sábado, 15 de setembro de 2012

crônica do consumidor

Nadar pra mim é um mix de condicionamento físico e faxina mental. A monotonia do ir, bater na borda e voltar durante 1 hora ou 2 me faz tão bem quanto uma meditação. Para isso, me associei à AABB: piscina olímpica, limpa, aquecida e sistema de purificação da água sem uso de cloro.

Tento manter a regularidade, 3, 4 vezes por semana. Geralmente nos finais de tarde e nas manhãs dos finais de semana. Nos sábados e domingos eu chego cedo, antes das 10h, por que tem pouca gente, o som-ambiente do bar ainda não está ligado e o sol é saudável (mesmo assim eu me besunto de filtro solar).

Pois bem, hoje eu me atrasei. Cheguei no clube por volta das 10h. Um ônibus de turismo ocupava 10 vagas no estacionamento; adesivado em letras gigantes: "Foi Deus quem me deu".

Me alonguei, tomei a ducha, aqueci 500 metros e estranhei a música gospel, vinda não dos autofalantes da lanchonete, mas do salão social.

Exerci a tolerância bem humorada: estavam dando uma folguinha para o pagode, que normalmente toca o dia inteiro. Nadei até completar os 2.000. Fiz educativos de pernas. Até me aventurei umas braçadas de golfinho.

Só que o volume da música, inicialmente suportável, começou a aumentar. Era um show evangélico. A certa altura, a cantora gritava, no meio da música "jesus! glória! aleluia!" etc. Cantava mais uma estrofe e prosseguia a gritaria. Histericamente. O operador de som também se empolgava, pois quanto mais a moça gritava mais ele aumentava o volume.

O pavio da minha tolerância é curto. Minha malhação-meditação tinha ido por água abaixo. Olhei em volta: os salva-vidas indiferentes; as espreguiçadeiras e os guardassóis já todos ocupados pelos banhistas; peitos e bundas, bronzeador, chapéus, sungas estampadas, crianças correndo, pulando na água. Será que a gritaria da cantora só incomodava a mim?

Foi quando ouvi o comentário embevecido de duas funcionárias: "que lindo! vai durar o dia todo!".

Aí subi nas tamancas. Fui procurar um dos diretores de plantão. Afinal de contas eu sou sócio. Entendo que além das mensalidades dos associados, um clube vive de alugar seus espaços. Mas, convenhamos, em horários adequados. Eu me senti (e sinto) no direito de reclamar. De manifestar meu desagrado.

Não encontrei ninguém. Deviam estar no show.

Show? para quem?

Puro proselitismo. Em plena manhã de sábado. Tolerar a diversidade, tudo bem, ainda mais eu, que acabei de escrever um livro sobre candomblé. Mas ser obrigado a entupir o meu ouvido com aquela estridência vocal de decibéis potencializada, me desculpem o lugar-comum, eu não merecia.

Desisti. Fui tomar banho. Felizmente o vestiário é afastado. A voz esguelada da doida não alcançava. E fugi dali o mais rápido possível. Como o diabo foge da cruz.

(Vou mandar esse texto para a diretoria do clube. Sei que não vai dar em nada, como não deu em nada aquela reclamação da TAM. Mas não posso deixar passar em branco, exercer meu papel de consumidor e cidadão).

(parêntesis)

Antes de qualquer conclusão precipitada, o que te escrevo é ficção. Diários eu deixo para anotar à mão, nos caderninhos, nos blocos, nos pretensiosos molesquines que nunca serão lidos, ou nos e-mails que apago antes de te enviar. Nesses posts hiperbólicos, exacerbados e desiludidos eu não exponho as vísceras, minhas e tuas. É pura narrativa, exercício, especulação. Desse personagem-eu (conto? poema? novela? romance?) surgirá o texto a descrever o verdadeiro tormento - paixão, desespero perda e resignação - conclusivo. Escrever o que me resta de você me estabiliza, para me desestabilizar em seguida. Meu equilíbrio sem o teu contrapeso é tão instantâneo e momentâneo que qualquer palavra que eu te diga/escreva dará sempre a sensação de oco, frágil, insustentável, ilusão.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

poema-prosa da incapacidade

eu te tenho escrito tão melado, tão excessivo, tão encharcado, tão sentimental - o excesso de imagens, metáforas de gosto questionável, adjetivos e advérbios, frases intermináveis intercaladas, separadas por vírgulas, elipses e anacolutos como fibroses na pele do texto

