sexta-feira, 4 de novembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
paradoxo
![]() |
| Pablo Picasso - Femme au Miroir |
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
se perguntassem como eu me sinto agora
| (de http://dream-exchange.blogspot.com) |
terça-feira, 1 de novembro de 2011
o escriturário - parte 2
(Despacho do supervisor da repartição, aposto em meia folha de papel quadriculado, grampeado às anotações do escriturário falecido)
Trata-se de anotações de cunho alheio aos processos conduzidos nesta repartição.
As anotações encontram-se em verso de 31 folhas em formato A4, provindas de expurgo de impressões relativas a diversos relatórios da repartição, conforme anexos.
O material foi encontrado pelo funcionário F... em data posterior ao sinistro ocorrido.
A caligrafia das anotações sugere tratar-se de autoria do referido sinistrado.
O suposto autor das anotações foi desligado do quadro de funcionários em razão de falecimento, na data ...
Tendo em vista o acima disposto, sugerimos encaminhar ao Departamento de Pessoal para providências cabíveis.
Trata-se de anotações de cunho alheio aos processos conduzidos nesta repartição.
As anotações encontram-se em verso de 31 folhas em formato A4, provindas de expurgo de impressões relativas a diversos relatórios da repartição, conforme anexos.
O material foi encontrado pelo funcionário F... em data posterior ao sinistro ocorrido.
A caligrafia das anotações sugere tratar-se de autoria do referido sinistrado.
O suposto autor das anotações foi desligado do quadro de funcionários em razão de falecimento, na data ...
Tendo em vista o acima disposto, sugerimos encaminhar ao Departamento de Pessoal para providências cabíveis.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Marlene
Ele mostrou o estúdio. Prédio inteligente. Sacada. 22 metros quadrados. Depois comeram pães de queijo e chocolate quente no café debaixo do prédio. Para ele explicar o financiamento. Até a chuva diminuir.
A conversa estendeu-se. Como se não houvesse compromissos. O oftalmologista. Os clientes. Entendiam-se perfeitamente. Como se não houvesse 20 anos entre eles. Como se se conhecessem de outras encarnações. “A senhora se parece muito com uma pessoa que...” “Senhora”?
“Foi maravilhoso”, ela disse. Ele sorriu.
Alvoroçada. Dentro do táxi tirou o celular da bolsa. Quase apertou o recall. Para agradecer a tarde inusitada e agradabilíssima. Um corretor? Ah, os superlativos, as diferenças, as palavras fora de moda. Ligava? Não. Pediu ao motorista a gentileza de abaixar a música.
Nem telejornal. Nem revista. Nem o romance que a amiga de Barcelona indicou. Nem sono. Ligaria. No final da semana.
O perigo era deixar-se levar. Pelas circunstâncias. Pela falta de sentido. Pelo vulto que aquilo poderia tomar. Gracinha. Cara de pitbull. Jeito de dog alemão. Alma de poodle. Assim tão rápido? Ela, um gato persa. Não era nenhuma menina.
Dali em diante procrastinou tudo o que não fosse ele. A matrícula do curso de culinária espanhola. A aplicação com a gerente do banco. A amiga no skype. Tudo em função de olhar apartamentos. Novos. Velhos. Alugados. Imperdíveis. Na justiça. Desocupados. Perfeitos. Detonados. Na planta. Unidades mobiliadas. Oportunidades. Para investimento.
Ele ligava: “Acabei de receber as chaves”. “Do jeito que a senhora quer”. Ela atendia: até a piada: "o corretor vem de brinde"?
Ele todo amabilidades. “Qualquer dúvida, ligue”. Amor? Censurava-se. “Não seja ridícula”. “Só um corretor”.
Os cafés após as visitas escasseavam-se. E duravam o estritamente necessário. Ela estranhava. Ele se afastava-se ou era impressão? "Não seja tão ansiosa".
“Lá pelo décimo apartamento ele recusou. “Infelizmente não. Dois clientes agendados”.
Ela morreu por dentro. Ligou uma. Duas. Várias vezes. Dúvidas, desculpas. Ele deixou de atender. “Anote, por favor. O número do despachante”. “Precisamos marcar outro café”. Ele ocupadíssimo. “Qualquer hora dessas”. Ela insistiu. Ele: “Amanhã às 14 então”. “Para colocar os pingos nos is". "Naquele lugar”.
Ele ligou. Às 13h45. “Cliente imprevisto”. Ela controlada: “Tudo bem”. “Fica para a próxima”.
