domingo, 5 de junho de 2011

Pasífae

Contanto que seja anônimo. Eu gostaria de me lembrar. De esquecer. Desligue, por favor, o ar. Minha garganta, minha garganta. Punhais, sim. As lâminas afiadas da memória. As carícias de Ícaro. Como nas histórias. O garoto deitado. O garoto oferecendo-se. Cerejas. Morangos. Blueberries. Madrugada e os cães ladram. Ícaro. Cera derretida e esperma. A brisa do mar na janela. 2º andar. Direto do Estreito de Dardanelos. Meu Ícaro. Dédalus Acompanhantes. Dorme, Ícaro. Acalanto. Devassa, eu. Escrever com tinta vermelha no papel timbrado do hotel. D-E-A-T-H. A bomba de neutrons. No hálito dele. O garoto. Me rasgando toda. Máquina de sexo. Móbile contínuo. Táxi. Os poemas icinerados. A lua sobre a água. Desligue, por favor. Meus óculos. Vaca, eu. Carne. Em baixo, o oráculo. Os corvos. Não, era turvo. Lábios vermelhos úmidos de desejo. O touro branco de Posseidon. Chantagem de Papai Dédalus. Não. Eu ainda não era louca. Ah, os beijos do garoto. O garoto todo dentro de mim. Arcabouço. Vaca intumescida. Cio. Meu Ícaro dorme. Os 500 euros mais bem gastos da viagem. Matem os cães. Fígado. Um cigarro. Mande o garoto embora. Ontem. Desligue, por favor, o gravador. O rei é o único culpado.

sábado, 4 de junho de 2011

3 ou 4 formas de matar elefantes (4)

Nick Brandt, Elephant Drinking,www.artmo.com
"Em breve, perto de uma poça lamacenta, um pouco à nossa frente, descobrimos as pegadas de um macho enorme, que se rolara na lama, salpicando os troncos de várias árvores próximas e aparentemente muito velhas. (...) a alguns metros dali, afastando os ramos espinhosos de uma jujubeira, encontrei-me diante do elefante macho mais alto e maior que ainda tinha visto. O animal apresentava-se de flanco, a mais de uma centena de metros; sua atenção estava sendo atraída por uns cachorros que, despreocupados da sua presença corriam em torno dele, enquanto o velho parecia contemplar surpreendido aquelas singulares criaturas.
Parando o cavalo apontei-lhe a espádua e abati-o no primeiro tiro. A bala atingiu-lhe o alto da omoplata, tornando-lhe a marcha para sempre impossível; e antes mesmo que o tiro ressoasse nos meus ouvidos, vi claramente que o elefante estava entregue. Os cães romperam então a ladrar à volta dele; porém, sentindo-se reduzido à impotência, o velho macho pareceu decidido a não se afadigar, e dirigindo-se a passos lentos, coxeando, para uma árvore próxima, ali se postou quieto a observar os seus perseguidores com ar filosófico e resignado.
Resolvi consagrar um pouco de tempo à contemplação daquele nobre animal, antes de o abater; e tendo desselado os cavalos à sombra de uma árvore, sob a qual iria instalar o meu quartel-general para a noite e o dia seguinte, acendi imediatamente o fogo e pus água a ferver; minutos depois meu café estava pronto. Ali fiquei, sentado na floresta como em minha casa, saboreando calmamente meu café, enquanto um dos mais belos elefantes da África, encostado a uma árvore próxima, esperava o meu alvedrio.
Era, sem dúvida, um espetáculo impressionante; olhando aquele prodigioso veterano da flortesta, eu pensava nos fulvos cervos que gostava de perseguir na minha região natal, achando que se o destino me levara para um caminho mais árduo e perigoso em terra distante eu não perdera na troca, pois agora era dono de florestas imensas, que me ofereciam uma caça infinitamente mais nobre e mais apaixonante.
Tendo por muito tempo admirado o elefante, resolvi fazer experiências sobre os pontos vulneráveis, e acercando-me mais, coloquei-lhe diversas balas em diferentes partes do enorme crânio, que não pareceram absolutamente afetá-lo: apenas respondeu aos tiros recebidos com um movimento da tromba à maneira de saudação, ao msmo tempo que com a ponta desse órgão palpava levemente a ferida, num gesto especial e muito emocionante. Surpreendido e perturbado ao descobrir que apenas lograva torturar o animal e prolongar-lhe os sofrimentos, enquanto ele suportava a provação com tanta calma e dignidade, decidi acabar logo com aquilo. Abri então fogo contra ele, pelo flanco esquerdo, visando atrás do ombro, mas também ali minhas balas não produziram de começo nenhum efeito. Disparei 6 tiros, com minha arma de 2 ranhuras cuos ferimentos deveriam finalmente ser mortais, mas o elefante nem assim deu sinais de prostração; em seguida visei a mesma região com 3 tiros da minha holandesa de 6. Grossas lágrimas lhe escorreram então dos olhos, que fechou e tornou a abrir; sua imensa carcaça foi agitada de tremores convulsos, e caindo sobre o flanco o animal expirou. Suas defesas, de maravilhosa curvatura, eram as mais pesadas que eu ainda vira; pesavam cada uma cerca de 40 quilos. (R. Gordon Cumming - Five years of a Hunter's Life in the far Interior of South Africa - de 1850 - citado em Os Elefantes, Richard Carrington, 1963).

