quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

science pictures 1 (by Ric Wylam, 1968)




diário gerúndio 7

ouvindo o telúrico hermeto. ouvindo tim maia. ouvindo miriam makeba. ouvindo cantiga de santo. arrepiando a epiderme do espírito. tomando espumante rosê. gargalhando em cascata. pedindo fogo. rodopiando até cair. esfaqueando o pernil. beijando a boca com gosto de chantili da matrona bêbada. trocando os pés pelas mãos. cambaleando pela senda da virtude. tomando o rumo do erro.

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trabalhando, ó perses, divina progênie, para que a fome me deteste e me queira bem a coroada e veneranda deméter, enchendo-me de alimentos o celeiro.

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revisitando mary shelley. lanchando no fiorde com isak dinesen. solidarizando-me com a solidão de conde drácula. acampando com rimbaud na terra dos bérberes. caçando elefantes com d. h. lawrence. tomando chá com virgínia e victoria sackvillewest. espiando o banho do amante gostosão de lady chatterley. transcrevendo as alucinações do alheio. enviando torpedos pelo celular. assistindo filminhos cult. derramando lágrimas furtivas no escurinho do cinema. comendo empada de palmito & despachando a eternidade.

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pirateando verger, herscovitz & o pessoal do ceao. aprendendo gramática na internet. caminhando no parque sob a garoa. ouvindo histórias trash no elevador. superando com dionisos o vazio deixado por apolo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

diário gerúndio 6

preparando o final apoteótico do conto de natal com mortos-vivos. curtindo my funny valentine na voz do anjo chet baker. relembrando chocolate jesus. lendo sobre legba. aguardando mensagens do além que não vêm. teclando horrores & assistindo filminhos tarja preta dos anos 80. discutindo a relação pelo facebook. reciclando comida & bebida do reveion. tomando uísque em plena segunda-feira. morrendo de saudade. bisbilhotando a casa-aquário. tentando escrever palavras edificantes para o ano que se inicia.

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ouvindo carolina na voz de isaurinha garcia. expurgando o baú das lembranças. ensaboando a sereia na banheira da suíte master. recolhendo os louros & varrendo o papel picado do ano que se foi. experimentando contatos do segundo e terceiro graus. planejando o tour pelo território insondável do não-ser. reproduzindo comportamentos intra-uterinos. categorizando o sexo dos anjos & dos reles mortais. recapitulando elogios. repescando simone de beauvoir na estante das prioridades.

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arrotando lentilhas da prosperidade. corrigindo erros crassos nas postagens antigas. relendo ray bradbury. fotografando a chuva do décimo-primeiro andar. ouvindo a plenitude do universo de elza soares. cancelando compromissos sociais. esperando o príncipe que nunca chega. entendendo aspectos dos planetas trans-saturnianos. garimpando imagens fantasmagóricas no dream exchange. descalçando as sandálias de prata & calçando havaianas. invocando carmem miranda na brincadeira do copo. constatando o inútil senso de realidade.

sábado, 31 de dezembro de 2011

história de natal (10)

(...)
No instante em que a aba do chapéu de nosso pai tocou a palma da mão de nossa mãe, o halo, o cone se desfez. Desmanchou-se também o sentido, a intenção do gesto, amoleceram os dedos, a musculatura, a mão, e o braço de nossa mãe tombou ao longo do corpo. Justo nesse momento, por coincidência ou não, as luzes da sala oscilaram, falharam, piscaram e se apagaram. Assim, ao invés do natural relaxamento de todos, acompanhado do desfazimento do túnel-cone e do gesto de nossa mãe, e terminada a travessia de nosso pai, ao invés de terminar, a tensão prolongou-se, pois o coincidente piscar das luzes foi um sinal, um alerta de que mais acontecimentos viriam, ou explicações, o desfecho previsível. O piscar das luzes estendeu a tensão, impediu de se descongelarem os gestos dos convidados, as cinzas dos cigarros serem batidas nos cinzeiros, as mãos descansarem as taças na mesa, os últimos goles descerem pela garganta, os caroços de azeitona serem jogados pela janela, os guardanapos limparem os cantos das bocas. Nós já estávamos acostumados, a corrente elétrica oscilava, por exemplo, quando mais que dois de nossos irmãos mais velhos demoravam-se ao chuveiro, quando se ligava mais de uma máquina ao mesmo tempo, a ordenhadeira, o descaroçador, a bomba hidráulica, etcétera, a máquina velha do gerador sobrecarregava-se, e era só o tempo das pupilas se acostumarem com o escuro, se dilatarem, para que um de nossos irmãos mais velhos se dirigisse à casa das máquinas e religasse o gerador, às vezes nem era necessário levar a lanterna, tão acostumados estávamos, sempre, assim o pique de luz não deveria ter sido surpresa, afinal todas as luzes da casa estavam acesas, o pisca-pisca da árvore de natal e das guirlandas, o aparelho televisor e o de som, o refrigerador na temperatura máxima de congelamento, mas justo na noite de natal, justo na noite em que nosso pai voltava, depois de tanto tempo desaparecido, a queda de energia nos tomou desprevenidos, porque o escuro se desencadeou o depois, as consequências foram definitivas.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

