terça-feira, 26 de julho de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Jonas, parte 3 de 3
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| Gustave Doré - Jonas rejeté par la baleine |
Quem se lembra da história de Pinóquio? Da parte onde ele é engolido pela baleia? Com Jonas aconteceu igual. Caiu do barco direto na boca do bicho. Permaneceu 3 dias e 3 noites dentro do peixe. Uns dizem que era baleia. Outros, um tubarão gigante. Outros ainda, precavidos, falam só em um grande peixe (kétos, em grego), sem especificar. De um fato ninguém duvidava: o peixão era outra novidade de Javé.
(Tá, é meio mirabolante, ninguém acredita que alguém sobreviva após ter sido engolido por um peixe. Pesquisei. Está no Google: tubarão gigante existe. Pode atingir 20 metros de comprimento. 3 toneladas. Dentro do tubarão gigante cabe, folgado, uns 3 Jonas. Outro bicho plausível seria o cachalote. O Google conta peripécias parecidas à de Jonas vividas por um marinheiro irlandês. Fala que o espaço interno do cachalote é do tamanho de um loft mobiliado: conforto máximo em espaço mínimo).
Pinóquio acendeu uma fogueira no bucho da baleia. A fumaça fez o bicho tossir e espirrar, expelindo-o, junto com o Grilo Falante e Gepetto na praia. Com Jonas foi parecido. Na terceira noite o celular tocou. Era Javé. Perguntando se Jonas tinha aprendido a lição. Se estava preparado para se apresentar no escritório em Nínive na primeira hora da segunda-feira.
Sim, estava. O kétos cuspiu Jonas na praia. Jonas correu para Nínive. Demonstrou eficiência. Em pouquíssimo tempo coroou a missão de sucesso..
Mas intimamente Jonas estava insatisfeito. Achou que a rapidez na superação das metas tinha o dedo de Javé. Que a adesão dos ninivitas ao Plano era fogo de palha. Quis pagar para ver os antigos inimigos de Israel voltarem a cometer as atrocidades contadas na parte 1. E serem finalmente destruídos pela ira de Javé. Demitiu-se.
Javé não queria perder aquele gerente promissor. Convenceu-o a tirar uma licença sem vencimentos.
Jonas alugou uma tenda no alto do morro, de frente para Nínive. Para assistir de camarote a cidade desandar.
Javé arquitetou outro plano. Daqueles pouco convencionais. Embasado em técnicas administrativas modernas. Outra lição para Jonas. Mandou por sedex uma muda de aboboreira. Não daquelas aboboreiras rasteiras, de talo oco, folhas largas, peludas, flores amarelas. Javé tinha espírito de artista. Era uma árvore de abóboras. Tipo jaqueira.
Jonas achou o máximo. Mal enfiou as sementes na terra, puf! a árvore cresceu. A ponto de lhe sombrear a testa. Jonas passou o dia adubando, aguando, podando a árvore para no dia seguinte colher abóboras maduras. Nem pensava mais na raiva que sentia dos ninivitas.
À noite, enquanto Jonas dormia, Javé mandou lagartas devorarem a aboboreira. Só deixaram o tronco.
Era verão no deserto. Calor de rachar. Secura. Jonas devia estar desidratado. Desfaleceu de desgosto ao ver a aboboreira seca. Ao ver que os ninivitas continuavam adeptos ao Plano de Javé.
Javé já esperava por aquilo. Encontrou Jonas desmaiado. Delirando:
- Eu quero morrer! – Jonas murmurou.
- Morrer porque? – perguntou Javé.
- Porque a aboboreira tão linda morreu de repente.
- Pô, não é incoerência desejar morrer por causa de uma aboboreira e não estar nem aí para os habitantes de Nínive? – Javé retrucou.
Jonas entendeu o subtexto. Cancelou a licença não remunerada. Foi trabalhar na Seção de suporte e manutenção do Plano de Javé, em Nínive. Dizem que o crescimento do empreendimento na região foi estratosférico.
sábado, 23 de julho de 2011
Jonas, parte 2 de 3
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| Jonas - Aleijadinho - Ouro Preto |
Mal o navio abandonou a costa de Jaffa, o ar ficou carregado. O tempo virou. Ventania, nuvens pesadas, relâmpagos, trovões, ondas encapeladas. O navio oscilava a ponto de emborcar. O capitão e os marujos apavorados tentavam aprumar o leme, remendar a vela rasgada pela força do vento. Os feitores chicoteavam os remadores com mais força. As sirenes soavam. O sistema de comunicação entrou em pane. A bússola desgovernou. Cena de Titanic.
E Jonas? Apagado, na cabine, ressonando como um cordeirinho.
Os passageiros corriam como baratas tontas no convés, vomitavam nas amuradas. Imagina se eles tivessem visto os tubarões rondando o barco - o caos seria total. Todo mundo implorando ajuda do além: Alá, Iansã, Buda, Ganesha, Tupã, Rá, Assur, Odin, Zeus, Júpiter, Quetzalcóatl, e nada da tempestade amainar. Só não se ouvia o nome de Javé. Foi quando o capitão se lembrou do hebreu embarcado em Jaffa.
Jonas acordou atordoado. Quando o capitão relatou a fúria da tempestade e a tragédia iminente, Jonas sacou na hora: aquela reação era típica de Javé. E somente ele, Jonas, por ter fugido da missão, dos desígnios, era o culpado. Tentou ligar para o chefe, pedir para amainar a tempestade. Droga, sem sinal. Bom, o jeito era ajudar o pessoal lá em cima, no convés.
