terça-feira, 17 de maio de 2011

Intervalo com elefantes

Além do seu emprego como animal de carga, puxador e montada para caçar, o elefante prestou em outros tempos ao homem serviços inesperados. Vimo-lo, por exemplo, em diferentes circunstâncias, servir de carrasco. O amestramento dos elefantes para esse papel era um tanto macabro, pois obrigavam-no a ensaiar diversas vezes com uma vítima imaginária. Começavam dando-lhe ordem para "matar o patife"; então o elefante enrolava a tromba em torno do corpo virtual do malfeitor, depositava-o no chão e lentamente pousava as patas da frente no lugar onde estariam os seus membros. Ao fim de alguns minutos dessa manobra o elefante imobilizava-se, com a tromba erguida acima da cabeça. E quando lhe pediam que terminasse a execução, o animal pousava uma das patas dianteiras sobre o abdomen da imaginária vítima, e a outra sobre a sua cabeça, destruindo assim todo vestígio de vida. Havia ainda outro costume, que consistia em utilizar dois elefantes para inclinar uma para outra duas árvores próximas; a vítima era então amarrada às árvores por meio de cordas, um braço e uma perna de cada lado. A um dado sinal os elefantes soltavam as árvores e o criminoso era dividido em dois. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963).

Katrina

Lembra quando eu levei a Larissa lá em casa? Caramba, a gente só tinha 14. Lembra o que você disse pra gente na mesa? que preferia morrer a ter a filha drogada, puta ou lésbica? A troco de nada. Você foi muito escrota. Eu já tava acostumada, você vivia dizendo isso, eu achava que era brincadeira. Mas ali, na frente de estranhos era a primeira vez. Logo com a Larissa. Eu morri de vergonha. A amizade da gente ficou abalada. Quase acabou. Por sua causa. Eu demorei um tempão processando. Fingindo que não tinha te entendido. Fingindo que não tinha importância. Vou te dizer uma coisa: eu demorei um tempão tentando enfiar pelo ralo a admiração que antes eu sentia por você. Você estragou tudo. Você passou a ser tudo o que eu não queria para mim. Você era vulgar. Preconceituosa. Pode ser. Fui covarde em não te enfrentar. Devia ter cuspido na tua cara, te dado um tapa, virado a mesa, saído de casa, sei lá. Talvez as coisas não tivessem sido tão amargas para nós duas. Talvez eu não tivesse virado lésbica. Tá espantada? Quem me disse isso foi aquele psicólogo viadinho, o seu amigo. E você gastando dinheiro com aquela babaquice. Lógico que não tem nada a ver. Pois é. Você pagando pro cara te detonar. Dizer que eu tinha virado lésbica por causa da ausência da figura paterna. Pois senta pra não cair. A lésbica aqui transou com ele. No consultório. Sabe o que ele disse enquanto me comia? Que você era mais safada que eu. Foi nojento, sim. Tive vontade de vomitar na almofada. Mas era por você. Pela raiva que eu sentia de você. Lembra aquela vez em Guarapari? Eu nem conhecia a garota. Engraçado, até hoje eu ouço a entonação, cada sílaba, aquele jeito pedante que você estendia as vogais: leés-bi-ca. Você acha que eu perdi a oportunidade? Reconciliação? Você tá brincando? Sabe qual foi a minha maior frustração? Ter chegado a essa situação antes de você. Não seja ridícula. Não me venha com essa conversa de resgate do karma. Você acha possível? Porque não? Afinal, você vai ter a eternidade para tentar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Jônatas

Se fosse vivo, hoje ele completaria 80 anos. Eu não teria lembrado se não fosse você. Bem, eu sinto saudade dele, sim. Mesmo com todos os problemas que a gente teve. Quando ele era vivo. Quando eu era mais novo. É, eu até escrevi um texto. Para homenagear os 80 anos, para relembrar, para marcar a data. Nossa, eu desenterrei umas coisas do tempo do onça naquele texto. Que tipo de coisas? Deixa pra lá. Passou.  É, sempre eu digo: as nossas diferenças se acabaram com a morte dele. Como assim? Mentira? É, eu já disse mil vezes. Eu me arrependo. Hoje eu sinto falta dele. Se fosse hoje eu não teria me comportado daquela maneira com ele. Tá bom, ele mereceu. É, ele não precisava ter dito aquilo. Pô, eu só tinha 17, 18 anos. Mas quem, em um momento de raiva, não solta os cachorros? É, eu sei. Depois que a pessoa morre tudo fica mais fácil. A tendência é suavizar os defeitos. Depois que morre, os podres da pessoa desaparecem. Por encanto. Ah, como ele era legal, ah, como ele era bonzinho. De certa forma ele era sim. Ele se esforçou sim. Na medida do possível. É. Nos limites dele. Entenda bem. Eu me arrependo, sim. Eu me arrependo de não ter dito algumas coisas pra ele. Coisas que poderiam ter mudado completamente a nossa relação. Eu achei que tinha superado a mágoa. Que nada. O texto de hoje, o texto para homenagear os 80 anos dele, por exemplo. Não, eu não quis publicar. O texto estava cheio de mágoa. Sabe aquelas mágoas que não adianta, que por mais que você tente, por mais que se esforce, floral, terapia, sexo, porre, volta e meia aquilo volta? pois é. Muita mágoa. É, eu sei, eu também não fiquei atrás. Eu sei que eu magoei muito ele também. Mas porque você tá perguntando? Pô, tem pelo menos uns 20 anos que ele morreu. É, 80 anos hoje. Sabe o que eu mais me arrependo de não ter perguntado a ele? Como assim? Você tá brincando? Tá dizendo o que? Ele? Nem adianta, eu não acredito.

