quarta-feira, 14 de novembro de 2012

a idade e o herói

Saio de casa cada vez menos. Para o almoço no self-service, quando acabam-se os provimentos da despensa; para visitar o amigo doente, tão velho quanto eu; para comprar pilhas da lanterna e ração para os gatos que de vez em quando surgem e se instalam no vão entre o forro e as telhas.

Por recomendação médica, tomo o primeiro sol da manhã. Aboletado na janela que dá para o pátio. Sempre me esqueço das vitaminas e do horário dos remédios que, no máximo, prolongarão por meia década, se calhar uma inteira, esse meu vegetar.

Não que o pejorativo me incomode, vegetar. Pois eu invejo o existir lentíssimo das árvores. Quase como se crescessem para dentro. Quase que imóveis, imobilizadas, não fossem os ciclos, os tantos verões e outonos. Ou as brisas e as ventanias do dia-a-dia.

Pois que eu ando dado a lirismos. Isso, agora, tão inusitado, inadequado. Na contra-mão da nostálgica força, clareza e objetividade de uma época acabada e que não volta mais. São, sem dúvida, os efeitos colaterais da idade.

Tenho alguns pavores meio secretos: ao telefone e ao barulho dos carros. Aos bêbados. Às ratazanas. Às lembranças de família. Aos padres, pastores e guias espirituais em geral. Aos cumprimentos, aos bons-dias e boas-noites de gente desconhecida.

Gosto de caminhar de madrugada. De preferência depois da chuva. Para ouvir os silêncios intercalados aos latidos dos cães. Para sentir o cheiro de limo do escuro. Para sentir o frio, a umidade subir em ondas, pelo solado da botina, como uma seiva, e se misturar com o calor e o suor do esforço.

Depois eu volto para casa. Engulo com um copo d'água os comprimidos da noite e durmo em seguida. Não, eu não me lembro mais da noite em que deixei de sonhar.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

planos para o futuro do herói

Hoje encomendei creme rejuvenescedor e tênis de corrida pela internet. Durante o almoço (risoto, salada crua e iscas de fígado grelhadas) tratei de investir uns caraminguás para garantir as incertezas do futuro. Desisti da sobremesa por causa das taxas de colesterol. Nesse aspecto não sou modesto: aprendi a cuidar da saúde e levo jeito para administrar rendimentos.

Calculei, por alto, os riscos da aplicação. Gastei o resto da tarde em planear o futuro para além do corriqueiro: as mudas exóticas que verei crescer no jardim; a ampliação dos horizontes físicos e mentais por meio da ioga, alimentação equilibrada e caminhadas; as características físicas, morais, psicológicas e a idade da mulher que escolhi para avó dos meus netos; que não morrerei de ataque cardíaco fulminante como meus parentes nem dessas doenças degenerativas anuladoras do ego e das vontades do indivíduo.

Por falar em cultura, estou dividido: adquirir, num sebo, os 15 volumes encadernados da Obra Completa de Machado (edição de luxo, encadernação em couro, folhas amareladas pelo tempo) pelo metade do preço de uma tevê de alta resolução que vi em promoção no shopping. Os livros, duvido lê-los todos antes do fim da próxima década. A tevê, ao contrário, encherá a sala de vida em volume alto até o fim da garantia estendida. Serei um intelectual medíocre ou um espírito aberto às variadas e nem sempre elevadas manifestações humanas?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

desenho

único desenho passável feito com o aplicativo
Há alguns meses fui desafiado: ilustrar o lindo texto de um amigo. Como assim? Depois de pelo menos 20 anos sem desenhar? A culpa era minha: mandei para o autor do texto a "Rapunzel" (Editora Thesaurus, 2005, capa e desenhos meus). O amigo gostou e me encomendou a tarefa.

Topei. Instalei um aplicativo poderoso. Recuperei a mesa digitalizadora. Experimentei os mil-e-um recursos, técnicas, funcionalidades do software. Um dia, uma semana, um mês e nada! Dado o fracasso, decidi declinar o convite. Por incapacidade. Definitivamente, desenhar nada mais tinha a ver comigo.

Foi quando veio o insight. Simples, fácil, óbvio: e se eu desenhasse de verdade? Tinta no papel? Lembrei-me das canetas nanquim dos anos 80: 0.2, 0.5, 0.7 e 1.0mm (medidas de espessura do traço). Elas davam uma trabalheira para carregar. Para limpar depois do uso. Entupiam. Entortavam as pontas. Só funcionavam com tinta importada, cara. Derramavam. Sujavam os dedos. Tão pouco práticas nesses tempos digitais...

Duvidei: nem devem fabricar mais. Que nada. Descobri pela internet que ainda existiam. Fui a uma loja de material de artes tradicional (passeio que não fazia há milênios). Encontrei as tais canetas. Comprei uma de cada. Da mesma marca das antigas. E papéis.

Saí da loja feliz. Com a sensação de ter resgatado algo importante. Algo soterrado no passado por camadas e mais camadas de estética (às vezes presunçosa) do que eu acreditava ser a contemporaneidade.

Desenharei. Sem pressa. Sem pretensões estéticas ou artísticas. Apenas que os desenhos fiquem à altura da beleza do texto. Que tragam de volta aquele prazer simplezinho, infantil, antiquado - de sentir a textura do papel sob o dedo, o cheiro da tinta, a pressão da mão, o movimento adequado do punho, o cuidado para não riscar errado, não borrar, o gosto tão bom de começar a desesquecer.

domingo, 11 de novembro de 2012

imagens do sábado (gormley-ccbb) 6






(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley-ccbb) 5





(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley-ccbb) 4






(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley) 3

(fotos de "four times", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley) 2

(fotos de "four times", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley) 1

(fotos de "four times", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

bucólica

Acordo com a claridade atravessando o vidro da janela. Com o barulho dos pássaros. Com o canto do galo desregulado do vizinho. Com a chuva fina pingando nas calhas, nas folhas, na grama. Esfrego os olhos para tirar a poeira e a umidade dos sonhos.

O cão ainda ressona. A gata sobe na cama enquanto afofo os travesseiros e dobro o cobertor.  A lâmpada acesa durante a noite na varanda (para afugentar ladrões) só serve para atrair milhares de besouros, pequenos, feios, cinzentos, desnecessários, desemborcados, espalhados pelo chão.

Para além do vidro, tomateiros a disputar terreno nos vasos de espadas-de-são-jorge e comigo-ninguém-pode. Ramas de hortelã nas frestas da calçada. O pomar: jabuticabas coladas ao tronco, como olhinhos sem piscar. Acerolas que já sobram, pontilhando o chão de vermelho. O pé de tangerina, só flores brancas. A bananeira que cresceu pelo menos um  palmo desde a última chuva. Ramos raquíticos de hera subindo pelo reboco. Depois do muro, a mancha verde-escura do mato e das árvores do parque. Mais longe ainda, nos intervalos do mato, a água que começa a pratear.

Ligo o rádio, nas notícias. Varro os besouros da varanda. Coloco comida e troco a água do cão e da gata. O cheiro de café, de pão quente e manteiga derretida exala pela casa. Seguro a caneca com as duas mãos e penso, cada vez mais distante, cada vez mais fraco, cada vez menos dolorido: um dia houve angústia, insatisfação e ânsia com o desejo da tua presença.