segunda-feira, 12 de novembro de 2012

desenho

único desenho passável feito com o aplicativo
Há alguns meses fui desafiado: ilustrar o lindo texto de um amigo. Como assim? Depois de pelo menos 20 anos sem desenhar? A culpa era minha: mandei para o autor do texto a "Rapunzel" (Editora Thesaurus, 2005, capa e desenhos meus). O amigo gostou e me encomendou a tarefa.

Topei. Instalei um aplicativo poderoso. Recuperei a mesa digitalizadora. Experimentei os mil-e-um recursos, técnicas, funcionalidades do software. Um dia, uma semana, um mês e nada! Dado o fracasso, decidi declinar o convite. Por incapacidade. Definitivamente, desenhar nada mais tinha a ver comigo.

Foi quando veio o insight. Simples, fácil, óbvio: e se eu desenhasse de verdade? Tinta no papel? Lembrei-me das canetas nanquim dos anos 80: 0.2, 0.5, 0.7 e 1.0mm (medidas de espessura do traço). Elas davam uma trabalheira para carregar. Para limpar depois do uso. Entupiam. Entortavam as pontas. Só funcionavam com tinta importada, cara. Derramavam. Sujavam os dedos. Tão pouco práticas nesses tempos digitais...

Duvidei: nem devem fabricar mais. Que nada. Descobri pela internet que ainda existiam. Fui a uma loja de material de artes tradicional (passeio que não fazia há milênios). Encontrei as tais canetas. Comprei uma de cada. Da mesma marca das antigas. E papéis.

Saí da loja feliz. Com a sensação de ter resgatado algo importante. Algo soterrado no passado por camadas e mais camadas de estética (às vezes presunçosa) do que eu acreditava ser a contemporaneidade.

Desenharei. Sem pressa. Sem pretensões estéticas ou artísticas. Apenas que os desenhos fiquem à altura da beleza do texto. Que tragam de volta aquele prazer simplezinho, infantil, antiquado - de sentir a textura do papel sob o dedo, o cheiro da tinta, a pressão da mão, o movimento adequado do punho, o cuidado para não riscar errado, não borrar, o gosto tão bom de começar a desesquecer.

domingo, 11 de novembro de 2012

imagens do sábado (gormley-ccbb) 6






(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley-ccbb) 5





(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley-ccbb) 4






(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley) 3

(fotos de "four times", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley) 2

(fotos de "four times", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley) 1

(fotos de "four times", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

bucólica

Acordo com a claridade atravessando o vidro da janela. Com o barulho dos pássaros. Com o canto do galo desregulado do vizinho. Com a chuva fina pingando nas calhas, nas folhas, na grama. Esfrego os olhos para tirar a poeira e a umidade dos sonhos.

O cão ainda ressona. A gata sobe na cama enquanto afofo os travesseiros e dobro o cobertor.  A lâmpada acesa durante a noite na varanda (para afugentar ladrões) só serve para atrair milhares de besouros, pequenos, feios, cinzentos, desnecessários, desemborcados, espalhados pelo chão.

Para além do vidro, tomateiros a disputar terreno nos vasos de espadas-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode. Ramas de hortelã nas frestas da calçada. O pomar: jabuticabas coladas ao tronco, como olhinhos sem piscar. Acerolas que já sobram, pontilhando o chão de vermelho. O pé de tangerina, só flores brancas. A bananeira que cresceu pelo menos um  palmo desde a última chuva. Ramos raquíticos de hera subindo pelo reboco. Depois do muro, a mancha verde-escura do mato e das árvores do parque. Mais longe ainda, nos intervalos do mato, a água que começa a pratear.

Ligo o rádio, nas notícias. Varro os besouros da varanda. Coloco comida e troco a água do cão e da gata. O cheiro de café, de pão quente e manteiga derretida exala pela casa. Seguro a caneca com as duas mãos e penso, cada vez mais distante, cada vez mais fraco, cada vez menos dolorido: um dia houve angústia, insatisfação e ânsia com o desejo da tua presença.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

desabafo

você sabe tudo, você tem opinião sobre tudo, você conhece tudo, onde comprar barato cerveja importada, onde encontrar endívias, como cozinhar arroz arbóreo, qual a melhor época para viajar de carro pelo sul da França, como escolher um bom restaurante em São Paulo, quais as praias mais bonitas do Nordeste, os nomes dos vinhos a se comprar em Portugal,

