sábado, 17 de dezembro de 2011

diário gerúndio 5

Estipulando prazos e tramando escaramuças. Passando a limpo as memórias do porvir. Dessalgando o passado. Retardando o agora. Singularizando a pluralidade. Hesitando em mergulhar no vazio. Perdendo o fôlego. Queimando as naus. Recolhendo a água das goteiras. Providenciando guarda-chuva & galochas & parca branca com capucho. Cantando e dançando in the rain. Molhando os pés & a alma. Espalhando ventos e colhendo tempestade. Atravessando o arco-íris. Dançando no escuro. Sapateando sobre o teu caixão. Cantarolando com Aracy. Matando as saudades & colocando a conversa em dia & estudando os descaminhos. Ajustando as sinastrias. Sesteando depois do almoço. Dando banho nos cães. Trocando os móveis de lugar. Buscando um lugar ao sol.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

diário gerúndio 4

Tomando uísque com guaraná. Tomando chá de cogumelos com leite condensado. Tomando leitinho quente antes de dormir. Tomando chá de cicuta com stevia antes da próxima hecatombe. Tomando água. Comendo tortelete de limão. Descansando à sombra das cerejeiras em flor. Puxando ferros com a terceira e a quarta idades. Puxando papo com a coletora de impostos. Arrastando as asinhas para a aeromoça. Dando trela para o desalento. Dando linha para o inconsútil. Amarrando o mal. Desobstruindo os dutos urinários. Atropelando as regrinhas do consenso. Procurando entender auschwitz e marcel proust. Discutindo imortalidade com a preta-velha. Agendando compromissos para o próximo milênio. Classificando a intemporalidade. Montando um camelo no oásis. Dando uma de sharriar. Cavalgando o corcel de mohamed. Consumindo a última coca-cola do deserto.

diário gerúndio 3

Recalculando os créditos do karma. Desenhando em pedacinhos de papel de seda. Rindo das próprias idiossincrasias. Trocando a terra dos vasos de palmeirinhas. Levando a gata manhosa pela décima vez ao psicoterapeuta. Enviando torpedos para os desafetos. Achando a vida cor-de-rosa apesar de tudo. Ligando o fucko-you. Assistindo cowboys & aliens. Agarrando as oportunidades pelos cabelos. Estalando os artelhos. Cortando as unhas. Ouvindo mantras. Ouvindo nina hagen. Ouvindo wagner. Ouvindo o coraçãozinho do feto no ultrassom. Ouvindo as vibes dos visitantes noturnos. Ouvindo o poema da menina gorda. Perguntando se ele gosta de mim? Ouvindo as trombetas dos anjos vingadores. Desconstruindo o pilar da ponte de tédio que vai de mim para o outro. Dizendo que te amo.

domingo, 11 de dezembro de 2011

diário gerúndio 2

Administrando egos alheios. Finalizando relações sem sentido. Comemorando o ano que se finda. Fingindo que tudo pode mudar. Pensando no México e no Rio Douro. Lambendo feridas que não cicatrizam. Revendo Oscar Wilde. Arrancando as ervas daninhas do gramado. Cortando o mal pela raiz. Adiantando o protelado. Dormitando na repartição. Fingindo a dor que deveras sinto. Avançando o sinal vermelho do insensato coração. Rompendo amarras. Rompendo barreiras eletrônicas. Rompendo barricadas. Superando o superego. Tomando ansiolíticos e 500 ml de energético. Aprendendo a lição. Decorando o papel de madrasta má. Dançando até os calos doerem. Ouvindo o silêncio ancestral. Escrevendo aleivosias. Desejando tudo de bom para os alteregos.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

escritos arqueológicos / fragmentos proto-históricos 2

Halo. A lua sobre os telhados da cidade submersa. Os olhos vermelhos dos peixes-curiangos. As folhas das árvores-algas ao sabor das correntes aquáticas. Barcos fantasmas singram a superfície. Esqueletos amarrados nos mastros. Fogos-fátuos. Sirenes. Um farol ao longe.
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Espíritos dos ancestrais vagueiam à noite no pomar. Na amurada. Nas escadarias do salão nupcial. Roçando os cascos dos barcos na areia. As pedras das soleiras. As vigas dos casebres. Atravessam as grossas portas inutilmente protegidas por escapulários & bentinhos. E se aninham ao pé do fogo contando histórias para ninguém ouvir.
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Imagens do dia: Os fragmentos do corpo cobertos por um lençol de neve. A mulher diante dos destroços amamenta o bebê-caveira. Os enforcados na praça vermelha oscilam ao sabor da brisa. A nau dos enjeitados encalhada no telhado. A morte do homem-girafa e o nascimento do orangotango albino. O alarme das sirenas na travessia de Gibraltar.
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Dormir o sono eterno e só acordar depois do meio-dia.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

