quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dia a dia 427 e 428

Vincent Van Gogh - Ronda de prisioneiros
427. prisioneiros políticos aguardam a vez sob o sol de outono / caminhando em círculos no pátio congelado / cadafalso / pétalas de sangue nas cabeças dos peregrinos / ao som de adoniran cantando tiro ao álvaro / face bexiguenta do deus da guerra / tortura & varíola & sangue & areia / bebês suicidas espalham terror em estacionamento de shopping / forrobodó e furdunço no baile do sindicato dos homens-bomba / chip subcutâneo reduz até 90% da produção de adrenalina / de testosterona / tolstoi em doses homeopáticas para garantir a paz das gerações futuras / asas de anjos guerreiros cobrem nossos corações desnudados


428. caminho em espiral até a porta de vidro temperado do fim dos tempos / bolinhas de turquesa marcando o passar dos dias em shangrilá /pulando 6 casas no jogo de ludo / tempestade de areia nos cabelos da diva morta / luxo / miserê / purpurina no desfile das escolas campeãs / máquinas de bingo eletrônico mastigam dados viciados / caixas eletrônicos cospem notas de 100 dólares em agências bancárias da periferia / caçaníqueis defecam jujubas e moedas de 1 real / velhinhas atentas ao próximo clic da roleta russa / engolido pela boca escancarada da fonte dos prazeres

sábado, 23 de abril de 2011

Shakespeare 1

Esse amor, cujos olhos encontram-se eternamente vendados, deverá, mesmo sem visão, encontrar rumos para seu desejo! (...) Amor beligerante, ódio amoroso, tudo e qualquer coisa, nascidos do nada! Uma pesada leveza, uma grave vaidade, um caos deformado de formas aparentemente tão bonitas! Pluma de chumbo, fumaça brilhante, fogo gelado, saúde doentia! Um dormir sempre insone, que não é nada daquilo que é! - Esse amor sinto eu, que não sinto nenhum amor em retorno. (Romeu e Julieta, 1o. ato, cena I)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Brasília 7

foto: Geraldo Vieira em www.henriquevieira@wordpress.com
Do vidro do carro ele olha. Espera, anseia enxergar o corpo, a pele branca do gigante-cidade deitado. O gigante-cidade que dorme à beira da água. Demora. Mas ele vê.

Dor, prazer, sentimentos que ele ainda não sabe exprimir. Pássaro grande demais, magro, desajeitado, estende as asas, o pescoço, o bico comprido no restrito da caixa torácica. Então ele canta.  O pássaro, o menino. Brado. Orgulho. Fibra. Arrojo. Palavras pomposas do hino sem sentido. O pássaro rompe. E adentra a cidade estendida por todos os ângulos da visão do menino.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Brasília 6

No meio do cerrado, o lago. Prata, cinza, sob o arco avançando, garça, asa refletida, ponte. Mãos se estendem, crescem, se revezam para alcançar a outra margem, metro a metro, bloco a bloco, concreto, madeira, aço, carne, olho projetado no além. No sempre.

Dentro. O sonho. O sono de ontem. De anteontem. Dos dias ininterruptos. Das noites a fio. O fio da serra. Lâmina. Dedos mutilados pela máquina. Sangue riscando vermelho nos veios do madeirame. Borrando o amarelo da lâmpada de 100 watts que ilumina o canteiro da obra. Tingindo a prata da água, escondida pelo escuro, abaixo. O concreto em torno. A casca de mármore branco. O outro.