terça-feira, 18 de outubro de 2011

Riquinha


Se eu ganhasse um milhão eu comprava uma casa. No Gama. Com um quarto só pra mim. Outro pro Nino. Enchia o quarto do Nino de brinquedos. Igual no Gugu. Pagava uma plástica pra mãe tirar a mancha da testa. Ajeitava o barraco da vó e do vô. Não. Buscava a vó e o vô pra morar com a gente. Abria uma conta no banco pro pai. Com talão de cheque e cartão. Comprava um carro com toca-cd e tevê e ar condicionado. Contratava um motorista até o pai aprender a dirigir. Uma empregada pra cuidar do Nino. Guardava uma parte pra cadeira de rodas do Nino. Outra pro tratamento. Arranjava um cachorro de raça. Um cachorro não. Pluto e Nininha. Só dava carne e ração pros cachorros. Levava todo mundo pra almoçar na churrascaria todo domingo. Sábado também. Mandava lavar a rodoviária. Prender os meninos do crack. Jogava todas essas paçoquinhas no bueiro. E ia pra casa antes das 11.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

colagem com saltadores do dream exchange

a cama da princesa acorrentada - final



Com Armando estava sendo diferente. Relação madura. Sólida. Com cara de durar para o resto da vida. Talvez pelo fato de morarem em casas separadas. Um no apê do centro. O outro em um loft na Nova Barra.

Um belo dia Armando propôs uma loucura. Paulinho topou. Morarem juntos. O dinheiro do aluguel dos respectivos imóveis pagaria o aluguel de uma cobertura. Com vista para o mar.

Paulinho estava feliz. Armando também.

A cama da princesa acorrentada ressuscitou durante a mudança de Paulinho. "Que cama linda!" - Armando exclamou. Paulinho contou a história. Tanto tempo depois.

Pasmem, leitores, com as voltas que o mundo dá. Creiam na força do Destino. Nunca duvidem dos desígnios ocultos dos deuses. Dobrem-se sob o poder & a força da Lei do Eterno Retorno. Etcétera.

Armando conhecia a embaixatriz chiquérrima. Era amigo do filho dela. Viam-se pelo menos 2 vezes por ano. Quando Armando ia a Nova Iorque. Ou quando Adèle e o filho vinham passar o verão no Brasil.

Faltava 1 mês para o verão.

Armando resgatou a cama do esquecimento. Restaurou. Da mesma forma como Ricardinho fez. Há tantos anos atrás. Paulinho contra-argumentou: essa cama tem urucubaca. Armando riu.

Armando tinha muito bom gosto. Paulinho também. A cama ficou linda no quarto da nova casa. Que foi inaugurada no verão. Com a presença de Adèle, a ex-embaixatriz chiquérrima.

Adèle quase teve um piripaco quando viu a cama.

A cama da princesa acorrentada foi a sensação do jantar. Adèle confirmou parte da história do Carvalho. Um intenso e impossível e louco e arrebatador amor de juventude. Daqueles que a pessoa pensa em abandonar tudo para viver até as últimas consequências. Amor que só não virara escândalo porque o corpo diplomático abafou.

Porém, a parte da princesa acorrentada era pura fantasia. Do Carvalho. Ou de Paulinho. A cama tinha sido presente de casamento. Ou tinha sido comprada no Marché aux Puces, na época de estudante. Ou de um antiquário em Buenos Aires. Ou encomendada pelo embaixador. Adèle não se lembrava.

Depois, para amenizar o clima, acrescentou detalhes engraçados e picantes. Que só as embaixatrizes chiquérrimas conseguem narrar em público sem resvalar na vulgaridade. Todos riram muito. Na sacada da cobertura. Até o dia nascer. E todos se despedirem. E Paulinho e Armando dormirem. Na cama. Que não era mais da princesa acorrentada.

Acordaram às 2 da tarde. Com Adèle chamando ao celular. E viverem felizes para sempre.

sábado, 8 de outubro de 2011

a cama da princesa acorrentada - 3

Paulinho não se consolava. Emagreceu 1,5 quilos. Coitadinho. Dormia mal. Chamava por Ricardinho no pesadelo. Abraçava o travesseiro. Culpava a cama pela insônia. Pelos sonhos ruins. Pela separação. Urucubaca, pensou. Inveja. Energia negativa acumulada.

Paulinho não acreditava. Mas procurou uma vidente. Que vaticinou: era a alma penada da princesa acorrentada rondando. Reclamando a propriedade. Querendo dormir na cama. A vidente receitou um ebó light: espargir no quarto sal aromatizado, pétalas de rosas brancas secas e eau-de-cologne. Para a alma se desapegar. E descansar por toda a eternidade.

Paulinho fez tudo direitinho. Assim, pelo poder do ebó ou por autossugestão, dormiu bem. Por via das dúvidas comprou uma cama box super-king com colchão de mola ensacada. Travesseiros de astronauta. Desarmou e guardou a cama da princesa acorrentada no quarto da empregada que servia de depósito.

Os anos passaram-se. O Carvalho morreu de cirrose. A Divina, já avó, mudou-se para o Méier com as filhas e o neto. Ricardinho nunca mais deu notícias. A cama empoeirando no quartinho.

Paulinho estava com 40. Às vezes sozinho, às vezes casado, às vezes sozinho de novo. Depois de Ricardinho foram 3 relacionamentos sérios: Kaká, 32 anos, massoterapeuta e ator (4 anos juntos); Bernardo, 23, surfista (8 meses); e Armando, 44, empresário (8 anos no próximo mês).

(continua)