Cega. Obcecada. "Eu pago à vista". Evitava a amiga. “Não percebe o jogo?” Ela percebia. Mas era inevitável.
Até fechar o negócio. Ele infelizmente sempre ocupado. Sempre o despachante. Ela soluçou “Não esqueci o nosso café”. Golpe de misericórdia dele: “Qualquer hora dessas..." "A gente se cruza”. “Dona Marlene, você fez um excelente negócio”.
2 da tarde, sol quente, ela parada, perdida, atônita na porta do cartório, envelope com a escritura na bolsa, nem se lembrou de colocar os óculos escuros, ouvindo o eco da voz dele na kit do coração vazio.
A conversa estendeu-se. Como se não houvesse compromissos. O oftalmologista. Os clientes. Entendiam-se perfeitamente. Como se não houvesse 20 anos entre eles. Como se se conhecessem de outras encarnações. “A senhora se parece muito com uma pessoa que...” “Senhora”?
“Foi maravilhoso”, ela disse. Ele sorriu.
Alvoroçada. Dentro do táxi tirou o celular da bolsa. Quase apertou o recall. Para agradecer a tarde inusitada e agradabilíssima. Um corretor? Ah, os superlativos, as diferenças, as palavras fora de moda. Ligava? Não. Pediu ao motorista a gentileza de abaixar a música.
Nem telejornal. Nem revista. Nem o romance que a amiga de Barcelona indicou. Nem sono. Ligaria. No final da semana.
O perigo era deixar-se levar. Pelas circunstâncias. Pela falta de sentido. Pelo vulto que aquilo poderia tomar. Gracinha. Cara de pitbull. Jeito de dog alemão. Alma de poodle. Assim tão rápido? Ela, um gato persa. Não era nenhuma menina.
Dali em diante procrastinou tudo o que não fosse ele. A matrícula do curso de culinária espanhola. A aplicação com a gerente do banco. A amiga no skype. Tudo em função de olhar apartamentos. Novos. Velhos. Alugados. Imperdíveis. Na justiça. Desocupados. Perfeitos. Detonados. Na planta. Unidades mobiliadas. Oportunidades. Para investimento.
Ele ligava: “Acabei de receber as chaves”. “Do jeito que a senhora quer”. Ela atendia: até a piada: "o corretor vem de brinde"?
Ele todo amabilidades. “Qualquer dúvida, ligue”. Amor? Censurava-se. “Não seja ridícula”. “Só um corretor”.
Os cafés após as visitas escasseavam-se. E duravam o estritamente necessário. Ela estranhava. Ele se afastava-se ou era impressão? "Não seja tão ansiosa".
“Lá pelo décimo apartamento ele recusou. “Infelizmente não. Dois clientes agendados”.
Ela morreu por dentro. Ligou uma. Duas. Várias vezes. Dúvidas, desculpas. Ele deixou de atender. “Anote, por favor. O número do despachante”. “Precisamos marcar outro café”. Ele ocupadíssimo. “Qualquer hora dessas”. Ela insistiu. Ele: “Amanhã às 14 então”. “Para colocar os pingos nos is". "Naquele lugar”.
Ele ligou. Às 13h45. “Cliente imprevisto”. Ela controlada: “Tudo bem”. “Fica para a próxima”.
Cega. Obcecada. "Eu pago à vista". Evitava a amiga. “Não percebe o jogo?” Ela percebia. Mas era inevitável.
Até fechar o negócio. Ele infelizmente sempre ocupado. Sempre o despachante. Ela soluçou “Não esqueci o nosso café”. Golpe de misericórdia dele: “Qualquer hora dessas..." "A gente se cruza”. “Dona Marlene, você fez um excelente negócio”.
2 da tarde, sol quente, ela parada, perdida, atônita na porta do cartório, envelope com a escritura na bolsa, nem se lembrou de colocar os óculos escuros, ouvindo o eco da voz dele na kit do coração vazio.
domingo, 30 de outubro de 2011
o mundo da criança
De "O Mundo da Criança", coleção publicada pela Editora Delta nos anos 50/60. Pela última vez. Acabei de ler a advertência: "reservados todos os direitos. Êste volume não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, de qualquer forma, sem permissão escrita dos Editôres".
sábado, 29 de outubro de 2011
o escriturário - parte 1
Esquisitão. Doido manso, disseram. Ligava o micro sem falar com ninguém. Até o fim do expediente. Não participava do aniversariante do mês; do happy hour; do cafezinho; do amigo oculto. Vez em quando sumia. 2 semanas de atestado. Mas era muito inteligente. Talento desperdiçado.