eu tenho te escrito como se soluçasse, como se tartamudeasse ditongos e hiatos, como se não soubesse o que dizer e dissesse assim mesmo, como se repetisse, apenas invertendo a ordem, sequências monocórdias de signos, de palavras esquisitas do dicionário, como se encobrisse o cheiro azedo da angústia com óleo de pétalas de rosas ou raspasse o ouro que reveste os retábulos das lamúrias e das indecências

eu te tenho escrito como se enfiasse a mão no fundo lodoso para trazer à superfície objetos caídos ali há muito tempo: um porta-joias em forma de bailarina com o fecho enferrujado, uma lata de costura chacoalhando botões que não se usam mais, uma caixa de tampa marchetada de guardar rapé ou cocaína

o que tenho te escrito (horror e pesadelo) são pedaços podres daquilo que eu não consigo expressar: a mão de mulher cortada à altura do punho, ainda com a aliança no dedo anular em decomposição; um braço roído de vermes; a cabeleira de uma cabeça decepada que, depois de lavada, reconheço como tua

eu te queria escrever grandiloquente, profundo, evoluído - sobre a essência dos seres e das coisas  - por exemplo, sobre a alma, os temores que afligem a humanidade, as estrelas, os holocaustos, a fome, as migrações dos grandes mamíferos, a vida dos santos, dos criminosos ou dos revolucionários 
 
eu não suporto mais te escrever como se o vazio e a perda e o abandono provocados pela tua falta fossem a única força que mantêm o universo em movimento

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

diário

Acordei com Etta James cantando Stormy Weather morno, baixinho, suave, no meu ouvido. Dobrei os cobertores, bati os travesseiros e abri a janela do quarto para tirar o cheiro de saudade, de sono velho, de ressonar do gato e de mofo das gavetas e dos armários. Alimentei os bichos, molhei os vasos de flores, recolhi as titicas dos pombos, as folhas secas e os tufos de cabelo que a vizinha do apartamento de cima faz questão de jogar na varanda. Depois do banho, preparei iogurte com cereais e passei um café bem forte, para aguentar o batente. Caprichei no gel do cabelo, no perfume amadeirado, combinei a gravata vermelha com aquele terno fashion, de cintura estreita e ombros largos e os óculos escuros que me deixam com cara de Keanu Reeves. Saí para a rua preparado para enfrentar a fome dos mortos-vivos, de olho no meu cérebro-com-sabor-de-tofu; o assédio dos extraterrestres desejando mamar minha energia vital; arquitetando antídotos contra o vírus letal (enxertado em minha corrente sanguínea durante o sono), tentando apagar as minhas lembranças.

Mas o que me aniquilou foi imaginar o que você ainda teria a me dizer, ao ver teu nome encabeçando a lista de e-mails não lidos, piscando na tela do computador do escritório.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

bilhetinho-bordado

Hoje eu falei à multidão de doutos que se aglomerava diante das escadarias, do lado de fora da nossa casa. Gaguejei nos trechos em que me referia a você, mas no geral, minhas palavras-pombos agrupavam-se em revoada pelas torres, para em seguida pousar no calçamento, cinzentos, arrulhando metáforas e ciscando significados entre os rejuntes das pedras.

Hoje também, invertendo o sentido do ditado, decidi jogar água gelada para espantar de vez o gatão branco de rua que ontem à noite me assustou ao invadir por duas vezes a sala-de-estar, na tentativa de jantar o casal de calopsitas.

No mais, o mesmo: de manhã, comprei ração e favos de mel. Para o almoço, encomendei à mamma brusquetas, iguais às que ela preparava para o nosso lanche aos sábados. Rodei duas vezes os ponteiros do relógio na tarde que parecia nunca acabar, no escritório. Consultei a gramática para tirar uma dúvida pronominal e o dicionário para confirmar um sinônimo para o termo ausência. Nadei ao entardecer, ladeado por semidivindades das águas marinhas que não me deixaram tocar-lhes os corpos, nem depois, durante o banho, no vestiário.

E no linho encardido entre uma palavra e outra desse bilhetinho-diário eu bordei diversas vezes o teu nome, para ver se acaba essa coceira, esse azedo, esse zumbido no ouvido, essa vermelhidão nos olhos, esse mau-cheiro debaixo das unhas que é a falta que você me faz.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

notícias da segunda-feira

A intenção era te escrever imagens e pensamentos sólidos. Mas se você não lê, tudo se esfarela como se modelados em açúcar de confeiteiro.

