(...)
No natal em que os mortos-vivos não vieram e nossa mãe desaparecera nossos irmãos mais velhos se alegraram, pois não seriam obrigados por nossa mãe a arrancar da terra os tufos de grama amarelada e depois seca, entre a varanda e o curral, onde os mortos-vivos pisavam, descalços, enquanto esperavam, oscilando, sob a neblina ou sob a chuva fina, os presentes e os cumprimentos de nossa mãe, e replantar novas mudas, retiradas à enxada além da cerca do curral, onde touceiras de grama cresciam, fartas, viçosas, verdes, em estado quase selvagem.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
história de natal (3)
(...)
Naquele natal, pouco antes do inevitável acontecer, pela primeira vez os mortos-vivos não vieram. Todos nós, exceto os nossos irmãos mais velhos sentimos a falta deles. Nossa mãe, que se preparara durante as últimas semanas para recebê-los, para presenteá-los com bugigangas, para cumprimentar os adultos e afagar as crianças, foi a única que se ressentiu. E nada adiantou pedir aos nossos irmãos mais velhos para procurá-los, para saber a razão da ausência. Nossa mãe estava certa de algo muito grave acontecera ou, pior, estava prestes a acontecer. Nossos irmãos mais velhos simplesmente recusaram-se a ir, alegando a intransitabilidade das estradas, os atolamentos, os deslizamentos, a vacinação das vacas, o abate dos porcos, do novilho, dos frangos, dos patos e dos perus para a ceia de natal, e mesmo a inutilidade e o despropósito daquelas visitas, que, segundo as palavras deles, já acabavam tarde. Percebendo a inutilidade das súplicas e a frieza dos corações dos nossos irmãos mais velhos, nossa mãe decidiu ela mesma aventurar-se na madrugada invernosa. Vestiu a parca branca com capucho, os tamanquinhos holandeses que nosso pai a presenteara antes do casamento, encontrou as chaves da caminhonete escondida por nossos irmãos mais velhos no velho cofre de prata sobre o aparador e partiu pela estrada do leste, por onde os mortos-vivos sempre vieram. Nós, os mais pequenos, passamos o dia a vagar pelos cômodos da casa, ora choramingando e chamando baixinho o nome da nossa mãe, ora escapulindo das cusparadas de nossos irmãos mais velhos que a cada minuto se tornavam mais e mais impertinentes. O que todos pressentiam, mas ninguém arriscava expressar em palavras, nem os nossos irmãos mais velhos em sua onda de histeria, nem a empregada incapaz de conter o caos, e nem nós, os mais pequenos, transidos de medo, mijados, cagados, sem escovar os dentes ou pentear os cabelos, era a certeza de que nunca mais ouviríamos a voz clara e firme de nossa mãe a nos repreender, de que nunca mais sentiríamos o calor da mão da nossa mãe sobre a nossa barriga congestionada, de que nunca mais teríamos com quem reclamar dos abusos abomináveis cometidos por nossos irmãos mais velhos.
Naquele natal, pouco antes do inevitável acontecer, pela primeira vez os mortos-vivos não vieram. Todos nós, exceto os nossos irmãos mais velhos sentimos a falta deles. Nossa mãe, que se preparara durante as últimas semanas para recebê-los, para presenteá-los com bugigangas, para cumprimentar os adultos e afagar as crianças, foi a única que se ressentiu. E nada adiantou pedir aos nossos irmãos mais velhos para procurá-los, para saber a razão da ausência. Nossa mãe estava certa de algo muito grave acontecera ou, pior, estava prestes a acontecer. Nossos irmãos mais velhos simplesmente recusaram-se a ir, alegando a intransitabilidade das estradas, os atolamentos, os deslizamentos, a vacinação das vacas, o abate dos porcos, do novilho, dos frangos, dos patos e dos perus para a ceia de natal, e mesmo a inutilidade e o despropósito daquelas visitas, que, segundo as palavras deles, já acabavam tarde. Percebendo a inutilidade das súplicas e a frieza dos corações dos nossos irmãos mais velhos, nossa mãe decidiu ela mesma aventurar-se na madrugada invernosa. Vestiu a parca branca com capucho, os tamanquinhos holandeses que nosso pai a presenteara antes do casamento, encontrou as chaves da caminhonete escondida por nossos irmãos mais velhos no velho cofre de prata sobre o aparador e partiu pela estrada do leste, por onde os mortos-vivos sempre vieram. Nós, os mais pequenos, passamos o dia a vagar pelos cômodos da casa, ora choramingando e chamando baixinho o nome da nossa mãe, ora escapulindo das cusparadas de nossos irmãos mais velhos que a cada minuto se tornavam mais e mais impertinentes. O que todos pressentiam, mas ninguém arriscava expressar em palavras, nem os nossos irmãos mais velhos em sua onda de histeria, nem a empregada incapaz de conter o caos, e nem nós, os mais pequenos, transidos de medo, mijados, cagados, sem escovar os dentes ou pentear os cabelos, era a certeza de que nunca mais ouviríamos a voz clara e firme de nossa mãe a nos repreender, de que nunca mais sentiríamos o calor da mão da nossa mãe sobre a nossa barriga congestionada, de que nunca mais teríamos com quem reclamar dos abusos abomináveis cometidos por nossos irmãos mais velhos.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
história de natal (2)
(...)