Até chegar a notícia. Mais ou menos esperada. Suicídio. Mais cedo ou mais tarde, disseram. Rei morto, rei posto. Promoveram-me. Para ocupar a vaga.
O serviço é relativamente simples. Cada escriturário é responsável por analisar e emitir parecer técnico em uma quantidade X de processos por mês. Perfurar o processo; encadernar o processo em uma pasta de capa dura; carimbar o protocolo na folha de rosto do processo; ler o processo; sublinhar com caneta marca-texto partes importantes do processo; emitir um parecer de 5 linhas na última folha do processo; encaminhar o processo para conferência do supervisor; receber o processo homologado; arquivar o processo.
A quantidade é fixa e razoável. Arquivados todos os processos do mês, fica-se à toa. Ou na Internet, quando funciona. Só não se pode ir para casa. A maioria dos colegas "estica" o processo ao máximo. De forma a preencher todo o expediente. Até o recebimento de novos processos.
Eu ainda não aprendera o artifício. Meu primeiro mês terminou no décimo dia útil. Cuidado para não ficar como seu antecessor, disseram. Ele terminava rápido. Depois passava dias, horas inteiras parado. Diante do computador. Ou diante da mesma página do livro aberto dentro da gaveta. Também escrevia. À mão. No verso de páginas e páginas do refugo da máquina xerox. Ao final do dia picotadas no triturador de papel.
Minha primeira função foi verificar o arquivamento os processos dele. Em perfeita ordem. Então juntar os clipes. Reabastecer o grampeador. Recarregar a tinta dos carimbos. Separar as canetas por cor e tamanho. Arrancar as folhas do calendário. Arrumar as gavetas.
No fundo havia um envelope de papel pardo tamanho A4. Contendo 31 folhas impressas de um lado e manuscritas no verso. Com a letra do meu antecessor. Li rapidamente. Espécie de sistema filosófico. Filosofia nunca foi meu forte. Sem razão aparente, xeroquei as folhas antes de entregar o envelope ao supervisor.
Reli no ônibus. De novo em casa, depois do banho e do lanche. Instigante.
Até chegar a notícia. Mais ou menos esperada. Suicídio. Mais cedo ou mais tarde, disseram. Rei morto, rei posto. Promoveram-me. Para ocupar a vaga.
O serviço é relativamente simples. Cada escriturário é responsável por analisar e emitir parecer técnico em uma quantidade X de processos por mês. Perfurar o processo; encadernar o processo em uma pasta de capa dura; carimbar o protocolo na folha de rosto do processo; ler o processo; sublinhar com caneta marca-texto partes importantes do processo; emitir um parecer de 5 linhas na última folha do processo; encaminhar o processo para conferência do supervisor; receber o processo homologado; arquivar o processo.
A quantidade é fixa e razoável. Arquivados todos os processos do mês, fica-se à toa. Ou na Internet, quando funciona. Só não se pode ir para casa. A maioria dos colegas "estica" o processo ao máximo. De forma a preencher todo o expediente. Até o recebimento de novos processos.
Eu ainda não aprendera o artifício. Meu primeiro mês terminou no décimo dia útil. Cuidado para não ficar como seu antecessor, disseram. Ele terminava rápido. Depois passava dias, horas inteiras parado. Diante do computador. Ou diante da mesma página do livro aberto dentro da gaveta. Também escrevia. À mão. No verso de páginas e páginas do refugo da máquina xerox. Ao final do dia picotadas no triturador de papel.
Minha primeira função foi verificar o arquivamento os processos dele. Em perfeita ordem. Então juntar os clipes. Reabastecer o grampeador. Recarregar a tinta dos carimbos. Separar as canetas por cor e tamanho. Arrancar as folhas do calendário. Arrumar as gavetas.
No fundo havia um envelope de papel pardo tamanho A4. Contendo 31 folhas impressas de um lado e manuscritas no verso. Com a letra do meu antecessor. Li rapidamente. Espécie de sistema filosófico. Filosofia nunca foi meu forte. Sem razão aparente, xeroquei as folhas antes de entregar o envelope ao supervisor.
