terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O reflexo (do Livro dos Cacos)

Aos poucos eu me adentro. Quando, saturado o olho, a imagem desfoca-se, apago a luz. Por uma fração mínima de tempo permaneço no vidro, mesmo após a claridade esvanecer. Antes das pupilas se adaptarem ao escuro acendo novamente o interruptor. Meu rosto salta do vidro até quase emergir na tridimensionalidade. Impedido apenas pela película cristalina que me duplica.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Leonardo

 A gente ia pra balada mais tarde. A Bárbara mora na pequepê e tava sem carro. No caminho me pediu pra levar umas coisinhas porque a geladeira dela tava zerada. Comprei cigarro, Halls, um pacote de cerveja, energético e duas Schweppes Citrus. A Bárbara tava meio down, cheia de ideias, voltar pra faculdade, mudar-se pro Rio, pegar alguém, comprar carro, arranjar emprego, pedir aumento da mesada, esse tipo de coisa. Eu mesmo só queria tomar uma bala e dançar e me jogar na naite, sair daquela deprê da casa da Bárbara. Aí eu tava lá, deitado na cama da Bárbara, abraçado no ursão que eu dei pra ela no aniversário, assistindo novela pra fazer hora e a Bárbara falando dos projetos dela. Daí sem mais nem menos a Bárbara perguntou: Leozinho, vamos abrir um negócio? Eu tava totalmente desantenado e entendi errado: o que você prefere? A Schweppes Citrus ou o Redbull? A Bárbara caiu na gargalhada. Não, seu burro. Abrir um escritório. Aí fui eu que morri de rir: escritório de quê, Bárbara, a gente só sabe é beber e reclamar da vida! Aí eu joguei o ursão na cara dela, fui na cozinha, abri duas cervejas e dei pra ela uma: taí o único negócio que a gente tem condição de abrir. A Bárbara ficou pê da vida. Só se for você, porque eu sei fazer muita coisa, seu medíocre. E se não souber, eu aprendo! Eu sou barraqueiro quando eu quero. Medíocre? Medíocre era ela, que precisava de mim até pra arranjar namorado! Nem vou contar o resto, porque o baixou o nível geral. A Bárbara desistiu de sair, eu fui embora da casa dela batendo a porta. A gente só fez as pazes na outra sexta porque a Bárbara me ligou chamando, Leozinho, eu tenho duas cortesias pra Fever, na Scorpion hoje, bora nessa?

(do Livro dos Cacos)

A lâmina enferrujada do olhar dele me atravessou enquanto eu me repartia em cenas.

(...)

Caio Fernando Abreu:
“Ou de novo como se seus olhos, os olhos escuros de Santiago, um pouco pesados nos cantos, cílios densos, fossem câmaras cinematográficas com lentes capazes de aproximar ou afastar as imagens, tornando às vezes mais definido o primeiro plano, agora a brasa que tornava a subir, para empastar em cores foscas, misturadas, indefinidas, as formas do fundo, cortadas por alguma súbita cintilação, lâmina externa, ou liquefazer então os dedos, esmaecendo o formato, a brasa que descia, mão suspensa encontrando mão pousada, vagos, obscuros, ressaltando vibrante, dinâmicos, mastigava adjetivos como quindins, algum reflexo do semáforo no meiofio da sarjeta transbordante da água suja dos bueiros, esgotos. Tossiu, menos por vontade que por confusão, para afastar um pouco aquela, era feito uma vertigem? Era feito uma tontura, teria sido o vinho, as lentes meio embaçadas dos óculos, a fome, a chuva no parabrisa, o piano lentíssimo, nota por nota, cada dedo do pianista depositado em infinito cuidado sobre cada uma das teclas, a brasa despencava devagar na altura da outra mão, porque era sábado, tinham programado sair, ou todas essas coisas juntas, afinal, porque ele também estava bastante cansado de semanas e histórias e trabalhos e pessoas e.”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Penha


Olhe, diz-que Tia Bilinha conversou com gente morta. Acredita? Eu não. Mas a história é tão bem contada que a gente fica pensando. E olhe que Tia Bilinha sempre foi muito católica, de ir à missa, comungar, confessar, essas coisas. A morta? Não conheci. Ercila. Diz-que era amiga da Tia Bilinha. Do tempo do colégio das freiras. Olhe, elas ainda trabalharam juntas na escola. Depois cada uma seguiu sua vida. Por fim só se escreviam no natal. Diz-que um dia a Tia Bilinha estava em casa fazendo crochê quando bateram no portão. Olhe, e não era a Ercila? Tia Bilinha achou esquisito a Ercila aparecer assim, sem avisar. Diz-que conversaram a tarde toda. A Ercila estava de passagem e pediu pra Tia Bilinha avisar prum parente dela que ela ia viajar e que a chave do cofre estava em tal lugar, na casa da Ercila, em São Paulo. Tia Bilinha perguntou pra Ercila porque ela mesmo não avisava, diz-que a Ercila não podia, que estava com pressa, que tinha os seus motivos. Diz-que na hora de despedir a Ercila não deu nem abraço, nem beijo, só acenou e sumiu das vistas da Tia Bilinha. Olhe, mal a Ercila saiu Tia Bilinha ligou pro número que a Ercila tinha ditado, e mandou chamar o fulano-de-tal, diz-que era o sobrinho da Ercila. Tia Bilinha deu o recado de que a Ercila ia viajar, do jeito que combinaram. O fulano-de-tal pensou que era trote porque a Ercila tinha morrido fazia já uma semana, e ele tava justo indo pra missa de sétimo dia e ainda por cima nunca tinha ouvido falar na Tia Bilinha. Tia Bilinha quase teve um troço, mas ela era muito controlada, diz-que queria tirar a história a limpo. Perguntou se havia na casa da Ercila uma escrivaninha de tal e tal jeito, como a Ercila tinha descrito, e o fulano-de-tal disse que tinha sim. Diz-que Tia Bilinha mandou o fulano-de-tal ir até a casa da Ercila, que estava fechada desde o passamento e mandou o fulano-de-tal abrir a gaveta, e que no fundo, colado com fita crepe tinha uma chave. O fulano-de-tal disse que estava atrasado pra missa, que a Tia Bilinha devia ter sonhado. Mas Tia Bilinha insistiu e não é que convenceu o fulano-de-tal? E diz-que tinha mesmo a chave, e que a chave abriu o cofre escondido atrás do retrato da Ercila, cheio das joias da Ercila, e era tanto ouro que o tal fulano-de-tal enricou e ainda mandou pra Tia Bilinha uma medalhinha de São José como lembrança da finada Ercila, e o fulano-de-tal nem sabia que Tia Bilinha era devota de São José, tem base?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011