sábado, 17 de março de 2012

(leminski)

um dia sobre nós também
vai cair o esquecimento
como a chuva no telhado
e sermos esquecidos
será quase a felicidade

(la vie en close, 1994)

(leminski - lápide 2 - epitáfio para a alma)

aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

(la vie en close, 1994)

(leminski - lápide 1 - epitáfio para o corpo)

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.

(la vie en close, 1994)

(leminski)

A morte, a gente comemora.
No meu peito, cai a Roma,
que, caída embora,
nenhum bárbaro doma.

As romas que assim tivermos
e os esplendores da pessoa,
a impropriedade dos termos,
a quem doer, doa.

(de: la vie en close, 1994)

22

Pieter Brueghel, O triunfo da Morte, 1562 (detalhe)
















ó morte, tu vens de todas as partes
nos assediar: teu estandarte
tremula sobre o universo inteiro,
ninguém jamais te faz frente
pela força ou pela astúcia, porque
tu sabes muito bem nos aterrorizar.
estejas perto ou longe
com a funda ou com a roqueira,
tu destróis todos os nossos anteparos;
os cargos, tu os calcas aos pés:
tu preparas o caixão antes, lá
onde é esperado muito mais tarde.

(dos Versos da Morte, de Hélinand de Froidmont, escritos no séc. XII, traduzidos por Heitor Megale)

sexta-feira, 16 de março de 2012

33

Hans Baldung, A Morte e a donzela, 1517



















a morte acalma os furiosos
e arrefece os excitados;
os combates, a morte termina
e põe em cruz os falsos cruzados;
a morte resolve todos os processos
e faz encalhar os acordos,
e distingue rosas de espinhos,
palha de grão, farelo de farinha
e vinhos puros de vinhos aguados.
seu olhar atravessa as cortinas,
só a morte sabe e adivinha
exatamente nossas qualidades.

(dos Versos da Morte, de Hélinand de Froidmont, escritos no séc. XII, traduzidos por Heitor Megale)

quinta-feira, 15 de março de 2012

diário de férias do velho sátiro

Vasculho a areia. À procura de pedaços de pentes de ouro das sereias. Seixos. Conchas de formato excêntrico. Garrafas com mensagens de náufragos ou bilhetes apaixonados. Encontro recipientes pet & sacolas de supermercado & canudos coloridos & preservativos no lixo não-reciclado.

...

Garotos para todos os gostos & orçamentos disputam o lugar ao sol. Ou uma espreguiçadeira desocupada. Disfarço o olhar súplice nas franjas do chapéu & nos adereços do anonimato. Mastigo amendoins torrados como se fosse ambrosia. Entre goles de néctar diet.

...

Flecho o ar. Em todas as direções. Atinjo o inesperado. O barulho fofo da presa se esborrachando. Tateio. Encontro. Sujo as pontas dos dedos no sangue da expectativa. 

...

Espio pela fenda do sono & do torpor. A quem se destinam as tantas mensagens que o fauninho escreve?

...

Ah, se ele imaginasse o frio que faz de madrugada nesse lado da cama...