história de natal (9)

(...)
Nem se quiséssemos nós, os mais pequenos, naquela noite de natal em que os mortos-vivos voltaram, naquela última noite de natal que passaríamos juntos, nem se quiséssemos nós saberíamos, ou imaginaríamos, ou resgataríamos das nossas lembranças recentes, nossa memória imediata, recoberta não com os escombros, os blocos de granito, o cascalho, o entulho dos longos dias da memória dos nossos irmãos mais velhos, mas com uma camada fina de pó, perceptível só quando se passava a ponta do indicador sobre a superfície lisa, vidro polido, acrílico, plástico ainda sem arranhão, fenda ou cicatriz, nós não poderíamos resgatar de nossa memória, reconhecer na silhueta forçando a membrana do escuro, ou depois de rompida, atravessando o corredor aberto entre os nossos irmãos mais velhos e os convidados, o túnel-cone cuja base era a porta da sala e o vértice a palma da mão erguida de nossa mãe, nós não reconheceríamos, na figura pálida, mãos esquálidas, roupa fora de moda nosso pai que partira há muito, quando mal nos haviam retirado os cueiros, as fraldas, quando ainda mamávamos nos peitos de nossa mãe, quando ainda engatinhávamos, catarrentos, nus, pelas tábuas enceradas do chão da sala, ou nos deslocávamos nos andadores, esbarrando nos móveis, atropelando os cães a dormir nos tapetes, derrubando os enfeites da mesa de centro, quando mal balbuciávamos as primeiras sílabas, ensinadas e insistidas por ele, nosso pai, à cabeceira do nosso berço, pa-pá, e teimávamos, ma-mã, talvez pela dificuldade das oclusivas, opostas às facílimas nasais, ou quem sabe por pura teimosia bilabial, ou ainda por sabe-se lá quais bloqueios, ou por qualquer razão nosso pai partira e não havia resquício consciente de sua presença na nossa memória, a dos mais pequenos, e, portanto, não tínhamos obrigação de reconhecê-lo, ao contrário dos nossos irmãos mais velhos, que pressentiram, mesmo antes, quando o túnel cônico se formara, quando o vulto ainda não rompera a membrana do escuro da base do cone e avançava na direção do vértice imaginado, na palma da mão de nossa mãe, mesmo pressentido não houve como evitar o espanto dos nossos irmãos mais velhos, disfarçar o constrangimento desnecessário, porém doloroso da lembrança, dor que somente aos nossos irmãos mais velhos doía, osso fraturado, cárie, abscesso, dor ressuscitada e reencarnada em nosso pai, atravessando, lento, a sala, olhando de um lado e outro, também reconhecendo, acenando, cumprimentando ora com os olhos, ora pouco erguendo o dedo indicador da mão esquálida, pendente, ora com um movimento mínimo dos lábios, esgar à guisa de sorriso, reconhecendo entre o grupo formado pelos convidados e por nossos irmãos mais velhos os nomes, as feições, os caráteres de cada um dos filhos dele, nosso pai, ou, melhor, dos filhos que ele se lembrava, pois também nós, os mais pequenos, o éramos, filhos, todos, agrupados do lado direito, do lado esquerdo, na base do mesmo círculo que se formava e se fechava na mão espalmada erguida de nossa mãe.