sábado, 11 de fevereiro de 2012

diário íntimo 2

18h. Diante da janela.
Chove lá fora. Dentro, escorro suor. Mariposas de formas tronchas & hediondas & desprovidas de qualquer aerodinâmica & da cor de madeira podre vêm morrer no portal.

12:00. No carro.
Martinho da Vila no rádio me resgata a infância: na minha casa todo mundo é bamba todo mundo bebe todo mundo samba.

13h30. Na cozinha.
Almoço morno com Piazzolla. Denso demais. Desligo o rádio e requento o prato 1 minuto no micro-ondas.

16h. Na varanda.
Tentando hablar con él. O celular não atende. Remédio? Deixar estertorar.

06h30. Na cama.
Acordo com o barulho dos bem-te-vis. Olho o quintal. A goiabeira. O tapete de jambos vermelhos apodrecendo. A cerca de telhas galvanizadas. E um morto-vivo caminhando reto e direto para a janela do meu quarto.

10h. No escritório.
Eu e minha capacidade inata de criar incidentes políticos e diplomáticos de proporções internacionais. Só porque reclamei que as imagens estavam de ponta-cabeça.

10h15. Ao telefone.
Llorando las pitangas com la geisha.

18h30. Diante da janela.
Continua chovendo. Olho para as goiabas e os jambos vermelhos apodrecendo no chão. Respiro o cheiro de fermentação trazido às vezes pela brisa.

19h. Diante da janela.
Desconectado do mundo. A voz gravada ao telefone: Sua área está com problemas de intermitência. A previsão para a regularização é para as 21 horas. Aproveito para tonificar a musculatura e trocar a água do peixe.

19h30. Diante da janela.
Malhando e ouvindo João Brasil na Rádio Criolina: pra me conquistar você tem que rebolar.

diário íntimo

23h50. Dentro de casa.
Releio. Constato: sobreviver dá trabalho.

23h. Na varanda.
Lua-ovo torto no meio das nuvens. Céu azul-chumbo. Sereno da noite. Grilos. Barulho da geladeira na cozinha. Cachorro dormindo. Vinho & cigarros & silêncio.

22h30. No carro.
Volto pra casa sozinho. Ouvindo no rádio Gal & Bethânia dos tempos idos. Cantando com elas ah, minha mãe, minha mãe menininha, ah, minha mãe menininha do gantois.

22h. Na rampa do Museu.
Chupo um Halls preto. Ouvindo uma garota de voz linda cantar melancólicas melodias árabes-ibéricas. Depois de tantos encontros. De tantos papos superficiais. E, talvez, depois de olhares que dissessem mais. Tenho me esforçado em superar. Agorafobia?

21h00. Dentro do Museu.
No meio do zunzunzum do evento o telefonema do homeopata. Aguente firme. Esses sintomas são normais. Expurgo das aflições. O novo ressurgirá.

20h35. Encontro o trabalho. Colagens tímidas. Duas delas de cabeça para baixo. Reclamar para quem? Narrativas visuais delicadas. Descabidas ali, no burburinho. Para serem vistas em silêncio & solidão. Engolidas pela exuberância do entorno.

20h30. Dentro do Museu.
Encontros. Resgate de memórias soterradas. Evito assuntos contundentes. Contorno escombros. Busco ilhas de conforto. Reelaborando Cazuza: o banheiro é o refúgio de todos os tímidos. Bicho acuado. A procurar as colagens no labirinto.

20h. No carro.
Dirijo sem rumo até chegar a hora de ir.

19h15. No café.
Me empanturro de sopa de batata baroa com gorgonzola. Torta de nozes. Ouvindo o matraquear da sereia no cio. Aconselhando. Com vontade de dormir. De desaparecer. De enfiar a cabeça na areia escaldante do deserto.

18:40. No carro estacionado.
Hablando con él.

Das 17 às 18:30. No consultório.
Hablando con el terapeuta.

