Chego em casa tarde. Estranho os bichos não estarem à espera quando abro a porta. O cão velho dá sinal de vida. Abana o rabo contra as paredes da casinha.
Nada da gata.
Coloco a ração, troco a água. Quando estou tirando os sapatos, ouço um chiado esquisito, longo, doloroso. Repetido alguns instantes depois. Procuro. Um rato?
Era um pardal. Debaixo da cama. Semi-morto. Vigiado pela gata. Orgulhosa e assustada com a primeira caça de grande porte.
Alguém me disse que não se deve repreender o animal. Ela agiu por puro instinto. A caça debaixo ou sobre a cama é uma oferenda ao dono.
Ajo psicológica e pedagogicamente. Agradeço à gata com um afago. Controlo a repulsa. Seguro o pardal ainda vivo. Que dá outro grasnado, chiado, sei lá - agonizante.
O que fazer? Abreviar o sofrimento dele? Anestesiá-lo com um pano embebido em álcool e torcer-lhe o pescocinho? Quem disse que dou conta?
Depositei o moribundo no vaso de gerânios, do lado de fora da casa. Esperando, covarde, que ele se recuprere milagosamente com o toque da vara de condão da fada-do-luar. Ou que uma coruja buraqueira termine o serviço iniciado pela gata.
Assim, direta, crua, objetiva é a natureza.
...
Meia hora depois. Enquanto escrevo esta história, a coruja pia na janela. Em seguida mais chiados do pardal. Interrompidos, talvez, por garras afiadas e bico adunco. Ou envolvido pelo edredon de nuvens da fada-do-luar.
...
De manhã o pardal não estava mais entre os gerânios. Sem sinal de penas. Sinal que não foi comido pela coruja. Fico feliz por ter-lhe salvo (mesmo covardemente) a vida.
Chega o cão, todo feliz. Abanando o rabo. Com algo na boca. Deposita com toda delicadeza o "algo" aos meus pés. Era o pardal. Morto, óbvio. Todo babado, meio depenado. O cão o lambia como se fosse um pirulito.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
o neurologista, a tia e o atentado
1.
No início dos anos 90, o neurologista inglês Oliver Sacks ficou conhecido no Brasil por conta do filme Tempo de Despertar (sobre o tratamento revolucionário de pacientes catatônicos em um hospital psiquiátrico nova-iorquino).
Na onda do filme, foram publicados vários livros dele, dos quais li “Um antropólogo em Marte”. O texto acessível e envolvente discorre sobre patologias esquisitas provocadas por disfunções cerebrais. Por exemplo: um pintor que, após um acidente automobilístico, passa a enxergar o mundo em preto-e-branco; um cirurgião que só se alivia de tiques nervosos ao pilotar seu monomotor; um cego que, ao recuperar a visão, percebe que não sabe ver; uma professora autista que ama os animais, mas sente-se perplexa diante das emoções humanas, como um antropólogo em Marte.
2.
Tia Hemicênia (nome que nunca descobrimos a origem) era professora. Das boas. Das antigas. Alfabetizou, educou e ensinou pelo menos 3 gerações de alunos. Famosa no tempo dela pela capacidade de incutir nos alunos, com carinho, ou a ferro e fogo, as agruras, os espinhos, os mistérios da língua portuguesa e a escapar de suas inúmeras armadilhas.
Tia Hemicênia me ensinou a ler. Apresentou-me, aos 7 anos, a obra completa de Monteiro Lobato, infinitos volumes de capa dura, verde, com os títulos e vinhetas prateados. Depois, José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Maria Clara Machado, José Mauro de Vasconcelos, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Bernardo Élis, Cassiano Ricardo e tantos outros.
Tia Hemicênia vivia 24 horas atenta aos erros ortográficos e gramaticais: nos trabalhos escolares, no rádio, novelas e telejornais, nas manchetes de revistas, placas de anúncios, embalagens - nada escapava ao seu crivo. Ficava possessa, furiosa quando os encontrava. Escrevia às redações, telefonava às emissoras, às empresas, ou, quando ocorria ao vivo, ela pagava um sermão didático ao infrator.
3.
Quando eu os encontro na leitura, broxo na hora. Execro o autor. Mando e-mail. Envio torpedo. Mensagem privada. Intolerância herdada de tia Hemicênia.
No entanto, condescendo aos erros relacionados às armadilhas da língua. Ou às confusões da pressa. Principalmente quando nos escritos efêmeros da internet. Afinal, atire a primeira pedra quem nunca os cometeu.
