Eu sempre simpatizei com a TAM. Gratuitamente. Talvez pelos preços, pelo tratamento diferenciado que dava aos passageiros, no início, antes de se tornar uma mega-companhia aérea. Ou pelo sistema de milhagens um pouquinho mais justo que o das outras companhias, ou, sabe-se lá o motivo. Sempre que podia, voava de TAM.
Até o vôo de hoje. JJ3828. Do Rio de Janeiro para Brasília. O incidente ocorrido beirou ao absurdo.
Era passagem comprada em promoção: R$ 99 cada trecho. Bom para companhia, que preenche a aeronave e bom para o passageiro que economiza uns trocados.
Eu estava ciente da regra: passagem de promoção não tem direito a escolher poltrona. O check-in automático me destinou o lugar 11F. Beleza, na frente. Acomodei a bagagem, sentei-me, prendi o cinto de segurança e retomei a leitura iniciada na sala de espera.
O vôo estava vazio, sábado à noite, talvez 2/3 dos lugares preenchidos.
Todo mundo conhece o extremo incômodo de uma viagem dessas, mesmo que por 90 minutos. Espaço mínimo, pernas encolhidas, coluna vertebral maltratada. Às vezes eu nem reclino a poltrona, porque não adianta e ainda piora a situação do passageiro de trás.
Porém, pouco depois da decolagem, o passageiro da frente baixou a sua, fixando o encosto a uma distância de pouco mais de 10 centímetros da minha cabeça. Para não ser esmagado e conseguir continuar a leitura, tentei ganhar espaço reclinando também a minha. Sem êxito, pois a minha era fixa.
Resignei-me. E me adaptei à situação.
No entanto, lá pelo meio da viagem, olhei para trás e constatei que duas fileiras, de ambos os lados do corredor, estavam vazias.
Me acomodei em um daqueles lugares. Mal abri o livro, fui interrompido pela comissária me perguntando se aquela era a minha poltrona. Educadamente respondi que não, mas como a minha não reclinava e aquelas estavam vazias, tinha tomado a liberdade de mudar.
A moça nem disfarçou a impaciência de explicar o inexplicável: aqueles lugares estavam reservados para pessoas que pagaram por eles. Só que essas pessoas não haviam comprado os lugares, argumentei, e provavelmente não os reivindicariam, ali, a não-sei-quantos-mil-pés de altura. Inocente, até me dispus a negociar a diferença de valor. A moça foi irredutível. Não havia argumentos. Nem pagando. Era a política da empresa. Os nove lugares permaneceriam vazios e ponto final.
Custava muito ela me deixar ali, nos 45 minutos restantes da viagem, como um bônus, um agrado, um cala-boca, em nome da empresa, a um cliente com dor no pescoço?
A situação merecia um barraco. Mas mantive a classe. Ridiculamente, disse que registraria a reclamação. Voltei ao 11F, abri o livro e demorei a me concentrar na leitura, de tanta indignação.
Primeira lição da moça-empresa: pobre (leia-se “quem compra passagem em promoção”) tem mais é que se ferrar. Espremer-se, pra deixar de ser pão-duro.
Não acabou por aí. Minutos depois, vem o carrinho do lanche. Não abri a bandeja (sinal de que não desejava comer) e continuei lendo. Pois a moça, a mesma, sem me olhar ou perguntar o que eu queria, literalmente jogou o lanche na minha direção. Da mesma forma que se joga um peixe a uma foca ou um osso a um cão.
Era demais.
Devolvi lanche. Se fosse estourado, enfiava a porcaria do lanche carrinho adentro, goela adentro da moça mal-educada (morena, bonita, rabo-de-cavalo – de tanta raiva nem li o nome dela no crachá) que falava, agia e estava sendo extremamente grosseira - em nome da TAM.
Então compreendi o bordão da empresa, mais ou menos como: “o passageiro é quem escolhe a companhia pela qual deseja voar”.
Traduzindo: Passageiro, adeque-se aos nossos maus serviços, à grosseria de uma ou outra de nossas funcionárias, porque agora que a gente cresceu, a gente é quem manda. Não reclame, não reivindique. Se não gostar, dane-se, você tem toda a liberdade de procurar outra.
Segui o conselho. Escolhi. Espero não voar mais pela TAM.
domingo, 26 de agosto de 2012
sábado, 18 de agosto de 2012
estante
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
lugares - chiloé & pedro lemebel
![]() |
| Trauco |
Caiu em Chiloé. No meio do Chile. Eu nunca tinha ouvido
falar.
...
Primeira parada, Santiago: pontos turísticos, shopping,
museus, parques, cerros, vinho, teleféricos, baladas e o rio Mapocho
cascateando rápido, gelado, direto da Cordilheira, pano de fundo majestoso da
cidade.
Segunda parada, Valparaiso: pontos turísticos, museus, cerros, vinho, baladas, casas de madeira em cores vivas contra o mar azul-escuro ao fundo, pelas janelas dos ascensores.
...
Chiloé uma linda região. Conhecida pelo Parque Nacional, pelos vulcões cobertos de neve e pelas igrejas de madeira, delicadas como brinquedos de outro tempo (segundo os guias turísticos, elas foram erguidas por encaixe das peças, sem utilizar pregos). Vi e ouvi rappers-índios em uma praça com o mar azul-cinzento ao fundo. Comi curanto (mariscos, charque, carne de porco, e batatas assados em um buraco na terra coberto por folhas gigantes de uma planta local, preparado por pescadores mapuches). Escrevi postais e diário na plaza de Ancud, rodeado por seres mitológicos chilotas. Conheci uma trupe de teatro. Dormi com eles no sótão de uma palafita. Quase me apaixonei. Etcétera.
