sábado, 19 de março de 2011

Lição do triângulo (do Livro dos Cacos)

Presas da esfinge ávida. A beleza sobrepuja a maldade do monstro.

Górgona. Vítimas petrificadas.

As telhas despregam-se do madeirame. Desmoronam as muralhas dos castelos. Os ventos assomam. Fúrias. Titãs. Tempestades. Que venha o exército de minotauros. Que venha a horda das estriges nuas. Arranca-se o gozo das entranhas.

Estou dividido ao meio. Tu também. A metade que prevalece em mim é oposta à tua. Minha metade lança tentáculos em todas as direções. A tua se desvia deles. Minha metade te engole. A tua me vomita.

Desobstrui o cimento dos ouvidos. Arranca o gesso dos músculos. Derrete o gelo dos nervos. Funde o chumbo das palavras.

Olhos de vidro. Pálpebras de aço.

Bebi todo o inseticida que havia na casa.

Cheguei ao fundo do precipício e o meu corpo não se despedaçou nas pedras. Sairei de ti. Incontinente.

Travamos um combate interminável. Solidão de meus mesmos.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Dia (do Livro dos Cacos)

Manhã ensolarada de batismo. Tudo translúcido. Como um grito de alegria prolongando-se no ar. Soldados, escriturários, camelôs, crianças, transeuntes banhados de vento, calor e claridade. Envoltos pela plenitude do dia. Caminho radiante. A luz aquece o ar e abole o perigo e o medo.

(...)

Fachos de luz do dia atravessam as frestas da persiana e iluminam a poeira da noite em suspensão. Os sons vindos da rua, filtrados pelo vidro, soam como poemas despertados pelo sol. Protegido, da janela panorâmica eu assisto.

Riba

Todo mundo me conhece por Riba. Eu bebia. Demais. Bebida quente: Dreher, rum, Montilla. Só bebida destilada. Quando eu bebia eu ficava doido. Batia na Diana. Nos meninos. Deus me perdoe. Já levantei a mão até pra mãe. Brigava na rua. Virava e mexia, final de semana, caía no mundo. Saía de manhã, só chegava no outro dia, dois dias depois, se chegasse. Beber em casa? nada a ver. Meu negócio era a rua. Bar, sinuca, farra. Só bagaceira. Só má companhia. Se passasse um mês no mesmo serviço era muito. Eu era muito ignorante. Alguém punha a mão nos meus olhos. Para eu não enxergar o rumo certo. O santo tirou isso de mim. Antes de vir prá cá eu já era do santo. Mais ou menos. A gente tinha uma vizinha. A dona Cleusa. Dona Cleusa era vidente. Ela vivia dizendo pra minha mãe que eu era do santo. Que o santo tava me pedindo. Que eu precisava desenvolver. Que se eu não desenvolvesse eu ia dar muito trabalho. Dona Cleusa virava com Exu. Bebia muito. Fumava charuto. Diz-que até usava droga. Por isso minha mãe não quis. Depois eu não me interessei. Mas o santo cobrava. Um dia eu tinha sido mandado embora do serviço. Tinha bebido a grana da feira. Fazia 3 dias que não ia em casa. O santo me bateu. Me emporcalhou na lama. Me fez beber água de poça d’água. Bater a cabeça no meio-fio até desmaiar. O santo me jogou na sarjeta. Não lembro por quanto tempo. Daí o caboclo veio. Falou comigo. Conversou demais. Aconselhou. Disse que eu tinha um trancarrua colado em mim. Me obcecando. Era trabalho da dona Cleusa. Eu tinha que mudar de vida. O caboclo mandou eu procurar na feira a garrafada tal. Que bebesse de manhã e de noite. Que eu procurasse o terreiro tal. Eu fui. Eu fiquei admirado. O terreiro era igualzinho como o caboclo tinha falado. O pai-de-santo jogou búzio. Para ver qual era o santo. Me recolheu. Raspou. Rodante não. As mesmas coisas que o rodante tem eu também tive. Não, eu não viro no santo. Agora é a cabeça dele antes da minha. Agora eu vou caminhar. Meu pai? Não, eu não posso revelar. Só se ele autorizar.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Fabinho

