você sabe tudo, você tem opinião sobre tudo, você conhece tudo, onde comprar barato cerveja importada, onde encontrar endívias, como cozinhar arroz arbóreo, qual a melhor época para viajar de carro pelo sul da França, como escolher um bom restaurante em São Paulo, quais as praias mais bonitas do Nordeste, os nomes dos vinhos a se comprar em Portugal,
tudo tem defeito pra você, de tudo você reclama, encontra problema, o engarrafamento pela má engenharia de trânsito, o débito automático da conta da operadora de telefonia, o tempero da comida do restaurante self-service, o atraso da faxineira, a fedentina do banheiro masculino, a greve da polícia federal, a irresponsabilidade do teu chefe,
eu queria tapar os ouvidos para não escutar a tua dicção quase perfeita, a tua articulação mastigada das frases, a tua pronúncia como se esfarelasse as vibrantes, eu queria não enxergar as tuas expressões faciais, tua sobrancelha arqueada ao perguntar sem interesse, sem ouvir a resposta, a tua insistência em olhar nos olhos, os teus gestos de mãos, a tua mania de girar a aliança no dedo,
eu daria tudo pra não ouvir a humildade falsa dos teus auto-elogios, a
tua empáfia dissimulada, em ressaltar que tudo teu - os teus
pensamentos, as tuas convicções, a tua moral, a tua formação, a tua
família, as tuas ironias politicamente corretas, o teu bairro, o teu
carro, o teu modo de vida - são os melhores, os mais corretos, os mais
honestos, limpos, intensos e profundos,
eu não quero mais ouvir o teu tom condescendente para, como quem não quer nada, apontar nos outros qualidades que você não enxerga em mim, a minha inabilidade para organizar a casa, a estreiteza dos meus pontos de vista, os meus objetivos tímidos de professora, a minha insegurança na criação dos meninos, a minha origem, a minha paixão ridícula pelas plantas, o meu comodismo, a minha indisposição para o novo, o incerto, a aventura, o desconhecido,
eu queria poder colar com esparadrapo a tua boca, furar a carne do teu braço, até o osso, com a agulha desse catéter, lábios ressecados de sede, te deixar mijado e cagado e assado, esfregar gaze até tua virilha ficar em carne viva,
eu queria poder rir dos teus balbucios, do teu olhar perdido que graças a deus não intimida mais o meu, te fazer saber que a cama automática é importada, que estamos hospedados no melhor quarto do hospital, que o médico que te acompanha é o mais conceituado, que o teu plano de saúde é o mais caro e que apesar da minha incompetência, o nosso casamento ainda está valendo, eu estarei aqui, ao teu lado, sempre, até no último fiapo da tua lembrança, no último resquício do teu raciocínio, no último espasmo, eu estarei aqui, ao teu lado, até que ela venha e finalmente nos separe.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
estratégias, promessas & sonoridades explosivas
Estratégias para sobreviver aos dias chuvosos da existência: Elaborar listas para intitular o inominável. Enxergar invisibilidades. Sincronizar os mundos interior & exterior. Hierarquizar a intensidade das reações. Compatibilizar os impulsos vitais com os universos paralelos. Ler leituras imprescindíveis & descobrir revelações ao acaso. Ouvir música. Para não sucumbir à inércia. Para não se perder entre o excesso ou a ausência de nortes que a rosa-dos-ventos aponta.
...
Para ler em voz alta em momentos de pânico: Ilha. Marmelo. Sansão. Mingau. Catatau. Teobaldo. York. Peba. Tembé. Tupã. Valdick. Jerimum. Oberon. Barney. Guarani. Machado. Argólida. Chuvisco. Perfume. Retaliação. Trombose. Flatulência. Odisseu. Banana. Bomba. Cabrum!
...
Promessas 1: Evitarei a companhia de heróis estúpidos & musculosos. Repudiarei a ira & a volubilidade dos deuses. Resistirei ao leito de semideuses inseguros & convencidos. Impedirei o assédio das ninfas obstinadas & obcecadas. Esquivar-me-ei dos malabarismos & das safadezas do destino. Medirei com mais rigor o comprimento & espessura & qualidade do material cardado pelas moiras.
...