Mas foi em Castro, enquanto esperava a barca que me levaria de volta ao continente, já no fim da viagem, que a viagem propriamente dita aconteceu. Em uma livraria de shopping.
...
Eu conhecia pouco mais que o escolar da literatura chilena:
Neruda, Gabriela Mistral e Isabel Allende (que é limenha de nascimento). Desta,
tinha lido a Casa dos Espíritos e comprado Eva Luna e Hija de La Fortuna para ler na viagem.
Revirando as estantes, chamou atenção uma capa com coração vermelho preenchido com balas douradas de fuzil: Tengo miedo torero, de Pedro Lemebel. Além dele, Adiós Mariquita linda (Lemebel maquiado de Frida Kahlo na capa); Loco afan - crônicas de sidario (Lemebel e Francisco Casas - que formavam o grupo performático Las Yeguas del apocalipsis - posando de “As duas Fridas”) .
...
Pedro Lemebel é um dos grandes autores chilenos. Nasceu na
metade dos anos 50. Viveu a contracultura, o fim do sonho socialista de Allende,
a ditadura de Pinochet. La loca militante:
homossexual; comunista; poeta; performer; travesti.
Eu me identifiquei de imediato. Primeiro por causa dos títulos: Tengo miedo torero e Adiós Mariquita linda são canções populares, bolerões, típico gosto queer latino. Depois por causa do texto em si: fluente, fácil, verdadeiro, intenso, político, contundente, excessivo, trágico, rude, barroco e acima de tudo, humano e bem humorado.
Os últimos momentos de uma loca sidosa (assim mesmo, no dialeto cru dos travestis, “mona aidética”) em "El último beso de Loba Lamar" é considerada uma das mortes mais cômicas da literatura.
Em uma cena do documentário Corazon en fuga (Veronica Quense, 2008), Lemebel fala sobre ela (a morte), enquanto gravavam seu nome em um epitáfio, no túmulo dos pais. “É estranho colocar o nome de uma pessoa viva ao lado dos nomes dos mortos”, mais ou menos o que ele diz; “na verdade, eu nunca saí daqui”.
...
Há lugares que desenham roteiros sensoriais na geografia da memória.
Colorem os trajetos com sensações, paisagens, aromas, temperos, sonoridades. Os 10 dias em Chiloé percorreram trajeto menos
exuberante. Era como se a cada trecho de estrada percorrido, a cada parada à
beira de um precipício, a cada mirada ao vulcão ao longe, a cada pouso após a
jornada, a cada beijo do amante ocasional, a cada crônica lida, fossem
encravadas na carne da alma os minúsculos traucos,
sirenas e pincoyas
de pedra concágua das metáforas e das imagens do Chile de Pedro Lemebel.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
as helíades
(...)
Uma delas, Faetusa, a mais velha das irmãs, quando quis se prosternar no chão, queixou-se de sentir os pés entorpecidos. Ao juntar-se a ela, a alva Lampetia foi detida por uma raiz surgida de repente. Uma terceira, quando tentava arrancar os cabelos, ficou com folhas nas mãos. Esta sente as pernas transformadas em troncos, aquela vê os braços se moverem dolorosamente como compridos ramos. E, enquanto todas se surpreendem, a casaca lhes envolve as virilhas e, pouco a pouco, cobre o ventre, o peito, os braços e as mãos, e só lhes ficou livre a boca que chamava pela mãe. Que fazer a mãe, senão deixar-se levar pelo ímpeto que a empurra, e ir de uma a outra, enquanto pode, trocando beijos? Não lhe é suficiente; tenta arrancar-lhes dos troncos os corpos e as mãos, e quebra os frágeis ramos. E dali goteja sangue, tal como de uma ferida. "Piedade, peço-te, minha mãe!", exclama cada uma delas, ao ser ferida. "Piedade, peço-te! Nosso corpo é lacerado na árvore".
(...)
Ovídio, As metamorfoses
Uma delas, Faetusa, a mais velha das irmãs, quando quis se prosternar no chão, queixou-se de sentir os pés entorpecidos. Ao juntar-se a ela, a alva Lampetia foi detida por uma raiz surgida de repente. Uma terceira, quando tentava arrancar os cabelos, ficou com folhas nas mãos. Esta sente as pernas transformadas em troncos, aquela vê os braços se moverem dolorosamente como compridos ramos. E, enquanto todas se surpreendem, a casaca lhes envolve as virilhas e, pouco a pouco, cobre o ventre, o peito, os braços e as mãos, e só lhes ficou livre a boca que chamava pela mãe. Que fazer a mãe, senão deixar-se levar pelo ímpeto que a empurra, e ir de uma a outra, enquanto pode, trocando beijos? Não lhe é suficiente; tenta arrancar-lhes dos troncos os corpos e as mãos, e quebra os frágeis ramos. E dali goteja sangue, tal como de uma ferida. "Piedade, peço-te, minha mãe!", exclama cada uma delas, ao ser ferida. "Piedade, peço-te! Nosso corpo é lacerado na árvore".
(...)
Ovídio, As metamorfoses
Continho inseguro
Desci e voltei do inferno três vezes durante o tempo ínfimo da tua hesitação em responder que me amava.
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