Ao contrário dos outros dias, ao invés de lavar as mãos e o rosto com sabonete de glicerina na água com folha de laranja que a empregada trazia na bacia e enxugar-se na toalha bordada, e acariciar os nossos rostos antes de sentar-se à cabeceira da mesa, naquele dia nossa mãe falou pouco e mal tocou na comida do prato. Aguardou que comêssemos, que brigássemos para escolher a coxa, a moela, a forquilha, o coração do frango, que medíssemos o pedaço maior do pudim, a colher mais cheia do doce de leite, que nossos irmãos mais velhos tomassem a primeira, a segunda e a terceira xícara de café, que acendessem e fumassem e batessem as cinzas e apagassem os tocos dos cigarros nos cinzeiros de ferro batido, que a empregada tirasse os pratos e as tigelas e as travessas, para então, com o olhar acima das nossas cabeças sentadas, focado no nada, ou talvez atravessando a parede espessa atrás da qual se avistava as montanhas, o céu e o mar atrás das montanhas, para nossa mãe nos dizer que nosso pai viria, talvez para o jantar, talvez na próxima semana, talvez quando já estivéssemos crescidos, e quando nosso pai chegasse, ela, nossa mãe, provavelmente não estaria mais entre nós.
Ao contrário dos outros dias, ao invés de lavar as mãos e o rosto com sabonete de glicerina na água com folha de laranja que a empregada trazia na bacia e enxugar-se na toalha bordada, e acariciar os nossos rostos antes de sentar-se à cabeceira da mesa, naquele dia nossa mãe falou pouco e mal tocou na comida do prato. Aguardou que comêssemos, que brigássemos para escolher a coxa, a moela, a forquilha, o coração do frango, que medíssemos o pedaço maior do pudim, a colher mais cheia do doce de leite, que nossos irmãos mais velhos tomassem a primeira, a segunda e a terceira xícara de café, que acendessem e fumassem e batessem as cinzas e apagassem os tocos dos cigarros nos cinzeiros de ferro batido, que a empregada tirasse os pratos e as tigelas e as travessas, para então, com o olhar acima das nossas cabeças sentadas, focado no nada, ou talvez atravessando a parede espessa atrás da qual se avistava as montanhas, o céu e o mar atrás das montanhas, para nossa mãe nos dizer que nosso pai viria, talvez para o jantar, talvez na próxima semana, talvez quando já estivéssemos crescidos, e quando nosso pai chegasse, ela, nossa mãe, provavelmente não estaria mais entre nós.
história de natal (1)
(...)
