terça-feira, 31 de maio de 2011

Telo

Essa é digna do Tuco. Tenho certeza que você vai morrer de rir. O Tuco era meu irmão gêmeo. Morreu ano passado. De acidente de moto. Tem gente que diz que se a gente fica lamentando, a alma da pessoa morta fica vagando, perdida, perto dos parentes, sem saber que morreu. Por isso eu só conto as coisas engraçadas. O Tuco? Deve ter ido direto pro paraíso. Reivindicar as mil virgens. Não, o Tuco não era muçulmano. Era uma piada nossa. Sei. São 2 minutos. Um dia, antes do acidente, na época que ele estudava em Buenos Aires. No shopping. Eu estava distraído. Sabe quando a gente tá pensando em nada? Em muita coisa ao mesmo tempo? Pensando na morte da bezerra? Quando olhei, vi sabe quem vindo na minha direção? Ele mesmo. O Tuco. Me olhando nos olhos. Sorrindo pra mim. Tomei um baita susto. Não podia ser. O Tuco? Com uma roupa igual à minha? Foi rápido. Não podia ser o Tuco de jeito nenhum. O Tuco estava em Santiago. Não, Buenos Aires. Eu só me toquei quando eu abri a boca pra chamar, ei Tuco, o que você tá fazendo aqui? Não era Tuco coisa nenhuma. Sabe quem era? Era eu mesmo. Refletido no espelho da vitrine. Uma vitrine de esquina. O espelho me enganou direitinho. Não achou engraçado? Se o Tuco tivesse contado você ia morrer de rir. Tá, isso foi antes do acidente. O Tuco estava longe. Mas ainda vivia. Depois que ele morreu aconteceu de novo. Ó, eu tou todo arrepiado. Eu ia para a faculdade. Bem cedo. De repente. Na garagem do prédio. Eu vi o fantasma do Tuco. É, podia ser alguém parecido. Mas não tinha ninguém. Na verdade eu não vi o rosto. Só a silhueta contra a luz. Parado na minha frente. Eu tenho certeza que era ele. Me deu um troço estranho. Tentei falar. Bem tranquilo: Tuco, você tá precisando de alguma coisa? Você já tentou falar debaixo da água? Era igualzinho. Não, eu não sou espírita. Mas boto fé. Tia Marta é. Ela psicografa. Mensagens dos espíritos. Pois eu continuei: Tudo bem, Tuco? O Tuco não respondeu. Sumiu. Totalmente. Como alguém aparece e desaparece na sua frente na mesma hora? Caramba, já acabou? Aconteceu de novo. 3 vezes. Da última vez ele segurou a minha mão.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Intervalo com o mamute

Já expus em outro lugar como os corpos congelados de mamutes contando uns 20 mil anos foram descobertos em terrenos glaciais da Sibéria por exploradores russos. Basta frisar aqui a importância dessas descobertas, que vêm completar os nossos conhecimentos sobre este animal extraordinário. Encontraram-se na Sibéria restos tão completos que permitiram reconstituir integralmente o mamute (de que há um exemplo famoso no Museu Zoológico de Leningrado); e sobre essas carcaças a carne, depois de descongelada, era ainda tão fresca que os cães puderam comê-la, e mesmo certo dia foi servida num banquete a um grupo de sábios russos. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963).

sábado, 28 de maio de 2011

(do Livro dos Cacos)


(para ler o texto integral clique aqui)

ode assimétrica
(impressões de tarde clara em são luís)

“cavamos a palavra. sob o seu lustro, a cal; e cavamos a cal”