Promessas 2: A partir de hoje evitarei adjetivos aos pares. Mesclarei terceiras pessoas do singular ao discurso indireto livre. Narrarei histórias com personagens críveis & começo-meio-fim. Evitarei neologismos & estereótipos & provérbios populares & construções pernósticas & sonoridades fáceis. Cuidarei das figuras de linguagem & de estilo como se fossem sangue de meu sangue. Renegarei elogios & crescerei com críticas & julgamentos.
...
Para ler em voz alta em momentos de pânico: Ilha. Marmelo. Sansão. Mingau. Catatau. Teobaldo. York. Peba. Tembé. Tupã. Valdick. Jerimum. Oberon. Barney. Guarani. Machado. Argólida. Chuvisco. Perfume. Retaliação. Trombose. Flatulência. Odisseu. Banana. Bomba. Cabrum!
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Promessas 1: Evitarei a companhia de heróis estúpidos & musculosos. Repudiarei a ira & a volubilidade dos deuses. Resistirei ao leito de semideuses inseguros & convencidos. Impedirei o assédio das ninfas obstinadas & obcecadas. Esquivar-me-ei dos malabarismos & das safadezas do destino. Medirei com mais rigor o comprimento & espessura & qualidade do material cardado pelas moiras.
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Promessas 2: A partir de hoje evitarei adjetivos aos pares. Mesclarei terceiras pessoas do singular ao discurso indireto livre. Narrarei histórias com personagens críveis & começo-meio-fim. Evitarei neologismos & estereótipos & provérbios populares & construções pernósticas & sonoridades fáceis. Cuidarei das figuras de linguagem & de estilo como se fossem sangue de meu sangue. Renegarei elogios & crescerei com críticas & julgamentos.
domingo, 28 de outubro de 2012
diário gerúndio da incapacidade
Batendo claras em neve para o recheio dos dias futuros. Afundando azeitonas no pântano das ervas finas & dos gozos mal sucedidos. Amassando fragmentos do discurso amoroso & pondo tudo a perder com a overdose de ditirambos.
...
Entortando a ética & a moral para caber na forma. Cobrindo a mediocridade com papel-alumínio antes de levar ao fogo brando das vaidades. Envenenando o otimismo & a bem-aventurança com creme de leite. Reforçando o chocolate da sobremesa.
...
Ouvindo Billie Holiday. Ouvindo o galo cantar às 2 da manhã.
...
Jogando jogos duplos para adiar confrontos. Perdendo a rodada para Lady Macbeth. Gastando um dedo de prosa com a gueixa enquanto seu lobo não vem.
...
Lendo Sylvia Plath para a gata no cio & para a cadela aleijada & para as ratazanas do banhado. Desligando Billie Holiday. Enfiando a cabeça no forno microondas antes do galo cantar pela terceira vez.
...
Tomando um copo d'água. Tomando um banho frio. Pedindo aos deuses um pouco de malandragem & sonhos reveladores & sono reparador que dure até o alvorecer.
...
Entortando a ética & a moral para caber na forma. Cobrindo a mediocridade com papel-alumínio antes de levar ao fogo brando das vaidades. Envenenando o otimismo & a bem-aventurança com creme de leite. Reforçando o chocolate da sobremesa.
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Ouvindo Billie Holiday. Ouvindo o galo cantar às 2 da manhã.
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Jogando jogos duplos para adiar confrontos. Perdendo a rodada para Lady Macbeth. Gastando um dedo de prosa com a gueixa enquanto seu lobo não vem.
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Lendo Sylvia Plath para a gata no cio & para a cadela aleijada & para as ratazanas do banhado. Desligando Billie Holiday. Enfiando a cabeça no forno microondas antes do galo cantar pela terceira vez.
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Tomando um copo d'água. Tomando um banho frio. Pedindo aos deuses um pouco de malandragem & sonhos reveladores & sono reparador que dure até o alvorecer.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
novela
Nos primeiros capítulos, entre eles tudo era amores: jantares, presentes, olhares, flores, resorts, suítes de motel, luar e até um ciumento dia dos namorados.
Lá pela metade, os capítulos se espicharam e a paixão arrefeceu. Vieram os primeiros deslizes, as mentirinhas, as omissões e os mil vezes malditos telefonemas e mensagens sem retorno.
Na reta final, forjou-se a separação. Com expectativa de reconciliação. Para recuperar os índices de audiência.
No entanto, a última semana foi um fracasso. Apesar dos segredos bombásticos revelados (as maldades da malvada, a filha bastarda, a morte do bom moço, a operação para mudar de sexo, o golpe do baú, a bancarrota, o julgamento do inocente, etcétera) - apesar de tudo, a reconciliação prometida não aconteceu.