Busco o bom senso: alguns são menos erros que desvios da Norma, que como todo mundo sabe, pode variar quando visitada pelo falante comum ou pela elite dominante (como afirmam os estudiosos). A língua é dinâmica e a gramática é burocrática.
4.
Porém, escrever “flecha” com “x”? “xingar” com “ch”? “Texto” com “s”? Fulano e sicrano “chegou”? dói na alma. É demais. Me dá (Dá-me) tonteira, ânsia de vômito e faz tia Hemicênia se revirar no túmulo.
5.
Admitir o erro é o primeiro passo no caminho do acerto.
Pois eu, herdeiro direto da intolerância de Tia Hemicênia, admito. Expio. Bato no peito três vezes: minha culpa, minha tão grande culpa (adoro essa construção). Nos últimos 10 dias eu pequei os 4 pecados do item 4: escrevi “flecha” com “x” em uma correspondência oficial. Por duas vezes, escrevi “xingar” e “xinguei” com “ch”; e emendei a concordância absurda em um mesmo texto publicado no blog. Ontem - horror dos horrores! - escrevi “texto” com “s” em pleno compartilhamento do facebook.
Perdi o sono. Erro de digitação? Corretor ortográfico do programa desativado? Pressa? Displicência? Desatenção? Estresse? Dor de dente? Dor de cotovelo? Lapso senil? Ignorância? Desculpas sempre haverá.
Então surgiu a lembrança do Dr. Sacks da parte 1. Será que fui acometido de alguma síndrome neurológica ainda não descoberta, que apaga momentaneamente a atenção? Que cega o senso crítico? Que converte, de uma hora para outra, um pretenso autor em monstro capaz das piores taras e atrocidades, assassino da própria língua-mater?
6.
Depois de tia Hemicênia eu aprendi a ler o texto 2, 3, 20 vezes antes de torná-lo público. De preferência, passar pelo revisor. Aprendi que, depois de publicado, não se volta atrás, não se corrige de forma digna. Que erratas são atestados de negligência. Que, por mais anuentes, os leitores não perdoarão jamais. Que, por mais banais, os erros fragilizam o autor, expondo-o à chacota, ao apedrejamento, às feras, à pena capital.
Por isso, peço: ao leitor (se é que ainda haja algum), desculpas pelo indesculpável. Aos críticos, vista grossa, ao menos essa vez. Ao Dr. Oliver Sacks, please, encontrar a cura dessa patologia hodienda. À tia Hemicênia, por amor ao vernáculo, que interceda junto às Musas pela salvação da minha alma (atrofiada) de escritor.
No início dos anos 90, o neurologista inglês Oliver Sacks ficou conhecido no Brasil por conta do filme Tempo de Despertar (sobre o tratamento revolucionário de pacientes catatônicos em um hospital psiquiátrico nova-iorquino).
Na onda do filme, foram publicados vários livros dele, dos quais li “Um antropólogo em Marte”. O texto acessível e envolvente discorre sobre patologias esquisitas provocadas por disfunções cerebrais. Por exemplo: um pintor que, após um acidente automobilístico, passa a enxergar o mundo em preto-e-branco; um cirurgião que só se alivia de tiques nervosos ao pilotar seu monomotor; um cego que, ao recuperar a visão, percebe que não sabe ver; uma professora autista que ama os animais, mas sente-se perplexa diante das emoções humanas, como um antropólogo em Marte.
2.
Tia Hemicênia (nome que nunca descobrimos a origem) era professora. Das boas. Das antigas. Alfabetizou, educou e ensinou pelo menos 3 gerações de alunos. Famosa no tempo dela pela capacidade de incutir nos alunos, com carinho, ou a ferro e fogo, as agruras, os espinhos, os mistérios da língua portuguesa e a escapar de suas inúmeras armadilhas.
Tia Hemicênia me ensinou a ler. Apresentou-me, aos 7 anos, a obra completa de Monteiro Lobato, infinitos volumes de capa dura, verde, com os títulos e vinhetas prateados. Depois, José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Maria Clara Machado, José Mauro de Vasconcelos, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Bernardo Élis, Cassiano Ricardo e tantos outros.