Os mortos-vivos chegavam durante a madrugada da véspera do natal. Acotovelavam-se em silêncio, ou, no máximo em um murmúrio grave, monocórdio, abaixo do tom, quase um zumbido, sob a neblina ou sob a garoa fria, na parte da frente da casa, esperando, passivos, entre a varanda e os currais. Não fosse pelas roupas fora de moda, pela palidez esquálida dos rostos, pelas mãos muito finas sempre dependuradas ou as olheiras quase negras eles podiam ser facilmente confundidos com peregrinos, visitas ou parentes distantes que há muito tempo não víamos. Nós, os mais pequenos, éramos terminantemente proibidos de nos levantar da cama, mas mesmo assim nos espremíamos no vidro da janela do quarto para ver nossa mãe, vestida com a parca branca com capucho, e calçada com os tamanquinhos holandeses que nosso pai a presenteara antes de se casarem - para ver nossa mãe distribuindo a cada um dos mortos-vivos uma lembrança embrulhada em papel laminado, um pacote de fumo, uma chave-de-fenda, um canivete vagabundo para os homens, um jogo de agulhas, retroses coloridos, batons pela metade para as mulheres, e pequenos bonecos modelados em massa de biscuí para as crianças, independente se meninos ou meninas. Em seguida à cada presente entregue nossa mãe apertava de leve, quase sem tocar, as mãos dos homens, beijava quase sem tocar as faces das mulheres e afundava os dedos quase sem tocar os cabelos embarrados das crianças. Esse ritual durava toda a manhã e às vezes parte da tarde e só era interrompido por não mais que uma hora, por volta do meio-dia, quando a empregada avisava, da varanda, que o almoço estava servido. Então, do terceiro degrau ela virava-se e acenava aos mortos-vivos, uma mistura de adeusinho e um-momentinho, e os mortos-vivos ficavam lá, parados, os pés firmemente apoiados na lama misturada com esterco e grama pisoteada, oscilando de leve, sem nenhum esboço de cansaço, pois, como é sabido, os mortos-vivos nunca se cansam, os mortos-vivos não sentem fome, os mortos-vivos possuem a eternidade.
Os mortos-vivos chegavam durante a madrugada da véspera do natal. Acotovelavam-se em silêncio, ou, no máximo em um murmúrio grave, monocórdio, abaixo do tom, quase um zumbido, sob a neblina ou sob a garoa fria, na parte da frente da casa, esperando, passivos, entre a varanda e os currais. Não fosse pelas roupas fora de moda, pela palidez esquálida dos rostos, pelas mãos muito finas sempre dependuradas ou as olheiras quase negras eles podiam ser facilmente confundidos com peregrinos, visitas ou parentes distantes que há muito tempo não víamos. Nós, os mais pequenos, éramos terminantemente proibidos de nos levantar da cama, mas mesmo assim nos espremíamos no vidro da janela do quarto para ver nossa mãe, vestida com a parca branca com capucho, e calçada com os tamanquinhos holandeses que nosso pai a presenteara antes de se casarem - para ver nossa mãe distribuindo a cada um dos mortos-vivos uma lembrança embrulhada em papel laminado, um pacote de fumo, uma chave-de-fenda, um canivete vagabundo para os homens, um jogo de agulhas, retroses coloridos, batons pela metade para as mulheres, e pequenos bonecos modelados em massa de biscuí para as crianças, independente se meninos ou meninas. Em seguida à cada presente entregue nossa mãe apertava de leve, quase sem tocar, as mãos dos homens, beijava quase sem tocar as faces das mulheres e afundava os dedos quase sem tocar os cabelos embarrados das crianças. Esse ritual durava toda a manhã e às vezes parte da tarde e só era interrompido por não mais que uma hora, por volta do meio-dia, quando a empregada avisava, da varanda, que o almoço estava servido. Então, do terceiro degrau ela virava-se e acenava aos mortos-vivos, uma mistura de adeusinho e um-momentinho, e os mortos-vivos ficavam lá, parados, os pés firmemente apoiados na lama misturada com esterco e grama pisoteada, oscilando de leve, sem nenhum esboço de cansaço, pois, como é sabido, os mortos-vivos nunca se cansam, os mortos-vivos não sentem fome, os mortos-vivos possuem a eternidade.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
do diário anterior (5)
(...)