Contar um segredo? Tá bom. Quando eu crescer eu quero ser médico. Para curar mamãe da artrite. Receitar remédio de pressão alta. Para ouvir o coração da Rosa naquele aparelho, como é mesmo o nome? Papai queria que eu fosse jogador de futebol. Se eu fosse bom, mas muito bom, eu tirava eles da lama. Eu não gosto de futebol. Eu gosto de jogar queimada. É. Meu primo diz que queimada é jogo de mariquinha. Eu não sou mariquinha não. Eu vou me casar e ter 4 filhos. Se eu for jogador eu quero ser goleiro. Sabia que goleiro é o único jogador do time que usa camisa de manga comprida? Eu queria ganhar uma luva de goleiro. Roupa de médico também é bonita. Branquinha. O sapato, a meia, o cinto, o jaleco. Jaleco é aquela roupa tipo um casaco que o médico usa por cima da roupa. Será que a cueca do médico também é branca? Se eu for médico a Rosa vai ter um trabalhão pra lavar minha roupa todo dia. Lavar roupa branca dá trabalho. Tem que deixar de molho. Hem? Ah, tá bom, eu vou contar o segredo sim. Uma coisa que eu nunca contei para ninguém. Eu queria ser artista. Artista famoso. É. De novela. Eu gosto de novela. Eu só não vejo a novela das 9. Porque papai não deixa. Papai gosta de assistir jogo de futebol. Eu acho chato. Artista tem que ter boa memória. Para decorar o papel. Minha memória não é boa. Ah, eu sei uma poesia. É assim: Não vai dar tempo? Tá, outra hora. Acho que eu não vou ser artista por que eu não consigo me lembrar direito. Artista tem que beijar na boca. Eu sei que é de mentirinha, a Rosa que me disse, mas eu acho que eu vou ter vergonha. Eu não sei beijar ainda. Mas eu aprendo. Meu primo disse que já beijou na boca. Ele tem 8. Ele disse que beijou a Rosa. Eu duvido. Porque a Rosa é grande. É adulta. A Rosa um dia me contou que queria ser modelo. Meu primo? Quer ser jogador. Ele adora futebol. Eu não gosto. Acho que eu já falei. Um dia eu tava jogando bola com meu primo. Eu era o goleiro e ele era o Ronaldinho Gaúcho. Ele chutou a bola tão forte que eu não consegui agarrar. Acertou na minha cabeça. Eu desmaiei. Fui internado no hospital. Depois eu não me lembro. Nadinha. Acho que depois do hospital eu vim direto pra cá.

(do Livro dos Cacos)

Raios de sol atravessam a cúpula e cintilam nas gotas d’água entre as folhagens.

A espessura da umidade engole os sons.

Basta um ofegar mais forte e brotam no ar mariposas, morcegos, colibris.

Sob os pés a serpente líquida alimenta-se dos barrancos.

Cabeleiras verde-escuras ondulam na correnteza. Insetos carregados de ovos emergem.

Pedras-lâminas escorregadias afiam-se na carne.

Vestes pútridas do caos-origem. Vísceras da mãe nojenta.

Estarei irreconhecível. Como a água o será quando desembocar no oceano.

A transubstanciação me inundará de água salgada e areia.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Costa

