quarta-feira, 7 de março de 2012

diário gerúndio moribundo

deixando as barbas de molho. arrancando o mal mas deixando a raiz para arrancar outro dia. dando voltas & mais voltas sem chegar ao cerne. caminhando a passos de tartaruga. encobrindo pistas. neutralizando a incapacidade de concretizar finais felizes. inventando feitos memoráveis. costurando chavões & muletas & lugares-comuns. ouvindo o finado itamar assumpção cantando ataulfo alves.

domingo, 4 de março de 2012

diário con sangre portunhol (dia 3 after)

acordo cedo para beber a primeira água da fonte da juventude. para urinar vidro moído sobre as margaridinhas do jardim de la abuela. para recolher os confetes em forma de estrela e as serpentinas prateadas como caudas de cometa à beira da piscina. antes que marissol adentre esbaforida e me questione: o que foi feito de nuestro futuro? viro o disco (nessa casa onde se proíbem as modernidades & os modernismos). a fonte tinha sido interditada pelas autoridades sanitárias. as margaridinhas tinham sido pisoteadas pelos cafajestes. a empregada já havia recolhido os confetes & as serpentinas no saco de lixo. marissol, diz a voz do outro lado do telefone, sufrió um grave acidente & se murió. nem tive tempo de lhe dizer: o futuro, cariño, nunca chega.

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com o lado cego da faca arranco as penas do pescoço da franga. com o lado chato, bato na pele despenada até a veia aparecer. com o lado afiado corto a jugular & deixo o sangue escorrer da baciinha esmaltada. enquanto isso a água ferve no caldeirão. escaldo a franga para amolecer e arranco o resto das penas. o cheiro de pena ferventada nem sempre agrada. tiro a pele & as unhas dos pés & os separo para a abuela. depeno com cuidado a cabeça & corto a ponta do bico & a reservo para marissol. as coxas rosadas & gorduchas como as coxas da empregada francesa são para o pappy. etc. nada encontro nas entranhas. nenhum anel de formatura no papo. nenhum diamante bruto ou lapidado na moela. nenhum ovo de ouro na cloaca.

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marissol trouxe sorvete de chocolate & refrigerante sabor limão & vários filmes sobre fracassos & fracassados. como tudo isso cai bem nesses tardes de canícula.

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o cão uiva para o gato que sobe no muro atrás do pássaro que bica as goiabas que são devoradas internamente pelas larvas como um câncer.

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por falar em pássaros: a coruja atacou o ninho dos bem-te-vis durante a madrugada. só se ouvia pios desesperados e por fim um gargalhar/gorgulhar vitorioso. o filhote de bem-te-vi virou comida para os lindos & fofos & mais-bonitos-do-mundo filhotes da mãe-coruja. tem também morcegos vegetarianos que cagam sementes de frutos no beiral da janela do meu quarto. mariposas que se atiram como lenços de veludo sujos nas vidraças. miríade de insetos minúsculos & translúcidos que insistem em morrer e encher de cadáveres ocos as arandelas.

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mira, coño! ando meio mórbido nessas noites quentes de verão.

sábado, 3 de março de 2012

diário íntimo - dia 2 after

ouço cícero - canções de apartamento. estendido na cama. leio sobre religiões afro-brasileiras para a dissertação pouco-acadêmica. lembro de chacrinha ou flávio cavalcanti? nos anos 70. o programa terminava com o pessoal da macumba carioca e do candomblé de salvador invadindo a tela. fumacê de defumador & charuto. atabaques e cânticos esquisitos. provavelmente gente bolando. dona olga do alaketu & seu sete da lira. axé.
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como guisadinho de carne moída com tomate & alho poró & purê de inhame diet. vejo carl sagan - cosmos pelo youtube. em 6 partes. por indicação de gente superbacana do facebook. começo dos anos 80? cometas. sistema solar. a atmosfera de vênus carregada de ácido sulfúrico. rochas derretidas na superfície em razão da altíssima temperatura causada pelo efeito-estufa. alerta para os terráqueos. nós não habitamos um planeta descartável.
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evito entrar em contato com o dramático alheio. atendo telefonemas. transfiro ansiedades. tomo glóbulos de arnica. espanto pernilongos. caminho devagar. cuido do cão. arrisco molhar as plantas. faço café. converso com a matriarca sobre lagartas & veterinários & alimentos pastosos. homenageio vivas & mortas pela internet. me alegro com a algazarra das caturritas. chupo bergamotas. tomo chimarrão. sinto saudades da ana. a sereia lê em voz alta caio fernando abreu. ando tão gaúcho nessa tarde quente de verão.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

nota explicativa sobre os círculos do inferno (para o diário gerúndio)

http://www.rossovenexiano.com/

O primeiro círculo do inferno, chamado Limbo, é habitado por aqueles que não foram batizados e os que nasceram antes de Cristo. Do segundo ao quinto círculo habitam aqueles que cometeram pecados sem culpa. No segundo círculo, os luxuriosos. No terceiro, Cérbero espanca os gulosos jogados na lama sob uma chuva incandescente. No quarto, os avaros e os pródigos empurram pesos enormes como castigo. O quinto círculo é banhado pelo rio Estige, de sangue fervente. Dentro do rio são castigados os irados.