Quando nós nos esquecíamos e mencionávamos sem querer durante o almoço os dobrões de prata, os patacões de ouro, as gemas de cores e tamanhos variados, as correntinhas de ouro com seus respectivos escapulários ou camafeus, os braceletes em forma de serpente com olhos de rubis, os pingentes em forma de escaravelhos cor de esmeralda, os copaços de bronze marchetados, os medalhões do baú guardado no sótão, nossa mãe batia com mais força a colher de pau na borda do caldeirão, apagava o fogo, enxugava as mãos no pano de prato bordado com pimentas vermelhas, abria a gaveta de cima, tirava da bainha a faca de cabo preto das cebolas e riscava horizontalmente o ar três vezes, na altura dos nossos olhos, como se para cortar qualquer resquício, qualquer vínculo, qualquer tentáculo, qualquer âncora, qualquer amarra que nos arrastasse outra vez para o meio da tempestade onde embicava desgovernada a nau fantasma que sabíamos ter pertencido ao nosso pai.
Quando nós nos esquecíamos e mencionávamos sem querer durante o almoço os dobrões de prata, os patacões de ouro, as gemas de cores e tamanhos variados, as correntinhas de ouro com seus respectivos escapulários ou camafeus, os braceletes em forma de serpente com olhos de rubis, os pingentes em forma de escaravelhos cor de esmeralda, os copaços de bronze marchetados, os medalhões do baú guardado no sótão, nossa mãe batia com mais força a colher de pau na borda do caldeirão, apagava o fogo, enxugava as mãos no pano de prato bordado com pimentas vermelhas, abria a gaveta de cima, tirava da bainha a faca de cabo preto das cebolas e riscava horizontalmente o ar três vezes, na altura dos nossos olhos, como se para cortar qualquer resquício, qualquer vínculo, qualquer tentáculo, qualquer âncora, qualquer amarra que nos arrastasse outra vez para o meio da tempestade onde embicava desgovernada a nau fantasma que sabíamos ter pertencido ao nosso pai.
do diário anterior (4)
(...)
Quando ainda éramos capazes de nos equilibrar sobre as nossas próprias pernas e enxergarmos mais de um palmo adiante dos nossos narizes, pouco antes de anoitecer nós cavávamos um buraco na superfície do gelo sobre o lago, com diâmetro suficiente para que pudéssemos mergulhar. De madrugada nós abríamos as portas e as janelas da casa e deixávamos o vento e as cores cambiantes da aurora boreal cobrirem os nossos corpos. E quando a pele enregelava e os dentes trincavam de frio nós pulávamos da cama, descíamos correndo dos nossos quartos, atravessávamos a sala passando bem longe do fogo, cruzávamos o jardim (cuja grama congelada cortava os nossos pés), saltávamos a cerca até a superfície do lago e constatávamos que onde antes era o buraco cavado durante a tarde não passava de um círculo torto de gelo mais fino e transparente por onde só nos restava assistir ao movimento lento dos cabelos das algas no fundo da água.
Quando ainda éramos capazes de nos equilibrar sobre as nossas próprias pernas e enxergarmos mais de um palmo adiante dos nossos narizes, pouco antes de anoitecer nós cavávamos um buraco na superfície do gelo sobre o lago, com diâmetro suficiente para que pudéssemos mergulhar. De madrugada nós abríamos as portas e as janelas da casa e deixávamos o vento e as cores cambiantes da aurora boreal cobrirem os nossos corpos. E quando a pele enregelava e os dentes trincavam de frio nós pulávamos da cama, descíamos correndo dos nossos quartos, atravessávamos a sala passando bem longe do fogo, cruzávamos o jardim (cuja grama congelada cortava os nossos pés), saltávamos a cerca até a superfície do lago e constatávamos que onde antes era o buraco cavado durante a tarde não passava de um círculo torto de gelo mais fino e transparente por onde só nos restava assistir ao movimento lento dos cabelos das algas no fundo da água.
domingo, 18 de dezembro de 2011
do diário anterior (3)
(...)
Antes os mortos ainda não eram assustadores. Uma vez por semana vinham cear conosco na varanda ao anoitecer. Os gatos subiam para os telhados, os cães uivavam pouco e sem vontade e se enroscavam pelos cantos. Os mortos vinham e tiravam dos bolsos cheios de terra histórias misturadas a sementes, a fiapos de tecido podre, a botões de osso que há muito tempo não se fabricavam mais. Geralmente as histórias eram boas de serem ouvidas. Quando não valiam a pena e nós nos dispersávamos, os mortos tiravam os instrumentos das sacolas e cantavam e tocavam e dançavam músicas e danças tão alegres que nos faziam esquecer de que nós éramos os vivos e que mais cedo ou mais tarde seríamos nós os que tocariam e cantariam e dançariam e contariam histórias na varanda ao anoitecer.
