domingo, 2 de outubro de 2011

rock brasília - saudosismo, história ou pretensão?

Mesmo ultimamente avesso a grandes agitos, fui hoje ao Festival de Cinema assistir ao Rock Brasília, documentário de Vladmir Carvalho sobre o Capital Inicial, Plebe Rude e Legião Urbana, 3 bandas de rock que projetaram Brasília no cenário nacional da música (!) nos anos 80.

Nunca fui roqueiro. Nunca fui fã empolgado de nenhuma delas. Muito pelo contrário. Na época eu achava serem um bando de filhinhos de papai (expressão típica brasiliense) e de diplomatas bonitinhos fazendo um sonzinho inspirado em bandas inglesas debaixo do bloco. Exceto as letras quilométricas do Renato Russo, tudo era meio palha.

Mas me emocionei. Desde o discurso do diretor, antes do filme. Ou, melhor, do professor. Que ao invés de falar sobre o documentário, elogiou o trabalho de um dos alunos da época da universidade.

Sala lotada. Como nos velhos tempos, sentamo-nos na escada. Eu, uma amiga e meu filho.

O documentário começa com os pais e mães dos integrantes das bandas contando histórias sobre seus respectivos rebentos. Ops, um filme sobre rock com idosos? Em seguida os próprios popstars, hoje quarentões, lembrando de quando tinham 15 anos. Entrecaladas, cenas da história brasiliense recente. Ou nem tanto. Dos últimos 30 anos.

Para um não-fã, a fala dos roqueiros não era o principal. Eu nunca soube mesmo quem era quem, quem tocava o que, a qual banda pertencia um ou outro. O incrível era a sensação de ter estado presente. De ter participado. De também ter feito parte daquele momento da história.

E as cenas/entrevistas antológicas se desenrolando. Por exemplo, o depoimento de J. Pingo, que dirigiu Renato Russo em uma montagem teatral lá por 1985. O General Newton Cruz explicando porque brandia o chicotinho histérico sobre os motoristas na carreata pelas Diretas Já. Ou a manifestação contra a visita de Henri Kissinger à Universidade de Brasília.

É, eu estava lá. Em cada um daqueles momentos. Eu vivi aquilo. Frequentei aqueles lugares. Aqueles shows. Convivi com aquelas pessoas. A peça do Pingo. A carreata. A manifestação contra Kissinger (performático, rosto pintado de branco, mecha azul no cabelo, um torso de manequim envolto tule cor-de-abóbora, valham-me Apolo & Dionisos!). Era como se eu estivesse na tela.

Mas o mais emocionante ficou para o final. Vladmir pergunta a Briquet de Lemos, pai de dois homenageados, o que ele extraiu daquela época. Briquet sem palavras. Não se contém. Chora. Por fim consegue articular uma frase: que aquilo foi um aprendizado. Que ele aprendeu com os filhos.

E eu com meu filho ao lado. Emocionando-se comigo. Apre(e)ndendo aquele passado da mesma idade dele. Passado que o pai também fez acontecer. Passado que ele, mesmo sem entender bem, fez parte.

Saímos em silêncio. No meio da multidão barulhenta. Eu, a amiga, o filho. Chovia em Brasília.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

das leituras atuais

Tenho lido pouco. Falta de tempo, de concentração, cansaço ao fim do dia, turbulências afetivas, luz fraca, livros encaixotados, etc. Me arrastava na biografia de Fernando Pessoa (José Paulo Cavalcanti Filho) e no Junta-Cadáveres (Juan Carlos Onetti). Quando encontrei, na prateleira das liquidações, o Fim do Mundo (Otto Friederich). E, dos poucos livros que deixei fora das caixas, uma coletânea de contos de Caio Fernando Abreu, selecionados por Luciano Alabarse.

1. A biografia de Fernando Pessoa é minuciosa. O biógrafo vasculhou a vida do poeta ao avesso. Até subiu até na janela de um dos apartamentos (?) onde FP provavelmente morou, em Lisboa, só para ouvir um certo badalar de sinos, mencionado em um verso de Alberto Caeiro. Emperrei na descrição da infinidade dos heterônimos (pra lá de 120). Matemática estranha. O autor relaciona tudo: nomes escritos em notas de pé de página de manuscritos, em papéis de embrulho, em cartas para parentes, até espíritos que teriam encarnado em FP. É chato. Leitor cartesiano, não consegui pular essa parte. Aos trancos e barrancos cheguei à letra "M". Contando as páginas para chegar ao próximo capítulo, onde se descreve a relação do poeta com o Brasil.

2. O Junta-Cadáveres apareceu por acaso. Alguém tinha me sugerido a leitura. Comprei. Apesar de, logo no primeiro parágrafo do prefácio, ser dito que Onetti "não se agrupou em torno de uma certa voga salpicada de localismo ideológico, temático, geográfico, ou seja lá de que procedência fosse", até onde consegui ler, é um típico romance latinoamericano. Com personagens reincidentes: putas velhas e desgrenhadas, gigolô desiludido, machistas, político, médico e advogado de província, etc. Apesar disso, Onetti permite-se descambar para o puro lirismo, como a citação do post de outro dia. É linda a imagem da chuva caindo incessante durante todo o romance.