Tia Hemicênia vivia 24 horas atenta aos erros ortográficos e gramaticais: nos trabalhos escolares, no rádio, novelas e telejornais, nas manchetes de revistas, placas de anúncios, embalagens - nada escapava ao seu crivo. Ficava possessa, furiosa quando os encontrava. Escrevia às redações, telefonava às emissoras, às empresas, ou, quando ocorria ao vivo, ela pagava um sermão didático ao infrator.
3.
Quando eu os encontro na leitura, broxo na hora. Execro o autor. Mando e-mail. Envio torpedo. Mensagem privada. Intolerância herdada de tia Hemicênia.
No entanto, condescendo aos erros relacionados às armadilhas da língua. Ou às confusões da pressa. Principalmente quando nos escritos efêmeros da internet. Afinal, atire a primeira pedra quem nunca os cometeu.
Busco o bom senso: alguns são menos erros que desvios da Norma, que como todo mundo sabe, pode variar quando visitada pelo falante comum ou pela elite dominante (como afirmam os estudiosos). A língua é dinâmica e a gramática é burocrática.
4.
Porém, escrever “flecha” com “x”? “xingar” com “ch”? “Texto” com “s”? Fulano e sicrano “chegou”? dói na alma. É demais. Me dá (Dá-me) tonteira, ânsia de vômito e faz tia Hemicênia se revirar no túmulo.
5.
Admitir o erro é o primeiro passo no caminho do acerto.
Pois eu, herdeiro direto da intolerância de Tia Hemicênia, admito. Expio. Bato no peito três vezes: minha culpa, minha tão grande culpa (adoro essa construção). Nos últimos 10 dias eu pequei os 4 pecados do item 4: escrevi “flecha” com “x” em uma correspondência oficial. Por duas vezes, escrevi “xingar” e “xinguei” com “ch”; e emendei a concordância absurda em um mesmo texto publicado no blog. Ontem - horror dos horrores! - escrevi “texto” com “s” em pleno compartilhamento do facebook.
Perdi o sono. Erro de digitação? Corretor ortográfico do programa desativado? Pressa? Displicência? Desatenção? Estresse? Dor de dente? Dor de cotovelo? Lapso senil? Ignorância? Desculpas sempre haverá.
Então surgiu a lembrança do Dr. Sacks da parte 1. Será que fui acometido de alguma síndrome neurológica ainda não descoberta, que apaga momentaneamente a atenção? Que cega o senso crítico? Que converte, de uma hora para outra, um pretenso autor em monstro capaz das piores taras e atrocidades, assassino da própria língua-mater?
6.
Depois de tia Hemicênia eu aprendi a ler o texto 2, 3, 20 vezes antes de torná-lo público. De preferência, passar pelo revisor. Aprendi que, depois de publicado, não se volta atrás, não se corrige de forma digna. Que erratas são atestados de negligência. Que, por mais anuentes, os leitores não perdoarão jamais. Que, por mais banais, os erros fragilizam o autor, expondo-o à chacota, ao apedrejamento, às feras, à pena capital.
Por isso, peço: ao leitor (se é que ainda haja algum), desculpas pelo indesculpável. Aos críticos, vista grossa, ao menos essa vez. Ao Dr. Oliver Sacks, please, encontrar a cura dessa patologia hodienda. À tia Hemicênia, por amor ao vernáculo, que interceda junto às Musas pela salvação da minha alma (atrofiada) de escritor.
sábado, 24 de novembro de 2012
sobre gripe e cinema
| cena de cold fish (shion ono, 2010) |
Tirando os sintomas (pressão arterial baixa, espirros, calafrios, tosse seca, nariz e garganta entupidos, dor no peito, sonolência, febre, moleza, mal-estar geral e dor de cabeça), a pausa causada pela gripe anual possibilita interiorização bastante produtiva.
Geralmente eu leio. Livros chatos, cujas leituras vêm se arrastando por meses (aquele sobre a vaidade), mas que eu não consigo largar de mão. Livros que ninguém mais lê (na louca, encomendei de um sebo virtual a vida dos homens ilustres, de Plutarco). Abro exceção para ler autores novos, novíssimos e revelações (sem citar impressões, nomes e títulos). Best-sellers, tops da lista dos mais vendidos, indicados pelos amigos (os hilários tons de cinza), etc.
A gripe atual está particularmente forte. Uma espécie de morte-em-vida (horas e horas deitado, sem energia nem para buscar um copo d'água na cozinha). Por isso, eu a dediquei ao cinema. Assisto filmes de manhã à noite. Cinema Nacional. Clássicos. Épicos. Japoneses. Gays. Trash. Comédias. Faroestes. Pornôs. Documentários. Ação. Romance. Aventura. Comédia. Animações. Com ou sem legenda, dependendo do idioma. Em tecnicolor ou preto-e-branco.
