quarta-feira, 30 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 7

Eu te amo pelo que você é e não sabe.
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O impulso para o outro é impreciso. Eu me lanço às cegas, aos solavancos, tateio no escuro, sigo, volto, hesito, vou, paro. Seguro as chaves do proibido e não sei onde usá-las. 
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Predestinado a quê? A possuir a inutilidade? A nulidade? A sequência entre o tempo presente e o tempo futuro? Será necessário descer do pedestal e me atirar, águia, pomba, anjo, harpia, abutre - asas de cera derretendo-se com o calor do sol.
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Porém o agora é difuso e nebuloso. O caos de dentro refletido fora. Erupção, nuvem de cinza e enxofre, lava, fezes, vômito. Quando renascerão as fênix?
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Serei terrível. A mão direita a trucidar e a esquerda a redimir. 
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O cavalo corre no campo de girassóis. Os demônios, os deuses do sonho. Gerar-se e se enterrar a cada novo segundo. O medo habita a dúvida.
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Ansioso por não conseguir dar nomes às novas sensações: o escrito aquém da verdade. Aprenderei humildade, paciência e resignação?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 6

enquanto os homens desbravavam a terra eu fiquei junto com as mulheres o menino dormindo no meu colo cuidávamos do fogo gritávamos com as crianças na água fervíamos o óleo falávamos sobre aleitamento sangramento fertilidade até os homens voltarem heróis de barba e cabelos enlameados guerreiros distribuindo a caça a pesca caçadores bebendo todo o vinho conquistadores triunfantes rindo inventando as lendas apoderando-se dos mitos fecundando as fêmeas e o leite e o mênstruo e os óvulos e a lua os meus despojos as minhas oferendas eu eunuco nulo entre eles entre elas eu nenhuma barriga parideira nenhum sêmen nenhum peito que amamente nenhum escalpo no cinto o zero o inútil o único a intersecção tão longe e tão preciso e tão essencial quanto o resto daquilo tudo

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 5

O músculo mais delicado estensão ao máximo. Você, o arco. Meu corpo pede música. Toca!

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Escrevo curto e nervoso. Fui esticado até quase arrebentar. Padeço de reconstituição. Os gatos brincam na grama atrás do play-ground. Sou infinitamente só. Sombra solene a olhar, da janela, a tua criação.

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Escuto a tua voz e não entendo. Nem agora. Também não. Agora mais próximo. Mais. Eu quase ouço. Pronto. Agora eu escuto até teu coração pulsando. Você disse: eu nada sei. Eu ri. Eu era mais feliz com as tuas mentiras.

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Há milhões de anos-luz. Antes eu não sei. Quando a bola de energia, a bola de Nada explodiu e se dividiu e dividiu e dividiu e se transformou em neutron, próton, elétron. Por um instante estávamos só você e eu.

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Pega a estrela e vai. Cristal envolto em névoa. Amanhece na metade ocidental do planeta.

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Estou cansado. Confuso. Perdido. Falando a uma pessoa ausente. Ainda o cheiro carbônico da tua despedida nas pontas dos dedos. Você viaja, mudo, só, escuro, no silêncio do espaço exterior. Para além de Saturno e seus anéis gasosos.

domingo, 27 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 4


Eu, você. Imagem, reflexo, ímãs. Você fruto vermelho-alaranjado. Eu, monstro-boca, monstro-garganta, monstro-dentes-devoradores. Beijo, mordida, casca rompida, polpa, monstro-língua em tua carne doce, gozo.
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O cansaço do começo. De não saber dizer o que se passa.  Traduzir. Pausa de tempo. De espaço. Eu parado, atento, olhando. Você parado, alheio, fazendo.  Eu, rio invisível a te ver. Você, lago envolto em azul.
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Caquis sob a chuva. Mangas apodrecidas no chão. Mosquitos. Besouros. Mariposas. Vermes.
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Ecos das horas vazias. Os caquis no quase-explode.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

escritos arqueológicos parte 3

Eu te forçarei a me ver. Para isto eu me faço fosforescente. Olha. Meu corpo é todo holofotes. Eu te direi em letras de gás néon que se acendem e apagam: hoje eu te direi apenas o essencial. Agora desligarei os luminosos. Você me verá pelo que sou; não pela luz irradiada.

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Sejamos simplesmente intuição na razão.

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A partir de agora o tom do das palavras será azul. Palavras-chaves. Palavras-claves.

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A mulher toca violoncelo. No deserto. O azul é o som do instrumento a se perder nas dunas. Música azul.

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Aracne: Tecerei. Uma teia de fios de cristal azulados. Para envolver o mundo. Para me envolver ao mundo. Para me humanizar. Para te aprisionar quando voares perto.

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Eu, prisioneiro de mim mesmo. Quando a gente se repete se repete se repete, resta fazer.