Da mesma forma, não comentar a beleza das fotografias de auras, de ectoplasmas nas cores do arco-íris e de quase abstratas criaturas fosforescentes e microscópicas do fundo do mar dos teus álbuns de recorte dói tanto como se me suturassem os lábios e a língua.

...

Abri o jornal na seção dos suicídios passionais, dos afogamentos, das confissões inconfessáveis, das tragédias anônimas e das aberrações em geral.

Você sabia que o corredor paraolímpico sul-africano que teve as pernas amputadas aos 8 anos de idade ama o perigo e a velocidade, dirigindo seu carrão a 240 km por hora? Que uma sul-coreana de 45 anos de idade e 45 kg de peso comeu 45 cachorros-quentes em 10 minutos para ganhar 45 dólares de uma rede de sanduíches americanos?

...

Entre tanto antilirismo e poética no mínimo mórbida, no meio da lama que todo o tempo nós tentamos forrar de flores e grama sintética, encontro a frase-pérola (Elvis Costello em uma revista eletrônica de muito tempo atrás):

Para compor canções, há uns 5 assuntos: eu deixei você; você me deixou; eu quero você; você não me quer; acredito em alguma coisa. Cinco temas e doze notas.

Precisa dizer mais?

domingo, 9 de setembro de 2012

imagens da seca - fim de tarde






imagens da seca - noturnas




exercício para conter o desespero

Antúrios murcham no jardim de inverno. Copos-de-leite na mesa-de-centro. Da janela do sótão avista-se o lago azul desbotado, as bordas da cor de magma. A colunata do castelo, do outro lado da água, é como palitos de picolé de uma maquete pintada de branco.

Folhas secas, terra seca, grama seca, galhos secos entre a água e os meus olhos. Eu já me cansei de varrer os cadáveres dos pássaros que se esborracham nos vidros da janela. De limpar as carcaças de insetos que cobrem as superfícies dos móveis e enchem os vidros das arandelas.

Se pudesse, eu escancarava as portas e as janelas e deixava o ar de fora, aparentemente menos quente, penetrar a casa aos redemoinhos, ventos, tufões e tempestades. Mas você contém o meu gesto, segura o meu braço, me prende em outro abraço, antes do inevitável.

Se eu abrir as portas e as janelas, as almas dos mortos que vagueiam pelo jardim e pelo pomar entrarão na casa. Tomarão os nossos lugares à mesa, amassarão os lençóis e os travesseiros da nossa cama, urinarão nas bordas do vaso sanitário, arrancarão as páginas do caderninho e espalharão pela sala os meus segredos anotados nelas.

Por isso eu me contento em esperar que venha de novo a noite. Para dormir e ver findar outro longo dia. Esperar que o dia após a noite de sono interrompa a mortandade dos pássaros nas sacadas, arrebente os caixilhos das janelas, as fechaduras das portas, que a nuvem de vento, tufões e tempestades arraste para bem longe as almas e os espíritos dos mortos.

Ok, eu sei, esse dia talvez demore a chegar, o mais certo é que nunca venha. Enquanto isso, ignoremos as súplicas na janela do nosso quarto, deixemos acumular os insetos, os cadáveres dos pássaros, finjamos indiferença ao barulho do relógio a ritmar segundo a segundo o os últimos, abafados e intermináveis instantes da nossa existência.

sábado, 8 de setembro de 2012

3 narrativas breves

A indolência se instalou em mim. Passo o dia em estado de larva. O esforço maior é o de afundar os dedos no pêlo macio do gato. E de me arrastar, de hora em hora, da cama à geladeira e da geladeira de volta à cama. Não sei o que será de mim se eu não explodir antes de acabarem o sorvete de creme e a calda de caramelo.

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Tomo banho, aparo as unhas, faço a barba e pinço os fios de cabelo brancos da sobrancelha. Besunto o corpo de creme hidratante e esparjo nuvens de perfume e feromônio. Visto a roupa mais bonita, calço as meias novas e lustro os sapatos. Só para abrir e beber sozinho aquela irish red ale cara, escura, que encharca a tua ausência já no segundo copo.

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Abri as portas e as janelas da casa e apaguei todas as luzes. Liguei a música bem alto, o velho Rage Against the Machine para abalar as estruturas. Tirei a roupa e me deitei no chão de mármore da cozinha e só me levantei quando o abutre mais atrevido me beliscou o ventre, tentando arrancar um naco do meu fígado.