sexta-feira, 7 de outubro de 2011
casa nova
Casa nova, e linda. Desde ontem. Sob os melhores auspícios. 3 joões-de-barro barulhentos fazendo a festa nas árvores; o dia cinzento abrindo-se, no fim da tarde, em uma luz amarela, transparente e muito cenográfica; um arco-íris (axé!) de 180 graus antes de anoitecer; champanhe trazida pelo filho e brinde com as 2 pessoas mais queridas deste mundo; lagartixa na área de serviço; crisálida no forro; e um vagalume piscapiscando no quarto depois das luzes apagadas...
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
a cama da princesa acorrentada - 2
Aí Paulinho e Ricardinho entram na narrativa. Um casal gay. Daqueles estereótipos de novela das 9: bonitos, charmosos, elegantes, bem sucedidos, com leve vocação underground. Porque com a grana gasta na reforma do velho apartamento sem garagem herdado por Paulinho, ali, no centro decadente da cidade, comprariam um loft bacanérrimo na Nova Barra. Aquela história: gosto não se discute.
Paulinho era capricorniano. Ricardinho, designer de moda. Ricardinho era loiro-pêssego. Paulinho gostava de viajar e fotografava como hobby. Ricardinho às vezes pulava a cerca. Assim construíam a vida em comum. 4 anos, já.
Ricardinho notou a cama acorrentada na pilastra do sobrado em frente desde o primeiro dia. Quando levaram o arquiteto para tirar as medidas. Pensou em procurar o dono, oferecer uma graninha, restaurar e instalar a cama na suíte do casal. Depois esqueceu, atarefadíssimo com a coleção para o primeiro desfile no International Fashion, em Vitória, no Espírito Santo. Mas isso não vem ao caso.
Paulinho era responsável por conduzir a reforma. Comprar material. Conversar com o arquiteto. Fiscalizar os pedreiros. Pagar as contas. Etcétera. Via a cama acorrentada todo dia. Nem dava bola. Até fez amizade com o Carvalho, que conhecera seu avô.
Apê reformado, decorado e limpo, mudaram-se. Um belo dia, no almoço, Ricardinho lembrou-se da cama. Paulinho adorava fantasiar. Contou a história ouvida diretamente da fonte, do Carvalho. Ricardinho encasquetou: "essa cama tem que ser nossa".
Convenceu Paulinho a negociar com o Carvalho. Com o Carvalho? Não, Paulinho, você tem que falar com a mulher dele, a manicure, como se chama? Divina. Oferece 500 reais. Duvido que recuse. Não vai deixar passar a oportunidade.
A Divina era jogo duro. Queria 800. Fecharam por 650. Paulinho ainda levou de brinde um criado-mudo. Que não tinha nada a ver. Quando soube, o Carvalho quis desfazer o negócio. Porém, quando a Divina mostrou as 6 notas de 100 e a de 50 novinhas, conformou-se.
Ricardinho restaurou a cama. O que era preto-esverdeado virou dourado-pálido. As barrinhas de de bronze, as guirlandas delicadíssimas tinindo, reluzindo. Ressaltadas pela colcha bordada de seda cor-de-vinho. Da Turquia.
Ricardinho fazia questão de mostrar o quarto para as visitas, os amigos, as mães dos dois. Paulinho não se cansava de repetir, com rocamboles dignos de Scheerazade, a história da cama da princesa acorrentada. As visitas, os amigos, as mães se emocionavam. Desejavam que a cama trouxesse muitas felicidades para o casal.
E trouxe. Talvez mais felicidade que a vivida pelo Carvalho e pela embaixatriz. Ou talvez ainda, sabe-se lá, mais felicidade que a da princesa de ébano, antes de ter sido capturada e escravizada e despojada e desembarcada na Bahia, há mais de 1 século atrás.
A felicidade de Paulinho e Ricardinho durou o que tinha que durar. 6 meses. Ricardinho conheceu um italiano. Foi morar em Milão. Deixando Paulinho no apartamentaço. Dormindo sozinho na cama da princesa acorrentada.
(continua amanhã)
Paulinho era capricorniano. Ricardinho, designer de moda. Ricardinho era loiro-pêssego. Paulinho gostava de viajar e fotografava como hobby. Ricardinho às vezes pulava a cerca. Assim construíam a vida em comum. 4 anos, já.
Ricardinho notou a cama acorrentada na pilastra do sobrado em frente desde o primeiro dia. Quando levaram o arquiteto para tirar as medidas. Pensou em procurar o dono, oferecer uma graninha, restaurar e instalar a cama na suíte do casal. Depois esqueceu, atarefadíssimo com a coleção para o primeiro desfile no International Fashion, em Vitória, no Espírito Santo. Mas isso não vem ao caso.
Paulinho era responsável por conduzir a reforma. Comprar material. Conversar com o arquiteto. Fiscalizar os pedreiros. Pagar as contas. Etcétera. Via a cama acorrentada todo dia. Nem dava bola. Até fez amizade com o Carvalho, que conhecera seu avô.