3 ou 4 formas de matar elefantes (3)

Mesmo o caçador menos experiente escassamente deixará de atingir um elefante à distância de 30 metros, considerada normalmente adequada; porém é necessária grande habilidade para alcançar um ponto vital. As obras sobre a caça grossa incluem de um modo geral figuras como as acima, indicando os pontos que o caçador deve visar; constataremos que, apesar do tamanho do animal, as duas regiões principais a atingir são extraordinariamente reduzidas. Para o principiante, o coração é em geral considerado como o alvo mais seguro; porém, à medida que desenvolve as suas aptidões o caçador pode pretender incluir-se na élite (1), abatendo a sua presa com uma bala no cérebro. Quem domina a arte de atingir o cérebro pode estar certo da profunda admiração dos seus camaradas, ao passo que os especialistas da bala no coração têm também seus partidários. Os caçadores menos hábeis cujas balas se pedem, em grande humilhação deles, nos pulmões, nas entranhas, nos órgãos genitais e em outras regiões onde, sem ser mortal de imediato, o ferimento pode causar ao elefante grande sofrimento, ficam definitivamente fora de classe. Infelizmente há muitos caçadores desta categoria. 
O coração é quase sempre visado de flanco, e a região que lhe fica justamente por cima é tão fatal quanto este. Se a bala atinge o alvo, o elefante pode percorrer 200 metros, ou até mais antes de cair. A bala no cérebro atua mais rapidamente, mas o alvo é difícil de alcançar por causa da rede de sinus que comporta o crânio e da massa importante formada pelos maxilares, os dentes e os alvéolos das defesas, que protege a caixa craniana. Pode-se apontar de frente, entre os olhos do elefante, ou de lado, entre o olho e o orifício da orelha. Um tiro direto abate o animal imediatamente, e se é preciso matar os elefantes ( o que é infelizmente necessário para a luta preventiva, sem falar da duvidosa moralidade desse esporte ), se temos de os matar é esse indiscutivelmente o processo mais humano. A carabina mais empregada é a de calibre 37,5 ou 45 mm, porém os caçadores experimentados podem usar armas menores ainda. O famoso caçador de elefantes W. D. M. (Karamojo) Bell matou 15 animais da mesma manada com carabinas de 27,5 e 30,3 mm na caça destinada à luta preventiva, mas para os esportistas isso não é admissível.
(1) em francês, no original
(Richard Carrington, Os Elefantes, 1963).