Reli no ônibus. De novo em casa, depois do banho e do lanche. Instigante.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
sister
Na verdade eu queria ser lixeiro. Pra andar dependurado naquele caminhão. O pai diz pra eu deixar de ser bobo. Lixeiro é obrigado a mexer no lixo dos outros. Não tem problema. É só usar luva. Sabe o que eu acho? Que o pai não gosta de mim. O pai gosta mais do Ico. Porque o Ico se parece com o pai. Porque o Ico quer ser astronauta. A mãe não. Eu tenho certeza que a mãe gostava mais de mim que do Ico. Mas a mãe morreu. Foi enterrada no cemitério. Eu nunca fui lá. Deve ser ruim demais ser enterrado. Agora nossa mãe é a Dona Beth. Ela não gosta que a gente chame ela de mãe. Eu acho que a Dona Beth não gosta nem de mim nem do Ico. O pai falou que a gente vai ganhar uma irmã. Filha da Dona Beth. Eu não sei se quero. O pai vai gostar mais da neném do que de mim ou do Ico. O Ico não quer irmã. Vai tirar dinheiro do cofrinho e fugir quando fizer 8 anos. Duvido que o Ico tenha coragem pra fugir. Mas vai demorar. Porque o Ico tem 6 anos. Pra onde você vai, Ico? Pra casa da vó em Campinas. Mesmo que o Ico tenha coragem o motorista não deixa ele embarcar sozinho. Tem que mostrar autorização do pai. Da mãe não precisa. Porque nossa mãe morreu. Eu acho legal ganhar uma irmã. O pai disse que eu vou ser o padrinho. Não sei se a Dona Beth vai querer. Eu perguntei pro pai o que um padrinho faz. O padrinho cuida da criança. Mas já não vai ter uma empregada só pra cuidar da neném? Eu às vezes cuido do Ico. Quando o pai sai com a Dona Beth. Cuido e também brinco. A gente brinca pra caramba. Tomara que a Dona Beth deixe nossa irmã brincar com a gente. Não sei como vai ser. Porque menina gosta de boneca. Se o Ico fugir só vai sobrar ela pra eu brincar. Eu vou ter que brincar de boneca com ela.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
serões de dona benta
Acordou com síndrome de Dona Benta. Chovia. Internet sem sinal. Nada a fazer. Convocou pelo celular o neto encapetado e a neta do nariz arrebitado. Tirou da caixa a boneca dos olhos de retrós e o sabugo-visconde. Buscou no quintal o suíno-marquês. Mandou a mucama afrodescendente assar bolinhos de glúten & gergelim e servir chá verde. E fez uma coisa que só se fazia no tempo do onça: sentou-se na cadeira de balanço, abriu um volume qualquer da enciclopédia e leu para as criaturas sentadas em volta, tão ou mais entediadas quanto ela:
Antípatro de Sídon foi o primeiro turista que se tem registro. Lançou a moda de livros do tipo 7 lugares para se conhecer antes de morrer. Antípatro viajou pelo mundo conhecido na época. Ou seja, região da Ásia Menor e norte da África (A Europa era uma roça, a Ásia muito distante, a África uó e a América não descoberta). As anotações renderam o primeiro poema-guia turístico que se tem notícia: “As 7 maravilhas do Mundo”. Vendeu horrores.
Das maravilhas descritas por Antípatro sobreviveu até os nossos dias a pirâmide de Gizé ou Quéops. O resto (A estátua de Zeus em Olímpia, O Templo de Ártemis em Éfeso, Os jardins suspensos da Babilônia, O Mausoléu de Halicarnasso, O Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria) foi vandalizado por bárbaros e/ou políticos corruptos, destruído por terremotos e/ou vendido como sucata. Mesmo destruídas, as 7 maravilhas ainda ocupam lugar de destaque no imaginário. E confirmam o epíteto.
A pirâmide, por exemplo. Na época de Antípatro já era antiga (completará 4500 nos próximos dias). É a maior daquelas do papel de parede do Windows, com um beduíno sobre o camelo no primeiro plano. A pirâmide eleva-se a 147 metros das areias do deserto. Altura superada somente no século XIX, pela Torre Eiffel, com 300 e poucos metros.
A estátua de Zeus em Olímpia tinha mais de 12 metros de altura. Tipo um prédio de 5 andares. Toda em ouro, ébano e marfim. Os olhos cravejados de pedras preciosas. Zeus permaneceu quietinho no Peloponeso por 800 anos. Até que um daqueles típicos administradores modernos da época (óbvio, depois de substituir todo o ouro, marfim, ébano por material sintético e as pedras preciosas por bijuterias) transferiu a estátua para Constantinopla. Onde foi destruída por terremoto.
