da água eu trouxe caracóis translúcidos
do mar de aral, sereias mulatas da ilha de itaparica, tritões de pele escorregadia, cavalgaduras de hipocampos das profundezas de posídon, atlantes musculosos com nadadeiras nos calcanhares, guelras prateadas no
lugar das orelhas e sexo recoberto de coral e nácar - e você mandou congelar no freezer
da terra eu trouxe um lagarto de pele cor-de-cobre, língua espinhosa lança-chamas e crista fosforescente, um casal de cobras-najas engastadas em cristal e lápis-lazuli, um gato vira-lata de pêlo rajado e olhos de turquesa, um jumentinho cor-de-areia, uma vaquinha malhada e um carneirinho de algodão para compor a manjedoura na época do natal e você mandou guardar no quarto de despejo, pois a empregada tinha acabado de varrer o chão da sala
do ar eu trouxe pavões e patos-mandarins, garças brancas e flamingos da cor do amanhecer, aves-do-paraíso mais cintilantes que o broche usado por tua mãe no dia do nosso casamento, borboletas de asas de açúcar-de-confeiteiro, vagalumes empanturrados de luz para piscar no escuro da nossa cama, perfume francês, incenso indiano e defumador da áfrica para harmonizar o espaço das nossas discórdias, e você nem abriu a caixa, se eu soubesse da tua alergia tinha cancelado o pedido
do fogo só restou a intensidade do meu desejo, a abrangência do meu amor e a incandescência do meu tesão - que você fez questão de apagar com a cusparada de escárnio na minha cara quando eu quis te arrancar o beijo de despedida
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
lista de presentes para o amante ausente
eu te compraria um álbum, daqueles com capa de couro desbotado e cordões de seda com pingentes nas pontas, fotografias de pessoas mortas, lugares soterrados e dos nossos momentos felizes, fixadas por cantoneiras de papel-veludo em folhas de cartolina verde-musgo, separadas umas das outras por folhas de papel-manteiga
eu contrataria aquele músico cego e mudo para tocar só para você, aquele, do programa da televisão, para extrair sons-acordes do infinito, dos anjos, das estrelas e das profundezas ao friccionar de leve, com as pontas dos dedos molhadas em vinho rosê, as bordas de taças de cristal de tamanhos, cores e formatos variados
eu te tatuaria na superfície inteira da minha pele, tuas costas nas minhas costas, os pêlos das tuas pernas nas minhas pernas lisas, o teu tórax e os teus mamilos no meu peito de tuberculoso, a tua boca, o teu nariz e o teu rosto na máscara tosca do meu rosto, o teu saco, o teu pau e os teus pentelhos no arremedo que é meu sexo sem você
eu te daria um aparelho telefônico que só chamasse o meu número, uma bola de cristal que previsse o teu futuro ao meu lado, chaves que te abrissem os meus segredos mais escabrosos, sapatos com asas que te levassem cada vez mais longe dos meus pesadelos, uma cota de malha que te protegesse dos ferimentos do meu punhalzinho com cabo de madrepérola
eu contrataria aquele músico cego e mudo para tocar só para você, aquele, do programa da televisão, para extrair sons-acordes do infinito, dos anjos, das estrelas e das profundezas ao friccionar de leve, com as pontas dos dedos molhadas em vinho rosê, as bordas de taças de cristal de tamanhos, cores e formatos variados
eu te tatuaria na superfície inteira da minha pele, tuas costas nas minhas costas, os pêlos das tuas pernas nas minhas pernas lisas, o teu tórax e os teus mamilos no meu peito de tuberculoso, a tua boca, o teu nariz e o teu rosto na máscara tosca do meu rosto, o teu saco, o teu pau e os teus pentelhos no arremedo que é meu sexo sem você
eu te daria um aparelho telefônico que só chamasse o meu número, uma bola de cristal que previsse o teu futuro ao meu lado, chaves que te abrissem os meus segredos mais escabrosos, sapatos com asas que te levassem cada vez mais longe dos meus pesadelos, uma cota de malha que te protegesse dos ferimentos do meu punhalzinho com cabo de madrepérola
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
gotas de sabedoria 2
Vemos a perfeição dos objetos, mas ignoramos a qualidade deles, por isso os amamos, porque o amor quase sempre foge, assim que conhece a natureza do que ama. Os antigos pintaram ao amor cego, talvez para mostrar que o amor para ser confiante, é preciso que seja incapaz de ver, e que a falta de luz lhe sirva de prisão. Muitas coisas estimamos somente porque as não conhecemos, e outras porque as não conhecemos, as não estimamos; tanto é certo que não há nada certo no mundo; nos mesmos princípios se fundam muitas coisas contrárias, e opostas entre si.
(fragmento 97 das reflexões sobre a vaidade dos homens, matias aires ramos da silva de eça)
(fragmento 97 das reflexões sobre a vaidade dos homens, matias aires ramos da silva de eça)
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
gotas de sabedoria
O aplauso é o ídolo da vaidade, por isso as ações heróicas não se fazem em segredo, e por meio delas procuramos que os homens formem de nós o mesmo conceito, que temos nós de nós mesmos. Raras vezes fomos generosos, só pela generosidade, nem valorosos só pelo valor.