Antes os mortos ainda não eram assustadores. Uma vez por semana vinham cear conosco na varanda ao anoitecer. Os gatos subiam para os telhados, os cães uivavam pouco e sem vontade e se enroscavam pelos cantos. Os mortos vinham e tiravam dos bolsos cheios de terra histórias misturadas a sementes, a fiapos de tecido podre, a botões de osso que há muito tempo não se fabricavam mais. Geralmente as histórias eram boas de serem ouvidas. Quando não valiam a pena e nós nos dispersávamos, os mortos tiravam os instrumentos das sacolas e cantavam e tocavam e dançavam músicas e danças tão alegres que nos faziam esquecer de que nós éramos os vivos e que mais cedo ou mais tarde seríamos nós os que tocariam e cantariam e dançariam e contariam histórias na varanda ao anoitecer.
do diário anterior (2)
(...)
Antes, na parte da frente havia janelas largas que se abriam para paisagens diurnas, mar de ressaca, praias ensolaradas emolduradas por coqueiros, picos cobertos de neve, ravinas de girassois ondulando ao vento, cânions, manadas de bisões emergindo de nuvem de poeira ou girafas, zebras e elefantes pastando no meio da savana. Nos fundos as janelas eram menores, quase respiradouros, basculantes, mais parecidas com escotilhas, de onde a noite se desenrolva suave, como uma névoa, um véu, um rolo de algodão negro envolvendo as coisas.
Antes, na parte da frente havia janelas largas que se abriam para paisagens diurnas, mar de ressaca, praias ensolaradas emolduradas por coqueiros, picos cobertos de neve, ravinas de girassois ondulando ao vento, cânions, manadas de bisões emergindo de nuvem de poeira ou girafas, zebras e elefantes pastando no meio da savana. Nos fundos as janelas eram menores, quase respiradouros, basculantes, mais parecidas com escotilhas, de onde a noite se desenrolva suave, como uma névoa, um véu, um rolo de algodão negro envolvendo as coisas.
do diário anterior (1)
(...)
Antes havia botões e depois flores e depois frutos a brotar nas pontas dos galhos, havia ovos de larvas a escovar das folhas, havia formigas subindo pelo tronco, havia até ninhos desajetiados que mal se sustentavam em duas ou três bifurcações de ramos. Havia a terra fofa de sereno logo de manhã, mosquitos a picar os tornozelos ou os ombros descobertos, réstias de sol ou quando muito gotas da chuva noturna pingando no nariz e respingando no rosto quando soprava o vento. Havia também o trabalho subterrâneo das larvas, as crisálidas enterradas durante anos para nascerem borboletas de apenas um dia, túneis das térmites aflorando tão delicados na superfície vermelha da terra, havia pedras quase lisas como ovos de avestruzes ou de répteis pré-históricos e debaixo delas ovos verdadeiros dos lagartos, centopeias enrolando-se em espirais, esporões bifurcados das lacraias, escorpiões vermelhos e besouros verde-esmeralda tão pequenos quanto broches que corroíam as folhas.
Antes havia botões e depois flores e depois frutos a brotar nas pontas dos galhos, havia ovos de larvas a escovar das folhas, havia formigas subindo pelo tronco, havia até ninhos desajetiados que mal se sustentavam em duas ou três bifurcações de ramos. Havia a terra fofa de sereno logo de manhã, mosquitos a picar os tornozelos ou os ombros descobertos, réstias de sol ou quando muito gotas da chuva noturna pingando no nariz e respingando no rosto quando soprava o vento. Havia também o trabalho subterrâneo das larvas, as crisálidas enterradas durante anos para nascerem borboletas de apenas um dia, túneis das térmites aflorando tão delicados na superfície vermelha da terra, havia pedras quase lisas como ovos de avestruzes ou de répteis pré-históricos e debaixo delas ovos verdadeiros dos lagartos, centopeias enrolando-se em espirais, esporões bifurcados das lacraias, escorpiões vermelhos e besouros verde-esmeralda tão pequenos quanto broches que corroíam as folhas.
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