Outro amalucado, saído de um MBA à distância e nomeado gerente de patrimônio histórico e cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Éfeso vislumbrou a possibilidade de ter o nome lembrado pelos chefes em promoção futura. Seu plano era reduzir custos de manutenção tocando fogo no templo de Ártemis, o maior e mais suntuoso da época. O projeto deu errado. Demissão sumária e expatriação, muito comum naquela época. Sobraram do templo uma coluna solitária no sítio arqueológico e alguns despojos surrupiados, hoje expostos no Museu Britânico.
Saindo do tema religião e entrando na seara dos grandes amores estão os Jardins suspensos da Babilônia (hoje Iraque) e o pouco conhecido Mausoléu de Halicarnasso. A história dos jardins Suspensos é a mais maravilhosa. Talvez por ser a menos provável. São raríssimos os registros históricos. O poderoso Nabucodonosor II mandou construir os jardins em homenagem à mulher, Amitis, “saudosa das montanhas do lugar onde nascera”. Disse a enciclopédia: “tratava-se de 6 montanhas artificiais, feitas de tijolos de barro cozido, com terraços sobrepostos onde foram plantadas árvores e flores (...) apoiados em colunas cuja altura variava de 25 a 100 metros. Para se chegar aos terraços subia-se por uma escada de mármore; entre as folhagens havia mesas e fontes”.
O Mausoléu de Halicarnasso (atual Bodrum, na Turquia) foi construído pela rainha Artemísia, da Cária. Para abrigar os restos mortais do (ao mesmo tempo) irmão e marido amado, o rei Mausolo.
As 2 últimas maravilhas do mundo antigo eram funcionais e marítimas: O Colosso de Rodes (palavra estranha essa, Colosso), era uma estátua em bronze do deus Hélios. 30 m de altura (regra de 3 simples: se a estátua de Zeus, medindo 12 metros, equivale a um prédio de 5 andares o Colosso equivaleria a 12,5 andares). Os pés do Colosso apoiavam-se cada um em uma das margens do canal de acesso ao porto de Rodes. A piada entre os marinheiros era obrigar os grumetes a olhar pra cima quando o navio passava entre as pernas do Colosso. Além de enfeite bem-dotado, o Colosso carregava uma tocha que servia de farol. O Colosso foi afundado por um terremoto. Muito tempo depois os árabes dominaram a região e venderam o bronze afundado como sucata.
Já o Farol de Alexandria, com 150 metros de altura (metade da Torre Eifell), iluminava os mares até 50 km de distância, por meio de um complexo sistema de espelhos no topo. Depois da pirâmide, foi a maravilha que sobreviveu mais tempo, destruída por um terremoto em 1375.
1 hora depois, o neto encapetado tinha passado a 29ª fase do minigame; a neta do narizinho arrebitado roncava; a boneca dos olhos de retrós e o visconde-sabugo permaneceram mudos e imóveis, como cabe aos seres e objetos inanimados; o marquês-suíno tinha obrado sobre o tapete de fuxico; a mucama afrodescendente, única entretida com a narrativa, deixou queimar os bolinhos de glúten & gergelim. Por sorte a Internet voltou. Depois de atualizar o e-mail, digitou no Google: “Pragas do Egito”. Eram 10: águas em sangue; rãs; piolhos; moscas; doenças nos animais; úlceras; chuva de fogo; gafanhotos; trevas; morte dos primogênitos. Ela e a mania de listas.
Antípatro de Sídon foi o primeiro turista que se tem registro. Lançou a moda de livros do tipo 7 lugares para se conhecer antes de morrer. Antípatro viajou pelo mundo conhecido na época. Ou seja, região da Ásia Menor e norte da África (A Europa era uma roça, a Ásia muito distante, a África uó e a América não descoberta). As anotações renderam o primeiro poema-guia turístico que se tem notícia: “As 7 maravilhas do Mundo”. Vendeu horrores.
Das maravilhas descritas por Antípatro sobreviveu até os nossos dias a pirâmide de Gizé ou Quéops. O resto (A estátua de Zeus em Olímpia, O Templo de Ártemis em Éfeso, Os jardins suspensos da Babilônia, O Mausoléu de Halicarnasso, O Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria) foi vandalizado por bárbaros e/ou políticos corruptos, destruído por terremotos e/ou vendido como sucata. Mesmo destruídas, as 7 maravilhas ainda ocupam lugar de destaque no imaginário. E confirmam o epíteto.