Apê reformado, decorado e limpo, mudaram-se. Um belo dia, no almoço, Ricardinho lembrou-se da cama. Paulinho adorava fantasiar. Contou a história ouvida diretamente da fonte, do Carvalho. Ricardinho encasquetou: "essa cama tem que ser nossa".
Convenceu Paulinho a negociar com o Carvalho. Com o Carvalho? Não, Paulinho, você tem que falar com a mulher dele, a manicure, como se chama? Divina. Oferece 500 reais. Duvido que recuse. Não vai deixar passar a oportunidade.
A Divina era jogo duro. Queria 800. Fecharam por 650. Paulinho ainda levou de brinde um criado-mudo. Que não tinha nada a ver. Quando soube, o Carvalho quis desfazer o negócio. Porém, quando a Divina mostrou as 6 notas de 100 e a de 50 novinhas, conformou-se.
Ricardinho restaurou a cama. O que era preto-esverdeado virou dourado-pálido. As barrinhas de de bronze, as guirlandas delicadíssimas tinindo, reluzindo. Ressaltadas pela colcha bordada de seda cor-de-vinho. Da Turquia.
Ricardinho fazia questão de mostrar o quarto para as visitas, os amigos, as mães dos dois. Paulinho não se cansava de repetir, com rocamboles dignos de Scheerazade, a história da cama da princesa acorrentada. As visitas, os amigos, as mães se emocionavam. Desejavam que a cama trouxesse muitas felicidades para o casal.
E trouxe. Talvez mais felicidade que a vivida pelo Carvalho e pela embaixatriz. Ou talvez ainda, sabe-se lá, mais felicidade que a da princesa de ébano, antes de ter sido capturada e escravizada e despojada e desembarcada na Bahia, há mais de 1 século atrás.
A felicidade de Paulinho e Ricardinho durou o que tinha que durar. 6 meses. Ricardinho conheceu um italiano. Foi morar em Milão. Deixando Paulinho no apartamentaço. Dormindo sozinho na cama da princesa acorrentada.
(continua amanhã)
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
a cama da princesa acorrentada - 1
Era uma vez uma cama. Antiga. De bronze. Linhas simples e clássicas ao mesmo tempo. Além das barras horizontais e verticais da cabeceira, apenas uma faixa com guirlandas muito delicadas. O metal todo cinzento e esverdeado pelo tempo.
A cama tinha uma história. Ou uma lenda. Teria pertencido a uma princesa Africana. Capturada e vendida como escrava na Bahia. Herdada e trazida para o Brasil, 1 século depois, pela embaixatriz chiquérrima.
E era uma vez o Carvalho. O Carvalho devia ter sido um galã nos bons tempos. Porque ainda tinha o seu charme. Mesmo com o barrigão exposto pela camisa desabotoada.
Contava a lenda que quando o Carvalho ainda era bonitão, ele trabalhara para a embaixatriz chiquérrima. O Carvalho tinha sido amante da embaixatriz chiquérrima. Ao voltar para o país de origem ao fim da missão diplomática, a embaixatriz chiquérrima teria dado a cama de presente ao Carvalho. Como lembrança dos momentos maravilhosos compartilhados.
Qual seria então a razão da cama, tão carregada de afetividade, estar ali, exposta às intempéries, empretejando, acorrentada a uma pilastra, em uma ruela no centro da cidade?
Por causa de Divina. A legítima esposa e mãe das 5 filhas do Carvalho. Com toda razão corrompida pelo ciúme, Divina nutria ódio mortal pela cama. Nunca dormiu nem dormiria nela. Nem morta.
Divina não imaginava o valor econômico da cama. Aquela velharia. Conhecia só o valor sentimental. Para o Carvalho, é claro. Por isso acorrentou a cama. Bem na frente da porta da frente da casa. Na pilastra da marquise. Como um espinho aguilhoando as lembranças do Carvalho. Como um alerta, a si mesma, para não descuidar do marido.
(continua amanhã)
terça-feira, 4 de outubro de 2011
roberto piva
Girassol
o intervalo separa você
do redondo do horizonte
vento de seda
sol se transformando
em pássaro
aviões cabeludos arrastam
o céu na direção
do universo
a seiva do sonho
viaja com seus estandartes
o intervalo separa você
do redondo do horizonte
vento de seda
sol se transformando
em pássaro
aviões cabeludos arrastam
o céu na direção
do universo
a seiva do sonho
viaja com seus estandartes
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
domingo, 2 de outubro de 2011
rock brasília - saudosismo, história ou pretensão?
Mesmo ultimamente avesso a grandes agitos, fui hoje ao Festival de Cinema assistir ao Rock Brasília, documentário de Vladmir Carvalho sobre o Capital Inicial, Plebe Rude e Legião Urbana, 3 bandas de rock que projetaram Brasília no cenário nacional da música (!) nos anos 80.
Nunca fui roqueiro. Nunca fui fã empolgado de nenhuma delas. Muito pelo contrário. Na época eu achava serem um bando de filhinhos de papai (expressão típica brasiliense) e de diplomatas bonitinhos fazendo um sonzinho inspirado em bandas inglesas debaixo do bloco. Exceto as letras quilométricas do Renato Russo, tudo era meio palha.
