terça-feira, 28 de junho de 2011

Iago, Jacó & Esaú


Assustadora a forma como a maldade de Iago contamina o bom senso do Mouro durante o desenrolar de Otelo. Como funcionam bem os ardis utilizados por ele para engambelar o General, que deposita nele confiança crescente e irrestrita.

O nome Iago vem do latim Iacobus que por sua vez é a versão do hebraico Yaakov, aportuguesado para Jacó.

A partir dessa informação pouco embasada eu concluí superficialmente que o nome Iago carregava negatividade, maldade. Que Shakespeare tinha aproveitado e potencializado ao máximo as espertezas e a sede de poder do Jacó bíblico para criar seu arquivilão, pai de todos os vilões e vilãs telenovelísticos.

A suposição morreu na origem por falta de argumentos. Esperteza e maldade são coisas muito diferentes.

Mas a pesquisa me fez relembrar a história de Esaú e Jacó. É uma das minhas preferidas. Devo ter decorado a trama nas aulas de catecismo aos 7 anos. Li a versão de Machado de Assis, cheia de sutilezas psicológicas, na adolescência. E só depois de adulto compreendi nela a metáfora do conflito étnico que atravessa os séculos. Mesmo batida, vale a pena recontar. Só pelo gosto.

A mãe chamava-se Rebeca. O pai, Isaque, descendia direto do patriarca Abraão. Rebeca era estéril. De tanto o casal pedir, Javé concedeu-lhes 2 filhos. Com um porém: (Voz estereofônica de Javé): Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá ao menor. Ou seja, os gêmeos Esaú e Jacó.

Esaú nasceu primeiro. Pela lógica da tradição, Esaú seria o povo forte; e Jacó o povo subjugado.

Esaú era peludo, forte, rude, impulsivo e gostava de caçar. Jacó era liso, delicado, racional e gostava de ficar de bobeira na tenda. Nas barras da saia da mãe Rebeca. Tentando conquistar sem sucesso as graças do quase vetusto Isaque.

A primeira vez que Jacó passou a perna no irmão foi no próprio parto. Diz o Gênesis que ele nasceu segurando o calcanhar de Esaú. Talvez uma tentativa de retê-lo um pouco mais no ventre de Rebeca e assim vir à luz em primeiro lugar.

Lá pela adolescência o senso de oportunidade de Jacó manifestou-se. Junto com o imediatismo e a falta de visão a longo prazo de Esaú. Jacó aprontou de novo.

Jacó, sem muito o que fazer durante a tarde, tinha preparado lentilhas. O cheiro estava ótimo. Esaú chegou exausto e faminto da caçada. Salivou. Pediu para comer as lentilhas. Jacó negociou: Só se você me der o direito da primogenitura, brother. Esaú topou: De que me servem os direitos de primogênito se eu estou morrendo de fome? Negócio fechado.

Mais alguns anos se passaram sem muitas novidades. Até acontecer a terceira e definitiva rasteira de Jacó. Isaque envelhecera. Estava quase cego e provavelmente meio surdo. Desejou comer guisadinho. Ordenou a Esaú preparar-lhe um, com carne de caça. Mal Esaú saiu, Rebeca chamou Jacó. Mandou o filhinho matar 2 cabritos do rebanho. Ela mesmo preparou o guisado que o marido gostava. Vestiu Jacó com as roupas de Esaú. Borrifou em Jacó o perfume de Esaú. Cobriu-lhe as mãos e o pescoço com pedaços de pele de cabrito para disfarçar a delicadeza da cútis de Jacó.

Dito e feito. Antes de comer, Isaque apalpou as mãos e o pescoço de Jacó. Caiu como um patinho, crente que o embusteiro era o peludo Esaú. Isaque comeu que se fartou. Por fim, feliz e de barriga cheia abençoou Jacó como se fosse Esaú.

Quando Esaú chegou com a caça, Inês era morta. Isaque gastara a única bênção que possuía com o caçula Jacó. O herdeiro da tradição hebraica era Jacó. Sem possibilidade de anulação ou revogação do mandato.

Os irmãos romperam relações. Com medo de ser morto pelo irmão, Jacó fugiu para a Mesopotâmia. No caminho sonhou com anjos subindo e descendo escadas. Também com uma voz estereofônica (a mesma da profecia) anunciando que o povo de Jacó seria mais numeroso que a areia do deserto.

E o enganado Esaú? Coube-lhe o espinhoso prêmio-consolação: originar os povos árabes.

Diz-se que os irmãos fizeram as pazes na velhice.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Górgona

Em pouco mais que meia hora ela despejou a amargura acumulada por 50 anos. Os olhos vermelhos, secos, furiosos e ao mesmo tempo desamparados. Ouvi calado. Entre o fascínio e o horror. O tom de voz exaltado beirava ao teatral. Um teatro empoeirado, teias de aranha, lâmpadas queimadas, morcegos, traças no cordame, baratas nas frestas e pulgas nos veludos das cadeiras. Tanto tempo longe, eu não me lembrava mais do ódio concentrado que havia ali. Fascínio: aquilo dava um romance. Pelo menos 700 páginas atravessando 4 ou 5 gerações; dezenas de personagens medíocres; cenários de horror e sofrimento; traições; maledicência; acusações. A matemática inexata da dor. Horror por conhecer o lado podre de gente viva, dos mortos, de gente próxima, distante, gente que eu nunca mais tinha ouvido falar. Mágoa fermentada. Aumentada pelos anos. Eu não permiti que aquilo me respingasse. Eu não me permiti ser contagiado pela amargura. Só fiquei triste. Mas com esperança. De que ao falar ela tenha se esvaziado. Tenha se aliviado de carga tão turva. Esperança que o mesmo tempo que se encarregou de petrificar o passado dela - que o mesmo tempo sirva para apagar, clarear, suavizar tantas recordações da casa dos mortos.