terça-feira, 22 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 2

Você é eu e eu sou você nesse nosso jogo de espelhos. Eu me enraizo e você floresce no galho mais alto da árvore do desenho amassado. Eu broto vegetação rasteira. Você, fruto maduro prestes a arrebentar. Somos o princípio das coisas. Desde o princípio. Também o término.

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Toca-me o corpo com teu corpo inteiro, pois meu tato é morto. Com gritos, pois meus sons são surdos. Com luz e fogo, pois costurei meus olhos. Com teu cheiro de flor e súlfur. Com tua língua que me abre e te deposita inteiro em mim.

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Tudo em volta brilha e me obscurece. Sou a imagem oposta ao que vem de fora no espelho. Eu me abro. Antes que a força do acaso - regente de todas as outras - me aniquile. Antes que o tempo me engula.

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Concordo: é preciso esgotar nosso diálogo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

escritos arqueológicos

Jogamos o jogo de encher e esvaziar formas. Eu lanço palavras vazias e você as preenche com argamassa. Eu recolho as palavras preenchidas. Modelo as palavras preenchidas em novas formas vazias. Você as preenche. Etcétera.

Minha vez: da janela duas mulheres sorriem e um vidro transparente nos separa.
Tua vez: uma delas sofre por envelhecer e a outra tem o riso oco de mãe satisfeita.
Minha vez: o vidro permite a imagem delas atravessá-lo mas também me reflete.
Tua vez: porque elas estão mais em ti do que tu nelas.

Eu: como o homem e a mulher do violoncelo no deserto.
Você: e você deserto, homem, mulher, música, vento.
Eu: a mulher atrás do dia.
Você: desde o princípio dos tempos.

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A dissonância arranha teu ouvido. O mais agudo do violoncelo. Hipnotiza. E o som mais grave do órgão ecoa na nave da catedral. Eu me entrego.

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A antepenúltima coisa a dizer é batiscafo. A palavra chega com vento de deserto. Mergulhar.

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A penúltima coisa é: isto é uma sinfonia; escuta:

domingo, 20 de novembro de 2011

(outra parte de texto escrito em 1980)

"Sobreviver - árvore que extrai da terra a seiva e transforma-a em ar que respira e transforma novamente em terra: ciclo biológico ao qual estamos presos e ao qual viver é fugir dele, deixar a vontade seguir seu curso, escapulir do centro, cometer loucuras e voltar ao ciclo irremediável. Ser é a dúvida: penetrar ciclos e não-ciclos, tomar consciência deles, megulhar, depois aceitá-los ou combatê-los. Não-ser é obscuro e sólido - apossar-se do ser, lançar-se no abismo, desaparecer no vácuo, no escuro do mundo. Mas existir? Colocar-se em espírito a todas as coisas? Infiltrar-se nos intervalos energéticos das moléculas? incorporar-se? - existir é o Princípio".

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

(parte de texto escrito em 1980)

Do lado de fora a tarde clara, límpida depois da chuva. Estou mergulhado em um profundo azul. O lustre de cristal pende do teto, como pequenos sóis. A igreja azul violeta. Deixa-me dissolver em azul e violeta, peço suavemente. Espero o organista invisível tocar. Logo despertarei sobressaltado com os primeiros acordes do órgão. O azul ascende o corpo. O altar, o Cristo crucificado, o tapete vermelho, os bancos enfileirados. O desejo de esvaziar o espaço. De preencher o espaço de azul violeta. Irremediavelmente encharcado da cor. O ar muito denso e meus pulmões não se acostumam.

Toca, organista, eu peço. Ele me olha, adivinha a ânsia. Mas é mau, a própria Maldade do Azul. Ri e mantém o órgão em silêncio. Em espírito elevo-me e danço, enquanto a música invisível se espalha saída dos dedos do organista mudo. Os sentidos explodem, o corpo pede música de ondas, pede espaço real de azuis e violetas. Mais uma vez grito - toca, organista. Ele dedilha o ar, o azul comprimindo, expandindo - respirando por mim no silêncio ensurdecedor. Meu ato de humildade diante dele - lavarei seus pés por tamanha graça ter-se me dado: ouvir o azul sem um som que fosse concreto.