Intervalo com elefantes

Cena do filme Água para Elefantes
O estudo do sono dos elefantes ocupa uma parte importante da monografia de Benedict. Suas pesquisas foram realizadas na América em certo número de elefantes de circo, e especialmente numa fêmea asiática chamada Jap. (...) Benedict fez uma primeira série de observações durante o dia e nunca viu Jap dormir, à exceção de um ligeiro sono que ela fazia, de vez em quando, de pé. Assim dormitando mostrava a tromba pendente, com a ponta pousada no chão, levemente curva, de olhos fechados e sem nenhum movimento perceptível do corpo. As observações foram feitas durante as 24 horas seguidas, e prolongaram-se por 9 dias sem interrupção. Na primeira noite Jap pareceu incomodada pela luz e pela presença de observadores na sua baia, e teve apenas um sono muito curto, de pé, às 03h40 da manhã. Todavia na segunda noite, aos 30 minutos da madrugada, fez as delícias, deitando-se, dos que a observavam. Adormeceu imediatamente, e hora e meia depois começou a roncar, provocando ainda maior entusiasmo. Às 2h20 acordou e pôs-se de pé, mas para de novo se deitar às 3h58 e tornar a adormecer. Desta vez fustigou o chão com o rabo durante vários minutos, mas não tardou a serenar pondo-se a respirar dificilmente. Por fim acordou às 6h, com a sua cota de sono para essa noite. (...) Este número provando que os elefantes podem gozar de perfeita saúde com bem pouco sono. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963).

domingo, 15 de maio de 2011

sábado, 14 de maio de 2011

Intervalo com elefantes 4

Durante a sua vida, que tem aproximadamente a mesma duração da do homem, o elefante dispõe, para o seu serviço, de vinte e quatro desses molares admiravelmente construídos. Porém em nenhum momento pode utilizar-se deles, nem sequer possui mais de um, ou dois incompletos, de cada lado de cada um dos maxilares. Enquanto se gasta o primeiro grupo de quatro dentes, quatro novos nascem atrás. Pouco a pouco eles deslocam-se para a frente, substituindo os velhos que terminam por cair. O processo repete-se. Cada um dos dentes sucessivos é mais grosso que o anterior e tem maior número de lâminas transversais. Assim, no elefante da Índia o primeiro dente tem em média quatro lâminas, o segundo oito, o terceiro doze, o quarto doze, o quinto dezesseis e o sexto vinte e quatro. Os números correspondentes no elefante da África são 3, 6, 7, 7, 8 e 10. Quando 6 dentes se sucederam em cada metade de cada maxilar, não nasce mais nenhum e o animal fica impossibilitado de se nutrir. Isso, naturalmente, contribui para causar a morte dos elefantes selvagens, entre os quais, pela idade de sessenta anos, os derradeiros molares começam a cair. (Richard Carrington, Os elefantes, 1963)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Conversa em 11.05.2011

mais fotos

Intervalo com elefantes 3

Sofia Giordano Clerc, Elefante indiano, litografia, 1827
Para os que precisam viajar em elefante, há diversos modos e subir para o animal. A escada, que constitui o processo mais simples e fácil, seria considerada aviltante no Extremo Oriente e preferem-lhe métodos mais arriscados. Se o mahut ensinou o elefante a pôr-se de joelhos, vai tudo muito bem: o viajante pousa o pé numa das patas dianteiras, agarra-se à orelha e sobe pelo pescoço do animal utilizando sua coleira. Porém os mahuts nem sempre gostam de obrigar os seus protegidos a ajoelhar, tratando-se de operação que exige grande esforço de tão volumosas criaturas. Em vez disso ensinam o elefante a oferecer ao passageiro dois estribos, um com a pata da frente erguida, outro com a tromba arrebitada. Esse método é um tanto cansativo para as pessoas corpulentas ou idosas. Também se pode recorrer ao uso combinado de uma das patas traseiras e do rabo para que a pessoa se guinda, ou deixar-se levantar pela tromba para ser depositada na cabeça do animal. Em geral a maioria das pessoas acha agora mais seguro e também mais rápido viajar de trem, o que não é de admirar. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963)

Ezequiel

como o xamã da tribo pré-histórica retornando da caça antes da neve ele expressou pela primeira vez o nosso assombro pelo mundo que surgia, os nossos terrores ainda não experimentados, as nossas visões, ele invocou forças protetoras antes de nos dispersarmos nas direções dos 4 pontos cardeais, para originar as nações, os povos da Noite e das grutas de Caracala, os plantadores de cânhamo do mar Morto, os navegadores ruivos dos oceanos de gelo, os devoradores de carne humana da floresta amazônica, nas terras férteis da Mesopotâmia, da Namíbia ao rio Congo, às margens do rio Nilo e do rio Ganges, nas estepes, dos Grandes Lagos à Terra Nova, ventres prenhes, a terra a ser cultivada, cidades a serem construídas, represas, túneis, pontes sobre corredeiras, redes de comunicação submarinas, aparelhos de guerra e destruição, transatlânticos, bolsas de valores, poemas, espelhos, projeções, reflexos, miragens, e nós, na verdade há milênios-luz daquilo, por meio dele nós tocamos o desconhecido, a sensação era incômoda, flor de pedra arrancada, farpa, espinho dos séculos sob a pele, cristal crescendo na víscera, a dor nos mantinha despertos, atentos, nós ouvíamos as histórias, as aventuras interiores dele, o brilho do fogo das palavras dele, nós tentávamos compreender o princípio, o âmago, o primordial de onde ele veio, nós nem intuíamos, os insetos translúcidos, a mariposa emaranhada nos cabelos despenteados dele, estrelas, às vezes havia lua, as palavras dele sedimentavam-se, depositavam-se sobre a areia, debaixo das ondas, turvas, no mais profundo de nós mesmos, e