sábado, 10 de março de 2012

diário íntimo de autoajuda (as 20 coisas que aprendi nos últimos 3 meses)

Hospedar por mais de 3 dias.
Compartilhar espaço & tempo & torradas com alguém que não seja cão, marido ou namorado.
Ser irônico sem ser agressivo.
Demonstrar carinho mesmo que com ironia.
Chamar alguém de borboletinha & admitir isso publicamente.
Conversar trivialidades no café da manhã.
Criticar espezinhando só o mínimo necessário para não aparentar bondade excessiva.
Recolher & dobrar calcinhas do varal.
Aconselhar condutas afetivas plausíveis.
Baixar filmes pelo Torrent.
Receber cuidados & elogios.
Elogiar, mesmo que raramente.
Ser paciente.
Ser mais paciente ainda.
Tomar banho de banheira de sunga com alguém de biquini que não seja marido ou namorado.
Comprar coisas bacanas com pontos de cartão desperdiçados.
Pedir favor sem sentimento de culpa.
Fazer xixi com a porta do banheiro fechada.
Falar sobre aberrações sexuais mais hard sem enrubescer.
Compreender que diferença de idade quase sempre é bobagem.

quinta-feira, 8 de março de 2012

diário íntimo - dia 7 after

em momentos de crise criativa invento personagens de mim.
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ontem foi lua cheia. na madrugada as sombras das árvores contornavam a luz sobrenatural. arrepio-me (!) com pios de curiangos & latidos de cães distantes & volto a dormir.
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hoje friozinho & chuva no final da tarde. filme velho & chato depois da metade com woody allen para sestear. formiga & preguiça os males do brasil são. como dizia o neguinho macunaíma-grande-otelo.
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hoje tem taxi driver & precisamos falar sobre kevin para assistir antes de dormir. juro pelos deuses não publicar minhas opiniões cinematográficas & influenciar pessoas.
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entre o mahjong do celular e ataques à geladeira & fruteira & barras de cereais achocolatadas (trio diet) quase finalizo o capítulo sobre sincretismo & reafricanização. evoé josildeth & reginaldo prandi & sergio ferretti & mãe stella do opô afonjá.
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hora de tomar os glóbulos.
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desmarco médico & dentista. retomo relações antigas. socializo-me. escrevo amargo sobre mulheres & gays. tomo banho com sabonete de ervas. constato a necessidade de entender melhor o fenômeno da fofoca.
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ouço the doors & cozinho batatas para o jantar.

diário gerúndio anti-dia-da-mulher

nadando contra a enxurrada de congratulações. decapitando estereótipos. resmungando contra a hipocrisia reinante. varrendo os glóbulos de isopor da efeméride. jogando a flor-homenagem & o cartão-baboseira na lixeira dos não-recicláveis. abrindo & fechando as pernas quando der vontade. desrespeitando o código social. recusando compactuar com o sexo frágil.  invocando as iyabás & as demais iáiás. beijando a mão da matriarca & altercando por bobagens. maquiando a feminilidade.  borrifando talco de rosáceas & rosmaninhos no bumbum do neném. descartando a mulher como objeto de consumo. parindo manipansos & bichos de pelúcia & ferramentas para construções futuras. atirando a primeira pedra no telhado de vidro alheio. rejeitando as dualidades pobres & desprovidas de criatividade. lendo clarice & hilda logo de manhã. ouvindo as divas.

quarta-feira, 7 de março de 2012

diário íntimo - dia 6 after

Aproveito o repouso forçado para desempenhar a atividade ilegal (!) & criminosa (!) de ver filmes pela internet (mesmo com a prisão do cara do Megaupload pouquíssima coisa mudou). Que fique bem claro: é só entretenimento. Filmes novos (do Oscar) & aqueles que não pude ver quando estavam em cartaz ou não passaram por aqui ou ainda eu era muito criança ou nem era nascido quando foram lançados. De diversas & ecléticas categorias, tais como:

Gênero drama:
* Code Inconnu, (francês, óbvio) bacaninha, politicamente correto, no estilo flashes de histórias que se cruzam.
* Sete dias com Marilyn (My week with Marilyn) autobiografia bobinha por exagerar nos dotes sedutores do roteirista-protagonista, mas com uma convincente ambientação de época.  
* The rum diary, com os americanos voltando a remexer nas feridas do passado político comprometedor & imagens lindas de Porto Rico nos anos 60 (certamente cenários e locações nada-a-ver com o lugar retratado).
* O discurso do rei (The king's speech), um quase-conto de fadas, já elogiado aqui no blog, impecável em tudo (não tive oportunidade & vontade de checar a veracidade histórica).
* The ghost writer,  uma bobagem de Polanski sobre o escritor-fantasma das memórias de um primeiro ministro inglês (com o gatão Ewan McGregor).
* Sem limites (Limitless), as aventuras divertidas de um escritor fracassado que toma uma pílula para ativar os 80% do cérebro que não usamos (é mesmo cientificamente comprovado que a gente só usa 20% da capacidade cerebral?).
* The Wall, de Alan Parker, com roteiro do vocalista e baixista do Pink Floyd - anacrônico, comprido e chato (castigo dos deuses pelo saudosismo dos idos anos 80).
* O filho da noiva (El hijo de na novia), chatérrimo, que me perdoem os fãs do Robeto Darin.

O gênero animação é bem mais legal:
* O gato de botas (Puss-in-boats) adorável.
* Enredados (Tangled), uma versão-livre da história de Rapunzel: 1) o príncipe-ladrão é super-sexy, mesmo para um desenho animado (caramba, como ando carente!) e 2) deixando modéstia de lado, a minha versão literária é bem melhor - leiam!).
* As aventuras de Tintim (The adventures of Tintin) bem bacana a mistura de filme & animação, mas achei muito acelerado e com excesso de informações para os cento e poucos minutos de exibição (será a idade?).