Uma fila de colegiais entra pela porta lateral. Profanam o templo com suas vozes abafadas. Substituirão o espaço do azul. Bancos, tapetes vermelhos, altares, crucifixo. Conversam em sussurros e expulsam o órgão. Vieram para cantar. E cantarão. Antes da tarde acabar. De acenderem o lustre de cristal. Do o azul ser substituído. Os adolescentes se posicionam nas escadas, cochicham e riem. Encobrem os sons azuis do órgão - Hosanah!

Logo eu sairei. Logo a realidade daquela meia hora da tarde esvanecerá para sempre. Eu saio com as mãos sujas de sangue de trucidar vozes brancas e o organista mudo. Eu me alivio com o ar de fora que se torna verde. Hosanah! Saio do sacrifício - adolescentes mortos: oferenda ao azul - Hosanah! Os sinos badalam seis horas. A tarde depois da chuva. As meninas jogando queimada. A fumaça dos ônibus. Tudo é um grande deus de mãos sujas e sangue.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

purificação

6 da tarde. Tinha sido uma segunda-feira de sol depois do sábado e do domingo chuvoso. As árvores do estacionamento, a grama muito verde da quadra, uma nuvem de insetos, o ar azul, translúcido, o resto do sol incidindo na parede verde do prédio em frente me fizeram esquecer.

Eu, como sempre, atrasada. Não de propósito. Era um vício, um defeito, uma doença, o inconsciente. Eu sempre atrapalhada, até os últimos minutos: maquiagem, combinação improvável da roupa, sumiço da chave, endereço errado, etc.

Além disso eu não tinha vontade, eu não queria me lembrar como deveria me comportar, a situação que, desde muito tempo, não passava de um compromisso social: casamento, batizado e, agora, o sétimo dia do falecimento do pai da amiga.

O lugar era lindo, moderno, amplo, limpo, claro. Mosaicos cobriam as paredes altas atrás do altar: Jesus vestido com uma túnica cor de vinho, rodeado de dourado e ladeado, à direita por um santo de túnica vermelha empunhando a espada e à esquerda por um anjo de asas e botas brancas pisando um dragão. As imagens sobressaíam do fundo de pastilhas azuis e estrelas douradas.

Porém algo conspurcava a simplicidade bizantina das imagens. Talvez os exageros: os aparelhos de ar condicionado enfileirados; o espaço largo entre os bancos; o granito do piso; os candelabros, a bíblia segurados pelos anjos de bronze; o versículo, em grego, no frontispício do mármore do altar; o retábulo e o ostensório, ostensivamente grandes nos espaços entre os santos do mosaico; a entonação da voz de veludo doce do ajudante; tudo, enfim.

Só depois de algum tempo comecei a perceber o sentido das palavras ditas pelo padre ao microfone e projetadas na tela que, do nada, desceu do teto e encobriu a cabeça do anjo. O sermão não era amor, bondade, aceitação e perdão. A parábola pregava palavras duras, vingativas, imperiosas, acusadoras, crueis.

Então tinha sido aquele ódio que me afastara? Que distorcera, que transformara a minha crença em uma mistura confusa, indefinida, contraditória, de várias incredulidades? Que me fazia duvidar e ao mesmo tempo me entregar, cega, nas horas de desespero? Que anulava e ao mesmo tempo ampliava os meus defeitos, as minhas falhas de caráter, a minha obstinação, os meus pecados?

Eu, que desde criança me recusava a repetir os refrões. Que me levantava, automaticamente, quando todos se levantavam e me sentava quando mandavam sentar. Que não me ajoelhava, não me persignava, não acertava o sentido, a mão direita ou esquerda com que fazer o sinal da cruz. Que mexia a boca fingindo pronunciar as orações teimosamente não decoradas. Que ao mesmo tempo repetia: tomou o cálice em suas mãos, bebeu e comeu, partiu e dividiu aos seus discípulos dizendo tomai e comei todos vós, o meu corpo e o meu sangue que vos é dado, eu.