(ferreira gullar)

a ilha navega
acima do que os olhos podem ver

acima do vômito dos mendigos bêbados nas soleiras
entre as folhas das bíblias debaixo do braço dos evangélicos
no meio do lixo & dos camelôs interrompendo o fluxo dos pedestres no calçamento
no sono dos garis debaixo das jaqueiras
misturada ao cheiro de comida vindo das venezianas dos casarões depredados
invadidos pela horda de flagelados
impregnada no suor dos marinheiros fodendo travestis menores de idade nos vãos escuros
nas sacolas de compras dos turistas dinamarqueses holandeses franceses japoneses alemães americanos
admirando & fotografando & filmando tudo
nas roupas dependuradas nas janelas
cobrindo de cores berrantes os azulejos descascados
no mato dos quintais
nos muros pichados

a ilha navega
às duas horas e meia da tarde
em meias palavras
o poema serve para descrever

as mulatinhas magras saídas da escola que nos olham e riem
o amarelo amargo dos vitrais da catedral lavando em fel os santos os fiéis fantasmagóricos
a passagem das horas no quarto do hotel com frigobar e ar condicionado
a rua grande
esteira estreita onde se anda e anda e anda sem chegar a lugar algum
os canhões apontados para a baía sem defender nada
os peixes mortos entre os barcos do cais da praia grande
o catamarã para alcântara
as moscas pousadas no verdume da carne ao sol
os olhos esgazeados o grunhido do porco preto no mercado
o riso os peitos os olhos a bunda grande da preta do beiju de tapioca
as bilhas de água morna
os amores mornos
o calor cozinhando a tarde em banho-maria
o cavalo fugido desenhando frases vermelhas no asfalto

a ilha navega
enquanto aguardamos
as horas
no mormaço da tarde

sobrescrevendo postais
sobre o mangue
a temporada teatral
as falcatruas dos políticos
sobre a mudança da lua
a tabela das marés
o calor da paisagem
sobre as preocupações das mães distantes
o romantismo & o contemporâneo
os olhos azuis-verdes de holanda
sobre as omoplatas as coxas as nádegas do garoto de programa

papagaios grasnam nos beirais
oculto em um casarão antigo
hoje biblioteca
um busto de schiller espreita


(para ler o texto integral clique aqui)

... elefantes

Estudo de elefante (Rembrandt van Rijn)
Os elefantes costumam nadar ou patinhar na água lamacenta apenas pelo prazer de estar na água. O banho de um elefante é um espetáculo divertidíssimo. Os animais cobrem-se de lama e barritam, atiram-se água uns aos outros, ou estendem-se ao comprido com o ar satisfeito de velhos senhores tomando o seu banhozinho na praia. Dão cambalhotas na areia em alegre perseguição, soltam gritinhos de júbilo e dão-se encontrões na água. Os mais atrevidos brincam de dar pequenas pancadas nas costas da mãe, estendida na margem, ou despdem com a tromba um jato de água contra algum velho macho muito digno. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Túlio

Sim, eu recebi o chamado. Com antecedência. Vocês sempre se comunicam. A comunicação de vocês é muito sutil. Vem em ondas quase imperceptíveis. Como um chiado de rádio. Poucos compreendem. Posso perguntar? Por acaso ultimamente vocês tem mandado e-mails? Porque eu tenho recebido alguns. Bem estranhos. Aliás, eu tenho certeza que o último, o de ontem, era de vocês. Muito confuso. Como o rádio mal sintonizado captando 2 estações ao mesmo tempo. Ou uma tradução mal feita, sabe, os verbos conjugados em tempos diversos, concordâncias erradas, palavras incongruentes. Por exemplo: relógios Citzen descontroladamente adiantados ao se aproximarem da sarça ardente na garagem da casa de Susan. Ou: ciclope mantido tão longe, dividido entre em sonhar com os próprios olhos ou abocanhar a concubina do pato mandarim. Eu não tive tempo para interpretar. Aliás, não me sinto capaz. Mas eu tenho certeza que veio daqui. Eu tenho certeza que era o aviso. Tanto é que me preparei. Estou aqui. Consciente. Sim. Tem gente que ouve vozes. Tem gente que sonha e não se lembra do sonho quando acorda. Tem gente que só pressente. 99,9 % não dá importância. Por não saber do que se trata. Eu fiz o teste. Perguntei na sala de espera. Se alguém se lembrava da razão de ter vindo. Alguns não deram atenção. Outros riram. Por causa da entrevista, ora bolas. Entrevista? A moça continuou a procurar o celular na bolsa. O rapaz a folhear a revista. O outro anotando em um caderninho. Uns cochilando. Eu disse bem alto: nós estamos mortos. Me mandaram falar baixo. Calar a boca. Eu os estava desconcertando. Para levar vantagem na entrevista. Doido, eu? Ainda bem que me chamaram primeiro. Posso perguntar uma coisa? Quem redigiu a mensagem?