Ontem não houve concessão para besteirol. De uma enfiada, vi: Narradores de Javé (Eliane Caffé, 2003); Noite Vazia (Valter Hugo Khouri, 1964); Raízes do Brasil I e II (Nelson Pereira dos Santos, 2003); A hora e a vez de Augusto Matraga (Roberto Santos, 1964); de quebra, o clássico Belle de jour (Luis Bruñuel, 1967). Obs.: A ostra e o vento (Walter Lima Júnior, 1997) eu desisti no início: era além das minhas forças.
Os "Narradores" e "A ostra" podem ser esteticamente enquadrados na categoria dos filmes nacionais não vistos dos anos 80 ou 90. A sensação final é de desperdício: ótimos atores. Fotografia e trilhas sonoras incríveis. Bons argumentos. Roteiros promissores mas mal alinhavados. Diálogos sofríveis. Direção a desejar e finalização apressada.
Exceção para o "Raízes" (subtítulo: uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda). Disfarçado em um daqueles filmes caseiros, de família. Com direito a cervejada, criançada na piscina (?) e churrascão. Só que "da" família. Cujos membros circulam, à vontade, em botequins, rodas de samba, ambientes acadêmicos e ministeriais. Até Carlinhos Brown (que nem conheceu o pai do sogro) depõe no documentário. A certa altura, o charmoso Chico folheia um "dicionário de termos afins", que ganhou do pai (deu vontade de ler). A primeira parte do documentário é envolvente, viva, muito graças à graça das falas das filhas e neta cantoras e da matriarca Memélia. A segunda é muito chata. A autobiografia cronológica de Sérgio é lida pelas filhas, entremeada de História do Brasil e trechos do Raízes do Brasil.
"Noite vazia" e "A hora e a vez" estão na categoria dos Clássicos do Cinema Nacional. "Noite vazia" tem um quê da estética nouvelle vague (longas tomadas, imagens paradas, expressões estáticas, maquiagem pesada, muita luz-e-sombra, alta tensão interna, excesso de cenas urbanas noturnas, silêncios e, como o próprio título sugere, o vazio existencial dos personagens e do próprio filme).
"A hora e a vez" é puro cinema novo. Arrebata. Primeiro, pela fidelidade ao conto de Guimarães Rosa. O cuidado com os diálogos, a caracterização dos personagens, as locações do sertão, a cenografia, figurinos, a música de Geraldo Vandré etc etc. A interpretação de Leonardo Villar e de Jofre Soares é de babar. Ruim só a cópia: borrada e com uma logo do site o tempo inteiro no canto inferior direito da tela.
Hoje, para começar, escolhi Cold Fish (Shion Sono, 2010). Talvez o Cafundó (Paulo Betti, 2005). Homem-aranha, Batman, A saga de Shrek (ainda não descobri onde baixar os 4 filmes) ou algum besteirol gls, dublado, do Coca-e-pipoca. E torcer para a gripe acabar. Pois segunda-feira a vida tem que voltar ao normal.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
reflexões do anti-herói
Fosse melhor dotado de corpo, diria meu pai, eu teria sido um homem público. Houvesse uma gota que transbordasse a taça da coragem, do ímpeto e da inteligência, o mundo teria ganho um líder. Ou um criminoso.
Meu miolo é mole para a filosofia. A arte me enfada. Os números e as ciências me são intransponíveis. Lutar me cansa, só de pensar. Mesmo assim eu me iludo: serei o protagonista de ao menos um feito memorável. Que seja o de arancar da cara a máscara da mediocridade.
Minha verdadeira vocação é o palhaço.
Tenho cometido mais erros que o admissível. Desde os básicos até os profundíssimos. Por sorte, atualmente só os da primeira categoria: conversar sozinho; beber além da conta; jogar a guimba do cigarro pela janela.
Um, único erro profundíssimo me consome: existir. Desse eu um basta, como a namoradinha grávida o deu, na correnteza.
Existo vago, desprovido de alma. Testemunha involuntária de crimes hediondos. De prevaricações de folhetim. A pouca-vergonha que me envolve me corrói. Percorro, sozinho, todas as noites, o mundo intermediário, povoado por ausências. Pelos fantasmas das frustrações e das lembranças.