Eu, o ser estranho, ovelha desajeitada do rebanho, a dos pecadilhos indignos, a madalena medíocre, que cobiçava o alheio por não me sentir suficientemente boa, que não me esforçava em ser menos pior, que não enfiara a nota de vinte reais no saco de flanela vermelha das esmolas, que não entrara na fila da hóstia por não ter me confessado, que acreditava no divino além das palavras, dos gestos pungentes, dramáticos, teatrais, nos versículos escolhidos para sangrar, eu, que saíra mais cedo do trabalho, que só queria revalidar a amizade à amiga, eu sob o olhar severo, julgada e condenada, não, eu nunca seria escolhida para fazer parte daquele rebanho.

Foi quando a velha segurou a minha mão. Eu senti a mão da velha enquanto cavalgava o cavalo do apocalipse e atravessava a lança no peito dos infieis do demônio disfarçado, os gritos das beatas, das falsas puras, das canalhas, das que tinham sido perdoadas, das que não cometiam pecado, a água derramada sobre o granito, o barulho do balde de prata rolando, o hissope, a batina ensanguentada, o ajudante estrebuchando, a velha sabia, ela me acompanhara até o calvário e me conduzia pela senda escura do desassossego.

O padre espargia água. Purificai-me, Senhor, de um lado e do outro, eu pedia e, ao mesmo tempo, que a água não me fervesse sobre a pele de vampira, tanta a ira que havia no olhar dele. No meu olhar.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

bela adormecida

Meu nome é Aurora. Odeio. Nome de velha. Ok. Tecnicamente sou uma centenária.

Contaram-me. O resto são reminiscências. E recortes dos jornais da época. Afinal, dormi 100 anos. Começarei do princípio. O batizado.

Mamãe tinha tirado os 7 pratos de ouro, as 7 colheres, os 7 garfos, as 7 facas e os 7 talheres de sobremesa de prata, as 7 taças de cristal, os 7 guardanapos de linho, as 7 sopeiras de porcelana chinesa da cristaleira.

Para servir as 7 tias-madrinhas. Por ato falho mamãe começou a festa antes da tia-madrinha Setênia chegar. Solteirona. Problemática. Turrona. Ressentida. Ok. Se não fosse ela, não haveria história.

Ah, já me esquecia: as 7 tias-madrinhas eram fadas. Os presentes eram virtudes: bondade, beleza, inteligência, temperança, diligência, riqueza e humildade.

Tia Setênia chegou atrasada. Armando o maior barraco com o manobrista, o segurança, a recepcionista. O chefe do cerimonial interveio. Imaginem quando ela viu a festa acontecendo sem ela?

Ficou furiosa. Fora de si. Xingou. As piores imprecações. E a praga: eu morreria aos 15 anos, picada por agulha de máquina de costura.

Máquina de costura? Já naquela época era tão antiquado que ninguém se preocupou. Aqueles risonhos disfarçados, o promoter anunciando a próxima atração, o brinde. A festa seguiu como se quase nada tivesse acontecido.

As 6 tias-madrinhas boazinhas deram os presentes diante dos convidados. Em seguida reuniram-se com mamãe e papai em reservado. Impossível anular a maldição. Só amenizar. Tia Setênia era mesmo do babado.

Sono ao invés da morte. Dormir até ser despertada pelo verdadeiro amor. Na semana seguinte, 50 anos depois ou, sabe-se lá quando… Ou seja: parecido com morrer.

Por precaução (o seguro morreu de velho) papai fechou as fábricas, proibiu a importação e determinou a destruição de todas as máquinas de costura do reino.

Eu crescia cada vez mais bondosa, linda, inteligente, equilibrada, diligente, rica, humilde, modesta. E ignorante da minha sina.

Foi na semana da festa de 15 anos. Chovia horrores. Os amiguinhos (filhos e filhas dos criados) ajudavam nos afazeres dos pais. Mamãe não desgrudava do celular. Nada a fazer.

Eu nunca antes tinha notado aquela escadaria. Em espiral. Com cheiro de mofo e xixi de gato. Do alto vinha um barulho indefinível. Tipo um besouro. Ou videogame. Subi. No fim da escada havia uma porta. Entrei.

