terça-feira, 9 de agosto de 2011

16 regras para produzir colagens com satisfação

1. Abra o navegador em algum programa de pesquisa. Por exemplo, o Google. Escolha a opção "imagens" e digite a palavra no campo "pesquisar".

2. A palavra? a primeira que vier. Em qualquer idioma. Pois o que virá será só imagem mesmo. Sem necessidade de tradução. Qualquer palavra. Poética, técnica, científica. Adjetivo, substantivo, verbo. Na fase avançada poderão ser utilizadas também expressões idiomáticas.

3. Se for místico, espírita, acreditar em energias mentais, psicanálise, subconsciente, inconsciente coletivo, ancestralidade ou algo semelhante, antes de digitar a palavra, repita sete vezes dada dada dada dada dada dada dada. Mentalizando Arp, Man Ray, Tzara ou Kurt Schwitters. Se não ajudar, não atrapalhará.

4. Hoje, por exemplo, digitei "instructions". 7.700.000 resultados em 0.6 segundos. Não se assuste. É humanamente impossível ver tudo. Na 3a. página rolada você se cansará. E já terá escolhido as melhores.

5. Prepare-se para ver de tudo. Laranjas na tag "paisagem". Mulher gorda na tag "aeroplano". Caveiras na tag "swimming". Pode não vir nada interessante. Como é de conhecimento público, 70% da internet é lixo. Por isso a importância da escolha da palavra. Ou da mentalização descrita no item 3. Assim funciona o acaso.

6. Tudo é relativo. Não se deixe levar pelo preconceito. Do lixo da internet também surgirão imagens inusitadas.

7. Utilize os filtros disponíveis. Selecione "imagens grandes". São melhores para recortar. Ou são de boa qualidade estética (isso existe?) - sites científicos, pornográficos, fotógrafos da moda, papéis de parede - ou muito ruins - de gente que não tem noção de upload. Em ambos os casos prepare-se para surpresas.

8. Arraste ou copie a imagem para uma pasta de visualização fácil. Ver todas as imagens no desktop, mesmo que em ícones pequenos é quase o mesmo que escolher o melhor pedaço de foto entre as revistas velhas espalhadas no chão.

9. Escolha muitas imagens. De categorias, formas, cores, assuntos variados. De preferência bem díspares. 

10. Aprenda a usar as ferramentas básicas do programa de tratamento de imagens: recortar, aumentar, diminuir, distorcer, intensificar, suavizar cores, inverter, transformar colorido em p & b. Eu amo o Photoshop.

11. Cuidado com as ferramentas complexas. Aqueles recursos artísticos de gosto duvidoso - mosaico, craquelê, aquarela, creion, oil pastels. A colagem pode ficar séria demais. Ou pretensiosa. Ou brega.

12. Tenha bom senso quanto aos direitos de autor. Principalmente se for publicar. Copiar é feio. Transformar, rever, reler, referenciar, reverenciar é outra história. Lembre-se que no século passado já recortaram os bigodes de Salvador Dali e colaram na Mona Lisa.

13. Salve o trabalho sempre. Mesmo antes de concluir. Dá vontade de morrer quando o computador trava antes de você finalizar a melhor colagem da noite.

14. Não se contente com os resultados. Faça várias. Publique as melhores. Guarde as fraquinhas para trabalhar em outra hora. Ou simplesmente delete. E recomece do 1.

15. Faça como eu digo. Não faça como eu faço. Eu só não publico o execrável.

16. Não leve a sério demais. Não exija coerência. Perfeição. Afinal, você trabalha com o aleatório. Volte no tempo. Avance. Deixe-se levar pelo lúdico. Divirta-se. Antes de tudo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A despedida


Depois dos 40 está tudo acabado. O cara com mais de 40 se esforça, tenta resgatar, continua produzindo, sem bondade, sem coração. Nada a não ser sacrifício. A vida de um cara com mais de 40 é só sacrifício. A vida de um cara com mais de 40 é um deserto.

tá, o garoto foi cruel, o garoto foi imaturo em escrever isso pra mim, não dessa forma, não com essas palavras, claro que não, isso o garoto escreveu no livro novo, literatura, o garoto tem estilo,

tá, se é pra lavar roupa suja em público eu lavo, vou dar uma dica, contar de onde o garoto tirou a frase, a ideia, foi de um filme, veja, garoto, parece com o que você escreve, eu disse, e ele escreveu, para mim, a história sou eu, lá, inteiro, escroto, grotesco, decadente, fascinante a brutalidade do garoto inventando a nossa intimidade,

tá, eu passei da idade de armar barraco, eu devia ter dado umas porradas, o garoto extrapolou, ele que escreva 10 páginas sobre o pífio do nosso dia a dia, sobre o o caralho a 4, sobre o tamanho do meu pau, sobre quantas vezes gente fodia, aliás, nem isso a gente fazia mais, azar o dele, garotos nunca faltaram,

tá, eu não devia ter sacaneado o garoto, ter dito que ele escrevia tanto quanto ejaculava, a gente perde o amante mas não a piada, a entrevistadora sem-graça, não havia como não mencionar, o garoto gosta de gozar, o garoto goza muito, como goza a maioria dos garotos,

tá, pode ser despeito, que eu digo essas coisas pra me vingar das babaquices que o garoto escreveu, mas alguém acreditaria que toda a mediocridade da nossa convivência despertaria no garoto aquele ódio, ódio que só personagem de grande romance sentiria?

tá, eu posso até ter dado o empurrãozinho, ele mesmo admitiu, o garoto nunca esteve nem aí para o que eu ou qualquer um dissesse ou deixasse de dizer, o garoto nunca teve papas na língua, na verdade o sucesso é porque ele escreve melhor do que a média, o garoto escreve bem porque ainda não chegou aos 40,

tá, garoto é tratamento carinhoso, logo ele chega aos 30, aos 40, logo a ficha da idade dele cai, eu sou culpado por isso, ele não ter aprendido a encarar a idade, o garoto era engraçado, era bonitinho, garoto, você não parece ter a idade que tem, enfant terrible, eu dizia, a resposta malcriada dele na ponta da língua, fuck you,

tá, eu não serei hipócrita em dizer que a gente não se influenciou, que eu nunca escrevi sobre ele, que eu abstraía do pessoal, do íntimo quando escrevia, como ele disse, o sofrimento, o deserto, eu não vou dar uma de santinho e negar que eu não mamei ao máximo a juventude dele, gota a gota, foi uma troca, simbiose, um parasitando o outro até um matar o outro e morrer em seguida por não ter mais onde sugar,

tá, vamos ver quem vai primeiro, é sempre assim, qualquer hora a gente se cruza, a gente volta, qualquer hora, garoto, a gente faz de verdade aquela bandalheira toda que você escreveu na penúltima história.

colagens desenhos fraquinhos