Meu miolo é mole para a filosofia. A arte me enfada. Os números e as ciências me são intransponíveis. Lutar me cansa, só de pensar. Mesmo assim eu me iludo: serei o protagonista de ao menos um feito memorável. Que seja o de arancar da cara a máscara da mediocridade.
Minha verdadeira vocação é o palhaço.
Tenho cometido mais erros que o admissível. Desde os básicos até os profundíssimos. Por sorte, atualmente só os da primeira categoria: conversar sozinho; beber além da conta; jogar a guimba do cigarro pela janela.
Um, único erro profundíssimo me consome: existir. Desse eu um basta, como a namoradinha grávida o deu, na correnteza.
Existo vago, desprovido de alma. Testemunha involuntária de crimes hediondos. De prevaricações de folhetim. A pouca-vergonha que me envolve me corrói. Percorro, sozinho, todas as noites, o mundo intermediário, povoado por ausências. Pelos fantasmas das frustrações e das lembranças.
domingo, 18 de novembro de 2012
libação
Libar é um verbo estranho. Relacionado ao sentido do sagrado. Eu libo, tu libas, ele liba, nós libamos, vós libais, eles libam.
Eu libo à insônia e à sonolência. À macarronada, ao churrasco e ao vegetarianismo. À orgia e ao celibato. Ao sábado de sol e chuva. Ao domingo de tédio. À segunda-feira de desesepero.
Ao doido Lear que me habita. Libo aos bobos vitoriosos e bobos derrotados. Aos momentos felizes e à insatisfação em cada hora, cada minuto, cada instante do dia. Ao lírico e ao ridículo. À pompa e à circunstância. Ao compromisso e ao desleixo. Ao sério e ao excesso. Ao desespero de ser. À integridade inata e ao politicamente correto.
Também libo aos mortos em geral. Aos mortos que povoam o sono e a vigília. Aos mortos que viverão na memória. Aos mortos que, mais cedo do que tarde, serão esquecidos. Aos mortos que insistem em permanecer vivos. Aos mortos que dançam sob a chuva do entadecer. Aos mortos insepultos. Aos que morrem dormindo. Aos mortos ressuscitados que padeceram e voltarão no terceiro dia.
Eu libo às aberrações e aos amores fugazes. Às emoções, os sentimentos e sensações. Aos plantonistas e aos coveiros. Ao haver e ao dever dos contadores. Ao fluxo menstrual das vendedoras de cremes rejuvenescedores. Às floristas. A todos aqueles que convivem com a Inevitável.
Eu libo aos sufocamentos e às transcendências. À superação do ser e à submissão do espírito. Ao funâmbulo que despenca da corda bamba estendida entre os décimos-segundos andares de dois edifícios do Centro.
Eu libo às danças: ao tango e à doença de São Guido. Aos atores e aos impostores. Eu libo às divas e aos canastrões acometidos do mal de alzhaimer. Às prostitutas blenorrágicas e aos poetas clássicos. Aos romances vividos ou escritos. Aos contos de terror inacabados. Às personagens secundárias e aos protagonistas mal-amados.
Voltando ao início, eu libo a Dionisos. Ao sol, à chuva. À vida em geral. À escuridão da noite. Ao cinzento da madrugada. Sucedida, sempre, da claridade dos dias.
Eu libo à insônia e à sonolência. À macarronada, ao churrasco e ao vegetarianismo. À orgia e ao celibato. Ao sábado de sol e chuva. Ao domingo de tédio. À segunda-feira de desesepero.
Ao doido Lear que me habita. Libo aos bobos vitoriosos e bobos derrotados. Aos momentos felizes e à insatisfação em cada hora, cada minuto, cada instante do dia. Ao lírico e ao ridículo. À pompa e à circunstância. Ao compromisso e ao desleixo. Ao sério e ao excesso. Ao desespero de ser. À integridade inata e ao politicamente correto.
Também libo aos mortos em geral. Aos mortos que povoam o sono e a vigília. Aos mortos que viverão na memória. Aos mortos que, mais cedo do que tarde, serão esquecidos. Aos mortos que insistem em permanecer vivos. Aos mortos que dançam sob a chuva do entadecer. Aos mortos insepultos. Aos que morrem dormindo. Aos mortos ressuscitados que padeceram e voltarão no terceiro dia.