Estava lá uma velhota. Debruçada em um objeto esquisito. De onde saía o barulhinho. Tecidos por todos os lados. Curiosa, fui com a mão – o que é isso? – apontando para a agulha. A velhota não teve tempo de explicar. A agulha me picou (ou eu me piquei na agulha?).

Depois eu não me lembro. Só o lido nos recortes de jornal. Caí desmaiada. Provavelmente a velhota gargalhou, metamorfoseou-se em morcego ou mariposa e esvoaçou pela janela.

Legal esse trecho: “Adormeceram no trono o rei e a rainha, recém-chegados da partida de caça. Adormeceram os cavalos na estrebaria, as galinhas no galinheiro, os cães no pátio e os pássaros no telhado. Adormeceu o cozinheiro que assava a carne e o servente que lavava as louças; adormeceram os cavaleiros com as espadas na mão e as damas que enrolavam seus cabelos. Também o fogo que ardia nos braseiros e nas lareiras parou de queimar, parou também o vento que assobiava na floresta. Nada e ninguém se mexia no palácio, mergulhado em profundo silêncio”.

Cresceu um matagal em volta do castelo. A notícia se espalhou. Virei conto de fadas. Eu e o resto da galera despertaríamos assim que me beijassem um beijo de amor verdadeiro.

Dezenas de aventureiros tentaram desbravar o matagal intransponível e despertar a bela adormecida. Desistiam ou morriam. Passaram-se 100 anos.

Foi um garoto. 17 anos. Bonito como um modelo. Filipe. Soube de mim em um texto da apostila do pré-vestibular. Bobinho, Cheio de fantasias. Apaixonou-se. Para minha sorte.

Cortou o mato. Entrou no castelo. Tudo e todos congelados. Afazeres interrompidos pelo sono. Subiu a torre. Me achou afundada nos tecidos. Disse que eu era idêntica à ilustração da apostila. Me beijou.

Acordei. O garoto beijava gostoso. Meu hálito devia estar um horror. Com licença, querido, vou escovar os dentes.

Veio com a conversa de casar felizes para sempre.

Casar? Depois de dormir 100 anos? Eu queria aproveitar a vida. Me atualizar. Sair. Fazer amigos. Balada. Festinha. Acampar. Fazer teatro. Intercâmbio. Etc.

A paixão dele passou rápido. Agora, namora meu pajem. Uma graça os dois juntos. Apesar da diferença de idade ficamos amigos.

Ele me ensina como me comportar nos tempos atuais. Tenho muito o que aprender. Ano que vem visitarei as primas em Barcelona. Papai quer que eu estude direito. Mamãe, me levar para fazer compras em Miami. As tias telefonam de vez em quando.

Papai e mamãe ficam horrorizados: eu morro de vontade de conhecer tia Setênia. Eu me identifico com ela. Esquisitona. Temperamental. Diferente. Voluntariosa. Tenho a impressão que a gente vai se entender super-bem.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

o escriturário (trechos - anotações a lápis no verso da folha 27)

Assim, além de solitário, o ser físico e animado compartilha seus planos modulares com seres imateriais.

Em termos comuns, a solidão do ser é povoada de fantasmas, aos quais erroneamente são denominados semelhantes.

A diferença entre o primeiro e o segundo plano modular é, basicamente, relacionada à alterações temporais quase imperceptíveis.


(palavras ilegíveis), a não ser, por exemplo, por um cansaço maior ao atravessar uma praça que parece maior do que realmente é, ou a sensação de já ter vivido aquela situação específica, provocada por alguma redução abrupta.

tensão do tempo, que se acelera ou e, às vezes, distorções espaciais sutis.

o escriturário (trechos - finalizações)

Com a morte física do ser as membranas dos planos modulares fundem-se e se desintegram sem deixar vestígios.

Um erro comum é acreditar que os planos modulares acompanham a alma do ser em outras esferas de existência.

Não há outras esferas de existência a não ser aquelas delimitadas pelos planos modulares.

Os planos modulares encerram todas as possibilidades.

Com a morte física, os seres animados passam existir, na forma de projeção, em quaisquer planos modulares de quaisquer outros seres animados ou inanimados.