Era depois que apagavam-se as luzes. O que víamos, ou o que pensávamos ter visto, ou ainda o que poderíamos apenas ter sonhado era pouco mais que uma variância de tom menos escura do escuro que nos envolvia.
Antes mesmo de vê-la, se é que a víamos, o que confirmava a passagem dela por nossas camas era o arrepio, mesmo que não fizesse frio, permanecido na pele, nos braços de uns, entre o ombro e o pescoço de outros, nas costas da mão, como se a visão dela fosse o roçar peludo de bicho peçonhento que só se despregava quando, em outra noite, vinha de novo fosforescer em outras partes dos nossos medos.
sábado, 29 de setembro de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
sem título
hoje de manhã eu preenchi duas páginas da agenda com os afazeres. uns imediatos, como por exemplo, engraxar os sapatos e escolher meias novas para qualquer eventualidade. outros diáfanos e abstratos e tão longínquos como elevar o espírito e sublimar os desejos da carne.
...
dirijo aos trancos, desatento. sonolento por causa da noite em claro vendo filmes de terror. eu me perco nos retornos, nas entradas, abaixo da velocidade média da pista. no momento seguinte, eufórico, acelero além do limite permitido e canto alto com o rádio do carro, descabelado, os vidros abertos.
...
durante o dia eu me ocupo de banalidades. procuro documentos no meio da papelada. jogo cartas comigo mesmo e perco sempre. folheio o velho romance para moças. para não pensar na ausência, no esvaziamento de qualquer sentido da morte que à noite ronda.
...
tramito na fronteira. em constante estado gerúndio. como um zumbido contínuo em baixa frequência.
...
desinfecto as mãos com álcool gel. toco-lhe de leve a mão inchada. falo com ela superficialidades: do telefonema às 2 da manhã. da discussão com o síndico. do prêmio que ainda não ganharemos. do jantar com os figurões da política. depois pergunto ao médico, o clichê: é grave, doutor?
...
chove. hoje li um conto, quase sonho, sobre mãe, irmãos, rio e pai distante. eu tenho sonhado sonhos intensos. ontem mesmo eram cômodos que eu não imaginava existirem na casa. acordei com os olhos pesados. como se levasse um óbolo em cada pálpebra.
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dirijo aos trancos, desatento. sonolento por causa da noite em claro vendo filmes de terror. eu me perco nos retornos, nas entradas, abaixo da velocidade média da pista. no momento seguinte, eufórico, acelero além do limite permitido e canto alto com o rádio do carro, descabelado, os vidros abertos.
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durante o dia eu me ocupo de banalidades. procuro documentos no meio da papelada. jogo cartas comigo mesmo e perco sempre. folheio o velho romance para moças. para não pensar na ausência, no esvaziamento de qualquer sentido da morte que à noite ronda.
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tramito na fronteira. em constante estado gerúndio. como um zumbido contínuo em baixa frequência.
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desinfecto as mãos com álcool gel. toco-lhe de leve a mão inchada. falo com ela superficialidades: do telefonema às 2 da manhã. da discussão com o síndico. do prêmio que ainda não ganharemos. do jantar com os figurões da política. depois pergunto ao médico, o clichê: é grave, doutor?
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chove. hoje li um conto, quase sonho, sobre mãe, irmãos, rio e pai distante. eu tenho sonhado sonhos intensos. ontem mesmo eram cômodos que eu não imaginava existirem na casa. acordei com os olhos pesados. como se levasse um óbolo em cada pálpebra.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
biblioteca das moças 1
"O amor começa com o primeiro olhar e termina com o primeiro beijo", decretou um filósofo. Algo fantasista, algo positiva, já passou essa teoria de moda, como os espartilhos e o rapé da mesma época. A geração de hoje sustenta que o amor não começa tal com o primeiro olhar do namoro, nem com o primeiro pensamento afetuoso. Muito antes, uma chusma de impulsos recônditos, de desejos caprichosos e ignorados, de feições mal esboçadas, de veleidades não pressentidas, cumpre se tenham combinado no subconsicente, para preparação, na personalidade consciente do homem ou da mulher, do que um e outro consideram "A primeira vez que sentimos..."
terça-feira, 25 de setembro de 2012
diário gerúndio da ausência
depositando os brincos & os colares & os anéis & o guizo dourado na urna forrada de veludo de oncinha / exumando os ossos / brilhando nos olhos da gata no escuro
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relendo pela milésima vez o drama da bibinha narciso / discutindo a relação com o reflexo no espelho / perorando como a pobre ninfa eco / assumindo as vaidades / desconsiderando a psicanálise / bebendo formicida & cortando os pulsos na madrugada
...
retomando o sinal do mundo / encanecendo / mendigando por um gesto & um carinho & uma palavra de afeto tua / ouvindo rádio
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relendo pela milésima vez o drama da bibinha narciso / discutindo a relação com o reflexo no espelho / perorando como a pobre ninfa eco / assumindo as vaidades / desconsiderando a psicanálise / bebendo formicida & cortando os pulsos na madrugada
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retomando o sinal do mundo / encanecendo / mendigando por um gesto & um carinho & uma palavra de afeto tua / ouvindo rádio
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
iracema, uma transa amazônica
Outro dia recebi na rede social a indicação do site Filmes Brasileiros Completos. 160 clássicos, de Limite a Zé do Caixão, de Roberto Carlos a 300km/h a Mazaroppi, assim por diante (senti falta de Ana Carolina). Devo ter visto a modesta metade. O resto, ou eu era muito novo, não passou no circuito comercial ou eu não tive interesse.