Antes disso, o tédio. Procurando adaptador para o cano do filtro. Barra de alumínio para a cortina do box. Parafusos para a horrorosa cerca de telhas galvanizadas. Cozinhando feijão para os serralheiros. Ouvindo os dramas cotidianos da faxineira. Agendando a cirurgia do cão. Revendo as atividades do dia. Controlando a vontade de dormir. De enfiar a cabeça na areia escaldante do deserto.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

zaz à montmartre : les passants

diário gerúndio

varrendo & espanando & lavando  & encerando o chão da mansão dos mortos. padecendo sob pôncio pilatos. escarafunchando nietzche & leibniz. tomando chimarrão.
 

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ouvindo a voz do brasil. ouvindo a voz do povo. ouvindo a voz de zeus. ouvindo carmen mcray & canciones gitanas. ouvindo zaz. ouvindo o superego.

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enfiando a mão em cumbuca. pondo a mão na consciência. desejando bom dia a cavalo. cuspindo marimbondos & hemoptises. postando aleivosias. noticiando eventos duvidosos. espalhando boatos.

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dialogando com artistas encomendados.

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reforçando o autopatrulhamento. queimando gordurinhas. perdendo massa encefálica. cauterizendo emoções indesejáveis. calibrando a auto-estima. subindo ajoelhado as escadarias da comiseração. rolando ladeira abaixo. queimando pontes.

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carnavalizando com bahktin. sabendo a sardinha assada do são joão no porto. atirando rosas atrasadas para iemanjá.  incinerando as palmas. guardando a quaresma. desembrulhando presentes.

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acariciando a pelagem do garoto-coelhinho. domando o touro à unha. armando barraco no supermercado. desarmando a barraca. comprando na liquidação de conselhos.  garimpando assuntos populares na escassez de temas.

exposição no museu da república

(5 colagens dialogando com Leonilson)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

diário gerúndio

mascando chicletes. visitando atlântida na voz de ronnie von. chamando o síndico. desabotoando a blusa que você usava. descendo a rua augusta a 120 por hora. subindo até a cobertura com roberto & erasmo. ficando branca como a neve. dirigindo com a loura nas curvas que se acabam. levando uma vida sossegada & gostando de sombra e água fresca. sugando o sangue dos meninos & das meninas que eu encontro. espanando o pó das semicolcheias septuagenárias.

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explorando os labirintos do museu dos teletubbies. bancando o artista para os universitários. desdenhando os tesouros da arca da aliança. bricolando leonilson. recortando corpos sarados. aplicando pauzinhos renascentistas & bundinhas aveudadas & borboletinhas de todas as cores sobre a paisagem. esfregando bálsamo benguê na lombar. desempacotando ciclones sobre as ilhas virgens. zurzindo aos 4 ventos. reconsiderando as convicções. descalcificando o desejo de permanecer.

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remendando o bolso furado do capote. esperando o rigoroso inverno passar. macetando a cabeça de alyona ivanovna. espelhando os malvados ficcionais. dando outro ultimato ao bonitão embromador. escorregando na ribanceira do desespero. desfazendo o peso extra. separando a correspondência do conde vlad. implantando caninos de platina. mordiscando mamilos com gosto de alho. dormitando. esperando o apocalipse acabar. cerzindo o estilo esfarrapado.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

rita lee, polícia, cannabis, recuerdos do passado próximo

Li outro dia que Rita Lee se aposentaria dos palcos. Pop star também tem direito. 65 anos de idade, mais de 35 de exercício da profissão. Como qualquer trabalhador brasileiro. Só estranhei o local do show da despedida: a pacata e tímida Aracaju. Registrei. E não pensei mais sobre o assunto.

Quando, ontem à tarde, li um post indignado no Facebook. Sobre a truculência policial. Onde? No último show de Rita Lee. Em Aracaju. Reli. Impulsivo, rascunhei um comentário. Cinco palavras de pleno apoio à indignação da postulante.

