sábado, 17 de novembro de 2012

a filha

Eu não sei mais o que fazer com papai. Tenho notado, há algum tempo. Algo muito esquisito no comportamento dele. Nunca dei bola, sei lá, coisas da idade, afinal, mesmo com toda a saúde e lucidez, aos 90 um deslize ou outro é natural.

Mas ontem ele extrapolou. Inventou de sair. A pé, ainda por cima. Papai, onde o senhor vai com essa chuva? Ofendeu-se. Não devia satisfações a ninguém. Deixei ir. Não iria longe, teria medo, os vizinhos o conhecem, voltaria com os primeiros pingos de chuva.

Quem disse? 9, 10, 11, meia-noite e nada dele voltar. As manas? Não estão nem aí. Muito pelo contrário. Só digo pra você: elas mal se aguentam de esperar papai bater as botas para meter a mão no que sobrou da herança.

Deixa pra lá. A chuva caiu daquele jeito que você viu. Nada dele voltar. Liguei para as manas. Só caía na caixa postal de uma e da outra. Liguei para a polícia. Mandaram ligar para o Samu. De manhã trouxeram ele. Enxarcado. Tremendo de frio.

Totalmente fora de si. Doido mesmo. Eu nunca tinha visto papai daquele jeito. Eu fui abarçar, limpar a lama do cabelo dele, enrolar um cobertor. Ele me empurrou. Me xingou, na frente dos bombeiros. Me chamou de falsa, interesseira, solteirona mal-amada. Disse para eu ajuntar os meus trapos e sair da casa dele. Me expulsou!

Eu não aguentei! Será que ele não reconhece que eu sou a única que me preocupo? Que as manas paparicam ele pelo telefone, ou quando aparecem, de quinze em quinze dias, quarenta minutos no máximo? Que por mais de 5 anos eu vivo 24 horas da minha vida exclusivamente para ele? Sopinha, remedinho, roupinha lavada, fisioterapia, geriatra, nutricionista, psicólogo, caminhada, resultado de exame, tudo eu providenciando, tudo eu agendando, tudo eu anotando, lembrando, cuidando, a tempo e a hora?

Só digo isso pra você, deus me livre, mas tem hora que eu penso em jogar tudo pra cima, dar uma de doida, largar de mão, assinar a tal declaração, viver a minha vida, deixar um pouco do peso e da responsabilidade por conta das manas.

Mas eu tenho certeza, aquelas duas, com os canalhas e dos cunhados, na mesma hora internariam papai no asilo. Papai vai ser mais bem cuidado lá. Médico e enfermeiros de plantão, tevê em cada quarto. A primeira coisa que fariam era vender a casa e os terrenos. Com o dinheiro da aposentadoria, não tem como elas meterem a mão, alugariam uma kit. Largariam papai lá sozinho, com uma empregada sem a mínima condição de cuidar dele.

Monstruoso? pois eu já ouvi da própria boca delas. A gente vem todo dia pra fiscalizar, fazer mercado, dar uma assistência, disseram. Claro que "a gente" será a solteirona, a mal-amada, a feiosa aqui. Mas sabe de uma coisa? Eu prefiro. Acho que eu sou daquelas que ainda vai sofrer muito antes de encontrar a felicidade.

Mais 4, 5, 10 anos? Não, eu não quero que papai morra. Mas não se pode fingir que a realidade existe. Só espero que seja de repente, sem dor, sem sofrimento, sem dar trabalho. Mas você sabe, eu vou cuidar dele até o fim. Mesmo ele me magoando. Mesmo ele me olhando daquele jeito esquisito. É, talvez demore, mas eu vou sair desse sufoco.

E você, tudo bem?

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

citação para narrativa possível

"A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras."

La Rochefoucauld citado no conto Miss Dollar (Machado de Assis, Contos Fluminenses)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

a idade e o herói

Saio de casa cada vez menos. Para o almoço no self-service, quando acabam-se os provimentos da despensa; para visitar o amigo doente, tão velho quanto eu; para comprar pilhas da lanterna e ração para os gatos que de vez em quando surgem e se instalam no vão entre o forro e as telhas.

Por recomendação médica, tomo o primeiro sol da manhã. Aboletado na janela que dá para o pátio. Sempre me esqueço das vitaminas e do horário dos remédios que, no máximo, prolongarão por meia década, se calhar uma inteira, esse meu vegetar.

Não que o pejorativo me incomode, vegetar. Pois eu invejo o existir lentíssimo das árvores. Quase como se crescessem para dentro. Quase que imóveis, imobilizadas, não fossem os ciclos, os tantos verões e outonos. Ou as brisas e as ventanias do dia-a-dia.

Pois que eu ando dado a lirismos. Isso, agora, tão inusitado, inadequado. Na contra-mão da nostálgica força, clareza e objetividade de uma época acabada e que não volta mais. São, sem dúvida, os efeitos colaterais da idade.