3 ou 4 formas de matar elefantes (2)

imagem de: http://ryanharebit.tumblr.com/tagged/wtf
"Dois homens inteiramente nus, sem o menor trapo, montam a cavalo. Tomam essa precaução para não serem embaraçados pelos arbustos ou silvados quando fogem de um inimigo vigilante. Um dos cavaleiros, no lombo do cavalo, umas vezes com e outras sem sela, segura com uma das mãos uma chibata ou curta vara, manobrando habilmente as rédeas com a outra; o companheiro instalou-se atrás dele, armado apenas de um sabre... Com a mão esquerda aperta o punho do sabre, cuja lâmina está envolta, aproximadamente, ao longo de 35 centímetros, em corda de chicote. É esta parte que ele segura na mão direita, sem medo de se ferir; e embora a lâmina do sabre, em sua parte inferiro, seja cortante como uma navalha de barba, ele usa a arma sem bainha.
Quando encontra o elefante ocupado a pastar, o cavaleiro aproxima-se dele, o mais perto possível do focinho; ou, se o animal foge, barra-lhe o caminho em todas as direções, gritando: 'Sou eu, fulano de tal, e este é o meu cavalo, que tem tal nome; foi em tal lugar que matei teu pai e em tal outro que matei teu avô; agora vim para te matar a ti, que não passas de um idiota comparado com eles'. O homem supõe realmente que o elefante compreende esse discurso; o animal perseguido, enfurecido pelo barulho que o segue de perto, tenta apanhar o cavaleiro servindo-se da tromba, e, distraído nesse propósito segue por toda a parte o cavalo, fazendo atrás dele cem voltas e reviravoltas, sem cuidar de fugir a direito o que seria a sua única possibilidade de salvação. Depois de o ter assim feito correr uma ou duas vezes atrás do cavalo, o cavaleiro acerca-se o mais possível do elefante, deixa cair em terra o companheiro justamente atrás dele, do lado de fora; e enquanto atrai a atenção do elefante para o cavalo, o homem a pé vibra-lhe por trás um grande golpe de sabre acima do calcanhar, para atingir aquilo a que no homem se chama o tendão de Aquiles. Chega então o momento crítico: o cavaleiro dá imediatamente meia volta, ajuda o companheiro a montar atrás de si e larga a galope em perseguição do resto da manada, caso tenham atacado mais de uma presa; um agageer hábil mata às vezes três do mesmo bando. Se o sabre é bom, e o homem não é medroso, o tendão fica completamente cortado; mas de qualquer maneira fica suficientemente atingido para que o animal quebre a parte restante no esforço que desenvolve. Seja como for, o animal fica incapaz de dar um passo até que o cavaleiro volte, ou o seu companheiro se antecipe a trespassá-lo com azagaias e lanças; o animal então desaba, e não tarda a sucumbir à hemorragia.
... apesar da habilidade dos cavaleiros, o elefante às vezes agarra-os com a tromba, derrubando em seguida o cavalo, e depois calca o homem com as patas e arranca-lhe os membros um a um; muitos caçadores morrem dessa maneira". (James Bruce - cerca de 1770 - em Os Elefantes, Richard Carrington, 1963).

3 ou 4 formas de matar elefantes (1)

"Veldfire" Acrylic on Linen by Fuz Caforio
An elephant leading the herd away from the fire - em http://hedgiesjoy.blogspot.com


"Durante a estação seca, quando as ervas ressequidas, de 3 e 4 metros de altura, são extremamente inflamáveis, uma grande manada de elefantes pode encontrar-se no meio dessas altas ervas sem que ninguém os veja, a não ser que olhe por cima de algum lugar elevado. Se um caçador indígena os descobrir, imediatamente dará alarme em toda a vizinhança e não tarda que toda a população se reúna para organizar a caçada. Para isso os homens formam um vasto círculo, de uns 3 quilômetros de diâmetro, e ao mesmo tempo põem fogo às ervas a fim de cercar todo o centro pelas chamas. O elefante tem medo instintivo do fogo e horror de ouvir crepitar as chamas quando a erva arde. À medida que o círculo de fogo se aperta sobre os animais cercados, estes tentam primeiro bater em retirada enquanto não compreendem que a sua situação não tem saída; porém logo perdem a esperança, desvairam-se, tomam-se de pânico ouvindo a gritaria louca dos milhares de homens que os cercam. Por fim, meio sufocados pela fumaça e aterrados pela aproximação iminente das chamas rugidoras, os pobres animais rompem desesperadamente para o meio do braseiro; queimados, cegos, serão ao cabo mortos brutalmente a lançadas pela turba sanguinária que aguarda essa debandada final. É a matança em grande escala da qual podem ser vítimas até 100 elefantes de uma vez, ou mesmo mais. A carne é então cortada em longas postas e colocada a secar, e cada parte do animal submetida ao fumeiro sobre suportes de lenha verde; os despojos dividem-se entre as aldeias que participaram da caçada. Repartem-se também as defesas, das quais certa parte cabe de direito aos diferentes chefes das aldeias e ao que dirigiu a caçada". (Sir Samuel Baker, em Os Elefantes, Richard Carrington, 1963).

