quarta-feira, 26 de outubro de 2011

(para t.r. com saudades)

a partir de imagem do blog http://antonioregis.blogspot.com
Tareja, meu bem. Reina Tareja de Pamplona. A pele? Legítima. Verdadeirérrima, querida. Bati o olho e vi que era coisa fina. O marroquino pediu mil euros. Acredita? Me dá um cigarro. Tu acha? Paguei 300. Muita lábia. E lábios. Tá rindo, é? Tudo safado. Aprenda, querida. Não existe almoço grátis.
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Adivinha? A cidade inteira sabia. Menos o pai. Me flagrou com o padeiro. 15 anos. Só não me capou porque a mãe entrou na frente. Me arrepio todinha. Fugi pro Recife. Depois o pão que o diabo amassou em São Paulo. Até dormir debaixo do viaduto. Se não fossem as amigas...
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Glamour, querida. De São Paulo para o mundo. Portugal? Tipo a porta de serviço da Europa. Nem morta. Tu acha? Desperdiçar o corpinho em escudos? Paris era só vôo lotado de extraditadas. Madri foi o destino, entendeu? Vidas passadas. Sangue cigano, querida. A Cleyce botou tarô. Só podia ser Madri.
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A dona da pensão. A madrinha da gente. Escolheu o nome. Do Cabrobó, acredita? Imagina, querida, chegar morta de fome de madrugada, um prato de feijão com carne quentinho te esperando? Só mesmo a Cleyce. Ajudava demais. Anjo da guarda. Travesti entrava e saía o tempo todo. Só pra dormir. Não podia levar ninguém.
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Tinha umas que ficavam amigas. Pegavam confiança. Perigosas. Na primeira oportunidade dopavam a criatura. Limpavam tudo. Dinheiro, roupas, bijus, droga. Tudo que não estivesse aquendado. Aquela história: bicha burra nasce morta. Eu? Nunca. Nem uma agulha.
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Tem cliente de todo tipo. Príncipe? Se existe eu nunca vi. É só sexo, querida. Muita sujeira. E dinheiro. Coisa de bicho. De bicho não. De gente. Mudar de vida? Olhe, não faltou oportunidade. Tu acha? Só em filme. Não dura nem 1 mês. Eu nasci para isso.
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Olhe, querida, eu sempre me cuidei. Droga? Nunquinha. Voltar para a Paraíba? Só morta. Ou por cima de muita carne seca.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

eu conheço carlinhos chialiari

Não sabe quem é o Carlinhos Chialiari? Da novela. Vai se casar com aquela que faz papel de garota de programa e ninguém sabe. Não assiste tevê? Como assim? Em qual planeta você vive? Eu nunca conheci uma pessoa que não gosta de tevê. Eu estudei com o Carlinhos no EJA. Educação de Jovens e Adultos. Pois é.  Não acredita? Aula mesmo que era bom, nada. Altos porres em um boteco na frente da escola. O Carlinhos tinha presença. Era um cara bacana. Super simpático. Usava umas camisas descoladas. A mulherada se rasgava por ele. 5 anos. Tempo pra caramba...

99 vírgula 9 por cento de ator de novela é. A mídia pode até dizer que o cara é o maior comedor, que o cara ta ficando com a fulana, se separando da sicrana. Só pro bando de otária acreditar. Pra não dar na cara. Imagina se as meninas ficam sabendo? A novela perde a audiência, o concorrente cai de pau, o cara perde o emprego, a grana, a mordomia. O cara nunca mais consegue papel decente. Vai fazer teatro pro resto da vida. O Carlinhos mesmo. O namorado atual dele é um cara bem discreto. Assim, tipo você. Já viu foto de algum casal de ator gay na Caras?

Como foi? Ó, eu nunca contei pra ninguém. Eu fui deixar o Carlinhos em casa depois da festa. Amanhecendo. A gente estava doidaço, bebaço, cheiradaço. O Carlinhos estava sem sono. A fim de conversar. Perguntou se eu queria fumar um no quarto dele. Claro. Eu também estava ligado. Carlinhos ficou de conversa mole. Tirou a camisa. Pô, Carlinhos, cadê o negócio? Aí ele chegou bem perto. Pra me beijar. Eu tava desentendido, saca? Pra lá de Marakesh. Não nego. Eu pensei se valia a pena deixar rolar. Sabe como? Experimentar. Mas meu negócio é mulher. Na hora H eu bloqueei. Não rolou. Eu segurei a mão dele. De boa, cara, pára com isso, nada contra, só não estou afim. Não vamos estragar a amizade por besteira.

Daí o Carlinhos se afastou. Eu comecei a namorar a Vera. Ele se matriculou na escola de teatro. Desapareceu do EJA. Cada um no seu rumo. Um dia, de repente, sem mais nem menos eu vejo ele lá, na novela. Me deu um troço estranho. Tipo uma emoção. Chamei a Vera. Caraca! Vera, esse cara estudou comigo. Como eu sei que a Vera até hoje não acredita, eu zoo com ela. O Carlinhos Chialiari era afinzão de mim, rolou um clima, se eu tivesse dado mole, se eu não fosse hétero eu tinha me arranjado, quem me mandou me casar com você. Aí a Vera fica pê da vida.