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Agora a precisão de instrumentos é indispensável. O mínimo desvio da lâmina pode ser irreversível. Quase. Tento abrir meu centro vital. Uma centelha elétrica descarrega-se. O centro vital origina a centelha que me faz todo sentidos. Me mantém vivo. Como corpo. Ente. Ser. Morrerei por um instante. E o som de violoncelo ocupará o espaço.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

maria bethania (2010)

o terremoto de lisboa (1755)

(...)
"[Escutei] uma espécie de barulho estranho e assustador por baixo da terra, parecido com o ribombar oco e distante do trovão".
(...)
O segundo abalo do terremoto foi ainda mais alto e feroz do que o primeiro. "A casa em que eu estava foi sacudida com tamanha violência, que os andares de cima desabaram imediatamente; (...) as paredes continuavam a balançar de um lado para outro da maneira mais assustadora, rachando-se em diversos pontos; pedras grandes caíam das rachaduras por todos os lados e, no fim, a maioria dos caibros começou a despencar do teto. (...) O céu, de um minuto para outro, ficou tão tenebroso que eu já não conseguia distinguir nenhum objeto; foi realmente uma Escuridão Egípcia".
(...)
O terceiro abalo veio uns quinze minutos depois do primeiro. (...) Todos os sinos das igrejas tocaram sozinhos, badalando o toque da devastação, até seus campanários fenderem e os sinos caírem na rua, com enorme estépito. "Viu-se toda a faixa de terra em torno de Lisboa arquear-se como a subida das vagas numa tempestade (...) ora de leste para oeste, ora de norte para sul; as paredes que ainda não tinham sido derrubadas oscilavam para frente e para trás, com pulsações alternadas, e com a continuação dos trovões embaixo da terra, a cidade parecia estar não apenas sendo sacudida mas violentamente arrancada de suas fundações mais profundas".
(...)
A elevação da superfície da terra e o desmoronamento das grandes construções marcaram apenas o início da catástrofe. Quase que imediatamente ao assentar a poeira do primeiro abalo, irromperam incêndios em meia dúzia de pontos diferentes.(...) Um vento nordeste atiçou as chamas. As labaredas espalharam-se da igreja de São Domingos em direção ao rio Tejo, depois pelas encostas ocidental e meridional da Colina do Castelo e, em seguida, por todo o centro da cidade.
E arderam furiosamente por cinco dias.
(...)
Tudo ficou reduzido a cinzas. (...) Muitas coisas poderiam ter sido salvas depois dos abalos do terremoto, mas o fogo se espalhou por toda a parte. Relíquias sagradas, bibliotecas de valor inestimável, tapeçarias, móveis, forros de altares, tudo terminou nas labaredas. Só no palácio real, 70.000 livros foram destruídos; no palácio dos duques de Bragança, todos os arquivos da família real desapareceram; no palácio do marquês de Louriçal, o fogo devastou duzentos quadros, inclusive obras de Tiziano, Coreggio e Rubens, além de 18.000 livros e 1.000 manuscritos, entre eles um livro de história redigido de próprio punho pelo imperador Carlos V.
(...)
Em meio ao colapso e à conflagração, cerca de uma hora depois do primeiro tremor, houve mais uma catástrofe, talvez a mais pavorosa de todas. Enquanto os cidadãos abalados olhavam para o porto do Tejo, as águas subitamente pareceram começar a vazar para o mar. (...) De repente, o poderoso Tejo elevou-se a uma altura assustadora, impossível, cerca de nove metros acima de seu nível normal, tudo no espaço de alguns minutos. (...) A vaga do maremoto subiu três vezes em cinco minutos. (...) Os barcos próximos da costa (...) "num ou dois minutos ficaram a seco, depois tornaram a flutuar, e foram atirados uns contra os outros, e a vaga ia com tal rapidez para leste e para oeste, que os navios, girando velozmente, colidiam uns com os outros. (...) A água subiu a uma altura tal que transbordou e inundou a parte baixa da cidade (...) o que aterrorizou a tal ponto os pobres e já desolados habitantes, que corriam de um lado para o outro com gritos pavorosos (...) que os fez achar que a dissolução do mundo havia chegado, todos caindo de joelhos e implorando pela ajuda do Todo-Poderoso".
(...)
"De repente, ouvi uma gritaria geral, 'O mar está vindo, estamos todos perdidos!' Nisso, voltando os olhos para o rio, que tem mais de seis quilômetros de largura nesse ponto, pude percebê-lo subindo e se inflando da maneira mais inexplicável, já que não soprava vento algum; num instante, a uma pequena distância, surgiu uma grande massa d'água, subindo como uma montanha, que entrou espumando e rugindo, e correu com tal ímpeto em direção à costa, que todos saímos correndo na mesma hora, o mais depressa possível, para salvar nossas vidas; muitos foram realmente arrastados, e outros ficaram com água pela cintura a uma boa distância da margem".

(Otto Friedrich, O Fim do Mundo)

alberto caeiro (1925)

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

amália rodrigues (1965)