Eduardo Galeano - Sangue Latino

http://vimeo.com/brenocunha/eduardo-galeano

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Iasmine

Melancólica. Desde pequena. Manga comprida para disfarçar as cicatrizes nos pulsos. Até jeitosa: cabelo cor de milho. Olhinhos apagadinhos. Contudo verdes. Peitinhos de pêssego. Virgem. De signo e opção. Não que fosse tímida. Bastava-se. Os estudos. A faculdade. Ah, e chope na praça de alimentação do shopping. Com as colegas. Às sextas-feiras. Por causa de um diagnóstico equivocado na adolescência, as psicólogas. Tinha perdido a conta. Biodança; gestalt; jung; freudiana; terapia grupal; florais; vidas passadas; reich; bioenergética; fora a biblioteca de autoajuda. Agora, psicanálise. Da lista dos credenciados do convênio. De 15 em 15 dias. Em um prédio velho. Perto do trabalho. Das divisórias de eucatex ouvia narrativas alheias. Interessantes. Porém, quase sempre indesejáveis. Divã? Uma longchaise fedida a cachorro molhado. Doutora, não. Só Márcia. Jeito de lésbica. Cada uma na sua. O assunto nunca engatava. Muito silêncio durante os 40 minutos da sessão. Não era de todo ruim. Compromisso no horário do almoço. Às quartas. Para fugir da rotina. Molesquine para anotar os sonhos. Mas não sonhava. Mentiu para não parecer uma anormal. Não se lembrava dos sonhos ao acordar. Márcia sugeriu listas. O que mais gostava de fazer. O mais importante da vida. O que não desejava nem para o pior inimigo. Possibilidades futuras. Desejos. Desejos? Travou. Bloqueou. Como assim? Duas semanas de páginas brancas. Márcia insistiu. Ato falho. Confilto. Ego, id, superego. Facilitou: 10 bobagens que a tirassem do sério. Escrevesse quantas quisesse. Mas riscasse, eliminasse, selecionasse. Até sobrarem 10. Nem mais nem menos. Quinta. Sexta. Sábado. O domingo todo inquieta. Abrindo e fechando o molesquine. Tampando e destampando a caneta. Caminhada no parque. Almoço, sorvete, Faustão, Fantástico, nada. Na madrugada, folha novinha. Com letra caprichada. 1: Gente que faz aspas com os dedos. 2: Gente que atende o celular no cinema. 3: Gente com sotaque de carioca; 4: Gente que fura fila. 5: Gente que não presta atenção. 6: Gente boazinha demais. 7: Gente mentirosa. 8: Gente que deixa cabelo grudado no sabonete. 9: Gente que conversa tirando um cisco do seu casaco, ajeitando a gola, abotoando o último botão da sua blusa; 10. gente que conversa sem olhar nos olhos. Nada demais. Nada horrível. Nada que não pudesse ser contornado. Nada que não circulasse na net, Clarice, Fernando Pessoa, Saramago, Veríssimo, o diabo. Completada a lista, às 5 da manhã, dormiu. Apagou. Literalmente. Sonhou? Nem acordou com o despertador. Às 11 ligou para Márcia. Podia? À 1 da tarde avisou o chefe. Atestado. 3 dias. Diarreia. Não, a médica não tinha anotado o CID. Depois pediu sushi no delivery. Para comemorar. Não, ela não era uma anormal.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Intervalo com elefantes