Ta bom. Chega de te alugar com esse papo. Você tem lugar? Tá a fim de quê? Menos beijar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

lindinha

As matronas concentradas no jogo:
- Lindinha, busca o cigarro e o isqueiro na bolsa da tia?
Volta com o cigarro aceso.
- Que graça! 5 aninhos e já sabe acender... Qualquer dia a tia te ensina a tragar.

quo vadis

Cabeça torta. Arcada estreita. Dentes encavalados. Em consequência do parto a fórceps. Para completar, olhos de sanpaku. Jabuti. Condenado ao isolamento eterno.

Como refúgio a Roma do legionário Marco Vinício. Nome que escrevia em letras góticas junto ao de Calina, dentro de um coração flechado, caneta vermelha na carteira. Às vezes em giz no quadro. Antes dos colegas chegarem.

Calina. Na vida real Solange. Cabelos compridos. Olhos pretos. Esbugalhados como os dele. Só que Solange era linda. Solange & corações preenchendo linha a linha a folha inteira do caderno.

O papel na mão da galera do fundão. Coro e cascudos da turba: Jabuti Jabuti Jabuti. Encolhido no canto. A cabeça, os bracinhos enfiados no casco. Que nunca chegasse às mãos, aos ouvidos de Solange.

Chegou. Atrasada. A lígia Calina segurou o papel. Nem se deu ao trabalho de escarnecer. Reles Jabuti. Picou o papel sobre o monturo encolhido. Sentou-se na primeira carteira. O trono da princesa. E nunca mais olhou para trás.
 
(Quo Vadis é um romance do escritor polonês Henryk Sienkiewicz – 1846/1916, ambientado na Roma Imperial, à época de Nero, cujo tema é a perseguição aos cristãos).

de que são feitos


De que são feitos os meninos?
De que são feitos os meninos?
Rãs, caracóis, rabinhos pequeninos.
Disso são feitos os meninos.
De que são feitas as meninas?
De que são feitas as meninas?
Doces, perfumes e outras coisinhas finas.
Disso são feitas as meninas.

de: O Mundo da Criança. Adap. M. L. Figueiredo. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

o livro das trevas & outras hipóteses escatológicas

Comentários sobre o controverso romance autobiográfico “O Livro das Trevas & outras Hipóteses Escatológicas” da estreante Amaryllis Penafuertes (à moda de Paulinho Assunção)

“Livros como esse deveriam ser proibidos”.
...

“Há que se contabilizar os danos irreparáveis provocados pelo simples manuseio dessa aberração literária por nossos jovens”.
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“O Mal caminha por sendas tortuosas e aproveita-se de qualquer descuido. Como, por exemplo, a publicação dessa história execrável”.
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“Eu vomitei quando li”.
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“Pura perversão! Lixo impresso! Detrito!”
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“Difícil compreender uma moça inteligente, esclarecida, culta e de princípios deixar-se degradar, a ponto de passar fome, dormir literalmente na sarjeta, adoecer, humilhar-se, roubar e até mesmo prostituir-se pela simples necessidade de inocular no organismo substâncias cuja única função é destruir o corpo e o espírito”.
...

“Angustiante. Instigante! Único! Original!”
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“Ombreada a Dante ou os grandes Malditos, a autora mergulha nos assustadores círculos de seu inferno pessoal e emerge, trazendo à luz obra muito além do seu tempo!”
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“Li, gostei e recomendo”.
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“A estreante e já outsider Amaryllis Penafuertes consegue transformar Os 120 dias de Sodoma em historinha pra boi dormir”.
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“Morri de rir...”
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“A autora não saiu da fase anal. Talvez por isso o prazer sádico de utilizar-se das palavras para modelar seus próprios excrementos verbais”.
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“Após superar o horror das primeiras linhas o leitor é fisgado pela narrativa concisa e crua e se deixa perder pelos labirintos inusitados que a autora percorre a cada parágrafo”.
...

“A literatura tem desses mistérios... Esperar tanto tempo para nos deleitar com uma obra que certamente terá o seu lugar entre os grandes romances da literatura universal”.
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Unpleasant! Unbelievable. Great! Purely fabulous!
...

“Uma lição de perseverança e força de vontade para superar as piores adversidades”.
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“Ainda têm coragem de denominar isso de literatura...”