O fim chocho foi cada um para o seu lado. Sem festa, sem buquê, sem apoteose. Na última cena, em seu apartamento penumbroso, um ligava para o outro. O outro, à beira da piscina, só risos, música alta e gente bonita em volta. Olhava o mostrador do aparelho. Sorria um sorriso de escárnio. Deixava tocar até a bateria acabar.
O que tinha ligado olhava para a câmera. Como se dos pulsos cortados fosse esguichar no telespectador a falta de sentido de toda a dor, todo o sofrimento imputados e acumulados, capítulo a capítulo, até as cenas da próxima novela.
Lá pela metade, os capítulos se espicharam e a paixão arrefeceu. Vieram os primeiros deslizes, as mentirinhas, as omissões e os mil vezes malditos telefonemas e mensagens sem retorno.
Na reta final, forjou-se a separação. Com expectativa de reconciliação. Para recuperar os índices de audiência.
No entanto, a última semana foi um fracasso. Apesar dos segredos bombásticos revelados (as maldades da malvada, a filha bastarda, a morte do bom moço, a operação para mudar de sexo, o golpe do baú, a bancarrota, o julgamento do inocente, etcétera) - apesar de tudo, a reconciliação prometida não aconteceu.
O fim chocho foi cada um para o seu lado. Sem festa, sem buquê, sem apoteose. Na última cena, em seu apartamento penumbroso, um ligava para o outro. O outro, à beira da piscina, só risos, música alta e gente bonita em volta. Olhava o mostrador do aparelho. Sorria um sorriso de escárnio. Deixava tocar até a bateria acabar.
O que tinha ligado olhava para a câmera. Como se dos pulsos cortados fosse esguichar no telespectador a falta de sentido de toda a dor, todo o sofrimento imputados e acumulados, capítulo a capítulo, até as cenas da próxima novela.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
diário
Chego bem cedo no trabalho. Para não ser obrigado a responder os bons dias e nem ouvir os comentários sobre a programação televisiva do final de semana.
Coloco os fones de ouvido e me isolo na tela do computador. Só ouvindo Etta
James para consertar o dia que mal começa.
Perdi o sono: dor-de-cabeça e câimbras noturnas que nunca
tive (sinais da idade). Estresse e pensamentos repetitivos. Lembrança, na
madrugada, de compromissos bobos. Sonhos com situações não resolvidas.
Marcas irreversíveis das eras: rugas nos cantos dos olhos;
pele-de-galinha nas mãos e pescoço; vísceras inchando por dentro; desejo e libido anulados. Nem glúteos bem proporcionados,
peitorais lisos na piscina, cortes de cabelo redesenhando pescoços – nada me
tira do sério.
Bloqueio criativo. Escrevo lasso. Leio: teoria literária, vaidades, Onetti. Resgatei, da adolescência, as maravlihosas Metamorfoses, de Ovídio.
Na internet eu me especializo em aberrações. Desde comentários preconceitosos de leitores de jornais on-line sobre crimes
e
assassinatos até banalidades da vida das celebridades. Recolho amostras dos absurdos que o ser humano é
capaz de fazer, pensar e se expressar.
Além disso, pesco exotismos. Ontem, li
sobre um santuário de gorilas, no coração da África. Trechos do diário de Sontag. Epigramas do velho Cioran. Hoje vi paisagens que simulam pinturas. E uma baleia a imitar a voz humana. Depois ouvi Jeff Buckley.
Preciso estudar inglês. Consertar o telhado da casa. Levar o cão ao veterinário. Cuidar das costas. Fazer acupuntura. Me inscrever no curso de gastronomia. Preparar o almoço da mamãe que faz 100 anos. Satisfazer instintos sublimados. Remodelar a construção das frases. Riscar pleonasmos. Maneirar nos clichês e nos vícios de linguagem. Preciso pedir ao doutor dose extra do elixir para suportar os dias que se acumulam.
Preciso estudar inglês. Consertar o telhado da casa. Levar o cão ao veterinário. Cuidar das costas. Fazer acupuntura. Me inscrever no curso de gastronomia. Preparar o almoço da mamãe que faz 100 anos. Satisfazer instintos sublimados. Remodelar a construção das frases. Riscar pleonasmos. Maneirar nos clichês e nos vícios de linguagem. Preciso pedir ao doutor dose extra do elixir para suportar os dias que se acumulam.
