sexta-feira, 10 de junho de 2011

Intervalo com elefantes

Além do seu emprego como animal de carga, puxador e montada para caçar, o elefante prestou em outros tempos ao homem serviços inesperados. Vimo-lo, por exemplo, em diferentes circunstâncias, servir de carrasco. O amestramento dos elefantes para esse papel era um tanto macabro, pois obrigavam-no a ensaiar diversas vezes com uma vítima imaginária. Começavam dando-lhe ordem para "matar o patife"; então o elefante enrolava a tromba em torno do corpo virtual do malfeitor, depositava-o no chão e lentamente pousava as patas da frente no lugar onde estariam os seus membros. Ao fim de alguns minutos dessa manobra o elefante imobilizava-se, com a tromba erguida acima da cabeça. E quando lhe pediam que terminasse a execução, o animal pousava uma das patas dianteiras sobre o abdomen da imaginária vítima, e a outra sobre a sua cabeça, destruindo assim todo o vestígio de vida. Havia ainda outro costume, que consistia em utilizar dois elefantes para inclinar uma para a outra duas árvores próximas; a vítima era então amarrada às árvores por meio de cordas, um braço e uma perna de cada lado. A um dado sinal os elefantes soltavam as árvores e o criminoso era dividido em 2. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963).

Para ouvir amando...

Para ouvir amando...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Perazi

O garoto escreve bem. Melhor que eu, na idade dele. Nem se compara. Hoje eles começam cedo. Não há mais espaço para autodidatas. E-mail, telefone, foto, editora. Concordei de tanto insistirem. Bonito, sim. E convencido. Convencido que escreve bem. Que me seduzirá, se não pelo que escreve, pela beleza, pelas carnes firmes. Perguntou a razão de eu ter declarado na revista não gostar dos novos. Eu nem me lembrava. Jornalistas sempre fazem as mesmas perguntas, eu disse. Eu não gosto dos novos porque me irrita narrativa em primeira pessoa. Como se nada mais existisse para contar além do umbiguinho, dos pelinhos, da barriguinha definida e dos pentelhos macios recendendo a tutti-frutti. Como se todos os novos escrevessem em primeira pessoa. Riu. Ele, muito pelo contrário. Como se dissesse: Tiozinho ultrapassado, eu estou aqui para te seduzir em troca de meia dúzia de linhas elogiosas. Escreve em blogs. Meu filho, eu odeio internet. Trouxe Justiça ou Perdão para eu autografar. Edição antiga, ruim, horrorosa. Junto com uma caixa de chocolates caros e uma garrafa de vinho. Depois que se foi eu abri o vinho. Tomei a metade. Folheei o livro. Que diferença do Justiça ou Perdão. Eu quis criar uma atmosfera retrô, ele disse. Citando um Barthes óbvio na folha de rosto. Continhos razoáveis. Uns bons, outros menos. Li tudo. Até de madrugada. Ah, insônia de velho babão. Surpresas. O garoto vai aprender depressa. Realizar o sonho de todos eles: tornar-se um expoente da nova literatura. Não sei se foi o vinho ou as histórias ou os dois - eu me empolguei. Me imaginei comendo o garoto. A bundinha branquinha, lisa, empinada, oferecida. Exatamente como na cena de sexo do último conto.  Li o senhor aos 14 anos. Foi quando decidi ser escritor, ele disse. Gozo de velho mais parece soluço.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

dia a dia mitológico & festivo

cochilar no leito de procusto pode ser fatal para quem tem pernas compridas / ninguém deve roubar as ovelhas do ciclope / pense duas vezes antes de vestir casaquinhos tricotados por dejanira / espelho espelho meu existe alguém mais narciso do que eu? / não se esqueça de convidar as bibinhas teen para a rave no monte olimpo / ganimedes & jacinto & calisto confirmaram presença? / quem convidou a chata da eco? / todo mundo a fim de azarar o coroa barbudo do feixe de raios / por mais linda que seja não diga que seu penteado é mais bonito que o de afrodite / cuidado para não cair na velha cantada da chuva de ouro / abaixe os olhos ao conversar com a górgona / leve preservativos para a orgia das bacantes / drag queens e travecas cuidado com as mênades no melhor da festa / se a festa for em creta é bom levar um novelo

terça-feira, 7 de junho de 2011

Patty

Foto: Yoan Valat no site www.limao.com.br
Na agência disseram que a velha falava inglês. Perguntei: in english? Ela simplesmente me ignorou: Nous parlons le français en France. A japa riu. Velha maluca essa. Primeiro proíbe a gente de usar a cozinha. Depois demora meia hora explicando como ligar e desligar o gás. Não pode abrir a janela. Senão Bridge foge. Bridge é a gata pulguenta da velha. Que fica deitada no sofá. Perfeito para a minha alergia. A velha não deu a chave da porta. A gente tem que chegar até as 10. Não esquecer de desligar o aquecedor. Nunca levar estranhos. Não fumar no quarto. Proibido usar a banheira. Não usar droga. Até o jeito certo de enrolar o absorvente no papel higiênico. Proibido sexo no quarto. Sexo? Só se a japa for lésbica. Ah, esqueci. A japa vai dividir o quarto comigo. Cabelo pintado. Nem tirou os fones de ouvido. A velha não deve ter enxergado os piercings, a tatuagem e a carinha de pervertida da japa. Senão, no mínimo teria recusado. Imagina a velha flagrando a gente pelada se pegando, dentro da banheira proibida? Seguro o riso. Penso em Raskolnikov. Rachar a cabeça da megera com o samovar. Incrível! A velha tem um samovar. A japa tarada perguntou para que servia. Cacilda, como pode uma estudante de literatura não saber o que é um samovar? A velha quase teve um troço. De emoção. Era lembrança do primeiro marido dela. Cinzas guardadas em uma espécie de caneco de chope gigante com duas alças em cima da lareira. Morreu na guerra. Deve ter sido na Guerra do Peloponeso. Eu devia ter batido o pé e ido para o albergue. Ou para o alojamento. Não, filhinha, em casa de família eu fico mais tranquila... Ou aceitava ou desistia da viagem. Se a mãe soubesse do gato, se visse a cara da japa, com certeza me deixava ir para o albergue. Estou morta de cansada. Meus pés estão duas bolas de inchados. Desfazer as malas. Ligar para a mãe. Tomar algum remédio para dormir, para passar o jet-leg. Chamo a japa pra comer na Pizza Hut? À noite eu ligo para a mãe. 4 horas a mais ou a menos?