Eu libo às aberrações e aos amores fugazes. Às emoções, os sentimentos e sensações. Aos plantonistas e aos coveiros. Ao haver e ao dever dos contadores. Ao fluxo menstrual das vendedoras de cremes rejuvenescedores. Às floristas. A todos aqueles que convivem com a Inevitável.
Eu libo aos sufocamentos e às transcendências. À superação do ser e à submissão do espírito. Ao funâmbulo que despenca da corda bamba estendida entre os décimos-segundos andares de dois edifícios do Centro.
Eu libo às danças: ao tango e à doença de São Guido. Aos atores e aos impostores. Eu libo às divas e aos canastrões acometidos do mal de alzhaimer. Às prostitutas blenorrágicas e aos poetas clássicos. Aos romances vividos ou escritos. Aos contos de terror inacabados. Às personagens secundárias e aos protagonistas mal-amados.
Voltando ao início, eu libo a Dionisos. Ao sol, à chuva. À vida em geral. À escuridão da noite. Ao cinzento da madrugada. Sucedida, sempre, da claridade dos dias.
sábado, 17 de novembro de 2012
butoh no parque 3
(Clorofeelings, resultado de oficina, Jinen Butoh, Astushi Takenouchi e Hiroko Komiya, apresentação no Parque Olhos D'água, Brasília, 17.11.2012)
butoh no parque 2
(Jinen Butoh, Astushi Takenouchi e Hiroko Komiya, apresentação no Parque Olhos D'água, Brasília, 17.11.2012)
butoh no parque 1
Jinen Butoh, Astushi Takenouchi e Hiroko Komiya, apresentação no Parque Olhos D'água, Brasília, 17.11.2012
a filha
Eu não sei mais o que fazer com papai. Tenho notado, há algum tempo. Algo muito esquisito no comportamento dele. Nunca dei bola, sei lá, coisas da idade, afinal, mesmo com toda a saúde e lucidez, aos 90 um deslize ou outro é natural.
Mas ontem ele extrapolou. Inventou de sair. A pé, ainda por cima. Papai, onde o senhor vai com essa chuva? Ofendeu-se. Não devia satisfações a ninguém. Deixei ir. Não iria longe, teria medo, os vizinhos o conhecem, voltaria com os primeiros pingos de chuva.
Quem disse? 9, 10, 11, meia-noite e nada dele voltar. As manas? Não estão nem aí. Muito pelo contrário. Só digo pra você: elas mal se aguentam de esperar papai bater as botas para meter a mão no que sobrou da herança.
Deixa pra lá. A chuva caiu daquele jeito que você viu. Nada dele voltar. Liguei para as manas. Só caía na caixa postal de uma e da outra. Liguei para a polícia. Mandaram ligar para o Samu. De manhã trouxeram ele. Enxarcado. Tremendo de frio.
Totalmente fora de si. Doido mesmo. Eu nunca tinha visto papai daquele jeito. Eu fui abarçar, limpar a lama do cabelo dele, enrolar um cobertor. Ele me empurrou. Me xingou, na frente dos bombeiros. Me chamou de falsa, interesseira, solteirona mal-amada. Disse para eu ajuntar os meus trapos e sair da casa dele. Me expulsou!
Eu não aguentei! Será que ele não reconhece que eu sou a única que me preocupo? Que as manas paparicam ele pelo telefone, ou quando aparecem, de quinze em quinze dias, quarenta minutos no máximo? Que por mais de 5 anos eu vivo 24 horas da minha vida exclusivamente para ele? Sopinha, remedinho, roupinha lavada, fisioterapia, geriatra, nutricionista, psicólogo, caminhada, resultado de exame, tudo eu providenciando, tudo eu agendando, tudo eu anotando, lembrando, cuidando, a tempo e a hora?
Só digo isso pra você, deus me livre, mas tem hora que eu penso em jogar tudo pra cima, dar uma de doida, largar de mão, assinar a tal declaração, viver a minha vida, deixar um pouco do peso e da responsabilidade por conta das manas.
Mas eu tenho certeza, aquelas duas, com os canalhas e dos cunhados, na mesma hora internariam papai no asilo. Papai vai ser mais bem cuidado lá. Médico e enfermeiros de plantão, tevê em cada quarto. A primeira coisa que fariam era vender a casa e os terrenos. Com o dinheiro da aposentadoria, não tem como elas meterem a mão, alugariam uma kit. Largariam papai lá sozinho, com uma empregada sem a mínima condição de cuidar dele.
