quarta-feira, 15 de junho de 2011

Doutor Cezinha

Tenho duas perguntas que vêm rolando há dias, cujas respostas não consigo concluir. Porém, diante das atuais e alarmantes circunstâncias (a queda considerável de pontos de audiência, a crise existencial & depressiva, o sentimento de culpa por me sentir improdutivo e sem objetivos), aqui registro, a quem interessar possa. São elas: 1 - emitir opinião sobre as três políticas mais importantes; e 2 - dizer aos leitores qual é o meu grande dever para com o meu país. Quanto ao 1, por mais que eu tentasse eu não sairia do óbvio: as 3 políticas mais importantes são a política da educação, a política da saúde e a política da distribuição de renda. Sem o tripé social nenhuma outra proposta se sustenta. Quanto ao 2 eu reafirmo: Limites geográficos ou patriotismos pueris não me contêm. Deveres, se os tenho, são deveres de ser humano. De homem do mundo. Por falar nisso, será que ainda dá tempo de jogar na megassena?

terça-feira, 14 de junho de 2011

Dalton Trevisan

68.

Pronto me calo, a minha mão ponho na boca. Todas as noites do velho são dores, eis que vem o fim. No tempo das aflições minha alma é uma lesma aos uivos que retorce o chifre e se derrete no sal grosso. Devo catar as migalhas debaixo da mesa? Morder a pelanca do meu braço? Comi a gordura, engoli as delicadezas, cuspi os ossinhos da sambiquira. E fui deixado só com o buraco do meu umbigo. Agora me deito e sem falta morrerei.

(101 Ais)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Kiko

Médico. Eu prometi a vovó. Para curar os doentes. Para receitar remédio de pressão. Vovó tem pressão alta. Papai queria que eu fosse jogador. De futebol. Vôlei não. Vôlei é jogo de mariquinha. Papai que disse. Eu não gosto de futebol. Nem de vôlei. Eu gosto de jogar queimada. Queimada também é jogo de menina. Ou de mariquinha. Foi meu primo quem disse. Mamãe quer que eu seja artista de novela. Papai diz que novela é coisa de mulher. Que ator de novela é gay. Na novela tem um gay. Papai é do Corinthians. Eu sou do Botafogo. Aquele da estrela branca no meio do escudo preto. Eu acho a estrela linda. Eu sei desenhar estrela de 5 pontas. Só não sei direito ainda desenhar o escudo. Se eu for jogador eu quero ser goleiro. Goleiro tem a roupa mais bonita do time. Camisa de manga comprida. E luvas. Tudo preto. Com a estrela branca no peito. Se eu for médico eu só vou me vestir de branco. Jaleco, camiseta, calça, sapato, meia. Até cueca. Jaleco é aquele tipo de camisa comprida que o médico usa por cima da roupa. Vou ter um óculos de armação branca. E ouvir o coração das pessoas pelo estetoscópio. Es-te-tos-có-pio. Vovó me ensinou. Outro dia eu levei uma bolada. No jogo da escolinha. Eu quase desmaiei. Meu primo falou que quem desmaia é gay. Ainda bem que eu não desmaiei. Só fiquei tonto. O professor chamou meu pai. A gente foi para o hospital. Eu fiz todo tipo de exame. Radiografia raio xis. Raio xis é uma espécie de fotografia dos ossos. Tomografia computadorizada é para fotografar o cérebro. Não deu nada. O médico que me atendeu era muito legal. Perguntou o que eu queria ser quando crescer. Médico. Claro. Eu perguntei porque raio xis se chama raio xis. Ele me explicou mas eu me esqueci. Me deu alta. Dar alta é deixar o doente ir para casa depois de curado. Quando a gente saiu do hospital meu pai me disse que ia me dar uma camisa do Botafogo. Eu queria mesmo era outra coisa. Eu não vou contar o que é. Se eu pedir o meu pai vai me chamar de gayzinho. Eu não sou gayzinho não. Quando eu crescer eu vou ser médico. Pediatra ou veterinário. Vou me casar com uma esposa. E vou ter 2 filhos. Um menino e uma menina. Davi e Celina. Davi é o nome do médico que me atendeu. Celina é o da minha professora de música.  Eu não vou chamar o Davi de mariquinha se ele gostar de jogar queimada. A Celina podia ser loira.

domingo, 12 de junho de 2011

George Orwell

O Abate de um Elefante: Ouçam o áudio - gravação da crônica de George Orwell - em chicoecarvalho.blogspot.com

Intervalo com elefantes 2

vietnamswans.com
(...)
Este mesmo elefante era ainda notável por outra habilidade original. O guarda, quando o montava, instalava-se numa grande colcha que lhe cobria o lombo. Quando descia dava-lhe ordem para retirar a colcha, o que o animal fazia não com a tromba, porém contraindo e distendendo alternativamente os músculos das costas. O movimento da pele pouco tensa fazia deslizar a colcha pelo flanco, até cair no chão. O elefante estendia-se então com cuidado e inteiramente sobre a relva, dobrando-a como se faz com um guardanapo; finalmente enrolava-a com a tromba e atirava o volume para as costas, onde ele ficava tão seguro como se fosse colocado por mãos humanas. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963)

Elephant day

"Elephant Day", northern Thailand - http://www.bbc.co.uk/news
(...) É assim que o retórico Eliano conta como 12 animais, dos mais bem ensinados, foram um dia levados a um teatro, onde fizeram uma perfeita demonstração de passos variados, umas vezes marchando em círculo, outras dividindo-se em vários grupos e jogando à passagem flores para cada lado. No fim da representação, sempre imperturbáveis, foi-lhes oferecido, pelos romanos, um banquete régio. Enormes leitos foram colocados na arena, cobertos de ricas tapeçarias e decorados com pinturas. Ao lado dos leitos foi servido um banquete em mesas de marfim e madeira de cedro, em baixela exclusivamente de ouro e prata. Os 12 elefantes aproximaram-se com dignidade; 6 estavam vestidos de homem e 6 de mulher. Com imenso à vontade instalaram-se nos coxins, e uma vez todos protos estenderam a tromba e comram os acepipes para eles preparados, com dignidade e graça notáveis. (Richard Carrington, Os Elefantes, 1963)