Ontem resolvi me atualizar. Ou me desatualizar, uma vez que a maioria dos títulos é anterior à década de 1980. E preencher a imperdoável lacuna cinéfilo-cultural. Apesar da média ou baixa qualidade das reproduções.
O sentido capricorniano determinou a ordem da lista apresentada no site. Como já tinha visto mais de uma vez os dois primeiros (Estômago, Marcos Jorge, 2007 e Limite, Mário Peixoto, 1930), abri Iracema, uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzki e Orlando Senna, 1976).
O título sugere uma daquelas produções típicas do cinema brasileiro da época (ditadura, censura, repressão) - sexo, mulher pelada, roteiro esburacado, som ruim, canastrice, diálogos folhetinescos e uma sequência de adjetivos depreciativos.
Engano. O filme é puro estranhamento. Tributário do cinema novo - a preocupação dos diretores com o rigor dos enquadramentos e ao mesmo tempo a liberdade da câmera (o falso clichê glauberiano de "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça") - as conturbações poético-filosófico-existenciais viram pano de fundo apenas sugerido para o enfoque o social, antropológico e essencialmente político (mesmo com tantos prêmios internacionais a exibição foi proibida no Brasil até 1981).
Iracema, uma Transa Amazônica é uma mistura de documentário e ficção. A história do caminhoneiro Tião Brasil Grande (Paulo Cesar Pereio) e Iracema, uma prostituta menor de idade (Edna de Cássia) segue paralela à história da exploração econômica disfarçada em desenvolvimentismo da região amazônica e do megaprojeto de construção da rodovia Transamazônica.
Parêntesis: Edna de Cássia é (como se diz no jargão da crítica cinematográfica) magistral. Tinha 14 ou 15 anos quando fez o filme. O único. A mesma idade da prostituta Iracema. Hoje esse "recorte" de realidade seria inadequado, inadmissível, impossível: apologia à exploração sexual infantil.
As imagens, a fotografia são cruas e poéticas. Retratam além da realidade Iracema-prostituição, uma série de recortes (ainda estarrecedores) das realidades amazônica e brasileira, gritantes à época, e recorrentes 35 anos depois: grilagem de terras, comércio ilegal de madeira, queimadas e desmatamento e - talvez uma das cenas-imagens mais contundentes - o trabalho escravo.
Nesses tempos globalizados, nós nos deixamos bombardear por toneladas de informações - as problemáticas mundiais, as fofocas dos famosos, o reme-reme cotidiano, o exótico e o medíocre misturado. Conhecemos muito mais sobre o mundo e ao mesmo tempo somos cada vez mais inaptos em interagir nele.
Por isso, nada como um velho (e atualíssimo) filme para balançar as estruturas. Para questionar os pontos-de-vista razoavelmente estáveis. Fazer ver que a realidade é dinâmica, mas em muitos casos, demora a mudar.
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O próximo da lista é o documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (autorretratos), de Paulo Sacramento, 2003. Rodado no extinto presídio do Carandiru. Alguém se habilita?
sábado, 22 de setembro de 2012
pastiches
É por tua causa que eu escrevo cada vez mais difuso. As imagens e palavras misturadas atravessam a turbulência do inconsciente, e quando emergem, materializam-se flácidas, murchas, esvaziadas de seu sentido original.
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As representações dos sentidos vêm à tona depois de perdidos os significados, osmose invertida, absorvidos pelo inconsciente fluido, no trajeto entre a profundeza e a superfície, pelas variâncias entre as camadas de temperatura e luminosidade, sob o fluxo das correntes.
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O espaço existente entre a materialidade e a abstração do que você representa é preenchido pelo excesso, sobra, lixo, pleonasmo, pela nulidade de signos e sentidos e significados.
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As representações dos sentidos vêm à tona depois de perdidos os significados, osmose invertida, absorvidos pelo inconsciente fluido, no trajeto entre a profundeza e a superfície, pelas variâncias entre as camadas de temperatura e luminosidade, sob o fluxo das correntes.
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O espaço existente entre a materialidade e a abstração do que você representa é preenchido pelo excesso, sobra, lixo, pleonasmo, pela nulidade de signos e sentidos e significados.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
a tua vinda
Eu me encharquei de lirismo barato quando você disse que viria. Meu deserto
cobriu-se de nuvens. O vento escancarou as portas e as janelas e encheu a casa
de folhas. Relâmpagos riscaram o escuro. Trovões ribombaram na planura. O que
era seco, estéril e cor-de-palha pejou-se de chuva, verdes e fertilidade.