No sexto círculo está a cidade de Dite, onde são queimados os hereges, em tumbas desprovidas de tampas. O três vales do sétimo círculo são habitados pelos culpados por violência. No primeiro estão os homicidas; no segundo os suicidas; e no terceiro os violentos contra Deus.

No oitavo círculo ou Malebolge, estão os fraudulentos. É dividido em dez fossos, ligados por meio de pontes. Em cada fosso habitam os diversos tipos de fraudulentos: sedutores, aduladores, simoníacos, adivinhos, corruptos, hipócritas, ladrões do sagrado, maus conselheiros, semeadores da discórdia e alquimistas.

No nono círculo são punidos os traidores. Este círculo é dividido em quatro esferas: a Caína, Antenora, Ptoloméia e Judeca. Na última está Lúcifer, aprisionado da cintura para baixo, com grandiosas asas e três cabeças, cada boca mastigando os traidores Judas, Brutus e Cássio.

diário gerúndio

refletindo o universo onírico dos iracundos. mapeando as coordenadas do inferno. convidando os habitués do oitavo círculo para animar o regabofe. realocando o imaginário medieval. desconstruindo cosmologias particulares. atravessando o aqueronte só com o bilhete de ida. tirando os sapatos e deixando a esperança na porta antes de entrar.

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enxergando com o estômago. pensando com genitália. engordando a olhos vistos. perscrutando parasitas. coçando o púbis. sentando sobre o próprio rabo. pinçando as sobrancelhas. 
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caçando anjos caídos na calçada da rua augusta. consolando diabinhos maiores de idade na w3. suprindo a carência dos gogo-boys. coroando os estagiários com heliotropos. atirando a primeira pedra. incorporando roberto piva & pedindo um vermute-martini no balcão.
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dissecando caligos & strigiformes. dormindo com o balbucio dos espíritos arbóreos. despertando com o mezzo-soprano da sereia.  tramando a vingança contra os aborígenes. analisando o jogo do adversário. bajulando os rudes & menoscabando os doutos. colecionando filmes b. decepando leguminosas. aprendendo danças alienígenas.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

diário íntimo (bolerão)

o cão uivou toda a noite. provavelmente para os fantasmas interiores. porque o cão não teria seus fantasmas? em tons de cinza. (aprendi na infância: os cães não enxergam cores). será? o cão amanheceu vivo & esfomeado & sedento. manquitola, ainda. porém serelepe. saltita à beira da água. rói goiabas no chão. late para os passarinhos. bufa & assopra & derruba a casa de palha & de madeira & de tijolos dos 3 porquinhos. o cão agora dorme de barriga cheia.

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a coruja pousa no portão. me observa enquanto escrevo durante a madrugada. totem. espírito ancestre. mensageira dos mundos. avatar & guardiã da noite. mocho. suindara. antes, quando não havia asfalto elas eram muitas. revoavam sobre a minha cabeça (quando chegava bêbado de madrugada) desde a parada do ônibus até a porta do quarto. às vezes eu era uma delas.

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sentado à sombra, tomo vermute com gelo & açúcar & soda-cáustica. observo a sereia que canta & se penteia & chora a duplicidade. abro o livro (miguel torga) & leio aleatório:

/ não me perturbes a paz que me foi dada / ouvir de novo a tua voz seria / matar a sede com água salgada /

as entranhas se me contorcem. dou o último suspiro. despenco no cimento. a sereia vira-se na direção do meu estrebuchar. volta a pentear os cabelos. & cantarola um bolerão.

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carreguei a pedra morro acima. caminhei sobre as brasas. flagelei as costas com o chicotinho com ponta de gilete. mastiguei urtigas & sarças ardentes. arranquei as unhas dos pés com alicates. atravessei palavras-arames na garganta. enchi a boca de cacos de vidro. engoli querosene & cuspi labaredas. mesmo assim o meu amor não veio nem telefonou nem mandou mensagem. por isso tartamudeio essa calda rala & enjoativa & pegajosa de arengas que não me resgatarão do inesgotável.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

diário gerúndio

vasculhando as estantes. buscando os fundamentos. alinhavando conceitos. marchetando as melhores ideias. navegando até a afro-ásia. fuxicando sobre os acadêmicos do candomblé. remando contra a estagnação. sobrepondo o preestabelecido. trapaceando o tempo. espirrando. ouvindo tulipa ruiz.

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lendo sobre quero-queros & corujas buraqueiras à tarde. observando a coruja pousada na madrugada do portão. fotografando o casal de corujas ao amanhecer. desmontando a coruja-joia de hefaístos à meia-noite. flying by night, away from here. ouvindo rush.