Monstruoso? pois eu já ouvi da própria boca delas. A gente vem todo dia pra fiscalizar, fazer mercado, dar uma assistência, disseram. Claro que "a gente" será a solteirona, a mal-amada, a feiosa aqui. Mas sabe de uma coisa? Eu prefiro. Acho que eu sou daquelas que ainda vai sofrer muito antes de encontrar a felicidade.
Mais 4, 5, 10 anos? Não, eu não quero que papai morra. Mas não se pode fingir que a realidade existe. Só espero que seja de repente, sem dor, sem sofrimento, sem dar trabalho. Mas você sabe, eu vou cuidar dele até o fim. Mesmo ele me magoando. Mesmo ele me olhando daquele jeito esquisito. É, talvez demore, mas eu vou sair desse sufoco.
E você, tudo bem?
Mas ontem ele extrapolou. Inventou de sair. A pé, ainda por cima. Papai, onde o senhor vai com essa chuva? Ofendeu-se. Não devia satisfações a ninguém. Deixei ir. Não iria longe, teria medo, os vizinhos o conhecem, voltaria com os primeiros pingos de chuva.
Quem disse? 9, 10, 11, meia-noite e nada dele voltar. As manas? Não estão nem aí. Muito pelo contrário. Só digo pra você: elas mal se aguentam de esperar papai bater as botas para meter a mão no que sobrou da herança.
Deixa pra lá. A chuva caiu daquele jeito que você viu. Nada dele voltar. Liguei para as manas. Só caía na caixa postal de uma e da outra. Liguei para a polícia. Mandaram ligar para o Samu. De manhã trouxeram ele. Enxarcado. Tremendo de frio.
Totalmente fora de si. Doido mesmo. Eu nunca tinha visto papai daquele jeito. Eu fui abarçar, limpar a lama do cabelo dele, enrolar um cobertor. Ele me empurrou. Me xingou, na frente dos bombeiros. Me chamou de falsa, interesseira, solteirona mal-amada. Disse para eu ajuntar os meus trapos e sair da casa dele. Me expulsou!
Eu não aguentei! Será que ele não reconhece que eu sou a única que me preocupo? Que as manas paparicam ele pelo telefone, ou quando aparecem, de quinze em quinze dias, quarenta minutos no máximo? Que por mais de 5 anos eu vivo 24 horas da minha vida exclusivamente para ele? Sopinha, remedinho, roupinha lavada, fisioterapia, geriatra, nutricionista, psicólogo, caminhada, resultado de exame, tudo eu providenciando, tudo eu agendando, tudo eu anotando, lembrando, cuidando, a tempo e a hora?
Só digo isso pra você, deus me livre, mas tem hora que eu penso em jogar tudo pra cima, dar uma de doida, largar de mão, assinar a tal declaração, viver a minha vida, deixar um pouco do peso e da responsabilidade por conta das manas.
Mas eu tenho certeza, aquelas duas, com os canalhas e dos cunhados, na mesma hora internariam papai no asilo. Papai vai ser mais bem cuidado lá. Médico e enfermeiros de plantão, tevê em cada quarto. A primeira coisa que fariam era vender a casa e os terrenos. Com o dinheiro da aposentadoria, não tem como elas meterem a mão, alugariam uma kit. Largariam papai lá sozinho, com uma empregada sem a mínima condição de cuidar dele.
Monstruoso? pois eu já ouvi da própria boca delas. A gente vem todo dia pra fiscalizar, fazer mercado, dar uma assistência, disseram. Claro que "a gente" será a solteirona, a mal-amada, a feiosa aqui. Mas sabe de uma coisa? Eu prefiro. Acho que eu sou daquelas que ainda vai sofrer muito antes de encontrar a felicidade.
Mais 4, 5, 10 anos? Não, eu não quero que papai morra. Mas não se pode fingir que a realidade existe. Só espero que seja de repente, sem dor, sem sofrimento, sem dar trabalho. Mas você sabe, eu vou cuidar dele até o fim. Mesmo ele me magoando. Mesmo ele me olhando daquele jeito esquisito. É, talvez demore, mas eu vou sair desse sufoco.
E você, tudo bem?
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
citação para narrativa possível
"A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras."
La Rochefoucauld citado no conto Miss Dollar (Machado de Assis, Contos Fluminenses)
La Rochefoucauld citado no conto Miss Dollar (Machado de Assis, Contos Fluminenses)
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