(trecho de carta-e-mail a uma amiga)
terça-feira, 23 de outubro de 2012
mitológicas
Hoje eu atravessei as horas como se carregasse às costas um saco de pedregulhos colina acima.
...
De tão entorpecido, servi iscas do meu fígado acebolado aos abutres, e nem doeu.
...
Te perdi para sempre ao me virar (para ter certeza que era mesmo você que me seguia), antes que cruzássemos a saída de serviço da mansão dos mortos.
...
De tão entorpecido, servi iscas do meu fígado acebolado aos abutres, e nem doeu.
...
Te perdi para sempre ao me virar (para ter certeza que era mesmo você que me seguia), antes que cruzássemos a saída de serviço da mansão dos mortos.
mitológicas
Hoje eu atravessei as horas como se carregasse às costas um saco de pedregulhos colina acima.
...
De tão entorpecido, servi iscas do meu fígado acebolado aos abutres, e nem doeu.
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Te perdi para sempre ao me virar para ter certeza que era mesmo você, antes que cruzássemos a saída de serviço da mansão dos mortos.
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De tão entorpecido, servi iscas do meu fígado acebolado aos abutres, e nem doeu.
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Te perdi para sempre ao me virar para ter certeza que era mesmo você, antes que cruzássemos a saída de serviço da mansão dos mortos.
sábado, 20 de outubro de 2012
mitológicas
A trilha estreita divide: de um lado o paredão de pedra. Do outro, o abismo.
No rochedo há górgonas pousadas nas cavidades. Ansiosas para serem encaradas. Mas não será meu o coração que elas transformarão em pedra.
Do outro lado o vazio, a queda, o vento, o mergulho, o fundo, o mais fundo. E no fim o escuro e o barulho da arrebentação nos arrecifes. Por sorte tatuei um par de asas nas minhas omoplatas.
Fecho os olhos. Sigo em frente. Passos de sonâmbulo. Sentidos amortecidos pela impossibilidade. Pernas e os braços envenenados pelo medo. Guiado pelos fogos-fátuos até o cão de três cabeças que vigia as minhas incertezas.
No rochedo há górgonas pousadas nas cavidades. Ansiosas para serem encaradas. Mas não será meu o coração que elas transformarão em pedra.
Do outro lado o vazio, a queda, o vento, o mergulho, o fundo, o mais fundo. E no fim o escuro e o barulho da arrebentação nos arrecifes. Por sorte tatuei um par de asas nas minhas omoplatas.
Fecho os olhos. Sigo em frente. Passos de sonâmbulo. Sentidos amortecidos pela impossibilidade. Pernas e os braços envenenados pelo medo. Guiado pelos fogos-fátuos até o cão de três cabeças que vigia as minhas incertezas.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
diário do presente do indicativo
Retorno para a prateleira os romances de amor lidos pela metade. Leio contos & considerações filosóficas de outras datas & orgasmos múltiplos & vaidade & fraquezas dos deuses & vícios de segunda ordem na existência humana.
...
Invoco & depois apago poemas chucros a Dionisos. Escando versos atonais, aos berros, com as bacantes. Canto desafinado: o banheiro é a igreja de todos os bêbados.
...
Expurgo más intenções. Ressuscito verbos & substantivos & adjetivos intravenosos.
...
Ressurgem das cinzas personagens planos. Reescrevo o roteiro dos últimos capítulos da novelinha shakespereana, pouco digna do horário nobre. Ao tempo em que espero Átropos cortar o fio que Láquesis cardou e Cloto segurou (ou será o inverso?).
...
Procuro pacotes turísticos promocionais alternativos. Mas para a viagem ao Hades são vendidas passagens somente de ida.
...
Invoco & depois apago poemas chucros a Dionisos. Escando versos atonais, aos berros, com as bacantes. Canto desafinado: o banheiro é a igreja de todos os bêbados.
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Expurgo más intenções. Ressuscito verbos & substantivos & adjetivos intravenosos.
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Ressurgem das cinzas personagens planos. Reescrevo o roteiro dos últimos capítulos da novelinha shakespereana, pouco digna do horário nobre. Ao tempo em que espero Átropos cortar o fio que Láquesis cardou e Cloto segurou (ou será o inverso?).
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Procuro pacotes turísticos promocionais alternativos. Mas para a viagem ao Hades são vendidas passagens somente de ida.
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