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Ontem baixei e assisti O livro de Eli (The book of Eli). Muito de Mad Max visto há alguns dias. Vale a pena ler a crítica (clique aqui). Para quem ainda não conhece: futuro próximo apocalíptico. Pós-guerra nuclear. A missão do herói-profeta é guardar o único exemplar da Bíblia restante. Cobiçado pelo vilão Carnegie. Que acredita conseguir controlar as massas desgringoladas & desprotegidas & desorientadas com o poder das palavras do Livro e, óbvio, de uma gang obtusa armada até os dentes. Nota 6,5. A melhor cena é a do casal de idosos-meio-hippies que sobreviveu aos ataques dos assassinos-piratas, à radiação solar, à escassez de água, à fome (às custas de canibalismo) em uma fazenda americana típica (só que no meio do deserto). A velha serve um chá à la Alice in wonderland. coloca para tocar em um gramofone Ring my bell (sucesso disco-dance dos anos 80). A cena vale pelo resto do filme, cujo final deixa a desejar.

diário gerúndio moribundo

deixando as barbas de molho. arrancando o mal mas deixando a raiz para arrancar outro dia. dando voltas & mais voltas sem chegar ao cerne. caminhando a passos de tartaruga. encobrindo pistas. neutralizando a incapacidade de concretizar finais felizes. inventando feitos memoráveis. costurando chavões & muletas & lugares-comuns. ouvindo o finado itamar assumpção cantando ataulfo alves.

domingo, 4 de março de 2012

diário con sangre portunhol (dia 3 after)

acordo cedo para beber a primeira água da fonte da juventude. para urinar vidro moído sobre as margaridinhas do jardim de la abuela. para recolher os confetes em forma de estrela e as serpentinas prateadas como caudas de cometa à beira da piscina. antes que marissol adentre esbaforida e me questione: o que foi feito de nuestro futuro? viro o disco (nessa casa onde se proíbem as modernidades & os modernismos). a fonte tinha sido interditada pelas autoridades sanitárias. as margaridinhas tinham sido pisoteadas pelos cafajestes. a empregada já havia recolhido os confetes & as serpentinas no saco de lixo. marissol, diz a voz do outro lado do telefone, sufrió um grave acidente & se murió. nem tive tempo de lhe dizer: o futuro, cariño, nunca chega.

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com o lado cego da faca arranco as penas do pescoço da franga. com o lado chato, bato na pele despenada até a veia aparecer. com o lado afiado corto a jugular & deixo o sangue escorrer da baciinha esmaltada. enquanto isso a água ferve no caldeirão. escaldo a franga para amolecer e arranco o resto das penas. o cheiro de pena ferventada nem sempre agrada. tiro a pele & as unhas dos pés & os separo para a abuela. depeno com cuidado a cabeça & corto a ponta do bico & a reservo para marissol. as coxas rosadas & gorduchas como as coxas da empregada francesa são para o pappy. etc. nada encontro nas entranhas. nenhum anel de formatura no papo. nenhum diamante bruto ou lapidado na moela. nenhum ovo de ouro na cloaca.

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marissol trouxe sorvete de chocolate & refrigerante sabor limão & vários filmes sobre fracassos & fracassados. como tudo isso cai bem nesses tardes de canícula.

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o cão uiva para o gato que sobe no muro atrás do pássaro que bica as goiabas que são devoradas internamente pelas larvas como um câncer.

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por falar em pássaros: a coruja atacou o ninho dos bem-te-vis durante a madrugada. só se ouvia pios desesperados e por fim um gargalhar/gorgulhar vitorioso. o filhote de bem-te-vi virou comida para os lindos & fofos & mais-bonitos-do-mundo filhotes da mãe-coruja. tem também morcegos vegetarianos que cagam sementes de frutos no beiral da janela do meu quarto. mariposas que se atiram como lenços de veludo sujos nas vidraças. miríade de insetos minúsculos & translúcidos que insistem em morrer e encher de cadáveres ocos as arandelas.

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mira, coño! ando meio mórbido nessas noites quentes de verão.

sábado, 3 de março de 2012

diário íntimo - dia 2 after

ouço cícero - canções de apartamento. estendido na cama. leio sobre religiões afro-brasileiras para a dissertação pouco-acadêmica. lembro de chacrinha ou flávio cavalcanti? nos anos 70. o programa terminava com o pessoal da macumba carioca e do candomblé de salvador invadindo a tela. fumacê de defumador & charuto. atabaques e cânticos esquisitos. provavelmente gente bolando. dona olga do alaketu & seu sete da lira. axé.
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como guisadinho de carne moída com tomate & alho poró & purê de inhame diet. vejo carl sagan - cosmos pelo youtube. em 6 partes. por indicação de gente superbacana do facebook. começo dos anos 80? cometas. sistema solar. a atmosfera de vênus carregada de ácido sulfúrico. rochas derretidas na superfície em razão da altíssima temperatura causada pelo efeito-estufa. alerta para os terráqueos. nós não habitamos um planeta descartável.
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evito entrar em contato com o dramático alheio. atendo telefonemas. transfiro ansiedades. tomo glóbulos de arnica. espanto pernilongos. caminho devagar. cuido do cão. arrisco molhar as plantas. faço café. converso com a matriarca sobre lagartas & veterinários & alimentos pastosos. homenageio vivas & mortas pela internet. me alegro com a algazarra das caturritas. chupo bergamotas. tomo chimarrão. sinto saudades da ana. a sereia lê em voz alta caio fernando abreu. ando tão gaúcho nessa tarde quente de verão.