diário gerúndio

Arrumando os livros. Dormindo mal. Ouvindo Debussy. Trabalhando na entressafra. Lendo sobre a Rússia. Cuidando da gata manhosa. Relevando os defeitos alheios. Buscando intensidades. Recolhendo cadáveres nos umbrais. Admirando o chão cor de fúcsia. Colhendo ventania. Esperando Godot. Preparando geleia de pitanga. Dependurando quadros. Desencaixotando o passado. Revisitando as situações-limite. Respondendo s'il vous plaît. Selecionando silêncios. Falando pelos cotovelos. Andando a pé. Purificando o espírito. Escapulindo. Engambelando o fim próximo. Roendo as unhas.

escritos arqueológicos / fragmentos proto-históricos

Pausa. O silêncio das eras. Das esferas. Respiro. O escuro. O vazio contraditório que permeia os corpos sólidos. Os corpos etéreos. As estrelas. Os quasares. Os buracos negros. As nuvens radioativas. Aguardo o fim.
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Não me lembro onde eu estava quando choveu ouro. Quando o touro fecundou a rainha. Quando a águia raptou nosso filho. Quando o barco atravessou as caribdes. Quando a pera rolou de novo montanha abaixo. Quando o abutre arrancou teu fígado. Quando cuspiram no rosto da moça. Quando ele se virou para olhar a morta.
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Sonhávamos.
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Nereidas acompanham o nosso último banho de mar. O seu corpo branco contra o cinza da água. Contra o cinza do céu. Contra o cinza da areia. Os primeiros pingos da chuva lavam a tinta do cabelo do homem até o desejo dele secar.
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Paciência. O que ainda nos falta?

domingo, 4 de dezembro de 2011

escritos arqueológicos última parte

Enclausurado em um 3 metros cúbicos de matéria. Mármore, madeira, cimento, metal, porcelana, papel, água, ar. Carne e osso circundados de matéria. Dentro e fora. Presos por fios de aço ao espaço, ao mundo, ao real. 3 metros cúbicos de existência dentro do nada.
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Luz branca. Zumbido em si-bemol. Ininterruptamente.
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Fora, o fogo das entranhas, dos vulcões, do inferno. Ou vácuo, o neutro, o nada do purgatório. O paraíso é dentro.
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O arco das asas brancas do voo. Da subida e da queda. Sonho.
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A deusa-deus negra da morte e da vida vagueia. Sonâmbulo-sonâmbula. Nunca-agora. O nome, o eco. Por vales, abismos e montanhas. Tremor. Trovão. Treva.
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Depois, a volta ao começo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

escritos arqueológicos parte 9

Aquele que não tem pele. Aquele em carne viva. Aquele das madrugadas insones. Das bolhas de sangue, das secreções que supuram o quarto. Aquele que escorre, gota a gota, pelas escadas do prédio. Até rua. Aquele que inunda de si a cidade inteira.
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O menino nu. Espirais crescentes de trechos melódicos. Fantasmas atrás dos vidros. Atrás das lentes das máquinas fotográficas. Carros em alta velocidade riscando a escuridão de vermelho e mercúrio. Livros nas prateleiras. O menino mudo. Ossos, manuscritos e restos de comida no porão. Baratas nos cantos do quarto. O menino morto.
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Minha vida de transeunte. Engulo o vulcão de mim. Espero.
Espero.
Espero.
Espero.
Espero.
Espero.
Espero.
Desespero.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

escritos arqueológicos parte 8

Tudo está envolto em hipersensibilidade. Meus olhos cegos, meus ouvidos obstruídos. Ajoelho-me aos pés de um deus anônimo, pagão e invisível que sou eu mesmo do lado de dentro.
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A raiz brotou. A ramagem espalhou-se, viçosa, e floresceu. Os frutos de vidro vermelho trincavam nos caules antes de se espatifar no chão, espalhando centelhas de eletricidade.
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Insetos gigantes pululam. Amebas e protozoários nos pântanos. No céu o sobrevôo dos pterodáctilos. Ictiossauros e plesiosauros nas profundezas. Cordilheira de vulcões eruptos no horizonte. Sou o primeiro homem antes do amanhecer no jardim do éden.
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O que você procura está nas entrelinhas. Você me instiga a te provocar. Não te ensinarei o rumo sinuoso das palavras. Vagueia desgovernado direto para o abismo, manada, multidão, rebanho-um.
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A próxima palavra-armadilha cobre o fosso com estacas fincadas no fundo.
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Você me cria e eu te destruo. Você a luz, eu o negro. Quando eu te mato, você me renasce. Prisioneiros do ciclo perpétuo. O sol nasce.