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Intervalo com elefantes 21

Os elefantes jovens da África também podem ser treinados para magníficos números circenses.
(Richard Carrington, Os Elefantes, 1963)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Meire

Eu precisava voltar para falar com ela. Pedir desculpas. Falar para ela não se magoar. Impedir um malentendido destruir nossa amizade. Amizade sólida. Construída pedacinho por pedacinho. Eu vinha pensando, eu não devia ter saído sem antes dizer para ela não se preocupar. Eu nunca mais iria procurar o Maurício. Eu não queria mais voltar para ele. Dizer que o apoio dado por ela, os conselhos na época da separação eram dez, cem, mil vezes mais importantes que qualquer tentativa do Maurício me reconquistar. Ele que ficasse com o dinheiro, a casa, os móveis, os gatos, os pássaros, os cavalos, o elefante. Eu falei elefante? E com a prostitutinha platinada. De vinte e poucos. Por isso eu ia pegar o celular. Para falar com ela: Que eu não cairia na armadilha dele. Eu nem estava correndo. 80, 90. Eu ando com o celular dentro da bolsa, e a bolsa sempre no banco do passageiro. Eu não achava o celular, você sabe, bolsa de mulher tem de tudo. Eu sei, é proibido dirigir e falar no celular. Quando eu vi, eu estava em cima. Nem deu para frear. Crash! As pessoas nunca pensam que aquilo pode acontecer com elas. Eu estava com o cinto. Felizmente. O celular foi parar em algum lugar no banco de trás. Depois do barulho da batida, fez um silêncio mortal. Nem parecia que se estava no meio do trânsito. Depois eu abri os olhos. Enxerguei tudo embaçado. As luzes vermelhas do carro do bombeiro, da polícia. Não, eu não senti nada. Nem desmaio, nem vontade de vomitar, dizem que as pessoas sentem vontade de vomitar depois do acidente. A única coisa esquisita era não ouvir as sirenes. Silêncio. Será que a pancada tinha atingido o meu ouvido? Eu me lembro de ter visto primeiro... Claro! O motorista do carro da frente. Não, eu não estava surda, porque ouvi o celular. Era o toque dele. Do Maurício. Depois? Eu devo ter desmaiado. Os bombeiros devem ter me tirado. Eu não me lembro como cheguei aqui. Será que os bombeiros trouxeram o celular? Eu preciso tanto falar com a minha amiga. Para avisar que está tudo bem. Para jurar para ela que eu vou deletar o nome do Maurício dos contatos. Como assim? Aqui não pega celular?

Intervalo com elefantes

Tem sido muito notado que os elefantes cativos adoram álcool. Qualquer elefante que se respeita engole os seus cinco litros de cerveja com o entusiasmo de uma equipe de cricket depois de uma partida encarniçada. Charles Holder, em The Ivory King (O Rei do Marfim), fala de um eleante que sabia desarrolhar uma garrafa de vinho e beber-lhe o conteúdo sem derramar uma gota. Infelizmente os elefantes selvagens raramente têm à sua disposição bebida dessa qualidade, porém manifestam quase tanta alegria quanto os seres humanos diante de qualquer substituto que lhes seja oferecido. O comandante Blunt, por exemplo, em seu livro intitulado Elephant (Elefante), fala de um elefante selvagem da África que se tomara de tal paixão pela aguardente de milho fementado que fazia surtidas noturnas a uma aldeia indígena para o conseguir, com inteiro desprezo dos métodos habitualmente empregados para repelir os invasores. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963)