Ao mesmo tempo que a dor ou a loucura lhes emprestam audácia, os elefantes solitários não tardam a encher-se de desprezo pelo gênero humano. Perdem a timidez e a prudência naturais e fazem atrevidas incursões nas terras cultivadas. Abatem cercas, até mesmo casas com uma desenvoltura maligna, e atacam sem hesitar qualquer ser humano que encontrem no caminho. Vejamos por exemplo uma das suas tropelias neste relato de Tennent: em pleno dia, perto de Ambogommoa, um elefante solitário observava um grupo de trabalhadores ocupados na colheita do arroz; atrevidamente avançou para o meio dos homens, apoderou-se de um feixe de e retirou-se tranquilamente para o mato com sua presa. O temor que inspiram esses solitários faz com que passem muitas vezes por comedores de homens. Assim, um elefante que pouco depois de 1870 manteve em terror toda a região de Mandla, perto de Jubbulpore, nas províncias centrais da Índia, teria, como era voz corrente, devorado pedaços das suas inumeráveis vítimas. Isto decerto não passa de lenda, pois os elefantes são exclusivamente vegetarianos, mas a superstição nasceu talvez do fato de o animal brincar com os membros dos indígenas despedaçados, que segurava na boca. Este elefante foi morto, afinal, por oficiais europeus.(Richard Carrington, Os Elefantes, 1963)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Continuação da Peça (do Livro dos Cacos)