Mas deletei em seguida. Por causa de um conselho da amiga X. Que todos conhecem e a maioria já segue: pensar dez vezes antes de abrir a boca ou de teclar nas redes sociais. Para não engolir mosca.

Antes de retomar o comentário ao post eu procurei me informar. Prós & contras. Nota oficial do governo sergipense. Matérias defendendo Rita. Gente apontando a caretice. Gente se defendendo da acusação de caretice. Gente falando em liberdade de expressão. Gente chamando Rita de emaconhada. Gente denunciando a apologia. O circo www pegava fogo.

Polícia é sempre polícia. Não adianta contemporizar. São trabalhadores, sim, como todos nós. Basicamente com obrigação de assegurar a tal liberdade de expressão. O direito de ir e vir do cidadão. Da mesma forma como a obrigação de Rita é cantar. Ou a nossa, reles mortais, de produzir para o desenvolvimento da nação.

Porém a polícia aracajuana (ou aracajuense?) exagerou. Os dois lados da moeda pelo Youtube. 1: Rita fora de si, virada em um tetéu, chamando os polícias para briga. 2: os capacetes brancos, ostensivos, intimidando a plateia, antes e durante o discurso de Rita.

Maconha? Em um show de rock? Em um festival de verão na praia? Na pacata e tímida Aracaju? Não sejamos ingênuos. A galera fuma até em show da Xuxa ou da Sandy ou do Júnior.

Gostei do discurso de Rita. Um quê saudosista. Dispensaria os chingamentos. Afinal, Rita é uma mulher pública. Manifestando-se em publico. Porém perdoáveis. Dada a neura assumida (sou paranóica com polícia), a despedida em si (esse show é meu) e a natural e irônica senioridade (sou mãe de três filhos. Tenho sessenta e sete anos).
 
Não que eu goste de maconha. Fumei e traguei na adolescência. Como 99,9% da minha geração. Desde aquela época achava uma chatice. As sacações inteligentes. A potencialização da percepção. A harmonia com os elementos da natureza. O extrassensorial. A sociabilização. Etc.

Pura balela no meu caso. Nada rolava. No máximo depressão, paranoia e pensamentos autodestrutivos. Vontade de dormir. Bad trip. Até hoje eu enjôo com o cheiro. E admito a caretice: fumar maconha é um hábito anacrônico, dispensável e inadequado.

No entanto, defendo com unhas e dentes a descriminilização. Como defenderia qualquer um dos direitos (livre expressão, livre arbítrio, livre trânsito) já mencionados nos parágafos anteriores. E pretensamente questionados pelas autoridades sergipanas.

Quanto à Rita, eu sempre gostei. Como se gosta dos ícones de uma época. Ouvia Rita desde os Mutantes. Tive discos. Assisti a shows. Sei a letra de Ovelha Negra de cor. Dancei as músicas de gosto duvidoso dos anos 90 (que tal nós dois numa banheira de espuma)?

Queria ter estado em Aracaju naquela noite. Ter testemunhado o surto paranóico da avó do rock brasileiro. Os impropérios. Os perdigotos pronunciados sem papas na língua. O dragão vomitando fogo. Contra a ameaça policial. Ter vaiado a intromissão dos capacetes brancos. Ter visto Rita saindo presa. Talvez ter seguido junto com a massa, o camburão até a delegacia. Estandarte empunhado. Palavra de ordem na garganta. Coração taquicárdico.

Teria sido um revival. De tempo do qual eu só peguei a rebarba. Tempo diferente deste, politicamente correto. Tempo nem tão velho assim, em que a mediocridade, a imbecilidade, a intransigência, a estreiteza de visão ditavam as regras. Para constatar que esse nosso mundo, quase sempre, não passa de uma pacata e tímida Aracaju. E que aquilo era rock'nroll.