A vaidade nos propõe, que o mundo do todo se aplica em registrar os nossos; para este mundo é que obramos; por isso há muita diferença de um homem, a ele mesmo; posto no retiro é um homem comum, e muitas vezes ainda com menos talento que o comum dos homens; portém, posto em parte donde o vejam, todo é ação, movimento, esforço.
Nunca mostramos o que somos, senão quando entendemos que ninguém nos vê, e isto porque não exercitamos as virtudes pela excelência delas, mas pela honra do exercício, nem deixamos de ser maus pela aversão ao mal, mas pelo que se segue e o ser. (...) de sorte que somos bons, é por causa dos mais homens, e não por nossa causa; (...) a dificuldade não está em persuadir a nossa vontade, mas o nosso receio.
(...)
A vaidade não teme as coisas pelo que são, mas pelo que se há de dizer delas;
(...)
Quem disse que o amor é cego, errou; mais certo é ser cega a vaidade. O emprego do amor é a formosura, e quem nunca a viu como a há de amar? No amor há uma escolha, ou eleição, e quem não vê, não distingue, nem elege; o amor vem por natureza, a vaidade por contágio; o amor busca uma felicidade física, e por consequência, material e visível; a vaidade busca um bem de ideia, e fantasia, e por consequência, cego.
(...)
Há porém na vaidade a diferença, que tudo o que se faz por vaidade, queremos que se veja, que se diga, e que se saiba; então é fortuna a publicidade, se é que nos parece, que o mundo inteiro não basta para testemunha; daqui vem que um furor heróico até chega a invocar o céu e a terra, para estarem atentos a uma ação; como tudo se faz pelo estímulo da vaidade, por isso se julga perdida uma façanha, que não tem quem a divulgue; como se um ato generoso consistisse mais em se saber do que se obrar. A vaidade que nos move, não é pela substância da virtude, mas pela glória dela.
(fragmento 68, reflexões sobre a vaidade dos homens, de matias aires ramos da silva eça)
A vaidade nos propõe, que o mundo do todo se aplica em registrar os nossos; para este mundo é que obramos; por isso há muita diferença de um homem, a ele mesmo; posto no retiro é um homem comum, e muitas vezes ainda com menos talento que o comum dos homens; portém, posto em parte donde o vejam, todo é ação, movimento, esforço.
Nunca mostramos o que somos, senão quando entendemos que ninguém nos vê, e isto porque não exercitamos as virtudes pela excelência delas, mas pela honra do exercício, nem deixamos de ser maus pela aversão ao mal, mas pelo que se segue e o ser. (...) de sorte que somos bons, é por causa dos mais homens, e não por nossa causa; (...) a dificuldade não está em persuadir a nossa vontade, mas o nosso receio.
(...)
A vaidade não teme as coisas pelo que são, mas pelo que se há de dizer delas;
(...)
Quem disse que o amor é cego, errou; mais certo é ser cega a vaidade. O emprego do amor é a formosura, e quem nunca a viu como a há de amar? No amor há uma escolha, ou eleição, e quem não vê, não distingue, nem elege; o amor vem por natureza, a vaidade por contágio; o amor busca uma felicidade física, e por consequência, material e visível; a vaidade busca um bem de ideia, e fantasia, e por consequência, cego.
(...)
Há porém na vaidade a diferença, que tudo o que se faz por vaidade, queremos que se veja, que se diga, e que se saiba; então é fortuna a publicidade, se é que nos parece, que o mundo inteiro não basta para testemunha; daqui vem que um furor heróico até chega a invocar o céu e a terra, para estarem atentos a uma ação; como tudo se faz pelo estímulo da vaidade, por isso se julga perdida uma façanha, que não tem quem a divulgue; como se um ato generoso consistisse mais em se saber do que se obrar. A vaidade que nos move, não é pela substância da virtude, mas pela glória dela.
(fragmento 68, reflexões sobre a vaidade dos homens, de matias aires ramos da silva eça)
terça-feira, 28 de agosto de 2012
samba-canção da presença e da ausência
Não, eu não me incomodo de você dizer pra todo mundo que eu fui ingrato.
Por não te agradecer pela lanterna que dispensa o uso de pilhas; o espanta-mosquitos de ondas ultra ou infrasônicas (desculpe, eu nunca fui bom em física); os organizadores de gavetas, que nunca chegaram a separar as minhas cuecas das tuas; o cão de pelúcia que ressonava, teu presente de aniversário do nosso primeiro mês de namoro.
Porque nada daquilo preenchia o vazio, o buraco escuro que, desde o primeiro dia, a tua ausência pressentida cavava, com uma colherinha de chá, a minha solidão.
Por não te agradecer pela lanterna que dispensa o uso de pilhas; o espanta-mosquitos de ondas ultra ou infrasônicas (desculpe, eu nunca fui bom em física); os organizadores de gavetas, que nunca chegaram a separar as minhas cuecas das tuas; o cão de pelúcia que ressonava, teu presente de aniversário do nosso primeiro mês de namoro.
Porque nada daquilo preenchia o vazio, o buraco escuro que, desde o primeiro dia, a tua ausência pressentida cavava, com uma colherinha de chá, a minha solidão.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
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