Galerias repletas no teatro. Monóculos a postos, os rapazes, doidos de ópio e absinto, fumam cigarrilhas nos camarotes e flertam-se entre si e com as moçoilas do entreato. A Menina Loura sobe ao palco e dança o primeiro número. Stockhausen. Satie. Ou Chopin. Desce pela escada lateral e senta no colo do Pai, na primeira fileira da plateia. O Pai abraça a menina. Sufoca-a contra si. A Mãe da Menina, vestida de vermelho e dourado, loura como a filha, olhos sombreados de azul, contornados por cílios postiços longuíssimos, aguarda na coxia. Entra em cena segurando um punhal apontado para a plateia. Finca o punhal no peito. Grita. E morre. Fecham as cortinas. Somente o tempo de retirarem o corpo e mudarem os cenários para o número dos espelhos. Que rangem por trás do ciclorama. Presos a cordas de aço, descem pelas traquitanas uma Virgem de Guadalupe de isopor, em tamanho natural e trinta e dois atores-anjos, nus, duplicados pelos espelhos. A Virgem de Guadalupe ao mesmo tempo esconjura os demônios na plateia e acena na direção do camarote da Matriarca Grávida. O Pai, sentado na primeira fila da plateia, com a Menina Loura ao colo, tem um ataque epiléptico. Do canto da boca do Pai escorre uma baba branca que a Menina Loura enxuga com lencinhos Kleenex. A Menina Loura sobe novamente ao palco e ajoelha-se aos pés da Virgem de Guadalupe. Os 32 atores-anjos em carne e osso e os 32 reflexos dos atores-anjos nos espelhos despem-se em movimentos lentos. Totalmente nus, os 64 atores-anjos voltam-se, simultaneamente, para a Menina Loura. O movimento brusco e a ereção visível dos 64 atores-anjos provoca suspiros e rebuliço entre as moçoilas e na maioria dos rapazes da plateia. As senhoras casadas remexem-se nas cadeiras de palhinha. Os respectivos maridos levantam-se indignados e puxam suas esposas na direção da saída. Uma moçoila ensandecida, vestida apenas com o espartilho, sobe ao palco. Atira-se aos braços do primeiro ator-anjo da fila. Outras moçoilas e a maioria dos rapazes apagam as cigarrilhas e seguem o exemplo da desvairada. Instala-se o caos orgíaco. A Virgem de Guadalupe é içada da cena. A Menina Loura ajoelhada diante da Virgem de Guadalupe levanta-se. Pisa com cuidado sobre os corpos engendrados dos 32 atores-anjos de carne e da quantidade indefinível de moçoilas e rapazes da plateia na orgia. A Menina Loura volta para o lugar do Pai, na primeira fileira da plateia. O pano cai . Fim do primeiro ato e o intervalo. A plateia se levanta para se refrescar no saguão e/ou tomar café expresso com água gasosa na bombonière. Menos o Pai. O Pai dorme e ronca com o libreto sobre a barriga. A cigarra toca a primeira, a segunda e a terceira vez. A plateia acomoda-se para assistir ao segundo ato. Que começa com som estereofônico de guitarra elétrica que estoura as caixas de som e os ouvidos dos casais respeitáveis que não  saíram antes do fim do primeiro ato. Apagam-se as luzes do lustre de cristal. Depois do barulho da guitarra elétrica faz-se silêncio. Tão grande que ouve-se o bater das asas das mariposas no vidro das lâmpadas do lustre de cristal. Um grito vindo do camarote da Matriarca Grávida quebra o silêncio. O grito dura o tempo do abrir das cortinas. A bolsa do líquido amniótico da Matriarca Grávida rompe-se. A Matriarca Grávida entra em trabalho de parto. O Médico de Plantão acorre ao camarote e salva o Prematuro. O Prematuro nasce todo roxo. O Prematuro é tirado das entranhas da Matriarca Grávida a fórceps. Depois de muitos tapas na bundinha o Prematuro chora. O Pai acorda assustado com o choro do Prematuro. “Pena que não existam leões”, a Menina Loura murmura. O Pai não compreende o sentido da fala da Menina Loura. "Leões para devorar o Prematuro", a menina explica. O papel do Prematuro é interpretado por um ator-anão de grandes dotes. artísticos. O Prematuro pede a bênção da Matriarca Grávida que já não estava mais grávida. O Prematuro desce do camarote. O prematuro caminha na direção da Menina Loura pela mão. Puxa a Menina Loura pelas escadas de veludo do saguão do teatro até o último andar. Que era uma espécie de torre com terraço. O Pai tenta resgatar a Menina Loura das mãos do Prematuro. O Pai tropeça e parte a perna antes de alcançar o Prematuro e a Menina Loura. O Prematuro segura a Menina Loura com uma chave de braço. O Prematuro ameaça empurrar a Menina Loura do parapeito do terraço no alto da torre. A altura aproximada do parapeito do terraço ao chão é de pelo menos 50 metros. A Menina Loura vê a cidade descortinada e os automóveis estacionados, como uma maquete. O Prematuro empurra a Menina Loura. O Pai aproxima-se mancando. Mas é tarde demais. É só o tempo do Pai ver o vôo no vazio da Menina Loura. E ouvir o som oco do corpo da Menina Loura espatifar-se. Depois de 50 metros de queda livre. O Pai trucida o Prematuro e joga o corpo do parapeito. O corpo do Prematuro cai por sobre o corpo da Menina Loura. Enquanto isso, no palco, anjos, moçoilas e a maioria dos rapazes gozam orgasmos múltiplos. Os contrarregras trazem de novo a Virgem de Guadalupe para o centro do palco. É o sinal para o fim próximo do segundo ato. As moçoilas e a maioria dos rapazes limpam-se com lencinhos Kleenex. O gozo dos atores-anjos, da maioria dos rapazes e das moçoilas afoitas escorre pelo linóleo. O pano cai definitivamente. O público remanescente aplaude sem entusiasmo. As moçoilas afoitas e a maioria dos rapazes passam pela fenda entre as cortinas e descem do palco. As cortinas abrem-se novamente para os agradecimentos dos atores-anjos. Tomado de pânico súbito, a plateia remanescente atropela-se e se debate-se à porta da saída. Um velho morre pisoteado. Outro, alheio ao movimento, toma glóbulos homeopáticos apertando a bula ao monóculo. Fora do teatro chove chuva tropical. A chuva tropical lava o sangue da Menina Loura e do Prematuro estendidos na calçada. O rosto da Menina Loura está lívido, porém sereno. Como o rosto de uma santa-mártir. O rosto do Prematuro continua roxo. O público remanescente abre os guarda-chuvas. Pisa os corpos da Menina Loura e do Prematuro atravessados entre a saída do teatro e os tílburis e demais veículos estacionados. Fim de ato.

Errata

O link do post de 28.05 - (Do Livro dos Cacos - ode assimétrica) - direcionava para somente uma parte do texto. Só hoje consegui corrigir. Agora, finalmente, o leitor pode clicar aqui para acessar a versão completa do poema.