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repensando a mitologia grega sob a estética queer. reprovando os métodos de hiperion. curtindo o peitoral & as coxas do teseu do filme de ontem. povoando o olimpo de ursos & barbies & bichinhas saradas & produzidérrimas. invocando a fúria dos titãs. restaurando von gloeden. xerocando tom of finland. desenhando com quaintance. ouvindo lady gaga.

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recolhendo os frutos podres. olhando a chuva balançando as palhas do coqueiro. chamando o vento. assistindo aos rascar dos relâmpagos. juntando o granizo no parapeito das janelas. capturando as descargas elétricas. estremecendo com os trovões de adeen & iansã. ouvindo dorival caymi.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

diário íntimo 3

a cadela dorme. goiabas despencam dos galhos. alguém já viu uma jambósia? guisadinho de boneca no almoço & goiabada cascão de sobremesa. levei um fora. dei o fora. fiquei. ficamos. sigo o conselho & acendo a luz da garagem. ouço paralisado as caixeiras da casa fanti-ashanti.

/ o sol pensa que me engana / trago ele ao meu jeito / ele sai eu me levanto / ele se põe e eu me deito /
/ alecrim cheiroso / angél'ca dobrada / vou sair da estrela / ela foi c'roada /
/ de manhã o sol é rei / meio-dia é rei c'roado / às quatro horas ele é morto / às seis horas sepultado /

compartilho músicas como epílogos. medea-dalila-callas. bachiana-bidu-sayão. freak-le-boom-boom-gretchen. funk-gospel-da-pastora-ana-lúcia. guardo segredos & tabus & contradições. vasculho um blog de homo art. isso existe? ontem o filme trash sci-fi dos anos 50 me provocou pesadelos. qual será o de hoje?

os cães ladram e a diligência passa. como diria o caubói de queixo largo & olhos azuis. ou o bardo elisabetano da cabeleira de cachinhos. ou o maldito piva, não me lembro. carruagem. carroça. carrão preto. karmann ghia. dkw vemag. vou de kombi. de táxi. ando muito nostálgico. o futuro nunca chega.

ouço billie holiday. nina simone. alguém já ouviu com miki howard? here is fruit for the crows to pluck / for the rain to gather, for the wind to suck / for the sun to rot, for the trees to drop / here is a strange and bitter crop. ando tão à flor da pele, como na outra música. frutos amargos. prefiro as goiabas brocadas. as jambósias bicadas pela algazarra das maritacas.

por falar em pássaros houve as andorinhas nos fios tensos. o casal de tucanos cruzando o céu um dia desses. o canário no pé de fruta-do-conde. as corujas & os cancãs & os marrecos aos pares no parque. só não garças.

hora de arrumar as coisas para o dia de amanhã. os papéis secretos. a microcâmera. o teletransportador. a caneta-com-raio-desintegrador. as liguinhas superelásticas. os clipes multiuso. a valise-cápsula-do-tempo. os sapatos-de-pisar-estrelas. a camisa-da-invisibilidade. os ansiolíticos. dar de novo a cara a tapa. o tempo do movimento de expansão das galáxias.

aguardo o próximo feriado.

diário gerúndio de carnaval

sacrificando palomas blancas aos penates & aos lares. decapitando a cabra preta ao rei-dionisos-momo. tomando vinho de palmeira & água de rosas com a sereia desalojada.  lendo sobre a origem dos ewe-fon. ouvindo o rei roberto.

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invocando os préstimos de são lázaro. aplicando mosha nas articulações da cadela. fotografando corujinhas sarapintadas. acolhendo o cão sarnento. engasgando com os marimbondos. ouvindo o mavioso canto da cotovia.

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flanando com benjamin. bebendo com baudelaire no café zurrapa no largo da lapa. fofocando com simone & jean-paul. fodendo com as escravas e os escravos brancos de arthur rimbaud na orgia do beco do mijo. batucando na caixinha um samba antigo. vestindo o saiote do faraó & ouvindo margareth.

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ofertando paçoquinhas diet ao erê no portão logo cedo.

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lendo sobre o ahunguelê das princesas-meninas. pescando estrelas com tarrafa. restaurando constelações de nenúfares. vascolejando os balangandãs da baiana. equilibrando as bananas & o abacaxi & o cacho de uvas no cocuruto. revirando os olhos & arremedando os trejeitos & os meneios da brazilian bombshell. pulando no bloco dos mal-lavados. dançarinando afoxé & maracatu & bumba-meu-boi. sentindo falta da marrom & vadeando com clementina.

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assistindo à decadência dos galãs de hollywood. amando loucamente a namoradinha de um amigo meu. sonhando com keanu reeves & acordando coberto de margaridinhas & peônias & mini-copos-de-leite. tomando umas & outras com a velha-guarda & atravessando o samba da contemporaneidade. ouvindo a saga do anel dos nibelungos.