terça-feira, 14 de agosto de 2012

as helíades

(...)
Uma delas, Faetusa, a mais velha das irmãs, quando quis se prosternar no chão, queixou-se de sentir os pés entorpecidos. Ao juntar-se a ela, a alva Lampetia foi detida por uma raiz surgida de repente. Uma terceira, quando tentava arrancar os cabelos, ficou com folhas nas mãos. Esta sente as pernas transformadas em troncos, aquela vê os braços se moverem dolorosamente como compridos ramos. E, enquanto todas se surpreendem, a casaca lhes envolve as virilhas e, pouco a pouco, cobre o ventre, o peito, os braços e as mãos, e só lhes ficou livre a boca que chamava pela mãe. Que fazer a mãe, senão deixar-se levar pelo ímpeto que a empurra, e ir de uma a outra, enquanto pode, trocando beijos? Não lhe é suficiente; tenta arrancar-lhes dos troncos os corpos e as mãos, e quebra os frágeis ramos. E dali goteja sangue, tal como de uma ferida. "Piedade, peço-te, minha mãe!", exclama cada uma delas, ao ser ferida. "Piedade, peço-te! Nosso corpo é lacerado na árvore". 
(...)

Ovídio, As metamorfoses

Continho inseguro

Desci e voltei do inferno três vezes durante o tempo ínfimo da tua hesitação em responder que me amava.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

poeminha rancoroso (da série separação de corpos)

te faça menos dano o abraço frio da serpente
que os pensamentos peçonhentos
com os quais te asfixio

desde o primeiro
até o último
de todos os instantes sem você


domingo, 12 de agosto de 2012

dia dos pais


continho de domingo

Passei o dia espanando a poeira da alma. Parando às vezes para olhar o vento na copa das árvores e as abelhas e as borboletas nas flores da cerca-viva. Havia pássaros contra o céu azul, folhas espalhadas no gramado e um pedacinho de mar, longe e também muito azul. Ouvi todo o Bach que havia na casa. Quando me dei conta fazia frio e já tinha anoitecido. Vesti o casaco, aquele velhinho, de malha, que você gostava. No próximo domingo, prometo, tomarei coragem para organizar as fotos da viagem e jogar no lixo o bilhete da tua despedida.

mia couto, antes de nascer o mundo

"Vês como eu fico pequena quando escrevo para ti? É por isso que eu nunca poderia ser poeta. O poeta se engrandece perante a ausência, como se a ausência fosse o seu altar, e ele ficasse maior que a palavra. No meu caso, não, a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim. Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão em tua boca".

sábado, 11 de agosto de 2012

três continhos contritos e resignados

Não vamos dramatizar. Nem a música boa, o encontro com o caso antigo ou a profusão de rosas vermelhas e cor-de-coral da festa de ontem à noite anestesiaram a minha tristeza. Saída estratégica pela direita, como dizia o leão-da-montanha. Recolhi o resto de dignidade que me sobrava e corri pra casa. Enfiei a cabeça na areia e fiquei quietinho, em silêncio, esperando a tristeza passar.

...

Antes mesmo de abrir teu e-mail eu tinha pensado em te ligar (afinal, já faz tanto tempo, a gente é amigo). Para tomar aquele porre, lembrar dos tempos antigos, reclamar do mundo, jurar amizade, amor eternos, confessar situações ridículas da vida de solteiro, chorar no ombro, controlar o tesão e resistir ao beijo da despedida e passar mal o domingo todo, cada um pro seu lado, a cabeça como que implodida por uma bomba de neutrons. Qualquer dia desses a gente combina.

...

Isolda resolveu parir justo no lado vazio da cama, no lado onde você dormia quando nós nos iludíamos que o nosso amor duraria mais tempo do que a gente mesmo acreditava. O que estava fora do roteiro romântico eu te conto agora, enquanto jogo no vaso sanitário os corpos dos dois gatinhos, cujas cabeças a mamãe-gata comeu, assim que nasceram.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

continho despeitado

Jovem, bonita, inteligente. Protelou o futuro promissor. Hoje é nada mais que o troféu principal na vitrine das conquistas do velho rico, famoso e babão.