Os marinheiros tinham aliviado toda a carga do navio no mar. Jogaram móveis, bagagens, decoração, tudo que fosse supérfluo. Estavam tão malucos que tiravam zerinho-ou-um para escolher o primeiro dentre eles a ser atirado ao mar. Peraí, peraí, Jonas interrompeu. Assumiu a culpa. Ofereceu-se. Os marujos nem pensaram duas vezes. Jogaram Jonas ao mar.
Tiro e queda. A tempestade cessou na hora. O sol voltou a brilhar. O navio seguiu o rumo.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Jonas, parte 1 de 3
| Jonas e a Baleia, imagem do blog http://velhariasdoluis.blogspot.com |
Vira e mexe o segmento humano da criação irritava Javé. Dessa vez a confusão era em Nínive. Mais ou menos onde hoje se situa o Iraque.
Os ninivitas eram o tipo de gente que ninguém queria ter próxima. De longa data rolavam picuinhas na vizinhança. Principalmente com os hebreus que, como todo mundo sabe, eram os filhos prediletos do papai Javé.
Ai de quem reclamasse. Era guerra na certa. Sangue. Carnificina. Os ninivitas faziam picadinho dos vencidos. Depois erguiam pirâmides com as cabeças decepadas. Também gostavam de crucificar prisioneiros. Ou empalar. Antes arrancavam-lhes os olhos e a língua. Direitos Humanos? Papo de boiolinha helênico.
Os maus hábitos dos ninivitas se assemelhavam aos dos sodomitas descritos anteriormente. Além disso, eram acusados de enriquecimento ilícito. Por causa dos despojos de guerra. Javé tinha dado uma chance, outra e outra. Nada da situação melhorar. Estava por aqui (punha a mão esticada na altura da garganta) com os ninivitas. Faltava menos da metade da metade de 1 gota d’água para o copo transbordar.
Javé pensou em uma saída. Analisou todos os ângulos da questão. O insight veio. Lá pelas 3 da madrugada:
a) Apesar de vultuoso, o empreendimento “criação” ainda era tímido. Mal atendia à demanda dentro das fronteiras de Israel.
b) Nínive era um centro econômico e cultural importante da região. Capital do Império Assírio. Demorava-se 3 dias úteis para atravessar a cidade à pé. Estrutura turística de 1º mundo. A biblioteca de Assurbanipal tinha o maior acervo de plaquetas com escrita cuneiforme. Os melhores espetáculos nos anfiteatros e circos. Arquitetura ousada. Galerias de arte internacionais. Resorts sofisticados às margens do rio Tigre, nos moldes de Babilônia. Referência gastronômica em todo o Oriente Médio e Próximo. Etc.
c) A equipe chefiada por Javé era composta por Profetas masters, sêniors e alguns júniors. Atuavam em sua totalidade na parte administrativa, burocrática, com pouca interação com o público.
Porque não realizar uma megacampanha em Nínive?, Javé pensou. Conquistaria nicho importante do mercado externo; milhares de novos adeptos e/ou simpatizantes; e ainda poupava os ninivitas do destino de Sodoma e Gomorra.
A estratégia publicitária era simples: 1) ameaçar de destruição nos principais veículos de comunicação; 2) estipular prazos: 40 dias, nem 1 minuto a mais; 3) enviar um gerente para convencer a população a se converter; 4) demonstrar magnanimidade; e 5) não destruir.
O gerente responsável pela campanha seria Jonas, o novato. Que era sindicalizado. Briguento. Nacionalista radical. Turrão. Que não suportava o domínio dos ninivitas na região. Que ainda não tinha pegado o jeito do serviço. Que não tinha muito o que fazer. Que tinha potencial, mas precisava ser moldado.
Sexta-feira à tarde. Jonas engavetara os processos da semana. Estava pê da vida porque Javé tinha marcado uma reunião, tipo evento corporativo, no oásis. Justo no shabbat! Irritantes os métodos administrativos modernos de Javé. O jeito era obedecer.
Depois de apresentar o novo projeto de expansão, Javé determinou as funções. A Jonas coube (no jargão de Javé) adivinhem o quê? O desafio de converter Nínive.
Logo Nínive, que espoliava, escravizava e maltratava os hebreus desde que Jonas se conhecia por gente.
“Eu quero é mais que Nínive seja destruída!”, ele desejou. Quis declinar. Não teve coragem. Contradizer Javé era demissão sumária. Ficou de pensar. De responder no primeiro horário da segunda-feira.
“Caramba”, Jonas pensou. “Porque eu? Porque Javé mesmo não cuidava do assunto?” Imaginou a dificuldade que enfrentaria em convencer aquele povinho uó de qualquer coisa que fosse. “Pô, se quisesse, com um telefonema Javé resolvia o problema!”.
Ao invés de pedir dispensa da missão, Jonas tirou um atestado médico. 15 dias. Comprou passagem em um cruzeiro marítimo em Jaffa e partiu no dia seguinte. Em direção oposta a Nínive. Para Társis, na exótica Espanha. Lá, pensou, Javé nunca o encontraria.
O embarque se deu em uma manhã ensolarada. Com medo de ser descoberto Jonas nem quis permanecer no convés, usufruir das diversões do navio: cassino, piscina, shopping, shows. Comprou a cabine mais escondida no andar mais inferior, no corredor menos movimentado possível. Mal desfez as malas, deitou-se e dormiu.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
quarta-feira, 20 de julho de 2011
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