sexta-feira, 7 de setembro de 2012

imagens da seca 1








a resposta da mensagem



quem acordou foi o eu do sonho - o celular apitou no sonho - lembra? eu dormindo e sonhando que dormia no colchão inflável, na praia de cascalhos?

você se lembra quando aquele nosso amigo que estudava psicanálise - ou era semiótica? - não importa - você se lembra da explicação sobre sonhos?

a memória é uma esponja que absorve os acontecimentos no inconsciente e durante o sono o inconsciente é espremido e o caldinho são os fatos insignificantes do dia a dia misturados com memórias remotas e as emoções, as sensações, os sentimentos - tudo é transformado em sequências de imagens aparentemente lógicas dentro da lógica ilógica do sonho

pois quem acordou com o apito do celular foi o eu do sonho, eu tinha visto o preço do colchão inflável, a lembrança de nós dois no sul da bahia, a foto da cornualha

eu nunca escreveria em blog, eu detesto internet, em nenhuma hipótese, você nunca me mandaria aquela mensagem - mesmo que eu quisesse, eu não escreveria sobre a nossa intimidade

eu queria acordar do sonho anterior a esse sono de sonho dentro do sonho, eu queria acordar do pesadelo que é a tua ausência

amanhã sem falta eu tirarei uma folga para colocar este texto junto com as azaleias que você tanto gostava no vaso que tua mãe mandou cimentar sobre o granito do teu jazigo

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

a mensagem





cheguei extenuado das compras - você sabe que eu detesto ir ao super-mercado sozinho - ainda mais durante o dia - e que dia! - que falta faz você que não deixava acabar as provisões - cheguei extenuado das compras, depois de enfrentar o trânsito engarrafado e a canícula e a secura - porque eu protelei o conserto do ar-condicionado do carro? - pois mesmo extenuado eu tirei as compras do porta-malas


eu subi as compras pelo elevador social, porque o de serviço estava parado no sexto andar - eu guardei as compras nas prateleiras da despensa como você organizou - o leite e os sucos de caixinha tetra-pack - a prateleira das conservas - as azeitonas pretas e as azeitonas verdes ao lado do azeite, os champinhons ao lado das latas de milho e da seleta de legumes, a prateleira dos extratos de tomate, dos molhos pré-cozidos - despejei os grãos nos vidros como você ensinou - o arroz no vidro grande, o feijão e o grão-de-bico nos médios, e as lentilhas da prosperidade no vidro pequeno

fora a arrumação da geladeira que eu nem vou descrever porque ninguém terá paciência de ler

depois eu já não aguentava mais - como eu te disse no começo eu estava exaurido mesmo antes das compras ou do tráfego ou da arrumação - eu tomei um banho frio e me deitei na nossa cama, pelado, molhado, do jeito que a gente fazia no verão em guarapari no começo, e depois quando a gente foi de férias para a europa, em maiorca, no alentejo, pois eu tomei o banho frio, liguei o ventilador e me deitei pelado, sem me enxugar - só não fiz o que a gente fazia antes de dormir - porque mesmo querendo eu não consigo sem você - eu me deitei pelado e molhado e dormi na hora

eu dormi e sonhei - eu sonhei com a época que a gente era mais novo - que a gente saía de mochila e barraca nas costas - que a gente dormia em albergue em camping ou mesmo sob o céu olhando as estrelas - você se lembra daquela vez no sul da bahia? - pois eu sonhei que a gente era mais novo e eu estendia o colchão inflável naquela praia de seixos redondos com mar muito azul - em cadiz ou na grécia - eu sonhei que me deitava no colchão inflável na praia de cascalhos redondos e dormia e sonhava - já te aconteceu isso, de sonhar dentro do sonho?

acordei com o apito do celular  - era uma mensagem - tua mensagem me pedindo - pedindo não, ordenando, pois não havia por-favor no texto - me ordenando parar de postar esssa chorumela no blog - você aprendeu essa palavra comigo? - para eu parar de escrever sobre o fim do nosso relacionamento - eu concordo, isso não é roupa para se lavar em público - e que em nenhum momento eu me preocupei com você, com o que você poderia estar sentindo - você não perdeu o vício do gerundismo - com o teu sofrimento - etc, etc, etc

eu fiquei passado, eu fiquei atônito - pois como te disse eu sonhava um sonho dentro do sonho quando o celular apitou - me deu vontade  de chorar, de te ligar de volta, de apagar, de te dizer que quase ninguém - talvez você e uma meia-dúzia de gatos pingados lê o meu blog - mas respirei fundo, recorri à fleuma dos antepassados ingleses, retomei o controle, o sangue-frio, pensei melhor e decidi te responder só amanhã

