sábado, 26 de março de 2011
(do Livro dos Cacos)
Ela, deitada, pensa o mesmo que eu. Sucumbe à melancolia da tarde. Faltam palavras para descrever sua descida. A música acaba. Silêncio. Então ela fala. Eu me levanto sem acender a luz. Inchado de álcool e solidão. Aproximo-me dela. Ela não resiste. Como uma morta. O escuro e meu corpo iluminados pela fosforescência dela. Pela chama azul dos olhos dela. Desisto de falar sobre a morte, gorda, rosada, a nos espreitar no lusco-fusco.
(do Livro dos Cacos)
Chão: colchão azul-marinho estendido no meio da sala / sobre tapete de sisal / cinzeiros cheios / almofadas amarelas empilhadas / livros, revistas / 2 peles de carneiro vermelhas. Parede A, à esquerda: porta de entrada / 3 pilares cilíndricos de concreto com 40 cm de altura perpendiculares à parede / livros empilhados nos intervalos entre os pilares. Parede B: potes de cerâmica ordenados por tamanho decrescente sobre uma caixa de madeira branca / penas de pavão em vaso longo / no ângulo de junção entre as paredes A e B. Parede C: pinturas quadradas / 2 cocares de penas azuis, vermelhas e amarelas dependurados / cortina de algodão / rede vermelha.
Parede D: eu encostado.
Parede D: eu encostado.
Essência trina (do Livro dos Cacos)
O espaço que encerra um indivíduo está sempre em relação direta àquele que o ocupa. A luz o delimita, centelha; o ar o preenche corporalmente, sopro; a palavra o reveste, signo.
Dia-a-dia (2002)
dionísio / baco / sileno só dizia a verdade quando embriagado
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o personagem do filme escreve porque não gosta da realidade / tenta criar outra / onde possa se encaixar / beckett desfaz esse sentido romântico da escrita / reduz a realidade à essência / esvaziando o ser humano / soterrando-o / imobilizando-o em sua verdadeira natureza / no vazio da existência
...
rimbaud passava férias no inferno / aposentou-se por lá / dante excursionou do inferno ao paraíso / com escala no purgatório / dostoievski invernou na casa dos mortos / eça registrou a inauguração do canal de suez / borroughs / ginsberg / kerouak cruzaram a américa / seguindo a trilha de whitman / xavier de maistre viajou em torno do próprio quarto / clarice na cozinha / área de serviço / e dependências de empregada
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marilyn desempenhou o papel de loura burra / durante toda a vida / mesmo longe dos refletores / e das câmaras de filmagem
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o personagem do filme escreve porque não gosta da realidade / tenta criar outra / onde possa se encaixar / beckett desfaz esse sentido romântico da escrita / reduz a realidade à essência / esvaziando o ser humano / soterrando-o / imobilizando-o em sua verdadeira natureza / no vazio da existência
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rimbaud passava férias no inferno / aposentou-se por lá / dante excursionou do inferno ao paraíso / com escala no purgatório / dostoievski invernou na casa dos mortos / eça registrou a inauguração do canal de suez / borroughs / ginsberg / kerouak cruzaram a américa / seguindo a trilha de whitman / xavier de maistre viajou em torno do próprio quarto / clarice na cozinha / área de serviço / e dependências de empregada
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marilyn desempenhou o papel de loura burra / durante toda a vida / mesmo longe dos refletores / e das câmaras de filmagem
quinta-feira, 24 de março de 2011
(do Livro dos Cacos)
Na caverna escura, antro do monstro, aterrorizada ela espera. As garras do monstro lanhando-lhe os flancos.
Os olhos dela se acostumaram. Enxergam com grande esforço. Ela percebe pelos outros sentidos. Tênue do cristal do copo. Bordados dourados. Luz vacilante da vela. Morceguear de passos. Insetos nas paredes de veludo. Rosa murcha sobre a penteadeira. Peixe na redoma de mercúrio líquido.
Quando ele surge a música dessintoniza-se. Zumbidos. Silvos. ZN. Ela toca-lhe os pêlos de escova da crina. As vísceras expostas. O vapor negro dos pulmões. Os líquidos mornos de seus dentros. A luz cor-de-carne que emana do seu corpo. Dele ela sente tudo. Insônia.
Clima de pré-catástrofe suspenso. Medo em todos os sentidos.
Os olhos dela se acostumaram. Enxergam com grande esforço. Ela percebe pelos outros sentidos. Tênue do cristal do copo. Bordados dourados. Luz vacilante da vela. Morceguear de passos. Insetos nas paredes de veludo. Rosa murcha sobre a penteadeira. Peixe na redoma de mercúrio líquido.
