sexta-feira, 13 de abril de 2012
ítaca
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
e que aportes velho, finalmente, à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.
(Konstantinos Kavafis traduzido por Haroldo de Campos)
quinta-feira, 12 de abril de 2012
diário de férias do velho sátiro
Perco a conta dos dias chuvosos e a esperança do estio. Desperdiço a eternidade esperando impossibilidades. Enquanto o extraordinário não chega eu converso sem olhar nos olhos da mulher dos cabelos de serpentes.
...
Recorto olhos das páginas das revistas. Separo os ases dos coringas. Subo e desço escadas carregando rochedos. Decifro palavras borradas de lágrimas e gotas de chuva. Distingo mortos e vivos nas fotografias das férias passadas. Bebo toda a vodca e arroto bilhetes nas garrafas vazias. Gozo nos rabiscos de corações flechados na porta do banheiro. Enfio a cara no travesseiro e rogo pelo fauninho. Adormeço com as harpas do som ambiente e o sinal do telefone ocupado.
...
Com fungos nas reentrâncias. Escoriações na pele das coisas. Parasitas nos pêlos púbicos. Detritos e carcinomas nos cascos. Galáxias de furúnculos no céu da boca. A alma lambuzada de pus e sangue e bile e suor e urina e lava e chumbo derretido.
...
Esqueci o óbolo colado nas pálpebras. Perdi a última barca. Faltarei ao jantar e inventarei desculpas para declinar o pernoite na mansão dos mortos. Perséfone nunca me perdoará.
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Recorto olhos das páginas das revistas. Separo os ases dos coringas. Subo e desço escadas carregando rochedos. Decifro palavras borradas de lágrimas e gotas de chuva. Distingo mortos e vivos nas fotografias das férias passadas. Bebo toda a vodca e arroto bilhetes nas garrafas vazias. Gozo nos rabiscos de corações flechados na porta do banheiro. Enfio a cara no travesseiro e rogo pelo fauninho. Adormeço com as harpas do som ambiente e o sinal do telefone ocupado.
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Com fungos nas reentrâncias. Escoriações na pele das coisas. Parasitas nos pêlos púbicos. Detritos e carcinomas nos cascos. Galáxias de furúnculos no céu da boca. A alma lambuzada de pus e sangue e bile e suor e urina e lava e chumbo derretido.
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Esqueci o óbolo colado nas pálpebras. Perdi a última barca. Faltarei ao jantar e inventarei desculpas para declinar o pernoite na mansão dos mortos. Perséfone nunca me perdoará.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
Sidinei
Meu signo? Velho, eu não suporto essa conversa. Tá a fim de puxar assunto? Pô, velho, eu perdi a mulher por causa disso. Sério. A Sula era dessas. Lia o horóscopo de tudo quanto era site da internet. A primeira coisa que a Sula perguntava quando conhecia alguém era o signo. Pra ver se combinava com o dela. A Sula chegou a recusar serviço porque a patroa era de Gêmeos. Sem noção, velho! A gente enfrentando a pior barra, ela grávida, aluguel atrasado, nome no Serasa, sem um puto na conta pra passar o mês e a doida faz essa maluquice. Deus me perdoe, mas ainda bem que ela perdeu o menino. Teve uma época que ela tava tão doida que ficava até de madrugada na internet fazendo o mapa astral da galera. Vendo quem combinava com quem. Caralho, velho, era foda. Velho, eu não aguentava: "capricorniano, sempre pastando sozinho no alto do morro"; "sagitário adora sexo não convencional"; "canceriano é amor pra toda a vida". Tou até ouvindo a voz dela. Desse jeitinho, velho. Eu não sei como eu consegui aguentar. 5 anos, velho, 5 anos ouvindo aquela bobajada. Um dia ela veio com um papo esquisito. Que o meu mapa com o dela não tinha nada a ver. Que era por isso que a gente não ia pra frente. Que ela se ela tivesse casado com o Sidinei, o cara que ela namorava antes da gente ficar junto, ela não estaria na merda que a gente estava. Velho, bastou. Eu mandei a Sula calar a boca. Levantei a mão, nem sei se bati na cara dela, de tanta raiva que eu tava. Abri o verbo. Que eu sempre dei o maior duro, que nunca faltou arroz nem feijão no prato dela, nem luz nem água nem internet nem cerveja no fim de semana. Que se a gente tava na merda a culpa era dela, que morria de preguiça de tudo, que deixava a casa naquela zona, que nem ovo sabia fritar direito. Que ela enfiasse o horóscopo no rabo, que ela fosse dar a xoxota dela pro Sidinei, que eu não tava nem aí. Que o prazo de validade dela tinha vencido. Que ela sumisse da minha frente. Velho, eu peguei pesado, mas foi a melhor coisa que eu fiz. A Sula não abriu a boca pra dizer um "a". Arrumou as coisas dela pianinho e se mandou sem nem olhar pra minha cara. Não deu duas semanas e já tava morando com o viadinho do Sidinei. Velho, foi rápido demais! Pô, velho, eu vou dizer isso só pra você, que é meu chegado. Será que a história do mapa deles combinando tinha mesmo a ver ou a Sula já me chifrava de muito tempo?
domingo, 8 de abril de 2012
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