De imediato florezinhas amarelas espalharam-se pelas sebes ressecadas. Borboletas também amarelas, e algumas brancas, de asas do tamanho de papel picado revoaram, rasteiras e desajeitadas. Subiu da terra, junto com as gotas da primeira chuva, colostro, o cheiro molhado do teu corpo.
Espalhei os baldes e as panelas debaixo das goteiras. Deixei à mão a vela e os fósforos para o caso de acabar a luz, por causa dos relâmpagos. Acendi incenso no canto do quarto, para espantar os insetos. Abri uma garrafa de vinho, aconcheguei o gato no colo e me sentei na poltrona, de frente para a porta. Adormeci antes de ouvir e de te ver e de te sentir chegar.
Quando acordei, estava escuro e frio. O gato ressonava. A chuva tinha cessado. Só clarões dos relâmpagos de vez em quando e o troar dos trovões cada vez mais longe. Os únicos sinais de tua vinda eram a taça de vinho vazia, a manta a me envolver as pernas e um gosto amargo, amargo, amargo na boca, que nem todo todo o creme dental da casa conseguia disfarçar.
De imediato florezinhas amarelas espalharam-se pelas sebes ressecadas. Borboletas também amarelas, e algumas brancas, de asas do tamanho de papel picado revoaram, rasteiras e desajeitadas. Subiu da terra, junto com as gotas da primeira chuva, colostro, o cheiro molhado do teu corpo.
Espalhei os baldes e as panelas debaixo das goteiras. Deixei à mão a vela e os fósforos para o caso de acabar a luz, por causa dos relâmpagos. Acendi incenso no canto do quarto, para espantar os insetos. Abri uma garrafa de vinho, aconcheguei o gato no colo e me sentei na poltrona, de frente para a porta. Adormeci antes de ouvir e de te ver e de te sentir chegar.
Quando acordei, estava escuro e frio. O gato ressonava. A chuva tinha cessado. Só clarões dos relâmpagos de vez em quando e o troar dos trovões cada vez mais longe. Os únicos sinais de tua vinda eram a taça de vinho vazia, a manta a me envolver as pernas e um gosto amargo, amargo, amargo na boca, que nem todo todo o creme dental da casa conseguia disfarçar.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
diário gerúndio de amor beato
resgatando o gosto do teu beijo na saliva das madalenas / sentindo o cheiro da chuva no teu hálito / me arrepiando com os vazios da tua presença / arrepelando as frases recorrentes & repetitivas & dramáticas em demasia / espalhando ratoeiras para capturar ilusões subreptícias / exterminando a praga dos enganos
...
afofando os travesseiros para o sono eterno / flagelando os tríceps e os peitorais para tirar a camisa na festança do juízo final / recapitulando o sofrimento dos mártires & aprendendo a resistir às tentações / apertando a fivela do cilício & afiando as pontas anavalhadas do azorrague / ajoelhando em cacos de vidro / depurando sadismo & masoquismo aos pés do altar
...
te despindo com o olhar em chamas / lambendo a carne sagrada do teu sexo / escalando o torreão incandescente do desejo à unha / ansiando por teu corpo nu & pregadinho ao meu / depilando as portas do teu templo-corpo com a minha bestialidade / acumulando dízimos & prodigalizando a eternidade instantânea dos orgasmos
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afofando os travesseiros para o sono eterno / flagelando os tríceps e os peitorais para tirar a camisa na festança do juízo final / recapitulando o sofrimento dos mártires & aprendendo a resistir às tentações / apertando a fivela do cilício & afiando as pontas anavalhadas do azorrague / ajoelhando em cacos de vidro / depurando sadismo & masoquismo aos pés do altar
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te despindo com o olhar em chamas / lambendo a carne sagrada do teu sexo / escalando o torreão incandescente do desejo à unha / ansiando por teu corpo nu & pregadinho ao meu / depilando as portas do teu templo-corpo com a minha bestialidade / acumulando dízimos & prodigalizando a eternidade instantânea dos orgasmos
terça-feira, 18 de setembro de 2012
relação aberta (le beau de jour)
Eu admito, a frase “quebrei, por puro ciúme, o vaso de rosas vermelhas sobre a mesa-de-centro”, do último texto, é desnecessária, pernóstica e desprovida de conteúdo, além de pequeno-burguesa, como diria o blogueiro socialista da velha-guarda que você citou. Mas o que você escreveria depois de descobrir que o cara que te acorda todo dia com um “eu te amo”, seguido do beijo mais apaixonado – é o mesmo que à tarde frequenta saunas sexuais, sessões duplas de cinema pornô, banheiros públicos, acompanhantes-massagistas, bancos de passageiro de carros ocasionais e camas de hotel de quinta-categoria?
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