quinta-feira, 21 de abril de 2011

Brasília 6

No meio do cerrado, o lago. Prata, cinza, sob o arco avançando, garça, asa refletida, ponte. Mãos se estendem, crescem, se revezam para alcançar a outra margem, metro a metro, bloco a bloco, concreto, madeira, aço, carne, olho projetado no além. No sempre.

Dentro. O sonho. O sono de ontem. De anteontem. Dos dias ininterruptos. Das noites a fio. O fio da serra. Lâmina. Dedos mutilados pela máquina. Sangue riscando vermelho nos veios do madeirame. Borrando o amarelo da lâmpada de 100 watts que ilumina o canteiro da obra. Tingindo a prata da água, escondida pelo escuro, abaixo. O concreto em torno. A casca de mármore branco. O outro.

Brasília 5 (CL)

Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. /.../ Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. - Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon ... /.../ Aqui o ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se. /.../ Em Brasília estão as crateras da Lua. - A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis. 
(CL, A Descoberta do Mundo)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Brasília 4


Luar sobre o branco dos mármores. Refletido nos espelhos de água. Nos vidros dos edifícios. Nas pupilas dilatadas dela. No ar. Que envolvia as coisas. As construções. Que transformava o próprio escuro da noite em escuro brilhante de sonho. E ela no meio do nada.

Sozinha. Punhal. Tirso. Taça. Salto. Sexo. Branco sobre os tecidos. Sobre a pele brilhante dela. Que estanca antes de desembestar. Graça. Ninfa. Parca. Pombagira.

Ela rodopia. Gargalha. Grita. Na calçada. No encontro de todas as direções. Dos pontos cardeais. De onde, de dia, os rumos saem. Para onde, de dia, tudo retorna. Não à noite. A madrugada era dela. A madrugada era ela.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Brasília 3

No meio do cerrado. Água turva, cinzenta, profunda. Artificial. Aliás, como todo o resto. Engolindo as margens. Cobrindo as árvores. Alargando as distâncias. Alastrando-se. Clepsidra marcando o subir lento do tempo.

Ele se deitou. Exausto. E ergueu, no sonho, paralelepípedos absurdos de granito, vidro e nuvens. Que flutuavam quase sem tocar o chão.

Então veio. Qualquer rumo que ele apontasse era a possibilidade. Qualquer gesto, a hipótese. Ele se apoderou dos vértices da rosa. Dois, quatro, mil braços e olhares traçando os quadrantes. Esquadrias de aço surgidas do respirar. Estirões de asfalto projetados das pontas dos dedos. Colares de lâmpadas brancas brilhantes estendidas do chão preto contra o ouro, o vermelho, o roxo, os verdes, os azuis do entardecer.

domingo, 17 de abril de 2011

últimos poeminhas petulantes (do Livro dos Cacos)

VIII

dedos ágeis
aracne trama
a malha dos dias
em sangue
e amarelo


VII

a aurora
rompe o tecido da noite
vermelha

na torre mais alta
ressona
princesa nua
que o cavaleiro vela

a princesa não sabe
os rumos que o destino costura
nem o cavaleiro
a morte nos lábios dela


IX

a aranha tece
a lua olha
a tecedura emaranhada da aranha
entre rabiscos de galho
branca brilha longe
lâmpada fluorescente
anoitece

Brasília 2

(a partir de foto de Marcel Gautherot)
Ela já o tinha visto. E escolhido. Quando ele segurou-lhe a mão, com força, na hora dos fogos, ela sentiu no toque a casca áspera dos troncos das árvores que entremeavam as construções. Dos frutos travosos que lhe brotariam das entranhas. Que povoariam aquele lugar de sonho.

Então ele apontou o céu. Onde os fogos explodiam. Esferas, rosáceas, frutos de mil cores brilhantes se dissolvendo em chuva de luz antes de tocar o chão, os prédios de curvas e retas brancas, a poeira vermelha escurecida pela noite. Ele e ela pulsavam, únicos, multiplicados no instante, na luz, no espaço infinito que se descortinava.

sábado, 16 de abril de 2011

Brasília 1


Ele desceu do caminhão e o que viu era muito além da sua compreensão. Ele soube. Tinha encontrado. Nada existia para ele a não ser as estruturas de ferro e de concreto contornadas por árvores retorcidas, erguidas sobre a poeira vermelha, riscando formas quase oníricas contra o céu vermelho. Sim, o sonho dele era ali.

Das mãos dele tudo se ergueria, tudo seria moldado. Das mãos dele e das mãos dos milhares de josés que desciam dos milhares de caminhões e se deixavam ficar ali, parados, os olhos bem abertos, os corações pulsando, adormecidos no sonho dentro do sonho dentro do sonho.

a c cesar

(...) Ai que estranheza e que lusitano torpor me atira de braços abertos sobre as ripas do cais ou do palco ou do quartinho. Quisera dividir o corpo em heterônimos - medito aqui no chão, imóvel tóxico do tempo.
(Final de uma ode, Ana Cristina César)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

poeminha petulante 3 (do Livro dos Cacos)

I

minha boca
na tua
sol cravando dentes vadios
na pele invisível do dia

poeminhas petulantes 2 (do Livro dos Cacos)


V

sobrou o fogo de tuas vozes
o fio de teus sorrisos
o espinho de teus olhares
o pus de minhas feridas


II

o olhar fortuito que te deito
é sombra de miragem
fogo de martírio
espuma de miasma
poeira de arquivo


VI

a linha fina que te traça
risca fundo
a carne das entranhas

tua pele imaginada
aderida à minha
quadril e coxas
ânsia solitária
jorros impudentes