segunda-feira, 11 de abril de 2011

Dia a dia (411 a 615)

Cabinet des Dr. Caligari, Robert Wiene, 1920
411. flechando coraçõezinhos teen enquanto as luzes permanecem acesas / atirando em todas as direções no jardim de infância da cultura pop / rock´n roll e catimbó na mesa de jurema / oxum na cachoeira dos porões da universidade / rio de granizo no vale das tuas coxas / beijo com gosto de sorvete de baunilha / e cobertura de chocolate derretido / e casquinha crocante / blowjob e tapioca no café da manhã

432. gordinhos sequestrados / gordinhos baleados / gordinhos explodindo / cadáveres de gordinhos bicados por abutres / gordinhos cavalgados por esqueletos / gordinhos respingados de gotas de orvalho / de sangue / gordinhos molhados pela chuva de sangue / gordinhos chapinhando em poças de sangue / na trilha da floresta sobrenatural de bierce / antígona aimará / arrastando o corpo do hermano pela passarela / algumas veias da américa latina insistem em permanecer abertas

434. o buraco da revolução cultural da china era muito mais embaixo / madame mao quem diria acabou na 25 / desagradáveis personagens de leon bloy / 2 litros de silicone nos peitos / 2 nos quadris / e 3,5 nas nádegas / com direito a necrose dos tecidos / internação / tratamento vip na enfermaria da santa casa / e enterro de indigente em vala comum / rayanna shangrilá passou por aqui

531. levando no ombro o peso dos séculos / entubado pelo poema-enema / lavando a roupa suja da história recente / seguindo as pegadas do bêbado de terebentina / atravessando os territórios indômitos da escrita / coleção de escalpos no gabinete do doutor caligari / estourando bolhas de sabão com a machadinha da vovó donalda / tomar umas e outras com arp / tzara / schwitters / ray no cabaré voltaire

615. anjos de pelúcia violentados na orgia das tubaínas / moicanos de sílex aguardando a vez nos portões de sodoma / garotos de sal fazendo ponto no calçadão da avenida atlântica / diadorim dando mole para riobaldo na vereda da cabeça do veado / bundinhas de veludo dos deuses nórdicos / estalactites de carne brotam nas paredes do túnel do intestino grosso

domingo, 10 de abril de 2011

Kali

Kali foto Piyal Kundu by Wikipedia

(do Livro dos Cacos)

O roxo pesa-me nos ombros.

...

Da imagem que te vejo eu extraio cada átomo do que pode ser você. Eu te procuro em cada detalhe da cena. Atrás das máscaras. Nas flores dos arranjos. Nos parapeitos dos suicidas. Sem saber que você também é a máscara. O vaso. O vazio. Eu te construo em meu olho.

...

A noite se fecha em torno. Chove gotas de sangue na janela.

sábado, 9 de abril de 2011

Howl (Ginsberg)

Pierre et Gilles

who let themselves be fucked in the ass by saintly motorcyclists, and screamed with joy, who blew and were blown by those human seraphim, the sailors, caresses of Atlantic and Caribbean love, who balled in the morning in the evenings in rose gardens and the grass of public parks and cemeteries scattering their semen freely to whomever come who may

Dia a dia em gerúndio (1290)

hippies bárbaros rompendo as muralhas da cidadela ao amanhecer / todo mondo a su manera bailando la cumparsita / bandolero gitano / balada fúnebre para 12 pétalas da flor de lótus / amor de espinho alastrando-se pela caixa torácica / doce de leite nas trompas de falópio / minha massa encefálica esfriando em tigelinhas de sopa / serenata furtacor / colcha de retalhos / roendo os ossinhos da cauda da literatura clássica / dragão sagrado / adjetivo / advérbio / locução adverbial / ajoelhando-me diante da virgem dos sapatinhos de cristal / sob a chuva de meteoritos / na belém-brasília da teogonia / como ia dizendo roberto piva / esquiando com emília nos anéis de saturno / engolindo em seco para não chorar / recebendo mensagens psicografadas do marido morto / o além é logo ali / esperando telefonemas intergaláticos / sexo fastfood às 4 da manhã / voyeur no mictório do shopping / fodendo de pé nas ruinas de pompeia / na amurada do viaduto / ejaculando nos carros passando em baixo / caminhando de pés descalços no chão de cacos de vidro / assistindo o mundo esvair-se pelo ralo / descendo as escadas da esquizofrenia / abrindo as portas do sótão do subconsciente / percorrendo correndo os corredores de silêncio / revisitando jards macalé e sigmund freud / premindo o botão de descarga do mundo

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Dia a dia com Hesíodo (Os trabalhos e os dias)