A pirâmide, por exemplo. Na época de Antípatro já era antiga (completará 4500 nos próximos dias). É a maior daquelas do papel de parede do Windows, com um beduíno sobre o camelo no primeiro plano. A pirâmide eleva-se a 147 metros das areias do deserto. Altura superada somente no século XIX, pela Torre Eiffel, com 300 e poucos metros.
A estátua de Zeus em Olímpia tinha mais de 12 metros de altura. Tipo um prédio de 5 andares. Toda em ouro, ébano e marfim. Os olhos cravejados de pedras preciosas. Zeus permaneceu quietinho no Peloponeso por 800 anos. Até que um daqueles típicos administradores modernos da época (óbvio, depois de substituir todo o ouro, marfim, ébano por material sintético e as pedras preciosas por bijuterias) transferiu a estátua para Constantinopla. Onde foi destruída por terremoto.
Outro amalucado, saído de um MBA à distância e nomeado gerente de patrimônio histórico e cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Éfeso vislumbrou a possibilidade de ter o nome lembrado pelos chefes em promoção futura. Seu plano era reduzir custos de manutenção tocando fogo no templo de Ártemis, o maior e mais suntuoso da época. O projeto deu errado. Demissão sumária e expatriação, muito comum naquela época. Sobraram do templo uma coluna solitária no sítio arqueológico e alguns despojos surrupiados, hoje expostos no Museu Britânico.
Saindo do tema religião e entrando na seara dos grandes amores estão os Jardins suspensos da Babilônia (hoje Iraque) e o pouco conhecido Mausoléu de Halicarnasso. A história dos jardins Suspensos é a mais maravilhosa. Talvez por ser a menos provável. São raríssimos os registros históricos. O poderoso Nabucodonosor II mandou construir os jardins em homenagem à mulher, Amitis, “saudosa das montanhas do lugar onde nascera”. Disse a enciclopédia: “tratava-se de 6 montanhas artificiais, feitas de tijolos de barro cozido, com terraços sobrepostos onde foram plantadas árvores e flores (...) apoiados em colunas cuja altura variava de 25 a 100 metros. Para se chegar aos terraços subia-se por uma escada de mármore; entre as folhagens havia mesas e fontes”.
O Mausoléu de Halicarnasso (atual Bodrum, na Turquia) foi construído pela rainha Artemísia, da Cária. Para abrigar os restos mortais do (ao mesmo tempo) irmão e marido amado, o rei Mausolo.
As 2 últimas maravilhas do mundo antigo eram funcionais e marítimas: O Colosso de Rodes (palavra estranha essa, Colosso), era uma estátua em bronze do deus Hélios. 30 m de altura (regra de 3 simples: se a estátua de Zeus, medindo 12 metros, equivale a um prédio de 5 andares o Colosso equivaleria a 12,5 andares). Os pés do Colosso apoiavam-se cada um em uma das margens do canal de acesso ao porto de Rodes. A piada entre os marinheiros era obrigar os grumetes a olhar pra cima quando o navio passava entre as pernas do Colosso. Além de enfeite bem-dotado, o Colosso carregava uma tocha que servia de farol. O Colosso foi afundado por um terremoto. Muito tempo depois os árabes dominaram a região e venderam o bronze afundado como sucata.
Já o Farol de Alexandria, com 150 metros de altura (metade da Torre Eifell), iluminava os mares até 50 km de distância, por meio de um complexo sistema de espelhos no topo. Depois da pirâmide, foi a maravilha que sobreviveu mais tempo, destruída por um terremoto em 1375.
1 hora depois, o neto encapetado tinha passado a 29ª fase do minigame; a neta do narizinho arrebitado roncava; a boneca dos olhos de retrós e o visconde-sabugo permaneceram mudos e imóveis, como cabe aos seres e objetos inanimados; o marquês-suíno tinha obrado sobre o tapete de fuxico; a mucama afrodescendente, única entretida com a narrativa, deixou queimar os bolinhos de glúten & gergelim. Por sorte a Internet voltou. Depois de atualizar o e-mail, digitou no Google: “Pragas do Egito”. Eram 10: águas em sangue; rãs; piolhos; moscas; doenças nos animais; úlceras; chuva de fogo; gafanhotos; trevas; morte dos primogênitos. Ela e a mania de listas.
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