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

rejeição

da água eu trouxe caracóis translúcidos do mar de aral, sereias mulatas da ilha de itaparica, tritões de pele escorregadia, cavalgaduras de hipocampos das profundezas de posídon, atlantes musculosos com nadadeiras nos calcanhares, guelras prateadas no lugar das orelhas e sexo recoberto de coral e nácar - e você mandou congelar no freezer

da terra eu trouxe um lagarto de pele cor-de-cobre, língua espinhosa lança-chamas e crista fosforescente, um casal de cobras-najas engastadas em cristal e lápis-lazuli, um gato vira-lata de pêlo rajado e olhos de turquesa, um jumentinho cor-de-areia, uma vaquinha malhada e um carneirinho de algodão para compor a manjedoura na época do natal e você mandou guardar no quarto de despejo, pois a empregada tinha acabado de varrer o chão da sala

do ar eu trouxe pavões e patos-mandarins, garças brancas e flamingos da cor do amanhecer, aves-do-paraíso mais cintilantes que o broche usado por tua mãe no dia do nosso casamento, borboletas de asas de açúcar-de-confeiteiro, vagalumes empanturrados de luz para piscar no escuro da nossa cama, perfume francês, incenso indiano e defumador da áfrica para harmonizar o espaço das nossas discórdias, e você nem abriu a caixa, se eu soubesse da tua alergia tinha cancelado o pedido

do fogo só restou a intensidade do meu desejo, a abrangência do meu amor e a incandescência do meu tesão - que você fez questão de apagar com a cusparada de escárnio na minha cara quando eu quis te arrancar o beijo de despedida

terça-feira, 4 de setembro de 2012

lista de presentes para o amante ausente

eu te compraria um álbum, daqueles com capa de couro desbotado e cordões de seda com pingentes  nas pontas, fotografias de pessoas mortas, lugares soterrados e dos nossos momentos felizes, fixadas por cantoneiras de papel-veludo em folhas de cartolina verde-musgo, separadas umas das outras por folhas de papel-manteiga

eu contrataria aquele músico cego e mudo para tocar só para você, aquele, do programa da televisão, para extrair sons-acordes do infinito, dos anjos, das estrelas e das profundezas ao friccionar de leve, com as pontas dos dedos molhadas em vinho rosê, as bordas de taças de cristal de tamanhos, cores e formatos variados

eu te tatuaria na superfície inteira da minha pele, tuas costas nas minhas costas, os pêlos das tuas pernas nas minhas pernas lisas, o teu tórax e os teus mamilos no meu peito de tuberculoso, a tua boca, o teu nariz e o teu rosto na máscara tosca do meu rosto, o teu saco, o teu pau e os teus pentelhos no arremedo que é meu sexo sem você

eu te daria um aparelho telefônico que só chamasse o meu número, uma bola de cristal que previsse o teu futuro ao meu lado, chaves que te abrissem os meus segredos mais escabrosos, sapatos com asas que te levassem cada vez mais longe dos meus pesadelos, uma cota de malha que te protegesse dos ferimentos do meu punhalzinho com cabo de madrepérola




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

gotas de sabedoria 2

Vemos a perfeição dos objetos, mas ignoramos a qualidade deles, por isso os amamos, porque o amor quase sempre foge, assim que conhece a natureza do que ama. Os antigos pintaram ao amor cego, talvez para mostrar que o amor para ser confiante, é preciso que seja incapaz de ver, e que a falta de luz lhe sirva de prisão. Muitas coisas estimamos somente porque as não conhecemos, e outras porque as não conhecemos, as não estimamos; tanto é certo que não há nada certo no mundo; nos mesmos princípios se fundam muitas coisas contrárias, e opostas entre si.

(fragmento 97 das reflexões sobre a vaidade dos homens, matias aires ramos da silva de eça)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

gotas de sabedoria

O aplauso é o ídolo da vaidade, por isso as ações heróicas não se fazem em segredo, e por meio delas procuramos que os homens formem de nós o mesmo conceito, que temos nós de nós mesmos. Raras vezes fomos generosos, só pela generosidade, nem valorosos só pelo valor.

A vaidade nos propõe, que o mundo do todo se aplica em registrar os nossos; para este mundo é que obramos; por isso há muita diferença de um homem, a ele mesmo; posto no retiro é um homem comum, e muitas vezes ainda com menos talento que o comum dos homens; portém, posto em parte donde o vejam, todo é ação, movimento, esforço.

Nunca mostramos o que somos, senão quando entendemos que ninguém nos vê, e isto porque não exercitamos as virtudes pela excelência delas, mas pela honra do exercício, nem deixamos de ser maus pela aversão ao mal, mas pelo que se segue e o ser. (...) de sorte que somos bons, é por causa dos mais homens, e não por nossa causa; (...) a dificuldade não está em persuadir a nossa vontade, mas o nosso receio

(...)

A vaidade não teme as coisas pelo que são, mas pelo que se há de dizer delas;

(...)

Quem disse que o amor é cego, errou; mais certo é ser cega a vaidade. O emprego do amor é a formosura, e quem nunca a viu como a há de amar? No amor há uma escolha, ou eleição, e quem não vê, não distingue, nem elege; o amor vem por natureza, a vaidade por contágio; o amor busca uma felicidade física, e por consequência, material e visível; a vaidade busca um bem de ideia, e fantasia, e por consequência, cego.

(...)

Há porém na vaidade a diferença, que tudo o que se faz por vaidade, queremos que se veja, que se diga, e que se saiba; então é fortuna a publicidade, se é que nos parece, que o mundo inteiro não basta para testemunha; daqui vem que um furor heróico até chega a invocar o céu e a terra, para estarem atentos a uma ação; como tudo se faz pelo estímulo da vaidade, por isso se julga perdida uma façanha, que não tem quem a divulgue; como se um ato generoso consistisse mais em se saber do que se obrar. A vaidade que nos move, não é pela substância da virtude, mas pela glória dela.

(fragmento 68, reflexões sobre a vaidade dos homens, de matias aires ramos da silva eça)