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

love story


eu queria cuidar de você, te fazer cafuné, massagear seus pés, você gosta tanto, queria aquecer a água antes do seu banho, te trazer flores, chocolate, bichinho de pelúcia, te dar o remédio na hora certa, te levar ao dentista, ao dermatologista, ao psicólogo, queria passear com você no centro ou no calçadão se fizesse sol, se chovesse eu queria te levar ao antiquário, ao shopping, à galeria de arte do seu amigo, eu queria comprar uns cds e dvds que você gosta, ouvir música abraçadinho, assistir filme comendo pipoca e tomando refrigerante, queria que a gente preparasse juntos aquele prato sofisticado, acompanhado de um bom vinho, nas taças do chá-de-casa, fazer bolo de nozes, eu queria dormir depois que a gente fizesse aquilo gostoso 2 vezes, eu queria morar com você em uma casinha de janelas azuis e jardineiras floridas de violetas, isolados do mundo, queria te ver acordar, colocar a mesa do café da manhã, esquentar o pão integral no forno, espalhar os vidros de geleia e manteiga sobre a mesa, as xícaras, os talheres, juntar os farelos, espremer as formigas com a ponta dos dedos, te ver caçando os pernilongos ao anoitecer, verificando as trancas das janelas e das portas, eu queria te esperar chegar da rua, te perguntar por onde, com quem você andou a tarde toda, eu queria te entender, ler os seus pensamentos, adivinhar as suas vontades, os seus desejos, descobrir os seus segredos, as suas senhas, eu queria abrir a sua correspondência, ler os seus e-mails, o seu diário, saber o que você escreve sobre nós, queria ouvir as suas conversas ao celular, as mensagens, eu queria ter dinheiro para te bancar, te dar uma mesada maior que o seu salário, me demitir pra ficar junto com você mais tempo, o tempo todo, pra você não precisar de ninguém, não precisar conversar com mais ninguém, pra você não olhar pra mais ninguém a não ser pra mim, o único que te dá valor, atenção, eu queria que você não questionasse, não discutisse, não me constrangesse, não me pressionasse, que a gente vivesse em harmonia, entendesse um ao outro sem precisar conversar, sem discutir a relação, queria que tudo fosse claro entre a gente, como antes, eu queria que você nunca mais repetisse isso, nunca mais me dissesse esse tipo de coisa, que eu te sufoco, queria que você não abrisse as janelas, eu não queria que você se alterasse, queria que você parasse de gritar, eu nunca te vi assim, fora de si, eu queria te ver sorrir de novo, ouvir de novo que você me ama, que eu sou o seu sol em câncer e que você é minha lua em leão, queria que você gozasse quando eu tocasse a sua kundalini, queria entender porque você se calou de repente quando abriu a carta da torre, porque parou de gritar, queria que você parasse de sangrar, dói muito a faca enfiada na sua barriga?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Beto


Mania de invocar desgraça. Qualquer motivo. Cebola. Brinquedo estragado. Escola. Bronca do avô. Não chama que ele vem. E veio. No dia do natal. Embirrou. Desgraça! A bike não era da cor, da marca, do modelo tal. Mas novinha em folha. Saiu pedalando. Ruas vazias do feriado. A corrente escapuliu. Logo no beco. Mão lambrecada de graxa. Que inferno! Ninguém por perto. Arrepiou sem nem ver. Chamou? Precisando de ajuda? A voz surgida do nada. Sapato, terno, camisa, gravata, cavanhaque, chapéu. Tudo preto. Chifre e cotoco de rabo? O dedo prendeu na catraca. A risada. Exu. Trancarrua do quartinho. Em carne e osso. Soube sem saber. Não olhar. Não responder. Muito menos encostar a mão. Pensou no avô. Na mãe. No anjo da guarda. Nos bracinhos do menino Jesus do presépio. Tremendo. Quando viu estava na rua de casa. Voando na bike. Consertada não se sabe como. Branco. O moleque viu assombração? Correu para o banheiro. Nunca mais palavra feia na boca.

Paré


Quando eu era criança não tinha medo de escuro. De altura. Bicho papão. Capeta. Mula-sem-cabeça. Caveira. Cemitério. Da Rosângela que batia nas meninas e até nos meninos maiores. Da professora. Polícia. Macumbeiro. Do primo que forçava a fazer bobagem. Não tinha medo de ser adotada. De adoecer. A mãe morrer. Ser largada no orfanato. Virar mendiga. Só do pai. Quando chegava do serviço bêbado no sábado.

Riquinha


Se eu ganhasse um milhão eu comprava uma casa. No Gama. Com um quarto só pra mim. Outro pro Nino. Enchia o quarto do Nino de brinquedos. Igual no Gugu. Pagava uma plástica pra mãe tirar a mancha da testa. Ajeitava o barraco da vó e do vô. Não. Buscava a vó e o vô pra morar com a gente. Abria uma conta no banco pro pai. Com talão de cheque e cartão. Comprava um carro com toca-cd e tevê e ar condicionado. Contratava um motorista até o pai aprender a dirigir. Uma empregada pra cuidar do Nino. Guardava uma parte pra cadeira de rodas do Nino. Outra pro tratamento. Arranjava um cachorro de raça. Um cachorro não. Pluto e Nininha. Só dava carne e ração pros cachorros. Levava todo mundo pra almoçar na churrascaria todo domingo. Sábado também. Mandava lavar a rodoviária. Prender os meninos do crack. Jogava todas essas paçoquinhas no bueiro. E ia pra casa antes das 11.