Adquirir a miséria, mesmo que seja em abundância / é fácil; plana é a rota e perto ela reside. / Mas diante da excelência, suor puseram os deuses / Imortais, longa e íngreme é a via até ela, / áspera de início, mas depois que atinges o topo / fácil desde então é, embora difícil seja. / Homem excelente é quem por si mesmo tudo pensa, / refletindo o que então e até o fim seja melhor; / e é bom também quem ao bom conselheiro obedece; / mas quem não pensa por si nem ouve o outro / é atingido no ânimo; este, pois, é homem inútil. / Mas tu, lembrando sempre do nosso conselho, / trabalha, ó Perses, divina progênie, para que a fome / te deteste e te queira bem a coroada e veneranda / Deméter, enchendo-te de alimentos o celeiro; / pois a fome é sempre do ocioso companheira; / deuses e homens se irritam com quem ocioso / vive; na índole se parece aos zangões sem dardo, / que o esforço das abelhas, ociosamente destroem, / comendo-o; que te seja caro prudentes obras ordenar, / para que teus celeiros se encham de sustento sazonal. / Por trabalhos os homens são ricos em rebanhos e recursos / e, trabalhando, muito mais caros serão aos imortais. / O trabalho, desonra nenhuma, o ócio desonra é! / Se trabalhares para ti, logo te invejará o invejoso / porque prosperas; à riqueza glória e mérito acompanham. / Por condição és de tal forma que trabalhar é melhor, / dos bens de outrem desvia teu ânimo leviano e, / com trabalho, cuidando do teu sustento, como te exorto. / Vergonha não boa ao homem indigente acompanha. / (Vergonha que ou muito prejudica ou favorece aos homens.) / Vergonha é com penúria e audácia é com riqueza. / Bens não se furtam: dons divinos são muito melhores. / Pois, se por força, alguém toma nas mãos grande bem / Ou se com a língua pode consegui-lo, como não é raro / Acontecer, quando o proveito ilude a inteligência / Dos homens, ao respeito o desrespeito persegue. / Facilmente os deuses obscurecem a casa / do homem e por pouco tempo a prosperidade o acompanha.

(do Livro dos Cacos)


Clarice:
A obra de arte é um ato de loucura do criador. Só que germina como não-loucura para chegar à visão do mundo. A previsão desperta do sono lento da maioria dos que dormem ou da confusão dos que adivinham que alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer. A loucura dos criadores é diferente da loucura dos que estão mentalmente doentes. Estes, entre outros motivos que desconheço, erraram no caminho da busca. São casos para médicos, enquanto os criadores se realizam com o próprio ato da loucura.

Anaïs:
Engulo as minhas próprias palavras. Rumino e rumino até que tudo se deteriore. Cada pensamento e cada impulso é mastigado até que se transforme em nada. Quero controlar todos os meus pensamentos de uma vez, mas eles fogem em todas as direções. Se o conseguisse seria capaz de capturar os espíritos mais sutis, como um cardume de pequenos peixes de água doce. Poderia revelar inocência e duplicidade, generosidade e cálculo, medo, covardia e coragem. Pretendo dizer toda a verdade porque, para isso, teria de ser capaz de escrever quatro páginas simultaneamente, quatro longas colunas simultâneas, quatro páginas resultando numa, e essa é a razão porque não escrevo nada. Teria para isso de escrever em reverso, voltar atrás constantemente para agarrar os ecos e os acordes.

Henry Miller:
Escrever, eu meditava, deve ser um ato destituído de vontade. A palavra, como a profunda corrente oceânica, tem que flutuar na superfície de seu próprio impulso. Uma criança não tem nenhuma necessidade de escrever, é inocente. Um homem escreve para destilar o veneno que acumulou devido à sua maneira falsa de vida. Está tentando recapturar sua inocência e no entanto tudo o que consegue fazer (escrevendo) é inocular no mundo o vírus de sua desilusão. Homem nenhum colocaria uma palavra no papel se tivesse a coragem de viver aquilo em que acredita. Sua inspiração é desviada na fonte. Se é um mundo de verdade, beleza e mágica que deseja criar, por que põe milhões de palavras entre si e a realidade daquele mundo? Por que retarda a ação - a não ser que, como outros homens, o que realmente deseje seja o poder, a fama, o sucesso? "Os livros são ações humanas na morte", disse Balzac. No entanto, tendo percebido a verdade, ele deliberadamente entregou o anjo ao demônio que o possuiu.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Dia a dia (0187 a 0195)


scienceblogs.com.br
187. tráfico de ópio na época dos faraós / bola voadora dispara raios no céu da índia / vanusa babilônia chefia rede de aliciamento e prostituição

191. pelo 7o dia consecutivo / exterminadores raides bombardeiam praga / dresden / saltzburg / bavária romênia / danúbio / volga / líbia / iraque / hiroshima / afeganistão / nuvens negras de ódio e rancor sobre a palestina / nuvem marrom de dejetos industriais sobre a ásia / nuvem prateada de bombardeiros sobre os civis / ilha de garrafas pet / e sacos de supermercado / no meio do oceano atlântico / terremoto / maremoto / tsunami / chuva ácida / contaminação radioativa / arruda / sal grosso / passe de preto velho / banho de rosa branca no mundo

195. shakespeare / soneto 138 / quando a amada jura que é feita de verdade / eu acredito / sabendo que ela mente / o melhor hábito do amor / é simular confiança / nelson sargento / nosso amor é tão bonito / ela finge que me ama / e eu finjo que acredito / samba do crioulo doido sob a sombra de agripino de paula / a horda dos espíritos malditos / mautner / macalé / glauco mattoso / arnaldo batista / wally salomão / roberto piva / guerra na Colômbia levanta pó dos séculos

Dia a dia (0123)


news.bbc.co.uk
123. saparmurat niyazov / presidente vitalício do turcomenistão / até a sua morte / em 2006 / construiu gigantesco lago artificial / no deserto / cercou o lago por floresta de ciprestes / em cujo centro / ergueu um palácio de gelo / com pista de esqui / e pirâmide de 40 metros de altura / e estátua em ouro / 6 vezes maior que ele mesmo / em praça da capital / com base giratória / acompanhando o movimento do sol / decretou a divisão da vida em 12 ciclos / estendeu a adolescência até os 25 anos / o início da velhice aos 85 / dos 25 aos 37 a juventude / a idade madura dos 37 aos 49 / a fase correspondente à idade dele / 62 anos / à época do decreto / passou a ser chamada / ciclo da inspiração / mudou o nome dos meses / para nomes de parentes / da mãe / dele próprio / e de heróis populares

Arca dos inéditos de Fernando Pessoa

(Google)