Quando ele surge a música dessintoniza-se. Zumbidos. Silvos. ZN. Ela toca-lhe os pêlos de escova da crina. As vísceras expostas. O vapor negro dos pulmões. Os líquidos mornos de seus dentros. A luz cor-de-carne que emana do seu corpo. Dele ela sente tudo. Insônia.
Clima de pré-catástrofe suspenso. Medo em todos os sentidos.
Era sábado
era sábado / nublado / abafado / acordamos tarde / e tomamos café / e ficamos observando o tempo / penetrando nele / respirando a secura do ar / a modorra da manhã / parecia que ia chover / as frutas implodiam de maduras / sensação de clarice / depois das baratas / depois de ouvir rádio na madrugada / para que as palavras, as horas, as músicas, as notícias fossem lastro / para nos prender ao mundo / os fatos concretos, os fatos objetivos, a realidade viva / contra o inefável / a especialidade dela era capturar a essência das coisas / extrair a imaterialidade do real / transformá-la em uma sequência de palavras / que soam como mantras / que resgatam de dentro do ser o ponto de contato com o divino / dizer isso é mais óbvio que falar que água não tem cor
terça-feira, 22 de março de 2011
Mário
Ele sofria em silêncio. Ou dormia. Nós pouco nos falávamos. Eu me ocupava com a dedicação, os cuidados, o travesseiro, a inclinação da cama, os curativos nas escoriações. Para escapar de olhá-lho nos olhos. De pronunciar palavras que revelassem o medo. Ou o alívio de saber que seriam os últimos momentos juntos. Era como uma raiva, contida, indistinta, raiva da doença, do inevitável. Como se ele fosse culpado. Eu estava exausto. Ele percebeu, sim. Porém já se desligava. Nada mais lhe importava que não fosse a própria dor. Que os remédios não aplacavam. Ele se continha. Mesmo nos últimos momentos não queria incomodar. Nada havia a fazer. A não ser esperar. Esperar o dia nascer. Esperar a vinda do médico. Esperar a enfermeira encontrar a veia. Esperar a Morte levantar-se da cabeceira dele. (Pausa). Enquanto o câncer implacável o corroía por dentro. Nas horas intermináveis de vigília. No calor do quarto. Entre as visitas do médico, das enfermeiras. No intervalo entre uma gota e outra pingando no tubo de soro. Como um sonâmbulo eu transcrevia, riscava, alterava, reescrevia frases impregnadas de agonia. E de Morte. Morte sempre. Morte vestida de vida. De paixão. De sensualidade. Antecipação da descida ao Hades? Um videoclipe interminável de música acelerada e sobreposição vertiginosa de imagens, palavras e cores, legendas desnecessárias no rodapé da tela. Simultaneidade irônica. O texto expandia-se. Na proporção em que as células devastadoras devoravam-no. Desmaterializavam-no. De dentro para fora. (Pausa). Eu queria ler para ele o que era nosso. (Pausa). Você?
segunda-feira, 21 de março de 2011
(do Livro dos Cacos)
Eu me queria cachoeira. Entrelaçada às pedras. Lançando espasmos esparsos. Tocada pelos galhos das margens.
(...)
A paixão que nos une é interminável.
Flor vermelha mergulhada em vinho.
Fogo. Morte. Impossível a galopar. Crina arreganhada ao vento.
Mão afrouxando a resistência dos músculos. Boca derramando na pele saliva ácida. Ccascos arrancando pedaços de carne.
domingo, 20 de março de 2011
(do Livro dos Cacos)
horas corroídas pelo vácuo. cidades soterradas.
quadrilátero estático. cadeira no deserto. cavalo cego.
pisar o próximo passo na direção do irrevogável.
recolher-se ao próprio desespero.
às 5 horas da manhã, cheirando a sono e sonhos azedos, cantarola enquanto penteia os cabelos. às 9, ainda coberta pelos resquícios da noite, mergulha inteira noa claridade das cores das coisas da segunda-feira protegida por óculos escuros. às 11, chora ao cortar cebolas, anéis de emoções súbitas misturadas aos tomates, cozinhando no molho amarelo dentro da panela preta. à tarde, cabelo molhado, diante do espelho, celebra a proximidade do escuro e pinta-se para o jantar.
quadrilátero estático. cadeira no deserto. cavalo cego.
pisar o próximo passo na direção do irrevogável.
recolher-se ao próprio desespero.
às 5 horas da manhã, cheirando a sono e sonhos azedos, cantarola enquanto penteia os cabelos. às 9, ainda coberta pelos resquícios da noite, mergulha inteira noa claridade das cores das coisas da segunda-feira protegida por óculos escuros. às 11, chora ao cortar cebolas, anéis de emoções súbitas misturadas aos tomates, cozinhando no molho amarelo dentro da panela preta. à tarde, cabelo molhado, diante do espelho, celebra a proximidade do escuro e pinta-se para o jantar.
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