não havia no quarto armário para entrar. Pular a janela era alto demais. Francisquinho rememorou todos os chavões de comédia conhecidos.

Juntou as roupas, a sandália havaiana, as chaves de casa e do carro, o celular. Enfiou os invólucros dos preservativos debaixo do colchão. Escondeu-se na área de serviço. Atrás das roupas estendidas no varal. Enquanto Donald descia para abrir a portaria.