Tenho alguns pavores meio secretos: ao telefone e ao barulho dos carros. Aos bêbados. Às ratazanas. Às lembranças de família. Aos padres, pastores e guias espirituais em geral. Aos cumprimentos, aos bons-dias e boas-noites de gente desconhecida.

Gosto de caminhar de madrugada. De preferência depois da chuva. Para ouvir os silêncios intercalados aos latidos dos cães. Para sentir o cheiro de limo do escuro. Para sentir o frio, a umidade subir em ondas, pelo solado da botina, como uma seiva, e se misturar com o calor e o suor do esforço.

Depois eu volto para casa. Engulo com um copo d'água os comprimidos da noite e durmo em seguida. Não, eu não me lembro mais da noite em que deixei de sonhar.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

planos para o futuro do herói

Hoje encomendei creme rejuvenescedor e tênis de corrida pela internet. Durante o almoço (risoto, salada crua e iscas de fígado grelhadas) tratei de investir uns caraminguás para garantir as incertezas do futuro. Desisti da sobremesa por causa das taxas de colesterol. Nesse aspecto não sou modesto: aprendi a cuidar da saúde e levo jeito para administrar rendimentos.

Calculei, por alto, os riscos da aplicação. Gastei o resto da tarde em planear o futuro para além do corriqueiro: as mudas exóticas que verei crescer no jardim; a ampliação dos horizontes físicos e mentais por meio da ioga, alimentação equilibrada e caminhadas; as características físicas, morais, psicológicas e a idade da mulher que escolhi para avó dos meus netos; que não morrerei de ataque cardíaco fulminante como meus parentes nem dessas doenças degenerativas anuladoras do ego e das vontades do indivíduo.

Por falar em cultura, estou dividido: adquirir, num sebo, os 15 volumes encadernados da Obra Completa de Machado (edição de luxo, encadernação em couro, folhas amareladas pelo tempo) pelo metade do preço de uma tevê de alta resolução que vi em promoção no shopping. Os livros, duvido lê-los todos antes do fim da próxima década. A tevê, ao contrário, encherá a sala de vida em volume alto até o fim da garantia estendida. Serei um intelectual medíocre ou um espírito aberto às variadas e nem sempre elevadas manifestações humanas?

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

desenho

único desenho passável feito com o aplicativo
Há alguns meses fui desafiado: ilustrar o lindo texto de um amigo. Como assim? Depois de pelo menos 20 anos sem desenhar? A culpa era minha: mandei para o autor do texto a "Rapunzel" (Editora Thesaurus, 2005, capa e desenhos meus). O amigo gostou e me encomendou a tarefa.

Topei. Instalei um aplicativo poderoso. Recuperei a mesa digitalizadora. Experimentei os mil-e-um recursos, técnicas, funcionalidades do software. Um dia, uma semana, um mês e nada! Dado o fracasso, decidi declinar o convite. Por incapacidade. Definitivamente, desenhar nada mais tinha a ver comigo.

Foi quando veio o insight. Simples, fácil, óbvio: e se eu desenhasse de verdade? Tinta no papel? Lembrei-me das canetas nanquim dos anos 80: 0.2, 0.5, 0.7 e 1.0mm (medidas de espessura do traço). Elas davam uma trabalheira para carregar. Para limpar depois do uso. Entupiam. Entortavam as pontas. Só funcionavam com tinta importada, cara. Derramavam. Sujavam os dedos. Tão pouco práticas nesses tempos digitais...

Duvidei: nem devem fabricar mais. Que nada. Descobri pela internet que ainda existiam. Fui a uma loja de material de artes tradicional (passeio que não fazia há milênios). Encontrei as tais canetas. Comprei uma de cada. Da mesma marca das antigas. E papéis.

Saí da loja feliz. Com a sensação de ter resgatado algo importante. Algo soterrado no passado por camadas e mais camadas de estética (às vezes presunçosa) do que eu acreditava ser a contemporaneidade.

Desenharei. Sem pressa. Sem pretensões estéticas ou artísticas. Apenas que os desenhos fiquem à altura da beleza do texto. Que tragam de volta aquele prazer simplezinho, infantil, antiquado - de sentir a textura do papel sob o dedo, o cheiro da tinta, a pressão da mão, o movimento adequado do punho, o cuidado para não riscar errado, não borrar, o gosto tão bom de começar a desesquecer.

domingo, 11 de novembro de 2012

imagens do sábado (gormley-ccbb) 6






(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley-ccbb) 5





(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley-ccbb) 4






(fotos de "critical mass II", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley) 3

(fotos de "four times", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)

imagens do sábado (gormley) 2

(fotos de "four times", do artista londrino antony gormley, parte da exposição "corpos presentes", no ccbb brasília)