3. Caio Fernando Abreu é daqueles que não canso de ler. Gosto do tom aparentemente esculachado que ele escreve. Houve uma época (adolescência pretensiosa!) que eu não entendia a razão de Morangos Mofados (Limite Branco, Ovo Apunhalado) terem feito tanto sucesso. Achava os textos mal escritos, melosos, mal-inspirados em Clarice. A paixão veio com a maturidade. Mais especificamente com o Triângulo das Águas. E os que vieram pós Aids. Paguei a língua. Confesso, batendo no peito: a) os meus contos melosos, mal-inspirados em CFA; b) até hoje ele me excita.

4. As imagens da capa e contracapa de O Fim do Mundo - uma bomba atômica explodindo; crianças africanas famintas; judeus em campo de concentração; soldados marchando - por si só justificariam o título. Logo no prólogo uma descrição maravilhosa de uma erupção vulcânica que destruiu a ilha de Santorino, no ano de 304 dC. Para o autor, o fim do mundo aconteceu em vários momentos históricos, menos ou mais intensos. Na verdade, o fim do mundo é o fim (trágico, catastrófico, destruidor) de uma etapa e as consequentes transformações (inclusive literárias) que dão início a uma nova etapa da História. O autor escolhe os mais pop: a invasão do Império Romano pelos bárbaros; a Inquisição e a peste na Idade Média; a Contrarreforma; o terremoto de Lisboa; a Revolução Russa; Auschwitz. O livro é de 2000. De lá pra cá muita água rolou. Muito fim do mundo aconteceu. Ainda estou na Contrarreforma. Leio avidamente. Tentando adivinhar o próximo.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

leituras do dia 4 - caio fernando abreu

"Então dançaram, um de cada vez. O negro apoiou a mão pesada na cintura dela e, puxando-a para si, encaixou o ventre dos dois, quase como se a penetrasse assim, ao som de um Roberto Carlos daqueles de motel, o côncavo, o convexo, tão apertado e rijo que ela temeu que molhasse a calça. Mas de volta à mesa, ao acariciar disfarçada o volume, tranquilizou-se antes de sair puxada pela mão dourada do tenista-dourado. Que a fez encostar a cabeça entre os dois peitos dele, cheiro de colônia, desodorante, suor limpo de homem embaixo da camisa pólo amarelinha, lambeu a orelha dela, mordiscou a curva do pescoço ao som duma dessas trilhas românticas em inglês de telenovela, até que ela gemesse, toda molhada, implorando que parasse. O mais baixo não quis dançar. Quero foder você, rosnou: pra que essa frescura toda?"

(Os Sapatinhos Vermelhos)

leituras do dia 3 - otto friederich

"Antes de publicar seu ensaio [O Teatro e a Peste] Artaud fez uma palestra sobre ele na Sorbonnne e, de repente, começou a tentar encenar os efeitos da peste nele mesmo. 'Seu rosto contorcia-se de angústia, podia-se ver a transpiração empapando seus cabelos', nas palavras de Anaïs Nin, que assistia da plateia. ' Seus olhos se dilataram (...). Ele estava agonizante. Gritava. Delirava. Encenava sua própria morte, sua própria crucificação.' Os espectadores de Artaud ficaram com a respiração em suspenso diante dessa exibição, e depois caíram na gargalhada e começaram a se retirar ruidosamente, batendo as portas na saída. Artaud pareceu não se importar. 'Quero despertá-los', disse mais tarde a Anaïs Nin, num café. 'Eles não percebem que estão mortos'. O pobre Artaud já estava meio louco na ocasião e sua deterioração parecia inexorável. Foi para a Irlanda, levando consigo o que insistia ser a bengala de São Patrício e buscando os segredos ocultos do universo. Convenceu-se de que o mundo acabaria em 1940, o que, em certo sentido, aconteceu. Quando os exércitos de Hitler entraram em Paris, Artaud estava confinado numa instituição psiquiátrica, uniformizado e de cabeça raspada, e ali permaneceria durante toda a guerra".

(O Fim do Mundo)

leituras do dia 2 - fernando pessoa

"Metade de mim é nobre e grandiosa, e metade de mim é pequena e vil. Ambas sou eu. Quando a parte de mim que é grandiosa triunfa, sofro porque a outra metade - que também é verdadeiramente eu próprio, que não consegui alienar de mim - dói por isso. Quando a parte inferior de mim triunfa, a parte nobre sofre e chora. Lágrimas ignóbeis ou lágrimas nobres - tudo são lágrimas".

(Friar Maurice, heterônimo citado em Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho)

leituras do dia 1 - onetti

"Às vezes estão dentro de mim todas aquelas coisas nas quais não quero pensar porque é impossível pensá-las; mas geralmente estão atrás, às minhas costas, como uma sombra que posso esquecer e que não me é permitido pisar.
(...)
Nada do que é importante pode ser pensado, tudo o que é importante deve ser arrastado inconscientemente pela pessoa, como uma sombra.
(...)
Talvez tenha decidido aqui mesmo, passo a passo sobre o pedregulho revolto, dedicar sua vida a um só propósito ou, dá no mesmo, renunciar a todos os propositos. Para mim é igualmente fácil compartilhar sua fé e a risada um pouco assombrada, um pouco medrosa, com que acolherá ou acolheu sua renúncia".

(Juan Carlos Onetti, Junta Cadáveres)