tudo tem defeito pra você, de tudo você reclama, encontra problema, o engarrafamento pela má engenharia de trânsito, o débito automático da conta da operadora de telefonia, o tempero da comida do restaurante self-service, o atraso da faxineira, a fedentina do banheiro masculino, a greve da polícia federal, a irresponsabilidade do teu chefe,

eu queria tapar os ouvidos para não escutar a tua dicção quase perfeita, a tua articulação mastigada das frases, a tua pronúncia como se esfarelasse as vibrantes, eu queria não enxergar as tuas expressões faciais, tua sobrancelha arqueada ao perguntar sem interesse, sem ouvir a resposta, a tua insistência em olhar nos olhos, os teus gestos de mãos, a tua mania de girar a aliança no dedo,

eu daria tudo pra não ouvir a humildade falsa dos teus auto-elogios, a tua empáfia dissimulada, em ressaltar que tudo teu - os teus pensamentos, as tuas convicções, a tua moral, a tua formação, a tua família, as tuas ironias politicamente corretas, o teu bairro, o teu carro, o teu modo de vida - são os melhores, os mais corretos, os mais honestos, limpos, intensos e profundos,

eu não quero mais ouvir o teu tom condescendente para, como quem não quer nada, apontar nos outros qualidades que você não enxerga em mim, a minha inabilidade para organizar a casa, a estreiteza dos meus pontos de vista, os meus objetivos tímidos de professora, a minha insegurança na criação dos meninos, a minha origem, a minha  paixão ridícula pelas plantas, o meu comodismo, a minha indisposição para o novo, o incerto, a aventura, o desconhecido,

eu queria poder colar com esparadrapo a tua boca, furar a carne do teu braço, até o osso, com a agulha desse catéter, lábios ressecados de sede, te deixar mijado e cagado e assado, esfregar gaze até tua virilha ficar em carne viva,

eu queria poder rir dos teus balbucios, do teu olhar perdido que graças a deus não intimida mais o meu, te fazer saber que a cama automática é importada, que estamos hospedados no melhor quarto do hospital, que o médico que te acompanha é o mais conceituado, que o teu plano de saúde é o mais caro e que apesar da minha incompetência, o nosso casamento ainda está valendo, eu estarei aqui, ao teu lado, sempre, até no último fiapo da tua lembrança, no último resquício do teu raciocínio, no último espasmo, eu estarei aqui, ao teu lado, até que ela venha e finalmente nos separe. 

estratégias, promessas & sonoridades explosivas

Estratégias para sobreviver aos dias chuvosos da existência: Elaborar listas para intitular o inominável. Enxergar invisibilidades. Sincronizar os mundos interior & exterior. Hierarquizar a intensidade das reações. Compatibilizar os impulsos vitais com os universos paralelos. Ler leituras imprescindíveis & descobrir revelações ao acaso. Ouvir música. Para não sucumbir à inércia. Para não se perder entre o excesso ou a ausência de nortes que a rosa-dos-ventos aponta.

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Para ler em voz alta em momentos de pânico: Ilha. Marmelo. Sansão. Mingau. Catatau. Teobaldo. York. Peba. Tembé. Tupã. Valdick. Jerimum. Oberon. Barney. Guarani. Machado. Argólida. Chuvisco. Perfume. Retaliação. Trombose. Flatulência. Odisseu. Banana. Bomba. Cabrum!

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Promessas 1: Evitarei a companhia de heróis estúpidos & musculosos. Repudiarei a ira & a volubilidade dos deuses. Resistirei ao leito de semideuses inseguros & convencidos. Impedirei o assédio das ninfas obstinadas & obcecadas. Esquivar-me-ei dos malabarismos & das safadezas do destino. Medirei com mais rigor o comprimento & espessura & qualidade do material cardado pelas moiras.

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Promessas 2: A partir de hoje evitarei adjetivos aos pares. Mesclarei terceiras pessoas do singular ao discurso indireto livre. Narrarei histórias com personagens críveis & começo-meio-fim. Evitarei neologismos & estereótipos & provérbios populares & construções pernósticas & sonoridades fáceis. Cuidarei das figuras de linguagem & de estilo como se fossem sangue de meu sangue. Renegarei elogios & crescerei com críticas & julgamentos.