Como? Se eu prefiro praia ou montanha? Ah, só pode ser uma pegadinha! A pessoa passa a vida inteira se preparando, estudando, lendo arte, filosofia, literatura, psicologia, religião e cai uma pergunta dessa? Bem que me avisaram. A essa altura do campeonato... Pode me dar 30 segundos? Para eu reorganizar as ideias. Não? Realmente, por essa eu não esperava. Bem, para uma pergunta imbecil, uma resposta idiota. Vamos lá. Bem, há poucos dias, antes da convocação, eu recebi um e-mail. Sabe aquele amigo que te manda e-mail todo dia? sobre câncer provocado por adoçante. Sobre as 100 vantagens de se beber água. Aquele filminho que demora horas para abrir e quando abre trava seu computador. Aqueles e-mails que a gente deleta sem nem ler. Bem, por sorte esse eu não deletei. Vai me servir agora. Realmente o e-mail é perfeito para a ocasião. Bem, vou resumir porque se não não dá tempo. É sobre um cara aposentado. O cara morava na serra. É, na montanha. Estava empolgado para morar na praia. Por que na serra – na montanha – chovia, tinha nebilina, deslizamento e coisa-e-tal. A senhora conhece algum aposentado que não queira morar na praia? Bem, começa com o cara vendendo a casa da serra. Certo, da montanha. Bem, o cara procura apartamento na praia. Fecha negócio, apartamento com sacada, de frente pro mar. O cara se muda. Pleno verão, sol, calor, mulherada na areia, agenda diária de aposentado, caminhada, sesta, cervejinha, buraco, barco inflável. Com o passar dos dias o cara se enturma com a vizinhança, a maioria também de aposentados. Terminando o verão, os problemas do cara começam. Primeiro manda envidraçar a varanda por causa da ventania. O cara não consegue pôr o barco na água, por causa do mau-tempo. Por falta do que fazer, o cara passa a frequentar o bingo. O inverno piora, o cara para de caminhar. Ou seja, mais tempo no boteco. A barriga só crescendo. A mulher do cara doida para voltar, com medo de tsunami. Bem, lá pra novembro o cara já virou alcoólatra. Quase se divorcia. Vende o apartamento para outro aposentado, e voltando para a serra - para a montanha -, de onde nunca deveria ter saído. Eu, quando me aposentar? A senhora está brincando comigo?

domingo, 13 de março de 2011

(do Livro dos Cacos)

Guinchos dos peixes-ratos na água estagnada.

Escuro e úmido. Preso na teia que reduz meus movimentos. Meus impulsos a.

Casulo. Qual mariposa hodienda surgirá de mim?

Que brotem em torno árvores frondosas. Que cresça o mato. Que o mar engula. Que desabem os dilúvios. Que chova fogo e meteoros.

Pensamento em labirintos. Perseu sem espada. Barbantes de Ariadne.

Como esculpir a sensação. Desejo do vivo. Víscera. O agora necessita de sangue. De carne pulsando.

Ossos. Alabastro. Granito. Magma.

Paraísos inominados.

sábado, 12 de março de 2011

Recife

Olinda

Carminha

Posso mandar um recado? Pro Tato. Tá gravando? Oi, Tato, sou eu! Te amo, viu? Você tá cansado de saber, eu já te disse mil vezes, Tato, você nem imagina o quanto eu te amo. Eu te amei desde o primeiro dia. É, aquele dia que você me pediu o brinde, lembra? Claro que lembra. O brinde era só pra quem tinha completado 500 pontos, você nem tinha direito, você nem cartela tinha mas eu te dei o brinde assim mesmo, sempre sobra, muita gente nem sabe que ganhou, muita gente nem vem procurar. Foi o seu jeitinho de menino pidão que me ganhou, lembra? eu com aquela roupinha ridícula de holandesa no meio do shopping. Tato, você era tudo de bom. Ah, Tato, se eu pudesse te dava o stand todo. Mas fiquei te enrolando, fazendo doce só pra você ficar mais. Pois é, Tato, bem na hora em que eu te entreguei a sacola eu sabia que você é que ia ser o meu brinde. Tato, eu sei que você não liga pra data, mas você sabe que dia é hoje? hoje a gente completa 3 meses juntos. Pena que você não vai estar aqui. Tato, eu nem ia dizer isso, mas me disseram que se eu me arrepender eu posso pedir pra eles tirarem na hora da edição. Me desculpe, Tato. É, me desculpe pela cena de ontem. Desculpa, meu amor. Eu acredito, sim, em você. Eu tava nervosa. Caramba, é meio surreal você ganhar um pacote pra passar o carnaval no Rio com tudo pago, você não acha? Eu fiquei com ciúme, sabia? Inveja também. Eu tinha comprado champanhe e cerveja pra comemorar. Mas graças a deus passou. Eu entendo, Tato, você é homem, tem mais é que aprontar! Pode beijar na boca à vontade, tá? Só beijar, viu? É, eu sei que é carnaval. Levou camisinha? É, meu amor, você eu deixo. Eu tenho certeza que você me ama, por isso eu deixo. Só te peço uma coisa, Tato, se cuida, tá? Acabou o tempo, Tato, beijão pra você, tou morrendo de saudade. Gravou?