Mas me emocionei. Desde o discurso do diretor, antes do filme. Ou, melhor, do professor. Que ao invés de falar sobre o documentário, elogiou o trabalho de um dos alunos da época da universidade.
Sala lotada. Como nos velhos tempos, sentamo-nos na escada. Eu, uma amiga e meu filho.
O documentário começa com os pais e mães dos integrantes das bandas contando histórias sobre seus respectivos rebentos. Ops, um filme sobre rock com idosos? Em seguida os próprios popstars, hoje quarentões, lembrando de quando tinham 15 anos. Entrecaladas, cenas da história brasiliense recente. Ou nem tanto. Dos últimos 30 anos.
Para um não-fã, a fala dos roqueiros não era o principal. Eu nunca soube mesmo quem era quem, quem tocava o que, a qual banda pertencia um ou outro. O incrível era a sensação de ter estado presente. De ter participado. De também ter feito parte daquele momento da história.
E as cenas/entrevistas antológicas se desenrolando. Por exemplo, o depoimento de J. Pingo, que dirigiu Renato Russo em uma montagem teatral lá por 1985. O General Newton Cruz explicando porque brandia o chicotinho histérico sobre os motoristas na carreata pelas Diretas Já. Ou a manifestação contra a visita de Henri Kissinger à Universidade de Brasília.
É, eu estava lá. Em cada um daqueles momentos. Eu vivi aquilo. Frequentei aqueles lugares. Aqueles shows. Convivi com aquelas pessoas. A peça do Pingo. A carreata. A manifestação contra Kissinger (performático, rosto pintado de branco, mecha azul no cabelo, um torso de manequim envolto tule cor-de-abóbora, valham-me Apolo & Dionisos!). Era como se eu estivesse na tela.
Mas o mais emocionante ficou para o final. Vladmir pergunta a Briquet de Lemos, pai de dois homenageados, o que ele extraiu daquela época. Briquet sem palavras. Não se contém. Chora. Por fim consegue articular uma frase: que aquilo foi um aprendizado. Que ele aprendeu com os filhos.
E eu com meu filho ao lado. Emocionando-se comigo. Apre(e)ndendo aquele passado da mesma idade dele. Passado que o pai também fez acontecer. Passado que ele, mesmo sem entender bem, fez parte.
Saímos em silêncio. No meio da multidão barulhenta. Eu, a amiga, o filho. Chovia em Brasília.
Nunca fui roqueiro. Nunca fui fã empolgado de nenhuma delas. Muito pelo contrário. Na época eu achava serem um bando de filhinhos de papai (expressão típica brasiliense) e de diplomatas bonitinhos fazendo um sonzinho inspirado em bandas inglesas debaixo do bloco. Exceto as letras quilométricas do Renato Russo, tudo era meio palha.
Mas me emocionei. Desde o discurso do diretor, antes do filme. Ou, melhor, do professor. Que ao invés de falar sobre o documentário, elogiou o trabalho de um dos alunos da época da universidade.
Sala lotada. Como nos velhos tempos, sentamo-nos na escada. Eu, uma amiga e meu filho.
O documentário começa com os pais e mães dos integrantes das bandas contando histórias sobre seus respectivos rebentos. Ops, um filme sobre rock com idosos? Em seguida os próprios popstars, hoje quarentões, lembrando de quando tinham 15 anos. Entrecaladas, cenas da história brasiliense recente. Ou nem tanto. Dos últimos 30 anos.
Para um não-fã, a fala dos roqueiros não era o principal. Eu nunca soube mesmo quem era quem, quem tocava o que, a qual banda pertencia um ou outro. O incrível era a sensação de ter estado presente. De ter participado. De também ter feito parte daquele momento da história.
E as cenas/entrevistas antológicas se desenrolando. Por exemplo, o depoimento de J. Pingo, que dirigiu Renato Russo em uma montagem teatral lá por 1985. O General Newton Cruz explicando porque brandia o chicotinho histérico sobre os motoristas na carreata pelas Diretas Já. Ou a manifestação contra a visita de Henri Kissinger à Universidade de Brasília.
É, eu estava lá. Em cada um daqueles momentos. Eu vivi aquilo. Frequentei aqueles lugares. Aqueles shows. Convivi com aquelas pessoas. A peça do Pingo. A carreata. A manifestação contra Kissinger (performático, rosto pintado de branco, mecha azul no cabelo, um torso de manequim envolto tule cor-de-abóbora, valham-me Apolo & Dionisos!). Era como se eu estivesse na tela.
Mas o mais emocionante ficou para o final. Vladmir pergunta a Briquet de Lemos, pai de dois homenageados, o que ele extraiu daquela época. Briquet sem palavras. Não se contém. Chora. Por fim consegue articular uma frase: que aquilo foi um aprendizado. Que ele aprendeu com os filhos.
E eu com meu filho ao lado. Emocionando-se comigo. Apre(e)ndendo aquele passado da mesma idade dele. Passado que o pai também fez acontecer. Passado que ele, mesmo sem entender bem, fez parte.
Saímos em silêncio. No meio da multidão barulhenta. Eu, a amiga, o filho. Chovia em Brasília.
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